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Desyat negrityat

Ano: 1987

Realizador: Stanislav Govorukhin

Actores principais: Vladimir Zeldin, Tatyana Drubich, Aleksandr Kaydanovskiy

Duração: 128 min

Crítica: Como escrevi há uns tempos na crónica ‘Poirots no Cinema – uma lista de actores, filmes e bigodes’, a minha primeira grande paixão literária foi Agatha Christie. Comecei a ler cedo, talvez aos 11 ou 12 anos de idade, e cerca de uma década depois já tinha lido todos os seus oitenta livros, duas autobiografias e variadas peças de teatro. E desde então, geralmente no Verão, releio sempre um ou outro livro. É uma excelente leitura de férias, a relaxar na praia ou à beira da piscina…

Mas de todo o gigantesco espólio de Agatha, um livro, para mim, está acima de todos os outros. Um livro que já li umas dez ou quinze vezes, primeiro em português mas depois sempre na versão original. Um livro que não só é o meu preferido de Agatha Christie, como é o meu preferido de todos os escritores, de todo o sempre. Estou a referir-me ao genial ‘Ten Little Niggers’, escrito em 1939. Devido à palavra controversa “niggers” no seu título, o livro já foi chamado ‘Ten Little Indians’ e mais tarde ‘And Then There Were None’, hoje o título “definitivo”. Em português, a icónica colecção Vampiro da Livros do Brasil chama-o de ‘Convite para a Morte’, mas a mais recente reedição da ASA dá-lhe o nome de ‘As Dez Figuras Negras’. Independentemente de como se chama, o livro é soberbo, e não é surpresa que é o mais vendido da carreira de Christie, o livro policial mais vendido de sempre e, de acordo com a Wikipédia, o sétimo livro mais vendido da história da literatura.

"O livro não só é o meu preferido de Agatha Christie, como é o meu preferido de todos os escritores, de todo o sempre. (...) É soberbo, e não é surpresa que é o mais vendido da carreira de Christie, o livro policial mais vendido de sempre e, de acordo com a Wikipédia, o sétimo livro mais vendido da história da literatura."

O livro parte de uma ideia incrivelmente simples (dez estranhos são convidados para uma ilha e começam a morrer um a um), mas tem incríveis camadas psicológicas no desenvolvimento das personagens, uma fabulosa gestão da tensão e do suspense e, mais importante que isso, a melhor solução de um livro policial de sempre. Recordo que estava em Istambul em 1997, de férias com a minha família, a primeira vez que terminei o livro. Era de noite e o quarto estava escuro pois os meus irmãos já estavam a dormir. Senti um arrepio na espinha e tive imensa dificuldade a adormecer. Claro, tinha apenas 12 anos de idade, mas das várias vezes que reli o livro desde então, mesmo já sabendo a solução de cor e salteado, parece sempre que volto a esse estado de pré-adolescência, a esse momento de tensão nervosa e excitantes arrepios na espinha. É essa a marca do génio. 

Ao longo das décadas, sempre se foram produzindo filmes baseados na obra de Agatha Christie. É só relembrar, por exemplo, ‘Witness for the Prossecution’ (1957) de Billy Wilder ou os famosos quatro filmes dos anos 1960 com Margaret Rutherford a interpretar Miss Marple. Depois da morte de Christie em 1976, os produtores Richard B. Goodwin e John Brabourne fizeram quatro sumptuosas adaptações, incluindo ‘Murder on the Orient Express’ (1974) contendo um genial Albert Finney como Poirot; dois filmes com Peter Ustinov (que seria Poirot mais quatro vezes nos anos 1980); e ‘The Mirror Crack’d’ (1980) com Angela Lansbury como Miss Marple.

Se estes filmes representam a época dourada do cinema christiniano, como all-star casts e imenso glamour, nas últimas duas décadas, com uma ou outra menor excepção, o interesse por este tipo de dramas cinematográficos parece ter-se eclipsado. Foi a televisão que tomou a deixa com as longíssimas séries de Poirot com David Suchet (13 temporadas!) e Miss Marple (6 temporadas), e nunca mais voltamos a ver, até hoje, uma mega produção no grande ecrã baseada num livro de Christie. Tudo isso está contudo prestes a mudar (tudo no cinema é cíclico) porque já neste Natal sairá o remake de ‘Murder on the Orient Express’ pela mão de Kenneth Branagh e um ano depois teremos Ben Affleck em ‘Witness for the Prossecution’.


"Nada menos que oito versões cinematográficas desta história foram feitas (...) Contudo, não são baseadas no livro, mas sim na peça de teatro que a própria Agatha Christie escreveu em 1943. A diferença? O final foi alterado (...) Durante anos procurei (...) o filme perfeito do livro perfeito (...) até que li a referência a um obscuro filme russo de 1987 tido como a única adaptação fiel alguma vez feita desta obra (...) Tinha de descobrir se isso era verdade."

Mas entre todo este espólio cinematográfico e televisivo há uma obra de Agatha Christie que se destaca. E curiosamente (ou não) não é de Poirot nem de Miss Marple. O leitor já adivinhou. É precisamente ‘Ten Little Niggers’. De 1945 a 1989 nada menos que oito versões cinematográficas desta história foram feitas. Destas, destaco a versão de 1945 realizada por Rene Clair, ‘And Then There Were None’ com Barry Fritzgerald e Walter Huston; a versão inglesa de 1965, ‘Ten Little Indians’, com Wilfrid Hyde-White e Shirley Eaton (do mesmo realizador dos filmes contemporâneos de Miss Marple); e a co-produção europeia de 1974 ‘Ein Unbekannter rechnet ab’ com Orson Welles.

Mas a grande tristeza é que quase todas estas versões têm um enorme problema. Não são baseadas no livro, mas sim na peça de teatro que a própria Agatha Christie escreveu em 1943. A diferença? O final foi alterado. O final do livro seria impraticável numa peça de teatro, portanto Christie transformou-o num final feliz. A diferença de qualidade é abissal, mas produções de Hollywood que se prezem tomaram essa deixa mais preguiçosa e transformaram um dos maiores estudos de terror psicológico de sempre, num whodunit de qualidade, é certo, mas que é apenas isso. Durante anos procurei e vi estas adaptações desejoso de encontrar o filme perfeito do livro perfeito, aquela que conseguisse reproduzir o livro fielmente da primeira à última linha. Não encontrei nenhuma e perdi a esperança.

Foi então que, há uns dois anos, li num artigo sobre o cinema de Agatha Christie a referência a um obscuro filme russo de 1987, ‘Desyat negrityat’, tido como a única adaptação fiel alguma vez feita desta obra. Afinal, tal filme existia! Tive que ler duas vezes para acreditar. O realizador/argumentista russo Stanislav Govorukhin, do qual eu nunca tinha ouvido falar até esse dia nem tinha visto um único filme, tinha-o feito, e rezava a lenda, tinha-o feito com enorme distinção. O filme tem 8.0 no imdb (raro para um filme tão ‘fora’ de tudo, quer da ‘arte’ quer do mainstream) e as críticas são unânimes; o filme é quase impossível de encontrar, mas para os fãs do livro não há nenhuma outra adaptação que se lhe equipare.

"O filme consegue criar o ambiente perfeito que a história pede, e a casa é ela também uma visão assustadora (faz lembrar a casa de Bates em ‘Psycho’). De facto, este enquadramento cénico é o melhor e o mais fiel ao livro de todas as adaptações cinematográficas que eu já vi, e os ocasionais acordes pesados na banda sonora da autoria de Nikolai Korndorf ainda mais contribuem para criar um ambiente de expectativa macabra."

Perante isto, o meu destino estava traçado. Tinha de descobrir se isso era verdade. Portanto, também eu iniciei a busca pelo filme e finalmente vi-o este fim-de-semana. Mas demorei tanto tempo a conseguir vê-lo que entretanto, inspirados pela mais recente moda de Agatha Christie, os ingleses produziram uma mini-série de três episódios: ‘And Then There Were None’, que passou na televisão no Natal de 2015 e que também foi promovida como uma adaptação fiel desta obra literária. Não a vi porque tinha na minha cabeça ver o filme russo em primeiro lugar. E portanto foi isso que fiz.

Pois bem, ver este filme foi uma grande montanha russa emocional para mim que sei o livro de cor e já imaginei todas as cenas em formato “filme” na minha cabeça. O filme começa com um conjunto de estranhos, que não se conhecem uns aos outros, a chegarem a um pequeno cais e a apanharem um bote que os leva à remota Ilha do Negro (em edições recentes do livro chamada Soldier Island), onde uma mansão imponente na ponta dos rochedos é o único pedaço de ocupação humana que a ilha possui. Filmado na Crimeia, o filme consegue criar o ambiente perfeito que a história pede, e a casa é ela também uma visão assustadora (faz lembrar a casa de Bates em ‘Psycho’). De facto, este enquadramento cénico é o melhor e o mais fiel ao livro de todas as adaptações cinematográficas que eu já vi, e os ocasionais acordes pesados na banda sonora da autoria de Nikolai Korndorf ainda mais contribuem para criar um ambiente de expectativa macabra.

Os oito visitantes – o velho magistrado reformado, o Juiz Wargrave (Vladimir Zeldin); a jovem secretária Vera Claythorne (a belíssima e trágica Tatyana Drubich); o aventureiro Philip Lombard (Aleksandr Kaydanovskiy); o detective Blore (Aleksey Zharkov); o médico Armstrong (Anatoliy Romashin); a velha solteirona Miss Brent (Lyudmila Maksakova); o reformado General MacArthur (Mikhail Gluzskiy); e o jovem bon vivant James Marston (Aleksandr Abdulov) – juntam-se aos dois criados, o casal Rogers (Aleksey Zolotnitskiy e Irina Tereshchenko) para formar os dez “convidados” da Ilha. Cedo descobrem que foram convidados por motivos diferentes e até por pessoas diferentes; meras desculpas para os atrair até lá.

"O filme é extremamente fiel ao livro, cena a cena e até muitas vezes diálogo a diálogo. (...) Mas infelizmente há algo que não soa bem. A forma está lá toda; o cenário macabro, a estrutura argumental fiel a Agatha Christie (...) mas a substância está estranhamente ausente. Nota-se alguma falta de fluidez na forma como a história é contada e a realização tem enorme dificuldade em explorar as multifacetadas dimensões psicológicas que a obra contém." 

No jantar dessa noite a voz do misterioso U.N. Owen (unknown, o desconhecido) soa através do gramofone, acusando cada um dos presentes de um crime passado que fugiu à justiça. Embora todos o neguem (menos Lombard), a tensão que se gera é perceptível. Certamente, a misteriosa voz tem razão e torna-se claro que atraiu cada um dos convivas para a ilha com o propósito de fazer justiça pelas próprias mãos. Isso é imediatamente provado no final da refeição quando o primeiro convidado é envenenado. Numa ilha isolada e fustigada pelo mau tempo, sem barcos que permitam a fuga, os convidados começam a ser executados um a um das mais variadas formas. Os que ainda se mantêm vivos procuram desesperadamente Owen pela ilha, até que se apercebem que estão, realmente, sozinhos. Só resta uma hipótese: Owen é um deles. Mas quem? O que se segue, pelo menos no romance original, é um fantástico estudo de terror psicológico, à medida que as mortes se sucedem e os que sobram procuram sobreviver a todo o custo, encontrar o assassino no meio deles, mas também fazer as pazes com as suas próprias consciências e os seus crimes passados…

Uma das coisas mais extraordinárias de ‘Desyat negrityat’, em contraste com as anteriores adaptações, é que quase mesmo até aos últimos momentos o filme é extremamente fiel ao livro, cena a cena e até muitas vezes diálogo a diálogo. Os fãs desta obra vão soltar gritinhos de alegria internos (e quiçá alguns externos), mas ao mesmo tempo aperceber-se-ão que infelizmente, desde o início, há algo que não soa bem. A forma está lá toda; o cenário macabro, a estrutura argumental fiel a Agatha Christie, as personagens que são extraídas directamente do papel, sem embelezamentos; mas a substância está estranhamente ausente. Nota-se alguma falta de fluidez na forma como a história é contada e a realização tem enorme dificuldade em explorar as multifacetadas dimensões psicológicas que a obra contém.

Confesso que não sou um grande especialista em cinema russo (já vi os meus Eisensteins, os meus Tarkovskys, os meus Konchalovskys e filmes soltos de outros realizadores), mas atrevo-me a dizer que ‘Desyat negrityat’ é excessivamente “russo” na sua concepção. Com isto quero dizer que as cenas, principalmente nos primeiros dois terços do filme, são exageradamente teatrais, com os actores a moverem-se de forma rígida e coreografada, e a actuarem com demasiada contenção emocional. O próprio som parece ter sido gravado em pós-produção e portanto, desgarrado das imagens, exacerba a artificialidade das cenas. E o realizador parece ter sido forçado a recorrer a ocasionais zooms e a alguns planos enviesados para enfatizar o xadrez psicológico que interliga as personagens, já que a maior parte dos actores não consegue abrir uma janela para o seu íntimo. 

"Apesar de se estar a seguir o livro à risca, tudo acaba por ser algo espasmódico e emocionalmente contido. (...) A frieza “russa” e teatral impera em quase todas as personagens bem como na realização. O horror psicológico é parcamente explorado (...) e as personagens são desesperadamente apáticas e inactivas. (...)  Tal como está, o pico de tensão está nas mortes, não na espera, na horrível espera por elas, como deveria ser."

Personagens como o casal Rogers, o Dr. Armstrong, Marston ou o General MacArthur pouco ou nada têm para oferecer e apenas esperam a sua eventual morte. O MacArthur de Gluzskiy é o pior da peça; os seus remorsos são ridiculamente superficiais. O Lombard de Kaydanovskiy primeiro estranha (devia ser um misto de Indiana Jones com Humphrey Bogart mas aqui não é) mas depois até entranha, porque o desdém que a sua personagem tem coaduna-se com a falta de vibração emocional do actor. O Wargrave de Zeldin é talvez demasiado plácido (imagino-o sempre como uma personagem mais dominadora) mas depois no final até surpreende, proporcionando-nos o melhor arrepio na espinha que o filme contém. 

Mas as melhores três interpretações são a de Maksakova como Miss Brent (acutilante), o Blore de Zharkov (que até resulta pois podemos imaginá-lo como um detectivezinho manhoso a soldo da máfia russa) e, acima de todos, a Vera de Tatyana Drubich. E ainda bem. Sem querer revelar nada, Vera acaba por ser das personagens mais importantes da história e Drubich, de quem talvez não se esperava muito pela timidez com que se apresentou nas primeiras cenas (mas a personagem pedia isso) é aquela que acaba por mostrar o maior leque de emoções dramático. O seu arco da confiança ao remorso à paranóia e ao desespero quase insano é crucial para suster o filme. As nuances da sua interpretação são muito mais eficazes que os flashbacks a preto e branco para o seu crime passado (só ela e Lombard têm direito a estes); cenas algo artísticas que nos revelam um bocadinho mais sobre as suas personagens mas que não contribuem muito para adensar o clima que se vive na ilha.

De facto, parece ser esse um dos grandes problemas do filme. Apesar de se estar a seguir o livro à risca, tudo acaba por ser algo espasmódico e emocionalmente contido. Nunca há grandes reacções emocionais, quer relativamente às mortes que vão ocorrendo, quer relativamente aos remorsos e desespero que aqueles que permanecem vivos vão sentindo. A frieza “russa” e teatral impera em quase todas as personagens bem como na realização. O horror psicológico é parcamente explorado (com a notória excepção de Vera) e as personagens são desesperadamente apáticas e inactivas. Falam muito, movimentam-se pouco. Suspeitam umas das outras, fazem alianças, mas nunca se põem muito de sobreaviso. No livro há uma paranóia constante quando o número de sobreviventes se torna cada vez menor. Trancam-se nos quartos à noite e de dia não se querem perder de vista uns aos outros, por motivos óbvios. Neste filme esta crescente pressão nunca é realmente sentida. Como todas as adaptações anteriores este filme está concebido como um mistério criminal, mas esta era uma história que deveria ser filmada como um filme de terror. Tal como está, o pico de tensão está nas mortes, não na espera, na horrível espera por elas, como deveria ser.

"Mesmo assim, à falta de melhor, é uma delícia para os fãs do livro porque é o filme que mais fielmente conseguiu reproduzir a atmosfera que se vive na ilha. (...) Mas então nos últimos dez minutos tive uma gigantesca decepção. Não, caro leitor, esta não é uma adaptação fiel (...) pois não contém, na íntegra, o final do livro. (...) O final do filme é atabalhoado, (...) um anti-clímax (...) onde o extraordinário impacto da incrivelmente original solução perde-se."

Mesmo assim, à falta de melhor, ‘Desyat negrityat’ é uma delícia para os fãs do livro porque é o filme que mais fielmente conseguiu reproduzir a atmosfera que se vive na ilha. Apenas um elemento novo é introduzido: uma noite de paixão entre Vera e Lombard (um bocadinho de nudismo ajuda sempre a vender um filme, não?), mas faz todo o sentido e no livro até poderá estar subentendida se forçarmos uma leitura nas entrelinhas. Portanto, apesar de tudo o que critiquei, quando me aproximei do final estava com um sorriso de satisfação. Mas então cheguei aos últimos dez minutos e tive uma gigantesca decepção. Não, caro leitor, esta não é uma adaptação fiel ao livro. Não tem o final “feliz” da peça de teatro, mas também não contém, na íntegra, o final do livro. Raios, raios, raios. Não percebo. Não percebo mesmo. 

Um dos pormenores mais extraordinários do livro é que só sabemos a solução porque o assassino assim o deseja. O penúltimo capítulo do livro termina com a morte de todas as personagens. Mas se todas foram assassinadas, então quem é o assassino? E não, não é uma explicação sobrenatural. O momento de tensão que existe quando se passa os olhos do penúltimo para o último capítulo, onde descobrimos a verdade graças a uma carta que é enviada à polícia, foi o maior pedaço de excitação nervosa que alguma vez senti a ler uma obra de literatura. E com imensa facilidade o filme poderia ter também isso. Poderia ter um fade-out após a última morte, para que o leitor ficasse na dúvida, com o coração nas mãos, se o filme iria acabar sem uma solução. E depois, de repente, tal como no livro, a imagem mudaria com um enorme choque para uma esquadra da polícia semanas depois, onde dois agentes discutiriam o caso chegando aos mesmos becos sem saída que o espectador. Era impossível estarem dez pessoas sozinhas na ilha e mesmo assim morrerem todas assassinadas, incluindo a última… Mas depois chegaria a carta e tudo seria explicado, em voz off, enquanto víamos imagens do que realmente aconteceu. Seria genial…

Mas os produtores deste filme russo não optaram por essa solução cinematograficamente mais complexa mas também muito mais poderosa. Em vez disso, decidiram manter a acção exclusivamente na ilha e portanto há uma personagem que antes do final explica tudo, falando consigo própria. Ou pelo menos, explica os traços gerais. Muitos pormenores acabam por não ser abordados na explicação final (eu só os percebi porque conheço o livro linha a linha), o que poderá desconcertar alguns espectadores menos familiarizados. De facto, o final do filme é atabalhoado e quase parece a despachar, o que é um anti-clímax num filme que tem 2h10min e facilmente poderia ter mais dez minutos. Assim, infelizmente, o extraordinário impacto da incrivelmente original solução perde-se. Assim, tudo parece mais fácil do que realmente é. Assim, o horror psicológico é apenas superficial, não uma chama que alimenta o filme e o poderia conduzir a um final emocionalmente épico.

"Tudo o que é superficial é reproduzido com nota máxima. Mas a riqueza deste livro está por baixo da superfície, na psicologia das personagens, e para extrair isso eram precisos um grande realizador e grandes actores, o que não é bem o caso. Há alguns rasgos de genialidade, (...) mas fica sempre a sensação de que o filme podia ter ido muito mais além. (...) Contém-se quando devia dar tudo (...) e simplesmente não tem estofo cinematográfico"

Tudo somado, como disse, ver este filme foi, literalmente, uma montanha russa de emoções. Esta é a primeira obra de cinema a contar a versão original da história, o que é fantástico e portanto merece ser visto por todos os fãs do livro. Mas não é propriamente uma grande produção com grandes recursos orçamentais nem com um grande talento por detrás da câmara, o que acaba por ter as suas consequências na qualidade do produto final. Tudo o que é superficial é reproduzido com nota máxima. Mas a riqueza deste livro está por baixo da superfície, na psicologia das personagens, e para extrair isso eram precisos um grande realizador e grandes actores, o que não é bem o caso. Há alguns rasgos de genialidade, como a Vera de Tatyana Drubich ou a mudança operada em Wargrave, e alguns genuínos momentos de choque. Outra coisa não seria de esperar. Mas fica sempre, até ao fim, a sensação de que o filme podia ter ido muito mais além. Contém-se quando devia dar tudo, e sugar toda a alma destas personagens para que a moral e a solução final fossem muito mais poderosas.

Se as adaptações anteriores desta história transformavam uma obra-prima literária num whodunit de qualidade, mas que era apenas isso; ‘Desyat negrityat’ transforma uma obra-prima numa obra que está quase lá mas que nunca o poderá ser, porque simplesmente não tem estofo cinematográfico para tal. O clima de tensão e o final original são demasiado complexos e geniais para o comum dos realizadores. Seria preciso um Kubrick ou um Orson Welles para os conseguir reproduzir com sucesso. E sei agora por quem já viu que a versão inglesa de 2015 também optou por uma solução mais fácil, e tem um final muito análogo ao deste filme russo (quiçá copiado). Ou seja, também não é aí que encontro a versão que procuro. Cada vez mais perco a esperança de um dia a ver no grande ecrã, a não ser que seja eu a fazê-la. Quem sabe talvez um dia…

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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