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Blade Runner 2049

Ano: 2017

Realizador: Denis Villeneuve

Actores principais: Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas

Duração: 164 min

Crítica: É possível criticar ‘Blade Runner 2049’, a muito aguardada sequela do mítico filme de ficção científica de Ridley Scott de 1982, apenas criticando a sua banda sonora. A música de Vangelis para o filme original foi um marco do estilo electrónico, mas a dimensão da sonoridade ia muito para além das impactantes vibrações metalizadas e futuristas que cada nota continha. A sucessão das notas, umas atrás das outras, formavam uma melodia etereamente bela e trágica, uma sinfonia poética e artística que ganhava uma vida própria e que se tornava o acompanhamento perfeito para um filme que poderia ser descrito com os mesmos adjectivos. Já as composições electrónicas de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer para ‘Blade Runner 2049’ podem ter exactamente a mesma sonoridade, podem até ser constituídas por muitas das mesmas notas, mas a sua sucessão já não concebe uma grande melodia. Apenas soam, desgarradas, uma de cada vez pelo ambiente do filme. 

Do mesmo modo, ‘Blade Runner 2049’ pode recuperar o ambiente e a história do filme original, em cenas e personagens que soam sempre familiares ao fã. Mas essa sequência de elementos é apenas isso, uma sequência. A junção dos elementos já não constitui uma poética e trágica sinfonia cinematográfica, porque não basta tocar as mesmas notas. É preciso senti-las, é preciso encadeá-las para que formem uma melodia com um significado que transcende a mera fachada que é mostrada. Pois essa fachada pode sempre ser replicada, ainda mais agora com os avanços tecnológicos e os orçamentos astronómicos que as grandes produções têm ao seu dispor. Mas uma grande realização não pode ser assim replicada tão facilmente. Nem um icónico design de produção. Nem o estatuto de “culto”, pois esse estatuto é algo que se ganha a posteriori, não algo que se concebe a priori.

"‘Blade Runner 2049’ pode recuperar o ambiente e a história do filme original (...) Mas essa sequência de elementos é apenas isso, uma sequência (...) que já não constitui uma poética e trágica sinfonia cinematográfica, porque não basta tocar as mesmas notas. É preciso encadeá-las para que formem uma melodia com um significado que transcende a mera fachada que é mostrada. Essa fachada pode sempre ser replicada (...) Uma grande realização não"

Eu vi o ‘Blade Runner’ original pela primeira vez na mesma altura que muita gente da minha geração o viu: em 1992 quando saiu o primeiro director’s cut. Depois, cortesia das televisões, andei a ver esta ou a versão original pela década seguinte, até que estabilizei definitivamente no Final Cut de 2007, altura em que comprei o DVD. Mas independentemente da versão, que diga-se foi melhorando cada vez mais a qualidade do filme, uma coisa para mim sempre foi clara: aqui estava, sempre esteve, um dos melhores filmes de sempre. Pela mão de Ridley Scott, então um verdadeiro “autor” (hoje é difícil continuar a chamar-lhe isso), nunca o poder da direcção artística, da fotografia, da realização e dos efeitos especiais esteve, em conjunto, num equilíbrio tão perfeito numa obra do cinema americano. Cada plano é uma pintura, uma obra de arte. E o resultado é um trabalho lírico, que usa esta estética arquitectural futurista não com exibicionismo, mas como um catalisador visual para dar dimensão a uma história existencialista com um significado profundo mas também subjectivo, como todas as grandes obras de arte devem ter.

Recriar esta essência artística de ‘Blade Runner’ é uma batalha perdida à partida, como aliás é tentar refazer os grandes clássicos. Hollywood sempre teve, até há bem pouco tempo, o bom senso de não fazer remakes disparatados. Não há um ‘Casablanca 2’. Não há um ‘Gone with the Wind 2’. Não há um ‘The Sound of Music 2’. Mas hoje, talvez porque Hollywood não tem uma ideia original há anos e não surgiram novos Spielbergs, novos Scotts, novos Scorseses com visões claras sobre o cinema, os estúdios estão-se a aproveitar das grandes marcas do passado para tentar, não construir o futuro (e aqui está o seu grande erro), mas simplesmente recriá-las preguiçosamente de acordo com as regras do blockbuster moderno, na esperança ténue que isso resulte. Pode resultar para o espectador jovem que não sabe melhor (‘Blade Runner 2049’ está já, incrivelmente, no nº 56 do top do imdb!). Mas não resulta para o cinéfilo. E não resulta porque não é apenas a estética que faz um filme. Pode-se pôr o Millenium Falcon em ‘The Force Awakens’ e cartazes de néon em ‘Blade Runner 2049’. Isso é fácil. Mas depois é preciso imiscuir esses ambientes na história que se conta. E isso é mais difícil.

‘Blade Runner 2049’ começa com a imagem de um olho, tal como ‘Blade Runner’ havia começado. Isso é fácil. Depois mostra-nos um longo plano de uma nave a percorrer uma gigantesca vastidão suburbana futurista, onde a densa metrópole dá lugar a milhares de quintas de agricultura biológica, concebidas para acabar com a fome causada pela sobrepopulação. É um plano impactante que demonstra o triunfo dos efeitos especiais modernos, mas está a anos luz do início do ‘Blade Runner’ original, um dos melhores começos de um filme de todos os tempos. E porquê? Porque falta paixão, peso e arte de fazer cinema. E esta crítica mantêm-se por todo o filme.

"É uma amálgama de visuais que são sempre excelentes, é verdade, mas não têm vida própria (...)  A facilidade de obtenção dos efeitos especiais matou o "autor" que contava a história no plateau (...) e o actor sofre porque não sente o cenário, nunca parece existir nele. ‘Blade Runner’ era um filme em que a ligação entre o cenário e o drama humano era o ponto essencial da sua narrativa. Perder isso em ‘Blade Runner 2049’ é reconhecer o fiasco desta sequela"

Quando era preciso construir todos os cenários futuristas em miniaturas (idem para o original ‘Star Wars’), havia uma enorme devoção de técnicos, uma gigantesca atenção ao pormenor, e como a câmara realmente filmava os elementos, eles tinham peso, tinham vida. Custava imenso fazer um plano destes (foram precisos meses de trabalho para fazer aquele brilhante sequência inicial de 30 segundos de ‘Blade Runner’) portanto era preciso um realizador com uma enorme visão e artistas com um enorme talento. Hoje, pelo contrário, meia dúzia de designers informáticos criam rapidamente estes ambientes futuristas num software. A facilidade faz aumentar o número de ambientes em cada filme (‘Blade Runner 2049’ tem talvez quatro ou cinco vezes mais “ambientes” que o filme original) mas também faz perder a coesão do todo. Em ‘Blade Runner’ era a visão de Ridley Scott que dominava todos os planos. ‘Blade Runner 2049’ é uma amálgama de visuais que são sempre excelentes, é verdade, mas não só não têm vida própria, como não se articulam para formar aquela sinfonia que falei no início desta crítica.

E isto leva-nos a outro ponto: o argumento. George Lucas, Steven Spielberg, Ridley Scott eram realizadores mas também era o que os críticos franceses chamam “autores”, pois tinham liberdade dos estúdios para o serem, nessa importante era de transição para o cinema moderno. A sua câmara é que contava a história, e todos os efeitos especiais, todos os ambientes que eram concebidos, eram-no com o propósito claro de auxiliar a câmara a fazer esse trabalho. Hoje já não funciona assim. A facilidade de obtenção dos efeitos especiais a posteriori num software matou o autor que contava a história no plateau. Hoje, os realizadores deste tipo de filmes, mesmo os grandes realizadores (Denis Villeneuve pareceu uma escolha acertada depois de ‘Sicario’, 2015 e ‘Arrival’, 2016) têm de se contentar em filmar diálogos de um argumento pré-escrito defronte da esterilidade de um blue-screen, cientes de que a pós-produção digital fará o resto, muitas vezes sem o seu controle directo.

O realizador sofre porque já não pode contar a história com a sua câmara, já não pode dar o seu cunho pessoal às cenas e aos efeitos especiais. Já não cabe a si fazê-lo. O actor sofre porque não sente o cenário, nunca parece existir nele. Harisson Ford era uma parte intrínseca da cidade neo-noir de ‘Blade Runner’. Ryan Gosling não é, definitivamente. E se esta é uma crítica que já faço há muito tempo desde que se massificou o uso de efeitos digitais na criação de cenários, confesso que nunca a senti tão gravemente como esta semana. Porque ‘Blade Runner’ era um filme em que a ligação entre o cenário e o drama humano era o ponto essencial da sua narrativa. Perder isso em ‘Blade Runner 2049’ – e é imediatamente perdido no primeiro plano da primeira cena – é reconhecer o fiasco desta sequela, do ponto de vista artístico, humano, emocional, mas também argumental.

"No filme de 1982 (...) a investigação era apenas uma desculpa para se mergulhar, em ambientes estilizados, numa constante luta de egos (...) envolta de pertinentes questões existencialistas. Já ‘Blade Runner 2049’ desenrola-se com uma surpreendente placidez. O filme passa de ambiente estilizado em ambiente estilizado só porque o pode (cortesia do poder do digital), mas fá-lo com uma extrema monotonia e falta de profundidade."

Em ‘Blade Runner 2049’ Ryan Gosling interpreta um Blade Runner chamado simplesmente K (uma referência kafkiana?), cuja missão é, ainda, caçar os androides foragidos (as chamadas réplicas) e matá-los. Se até hoje há dúvidas se o Deckard de Harrison Ford era uma réplica ou não (e este filme faz a questão de dizer directamente, lá mais para o final, que não irá desfazer essa dúvida), ficamos a saber logo na primeira cena exactamente o que K é. Turn off? Definitivamente. O primeiro de muitos. Nessa cena K consegue encontrar e matar uma réplica possante (um pequeno cameo de Dave Bautista), e posteriormente encontra uma caixa enterrada há 30 anos (desde praticamente os eventos do filme original) que contém um conjunto de ossos de uma réplica há muito julgada desaparecida. Mas o esqueleto tem uma particularidade (que não vou revelar ao leitor), uma particularidade que despoleta toda a história, já que suscita o interesse de todas as partes envolvidas.

Por um lado, a chefe de K (Robin Wright, numa típica interpretação segura), quer que ele siga as pistas dadas pelo esqueleto para descortinar os eventos do passado e pôr fim a uma história há muito pendente. K tem ordens directas para “terminar” todas as réplicas envolvidas de forma a evitar aquilo que ela supõe que seja uma revolta das máquinas caso se saiba o verdadeiro segredo por trás do esqueleto. Por outro lado, Wallace, o novo dono da Corporação Tyrel, interpretado por Jared Leto (um papel muito badalado mas realmente pouco impactante), anseia descobrir esses segredos para si, já que poderão ser o passaporte para desvendar os enigmas da criação de uma nova geração de réplicas. Para isso emprega a sua “capanga” de serviço, a super-réplica Luv (a holandesa Sylvia Hoeks), esta sim uma personagem muito mais interessante e que fica na retina, sendo ela a grande adversária de K ao longo do filme. Aparentemente Hoeks será a nova Lisbeth Salander da saga Millenium. Pelo que faz aqui, parece ser uma escolha acertada.

Mas há ainda mais uma parte interessada, o próprio K, já que desde o início percebe (de forma bastante previsível e bastante conveniente, diga-se) que ele próprio está envolvido nesta história, e desvendá-la é também desvendar os segredos do seu passado incerto. Contudo, há uma grande diferença na forma como o filme original e ‘Blade Runner 2049’ desenrolam o novelo das suas respectivas investigações. O filme de 1982 era um noir futurista que invocava a essência e a cadência dos filmes dos anos 1940. Aqui, o processo de investigação era apenas uma desculpa para se mergulhar, em ambientes estilizados, numa constante luta de egos e personalidades entre investigador e investigados, com a surpreendente nuance desta luta estar envolta de pertinentes questões existencialistas. Já ‘Blade Runner 2049’ desenrola-se com uma surpreendente placidez. O filme passa de set piece em set piece, de ambiente estilizado em ambiente estilizado só porque o pode (cortesia do poder do digital), mas fá-lo com uma extrema monotonia e uma extrema falta de profundidade. A própria história que é aos poucos revelada é desprovida de grande interesse.

"É um filme não tem quaisquer cenas, personagens ou frases icónicas, não levanta quaisquer questões, nem tem grandes sequências de acção ou tensão (...). É um filme propositadamente lento e ponderado porque é assim que se supõe que os filmes artísticos sérios têm de ser. Mas apesar de todo o espectáculo visual que nos é oferecido, não há uma força motriz por detrás que o mova; emocional, existencialista, filosófica ou humana."

De facto, para um filme com um tamanho tão grande (quase 2h40min) é incrível o quão pouca história tem para oferecer. Isto não seria propriamente uma desvantagem se o processo de investigação valesse a pena por si; pelos ambientes apresentados, pelas interacções entre as personagens, pela dinâmica emocional da sua personagem central, ou pela interligação entre a estética visual e as questões que são levantadas. Mas não é isso que acontece. Apesar do filme saltar de ambiente em ambiente, e muitos deles ficarem na retina pela sua espectacularidade visual, as personagens não fazem realmente parte deles, o que destrói o seu propósito. Nalgumas sequências, como aquela no deserto do subúrbio, estamos mais próximos do universo futurista de ‘Mad Max’ do que de ‘Blade Runner’

Já a própria interacção de K com as várias personagens (não obstante algumas mais interessantes como a Dr. Ana Stelline interpretada pela suíça Carla Juri – a melhor actriz do filme) é apenas uma sucessão de encontros espasmódicos que não adicionam camadas à história, apenas alguma cor local e a vaga memória de já termos visto isto antes. Muitas personagens recordam-nos, pelo aspecto físico, personagens do filme original (a Mariette de Mackenzie Davis parece a Pris de Daryl Hannah por exemplo) e alguns velhos conhecidos regressam (como o grande Edward James Olmos e claro, tal como altamente antecipado, Harrison Ford). Mas o filme aposta demasiado no seu segredo (que é fraco) e na expectativa da aparição de Deckard numa Las Vegas pós-apocalíptica, que apesar de obviamente fazer sorrir todos os cinéfilos, acrescenta muito pouco à trama. Ou melhor, de todas as maneiras que o podiam ter incluído na história, esta era provavelmente a pior opção. O filme contenta-se com essa inclusão e considera-a suficiente, não despendendo grande esforço a torná-a memorável. Quão longe está este Deckard do original, e a culpa não é de Ford...

Na realidade ‘Blade Runner 2049’ é um filme não tem quaisquer cenas, personagens ou frases icónicas, não levanta quaisquer questões, nem tem grandes sequências de acção ou tensão (excepto a luta entre K e Luv nas ondas, talvez porque aqui, finalmente, quer as ondas, quer a acção, quer as emoções são reais). É um filme propositadamente lento e ponderado porque é assim que se supõe que os filmes artísticos sérios têm de ser. Mas apesar de todo o espectáculo visual que nos é oferecido, não há uma força motriz por detrás que o mova; emocional, existencialista, filosófica ou humana.

"‘Blade Runner 2049’ soa a uma obra de arte. Os ambientes são esteticamente apelativos. A cadência é ponderada e o seu actor principal sabe actuar com poucos gestos e palavras (...). Mas esta estética de fachada é apenas isso, fachada (...) Se formos para além dos cartazes de néon e da incrivelmente frouxa história (...) chegamos ao fim e o filme não nos deu nada. Apenas uma aventura que podia ser a de qualquer outro filme de ficção científica"

A prova perfeita desta minha afirmação é a personagem de Joi interpretada por Ana de Armas, a actriz espanhola em ascensão que tem todo o aspecto de uma futura Bond-girl. Joi é um holograma de “prazer” de K, com quem o filme perde muito, muito tempo. O seu objectivo é dual. Primeiro introduzir a temática da "humanidade" da inteligência artificial, através da relação crescente entre K e este ser cuja forma humana é meramente ilusória. Talvez hajam aqui momentos mais conseguidos (admito-o) mas passam para segundo plano perante o outro, e principal objectivo de Joi: dar a K alguém com quem falar, com quem discutir as suas dúvidas e receios e os progressos da sua investigação. Pode parecer coisa pouca, mas é a maior machadada nas costas que se podia dar a um fã de ‘Blade Runner’. Há um motivo muito claro para Ridley Scott ter cortado, na sua versão definitiva, a voz off de Harrison Ford que o estúdio o obrigou a pôr em 1982; essa horrível voz off que tentava explicar elementos da história que resultavam muito melhor se ficassem por explicar. Joi, apesar das valências de Ana de Armas, é a voz off deste novo ‘Blade Runner’, e é inacreditável que os produtores não se tenham apercebido disso. Ou se calhar aperceberam-se, mas não quiseram saber. Já não vivemos numa era em que os estúdios estejam interessados em fazer obras de arte verdadeiras. Se “soar” a uma obra de arte, na fachada, é suficiente.

‘Blade Runner 2049’, pelo menos para mim, é precisamente isso. É um filme que soa a uma obra de arte. Os ambientes são esteticamente apelativos. A cadência é ponderada e o seu actor principal já há muito tempo que sabe actuar com poucos gestos e poucas palavras (uma clara mais valia para o filme). Mas esta estética de fachada é apenas isso, fachada. Se no filme original fossemos para além dos cartazes de néon, da investigação e da sucessão de personagens “fora” que Deckard vai encontrando, tínhamos ainda nas mãos uma brilhante, poética e trágica alegoria sobre a nossa humanidade. É essa essência que ainda hoje torna esse filme a gigantesca obra de arte que é. Mas se em ‘Bade Runer 2049’ formos para além dos cartazes de néon, da incrivelmente frouxa história (com twists que não movem ninguém) e da sucessão de personagens que K vai encontrando uma a uma, não ficamos com nada nas mãos. Chegamos ao fim e o filme não nos deu nada. Apenas uma aventura que podia ser uma aventura de qualquer outro filme de ficção científica, como por exemplo ‘I Robot’ (2004). Apenas uma aventura que pode gerar outra logo a seguir, um ‘Blade Runner 2073’ por exemplo, se este filme for um sucesso de bilheteira.

Pessoalmente, fiquei extremamente decepcionado com este ‘Blade Runner’. Ao contrário do que fui escrevendo ao longo da crítica, tenho que ser honesto e dizer que o filme obviamente não é mau. Está bem filmado, tem bons actores e tem bons ambientes. Se existisse como um ente isolado podíamos dizer que estava aqui um minimamente aceitável filme de ficção científica, mas dificilmente um que alguma vez obteria um estatuto de culto. É importante que o filme se queira afastar do original para ter a sua própria individualidade, mas não quando isso faz com que se perca tudo o que fazia de ‘Blade Runner’ o grande filme que é.  Portanto, esperar trinta anos para fazer uma sequela e produzir isto, tão distante das regras ditadas por Scott, tão alheio a todos os pormenores que faziam ‘Blade Runner’ resultar como obra de arte, é extremamente desapontante, e algo que temos severamente de criticar.

"O filme está bem filmado, tem bons actores e tem bons ambientes. Se existisse como um ente isolado podia ser um minimamente aceitável filme de ficção científica, mas dificilmente um que alguma vez obteria um estatuto de culto (...) Tem uma “aventura” com um desfecho “certinho” (...) sem deixar elementos dúbios ou pontas soltas. A tal papinha que Ridley Scott se recusou a fazer no filme original é aqui bem trituradinha para o espectador moderno."

No fundo, no panorama do cinema moderno, acho que podemos dizer que isto é o melhor que se consegue arranjar. Há algumas regras que os blockbusters de hoje têm de seguir para serem aclamados, para os jovens comprarem bilhetes aos magotes e para se fazer centenas de milhões de dólares na bilheteira. O ‘Blade Runner’ original seria hoje provavelmente um fiasco, como foi em parte na altura do seu lançamento inicial. Já este filme, apesar de alguns elementos que até ao cinéfilo mais dedicado custam a engolir (a sua alongada duração sem ter conteúdo que o substancie), tem uma fórmula muito mais apelativa. Invoca o filme original mas não em demasia (o suficiente para quem nunca o viu mas já viu clips no Youtube), e tem uma “aventura” com um desfecho “certinho” que pode ser seguida do início ao fim sem deixar elementos dúbios ou pontas soltas. A tal papinha que Ridley Scott se recusou a fazer no filme original é aqui bem trituradinha para o espectador moderno.

Se é isso que prefere, caro leitor, então siga. Desfrutará do filme, até porque tem uma estética vencedora. Mas se prefere ser mais estimulado intelectual e emocionalmente, é melhor esquecer esta obra a voltar a ver o filme de 1982 (ou melhor, o director’s cut de 1992 ou o final cut de 2007). É isso que eu vou fazer, enquanto espero o dia em que Hollywood volte a ter uma ideia original. Até pode ser num remake ou numa sequela. Também podem haver obras de arte em remakes ou sequelas. Mas não nesta sequela, apesar do que o filme não se cansa de repetir em 160 minutos. Mas como disse em cima, não é por o filme gritar ao espectador que é uma obra de arte que o passa a ser. O espectador é que tem de gritar ao filme. E neste caso o filme bem que pode esperar sentado por um grito….

1 comentários:

  1. Concordo, é muito raro que uma continuação do primeiro filme, mas eu acho que não é a intenção de Blade Runner, mas apenas dar continuidade e propor outra premissa, e se um ciborgue puder dar à luz! Eu amei a trilha sonora! O filme Blade Runner 2049 me manteve tensa todo o momento, se ainda não a viram, eu acho que é um dos melhores filmes de ficção cientifica que foram lançados.. No elenco vemos Ryan Gosling e Ana de Armas, dois dos atores mais reconhecidos de Hollywood que fazem uma grande atuação neste filme. Realmente a recomendo.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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