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Murder on the Orient Express

Ano: 2017

Realizador: Kenneth Branagh

Actores principais: Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Dafoe

Duração: 114 min


Crítica: Tal como já mencionei na crónica ‘Poirots no cinema - uma lista de actores, filmes e bigodes!’ ou na crítica a ‘Desyat negrityat’ (1987), eu sempre fui um grande fã de Agatha Christie. Foi a minha primeira paixão literária, e na adolescência devorei todos (todos!) os seus livros. Consequentemente, sempre devorei todos os seus filmes. Assim, quando por vicissitudes das modas cinematográficas se começou a falar que Hollywood ia voltar em força às adaptações da obra de Christie, fiquei atento. ‘Witness for the Prosecution’ de Ben Affleck já foi anunciado para 2019 ou 2020 e o ano passado tivemos duas adaptações, ‘Crooked House’ com Glenn Close e o filme que despoletou esta nova sofreguidão mediática por Christie: ‘Murder on the Orient Express’, que inicialmente iria ser realizado e protagonizado por Angelina Jolie, mas que acabou nas mãos de Kenneth Branagh.

Neste momento preciso de fazer três pontos prévios. O primeiro é que, embora seja por definição contra remakes de filmes originais (claro, há excepções) não sou de todo contra remakes de obras literárias. Afinal, um livro pode ter tantas interpretações quantas as pessoas que o lêem.  Por isso cada realizador, cada argumentista, tem o direito de partilhar com o espectador a sua própria visão da história e das personagens. Isto é, desde que não adultere a essência da obra original. Eu próprio sempre achei que se algum dia fizesse um filme baseado numa obra de Christie, faria uma adaptação 100% fiel de ‘Ten Little Niggers’ algo que nunca houve, apesar do livro já ter sido adaptado uma dezena de vezes ao grande ecrã. Nunca percebi como é que há argumentistas e realizadores que se acham mais sagazes que os próprios autores nos quais baseiam as suas obras. Porquê mudar personagens? Porquê mudar frases de diálogo? Porquê mudar sequências de eventos? Porquê mudar twists? Para isso mais valia escreverem eles próprios um argumento original, não? Senão para quê “adaptar” a história? Pelo título?

"Agatha Christie é a escritora que mais vendeu na história da literatura (...) Mas o Sr. Green, cujo ‘Green Lantern’ foi um fiasco de bilheteira e cujos argumentos medíocres para ‘Alien: Covenant’ ou ‘Blade Runner 2049’ eu já critiquei, certamente é muito mais inteligente do que ela. Certamente. E por isso pode adulterar à vontade um dos livros mais perfeitos que ela escreveu, que certamente fará muito melhor... Ou não."

São perguntas que fiz recorrentemente a mim próprio quando este fim de semana me sentei no sofá de minha casa a ver esta nova adaptação de ‘Murder on the Orient Express’, pela mão de Michael Green, cujos créditos de argumentista incluem ‘Green Lantern’ (2011), ‘Logan’ (2017), ‘Alien: Covenant’ (2017) ou ‘Blade Runner 2049’ (2017). Agatha Christie é a escritora que mais vendeu na história da literatura. Só a Bíblia vendeu mais cópias do que os livros dela. Mas o Sr. Green, cujo ‘Green Lantern’ foi um fiasco de bilheteira e cujos argumentos medíocres para ‘Alien: Covenant’ ou ‘Blade Runner 2049’ eu já critiquei em EU SOU CINEMA, certamente é muito mais inteligente do que ela. Certamente. E por isso pode adulterar à vontade um dos livros mais perfeitos que ela escreveu, que certamente fará muito melhor.... Ou não.

O segundo ponto prévio é que, mesmo havendo alguma legitimidade em fazer novas adaptações de velhos clássicos, há ocasiões em que isso é totalmente proibido. Nomeadamente, quando a adaptação definitiva já foi feita. Nunca ninguém se atreveu a fazer uma nova adaptação de ‘Gone with the Wind’ (1939), nem nunca ninguém se atreveu a fazer uma nova adaptação de ‘To Kill a Mockingbird’ (1962), porque é impossível fazer melhor do que as bem-amadas adaptações que já existem. O mesmo se passa com ‘Murder on the Orient Express’. Apesar de já terem havido adaptações televisivas posteriores (David Suchet filmou esta história em 2006 como parte da sua mítica série, e há um telefilme horrível com Alfred Molina de 2001), todos os cinéfilos sabem que só há uma e uma única versão desta história: aquela filmada em 1974 por Sidney Lumet.

A primeira das quatro épicas adaptações que os produtores Richard B. Goodwin e John Brabourne fariam nas décadas de 1970 e 1980, esse ‘Murder on the Orient Express’ é um trabalho de classe do início ao fim; um filme requintado e sumptuoso, com uma profundidade de personagens incrível, protagonizadas por actores fabulosos (de Lauren Bacall a Sean Connery, de Vanessa Redgrave a Anthony Perkins) e enfatizadas pela íntima câmara de Lumet. Mas acima de tudo, esse filme vale pelo melhor Poirot da história da sétima arte: Albert Finney, que perdeu injustamente o Óscar de Melhor Actor. Finney electriza o ecrã com um magnetismo animalesco; um Poirot pouco subtil, com um brilho felino no olhar e por vezes ameaçador que prende o espectador a cada palavra, a cada sílaba, a cada inflexão da sua voz, a cada subtil artimanha dos seus interrogatórios. Dificilmente haverá outro igual, e certamente não seria Branagh a sê-lo.

"Com o seu típico exagero (...) Branagh diverte-se à grande e à francesa (perdão, à belga) a interpretar o famoso detective. Sentimos o deleite que tem a mover-se, a saborear cada palavra com sotaque francês, e a extravasar as idiossincrasias desta personagem. É bom sentir esse deleite (...) Infelizmente, enquanto Finney conseguia manobrar a personagem no fino limbo entre a caricatura e a necessária intensidade dramática, Branagh não consegue."

O que nos leva ao último ponto prévio: o próprio Branagh. Em adolescente, nos anos 1990, tinha uma grande paixão por Branagh, o jovem génio do teatro, e posteriormente do cinema shakespeariano; um artista que nunca se levou completamente a sério e que por isso dispensou do elitismo geralmente associado à “grande arte” para a tornar acessível, sem contudo ceder um milímetro em termos de qualidade. Mas as suas obras primas como ‘Henry V’ (1989), ‘Much Ado About Nothing’ (1993) ou ‘Hamlet’ (1995) contrastam com as obras que protagonizou ou realizou quando deixou de fazer Shakespeare e abraçou o seu estatuto de character actor em blockbusters.

De ‘Wild Wild West’ (1999) em diante, Branagh passou a parecer bastante mais interessado em divertir-se e ganhar dinheiro para poder produzir as suas peças de teatro do que propriamente continuar a qualidade do seu legado cinematográfico. Veja-se o seu papel na saga ‘Harry Potter’. Veja-se o seu ‘Jack Ryan: Shadow Recruit’ (2014) no qual se diverte à grande e à francesa a fazer de russo, embora o filme deixe muito a desejar. Não é que tenha perdido o seu toque. Filmes como ‘Cinderella’ (2015) estão notoriamente bem realizados. Mas a preocupação com a qualidade do material (principalmente ao nível do argumento) já não é a mesma. Não é, definitivamente, a mesma coisa que Shakespeare.

E assim, chegamos a ‘Murder on the Orient Express’ e sentimos que é precisamente o típico produto contemporâneo de Branagh. Percebemos perfeitamente porque o aceitou fazer; alguém como Branagh não iria deixar passar a oportunidade de fazer de Hercule Poirot. E Branagh aproveita-a com o típico exagero a que nos habituou. Com o seu gigantesco bigode (foi criticado mas é dos mais fieis à personagem), Branagh diverte-se à grande e à francesa (perdão, à belga) a interpretar o famoso detective. Sentimos o deleite que tem a mover-se, a saborear cada palavra que pronuncia com sotaque francês, e a extravasar as idiossincrasias desta personagem. É bom para o espectador sentir esse deleite, como é bom sentirmos que há momentos em que Branagh apanha na perfeição a essência de Poirot (como quando se ri a ler Dickens). Infelizmente, enquanto Finney conseguia manobrar a personagem eximiamente no fino limbo entre a caricatura e a necessária intensidade dramática, Branagh não consegue.

"Há muito pouca tensão, quer em termos do mistério (fracamente construído), quer em termos da exploração das personagens (apesar do rol de actores famosos, todos eles sub-aproveitados), quer em termos das deduções. (...) Cada vez que Poirot revela um segredo, nunca percebemos muito bem como é que o deduziu (...) Fica a impressão que a história é fraca, porque tudo parece fácil. E isso é uma grande machadada nas costas de Christie"

A culpa, contudo, não é inteiramente dele. O argumento simplesmente não tem estofo. O extraordinário xadrez que Christie concebe, e que o filme de 1974 tão bem havia capitalizado, transforma-se aqui numa estrutura argumental fraca, superficial e atabalhoada, com ênfase em todas as notas erradas. Branagh está talvez demasiado preocupado com a sua exibição de Poirot para perceber que há muito pouca tensão nesta história, quer em termos do mistério (fracamente construído), quer em termos da exploração das personagens (apesar do rol de actores famosos, todos eles claramente sub-aproveitados), quer em termos das deduções. É um daqueles argumentos que nunca vê a “big picture”. Não se constrói para a dedução final, visual e argumentalmente. Contenta-se em ir apresentando os factos e as personagens sem grande inventividade, introduzindo elementos por conveniência de cada cena individualmente e não do todo. Por isso, cada vez que Poirot revela um segredo, nunca percebemos muito bem como é que o deduziu, nem ele se dá muito ao trabalho de o explicar. Quem leu o livro ou viu o filme de 1974 percebe. Quem nunca o fez provavelmente não. Pior, ficará com a impressão que a história é fraca, porque tudo parece fácil. E isso é uma grande machadada nas costas de Christie.

Logo na primeira sequência, em Istambul, percebemos três coisas. Primeiro, que o argumentista se acha muito esperto, inventando um primeiro “mistério” introdutório para Poirot resolver que, enfim, Agatha Christie teria escrito com 5 anos de idade. Do mesmo modo, não há uma única alteração posterior à história que seja melhor ou mais eficaz que a obra de base. Portanto, para quê fazê-lo? Segundo, que este não é bem bem o verdadeiro Poirot. Onde é que já se viu Poirot a fazer qualquer tipo de trabalho físico? Outros planos “bonitos”, como Poirot a andar no tejadilho do comboio ou quando está envolvido numa cena de perseguição (introduzida para “apimentar” a trama) são totalmente fora de carácter. Até o desenvolvimento íntimo da personagem (fala algumas vezes com o retrato da sua antiga “amada” – uma fotografia de uma jovem Emma Thompson) é demasiado atabalhoado e superficial para ser convincente.

E terceiro, a grande falta que faz a “cor local” no cinema moderno. No filme de 1974, tal como noutras adaptações christinianas, sentimos o ambiente do terceiro mundo; faz parte da história, dá exotismo ao mistério, entranha-se nas personagens. Aqui Istambul é nada mais que um bluescreen sem vida. O mesmo acontece quando Poirot embarca no mítico Expresso do Oriente rumo à Europa. Apesar das filmagens na Suíça, os planos mais ousados do comboio a percorrer as montanhas gélidas são totalmente artificiais, de novo porque são fruto de um computador. A necessidade que o filme tem de continuamente sair do comboio também trabalha contra ele. O filme de 1974 usava o ambiente claustrofóbico das carruagens para enfatizar a tensão. Este filme perde essa oportunidade porque tem claramente medo que o espectador fique maçado se estiver sempre a ver o mesmo cenário.

"Não sentimos a batalha de inteligência e de egos quando Poirot mede forças com cada uma das personagens. É um Poirot-show (ou deverei dizer Branagh-show), que deixa muito pouca margem de manobra aos outros actores (...) As relações que constituem a chave do mistério são mencionadas num estilo toca-e-foge, tornando-se difícil para o espectador que está a assistir à história pela primeira vez perceber a verdadeira nuance da trama."

A contextualização do mistério é incrivelmente simples. Johnny Depp tem uma breve, mas até cativante interpretação como Ratchett, um gangster americano outrora responsável por um brutal assassinato que agora vive escondido sob outro nome. Nessa noite, Ratchett é brutalmente assassinado com doze facadas, precisamente o número de pessoas, excepto Poirot, que passaram a noite no vagão da primeira classe; uma associação que o filme nunca faz. Aliás, tirando um primeiro plano (visto no trailer) em que a câmara percorre o vagão- restaurante e apanha todas as personagens, não as voltamos a ver juntas até ao final. Inúmeras vezes há personagens que desaparecem completamente (o filme esquece-se delas, como se nem estivessem no comboio), só voltando a ser mencionadas (e a aparecer) quando dá jeito.

Instigado por Bouc (Tom Bateman), o director companhia (tornado mais novo, bem… só porque sim), Poirot investiga o crime. Os suspeitos são a sra. Hubbard (Michelle Pfeiffer que se esforça, mas não consegue ser a força da natureza que foi Lauren Bacall no filme de 1974); Mary Debenham (Daisy Ridley a quem é dado propositadamente mais tempo de antena, embora a personagem seja fracamente construída); a idosa princesa Princess Dragomiroff (Judi Dench) e a sua criada Hildegarde Schmidt (Olivia Colman); Gerhard Hardman (Willem Dafoe); Hector MacQueen (Josh Gad surpreende, embora numa interpretação bem diferente da de Anthony Perkins); o conde e a condessa Andrenyi (Sergei Polunin e Lucy Boynton – que mal se vêem); Edward Masterman (Derek Jacobi); Pierre Michel (Marwan Kenzari); o Dr. Arbuthnot (Leslie Odom Jr.) e Pilar Estravados (Penélope Cruz).

Estes dois últimos sofreram alterações – inúteis diga-se – relativamente ao livro. A personagem do médico grego que auxilia Poirot, ou melhor, que ouve as suas deduções, é eliminada (Poirot neste filme fala muitas vezes sozinho) e Arbuthnot passa de coronel a médico, só para poder numa única cena observar o corpo do morto. E a decisão de o tornar afro-inglês é… bem, inócua, claramente para cumprir uma cota. Já a transformação da sueca Greta Ohlsson na latina Pilar Estravados ocorre obviamente para a adequar a Penélope Cruz. Mas comparar a Greta de Ingrid Bergman (pela qual ganhou o seu terceiro Óscar) com esta Pilar é como comparar o dia e a noite. E de novo, a culpa é do argumento e da realização. No filme de 1974 temos um plano sem cortes de mais de 5 minutos em que Greta dá o seu depoimento. É hipnotizante. Aqui, Pilar dá o seu depoimento numa montagem misturando mais três ou quatro depoimentos de personagens secundárias (Poirot ir um a um seria moroso para o espectador moderno, não?!). O resultado é uma perda completa do efeito da personagem. E este filme faz isso uma e outra vez. É desesperante.

"Branagh experimenta com inventivos planos de câmara (...) mas, tal como a paisagem gélida que contextualiza a acção, tudo soa demasiado artificial. Branagh vai claramente “over the top” não propriamente no seu Poirot, mas na forma como o torna o centro do filme, em detrimento das restantes personagens (muito, muito pobres) e da construção cinematográfica do crime perfeito (que aqui parece tudo menos isso)."

O problema é que é tudo muito pouco refinado, especialmente se o compararmos com o filme de 1974. Não sentimos a batalha de inteligência e de egos quando Poirot mede forças com cada uma das personagens. É um Poirot-show (ou deverei dizer Branagh-show), que deixa muito pouca margem de manobra aos outros actores. Alguns conseguem brilhar com o seu pouco tempo de antena (Josh Gad, Willem Dafoe), outros limitam-se a dizer as suas frases (Judy Dench, Derek Jacobi, Marwan Kenzari), mas para todos é uma batalha perdida (principalmente Michelle Pfeiffer), visto que não são mais que contrapontos. Os pequenos apontamentos pessoais que vão surgindo (um romance inter-racial, uma dependência de drogas) não são suficientes para que as personagens tenham dimensão e são facilmente esquecidos. As relações de cada um dos suspeitos com o morto, onde reside a chave do mistério, são também mencionadas num estilo toca-e-foge, tornando-se difícil para o espectador que está a assistir à história pela primeira vez perceber a verdadeira nuance da trama. 

No final, tudo é revelado num grande discurso de Poirot, onde as peças não se encaixam no seu devido lugar para a surpreendente revelação final. Ao invés, inúmeros pormenores que Poirot havia chamado à atenção são esquecidos, outros surgem pela primeira vez caídos do céu, e o que verdadeiramente aconteceu surge com uma surpreendente falta de convicção (compare-se com o intenso flashback do filme de 1974…). Contudo, depois da revelação acontece exactamente o oposto. No livro, e no filme de 1974, Poirot tem uma decisão atípica (praticamente inédita em toda a sua carreira), que concretiza com uma discreta subtileza. Neste novo filme, Branagh não se podia dar a esse luxo. Por isso quer ele, quer a personagem por detrás do assassinato, têm um espalhafatoso bate-boca durante largos minutos, que mais uma vez é totalmente fora de carácter. De subtil tem pouco, mas assim fica tudo muito bem explícito para o espectador não ter que fazer qualquer esforço mental.

Tudo somado, subscrevo as palavras do crítico Christopher Orr que escreve que “o filme não é propriamente mau, mas é auto-indulgente e totalmente desnecessário”, acrescentando que “é visualmente sumptuoso mas inerte”. Eu não o escreveria melhor (e talvez por isso não sou um crítico de uma prestigiada revista…). Branagh experimenta com inventivos planos de câmara (veja-se por exemplo a filmagem “de cima” quando o corpo é descoberto, ou a forma como usa os reflexos de uma porta envidraçada) mas, tal como a paisagem gélida que contextualiza a acção, tudo soa demasiado artificial. Branagh vai claramente “over the top” não propriamente no seu Poirot, mas na forma como o torna o centro do filme, em detrimento das restantes personagens (muito, muito pobres) e da construção cinematográfica do crime perfeito (que aqui parece tudo menos isso).

"Esta nova versão é um filme que tem um look satisfatório, um elenco de luxo e nunca é moroso ou desinteressante. Mas não é um grande mistério de Agatha Christie. Está transformado num mistério de série B que faz lembrar alguns mais fracos telefilmes que Peter Ustinov filmou nos anos 1980. Pedia-se mais de Branagh, pelo menos daquele que já filmou ‘Hamlet’. Mas talvez pedir o mesmo ao Branagh que filmou ‘Jack Ryan: Shadow Recruit’ já seja demais."

Como fã de Agatha Christie não me posso deixar de sentir algo enganado por esta adaptação. Como fã do filme de 1974 ainda mais. Não é justo dar ao público um filme destes quando o outro, com um Poirot perfeito, personagens que vivem intensamente os seus papéis, e uma deliciosa e engenhosa construção argumental e cinematográfica, existe. Esta nova versão é um filme que tem um look satisfatório, um elenco de luxo e nunca é moroso ou desinteressante. Mas não é um grande mistério de Agatha Christie. Está transformado num mistério de série B que faz lembrar alguns mais fracos telefilmes que Peter Ustinov filmou nos anos 1980. Pedia-se mais de Branagh, pelo menos daquele que já filmou ‘Hamlet. Mas talvez pedir o mesmo ao Branagh que filmou ‘Jack Ryan: Shadow Recruit’ já seja demais.

De um magro orçamento de 55 milhões, o filme rendeu 350 na bilheteira mundial. Ou seja, foi para todos os efeitos um sucesso. O que significa que temos sequela a caminho. ‘Death on the Nile’ já tem data marcada para 2019. Devemos temer esta escolha, quando o ‘Murder on the Orient Express’ de 1974 foi precisamente seguido por uma sumptuosa adaptação desse livro em 1978? Provavelmente. Principalmente porque Michael Green também irá escrever o argumento. A adaptação de um remake de uma adaptação é algo que tem poucas hipóteses de resultar, como se viu aqui. Mas talvez isso seja bom, se incentivar os jovens a lerem Agatha Christie, porque se o fizerem irão descobrir como os livros são muito melhores. Vamos pensar que assim será. Há males que vêm por bem. Ou pode ser também que Branagh aprenda com as críticas que recebeu e tente ser mais focado na trama, ou pelo menos tão focado como foi no seu Poirot. Isso sim, seria qualquer coisa. Veremos…

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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