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The Faculty

Ano: 1998

Realizador: Robert Rodriguez

Actores principais: Jordana Brewster, Elijah Wood, Laura Harris

Duração: 104 min

Crítica: Ultimamente tenho estado a publicar várias críticas de filmes de acção dos anos 1990 (‘Speed’, ‘Crimson Tide’, ‘Cutthroat Island’). Foi a década em que fui adolescente e em que descobri o cinema, por isso é natural que tenha um fraquinho pelos grandes espectáculos que Hollywood proporcionou nesta altura, principalmente nos géneros de acção, comédia e “filme para a família”, todos a viverem épocas douradas neste período. Mas há outro género que também singrou nestes anos, embora o aprecie menos; o dos thrillers de adolescentes, fossem do tipo mistério, slasher ou sobrenatural. 

Os anos 1980 foram, esses sim, a época de glória dos filmes de adolescentes, com a génese do brat pack e dos filmes high school e mall. Os filmes dos anos 1990 não conseguiram propriamente fazer jus esse legado, no sentido em que não conseguiram tornar universal a forma como captaram a condição do adolescente. E talvez por isso tiveram que recorrer ao exagero, e a alguma autoconsciência conceptual (enriquecida por uma nova geração de realizadores, cientes da história do cinema), para conseguirem criar os seus próprios elos com o adolescente dos anos 1990. Pensemos na superficialidade de mega-sucessos cómicos como ‘There's Something About Mary’ (1998) ou ‘American Pie’ (1999). Ou pensemos na forma como os thrillers de adolescentes singraram.

"O que se nota é que Rodriguez está muito mais contido do que era (e continuaria a ser) o seu habitual, uma inegável consequência do produto que este filme tinha de ser e do seu público alvo. Claro que ‘The Faculty’ é ousado em certos momentos (os mais memoráveis), claro que tem um estilo apelativo, e claro que é um thriller sobrenatural bem construído. Mas não é tão ousado quanto poderia ser e esse é um dos seus maiores turn offs."

Se ‘Buffy the Vampire Slayer’ trilhou caminho, ‘Scream’ (1996), com a forma como recriou o imaginário do filme de terror, incandesceu Hollywood e pôs os produtores a ver cifrões. De repente, estava aqui ouro de bilheteira, filmes relativamente baratos que podiam ter um bocadinho de sustos, um bocadinho de humor e um bocadinho de sensualidade (cortesia de jovens talentos bem-parecidos); produtos ideais para grandes grupos de jovens poderem ir ver ao cinema (e quantos não vi com os meus colegas de liceu…). Nada de novo, obviamente, mas cada geração tem de encontra-lo à sua própria maneira. ‘Scream’ foi o cartão de entrada da minha. ‘I Know What You Did Last Summer’ (1997) apareceu logo depois (mais um que vi no cinema) e 1998 viu surgir ‘Urban Legend’ ou ‘Halloween H20: 20 Years Later’; todos se tornando moderados sucessos de bilheteira e atingindo um certo estatuto de culto, pelo menos para esta geração adolescente que os apanhou.

Nesse mesmo ano surgiu também uma das mais interessantes variações deste género, ‘The Faculty’ (em português ‘Mistério na Faculdade’) pela mão de Robert Rodriguez. Rodriguez havia feito até esta altura os dois primeiros filmes da trilogia Mariachi (‘El mariachi’, 1992 e ‘Desperado’, 1995), bem como um dos segmentos de ‘Four Rooms’ (1995) e ‘From Dusk Till Dawn’ (1996), ambos em parceira com Quentin Tarantino, com quem obviamente sempre partilhou semelhanças temáticas e visuais e com o qual faria ‘Grindhouse’ (2007). Para um realizador com um estilo visual bem vincado, que faria filmes como ‘Sin City’ (2005) ou ‘Machete’ (2010), este ‘The Faculty’ é atípico na sua carreira, quanto mais não seja por ser o filme mais ‘de estúdio’, mais ‘comercial’ que concebeu (mais até, digo eu, que os próprios ‘Spy Kids’). Este era um argumento que já andava a circular pelos estúdios desde o inicio da década de 1990 e que finalmente foi comprado pela Miramax após o sucesso de ‘Scream’. Foi portanto a pedido pessoal dos Weinsteins que Rodriguez o realizou.

À primeira vista fazia todo o sentido. Este é um filme de mistério em que a tensão é um dos principais elementos, e que tem, como todos os filmes de mistério, de se construir muito lentamente, mas sem perder a atenção do espectador, até chegarmos às surpreendentes revelações finais. Um thriller tem de valer tanto pelo final como pelo caminho que leva até lá. Mas Rodriguez não podia fazer o mesmo que fez em ‘From Dusk Till Dawn’ (1996), onde um argumento riquíssimo explorava na perfeição as personagens apenas para ganhar tempo para a mega-explosão de gore no último terço do filme no bar dos vampiros. O que se nota é que em ‘The Faculty’ Rodriguez está muito mais contido do que era (e continuaria a ser) o seu habitual, uma inegável consequência do produto que este filme tinha de ser e do seu público alvo.

"Por incrível que possa parecer, ‘The Faculty’ até consegue ser muito bom a enquadrar os vários tipos de personalidades existentes num liceu. A representatividade multifacetada de ‘The Breakfast Club’ (1985) vem à memória (...) Sentimos as personalidades subjacentes e os diálogos são também naturalistas (como quem diz, credíveis) (...) Só é pena que mais tarde, quando estabelece a sua premissa, o filme se esqueça de continuar esta construção."

Claro que ‘The Faculty’ é ousado em certos momentos (os mais memoráveis), claro que tem um estilo apelativo, e claro que é um thriller sobrenatural bem construído. Mas não é tão ousado quanto poderia ser e esse é um dos seus maiores turn offs. A justificação está talvez no facto dos Weinsteins também terem feito mais um pedido. Foi Kevin Williamson, o argumentista de ‘Scream’, ‘Scream 2’ e ‘I Know What You Did Last Summer’, que escreveu a versão final deste argumento. Nota-se. A história existe mais ou menos nesse cumprimento de onda e parece não ter muita ambição para ir além dele, quando facilmente o poderia ter conseguido, especialmente com Rodriguez a bordo.

A aura de ‘Scream’ é facilmente reconhecida na primeira cena. Depois de um treino, o treinador de futebol americano de um liceu de uma pequena cidade no Ohio (o mítico Robert Patrick de ‘Terminator 2: Judgment Day, 1991, que aqui recria algumas das suas mais famosas poses, no primeiro de muitos toques autoconscientes), é atacado por algo que não vemos. Pouco depois, é a directora da escola (Bebe Neuwirth) e outra professora mais idosa (Piper Laurie) que estão sob ataque. Com a clássica música tensa (a banda sonora é de Marco Beltrami), Rodriguez dá-nos logo uma cena de cortar a respiração enquanto a directora foge até ser finalmente apanhada e apunhalada. Contudo, na manhã seguinte, lá está ela, com os outros dois professores. O seu comportamento é inquestionavelmente estranho e têm uma grande necessidade de beber água. Estão também muito interessados em apanhar os restantes professores sozinhos, que depois do encontro começam a comportar-se da mesma forma estranha (estes incluem pequenas aparições de Salma Hayek, a sexy enfermeira viciada em comprimidos; Famke Janssen, a reprimida professora; ou até Jon Stewart, um professor de ciências chamado Edward Furlong… para quem entender a piada). Obviamente, começamos a suspeitar que há aqui algo que não é deste mundo…

Entretanto vamos conhecendo os jovens do liceu. Por incrível que possa parecer, ‘The Faculty’ até consegue ser muito bom a enquadrar os vários tipos de personalidades existentes num liceu, bem mais que ‘Scream’. A representatividade multifacetada de ‘The Breakfast Club’ (1985) vem à memória, ou seja, estes arquétipos não são, pelo menos nestas primeiras cenas, meramente superficiais, ao contrário do que acontece na maior parte dos filmes high school. Sentimos as personalidades subjacentes e os diálogos são também naturalistas (como quem diz, credíveis) de novo ao contrário da maior parte dos filmes de adolescentes. Só é pena que mais tarde, quando estabelece a sua premissa, o filme se esqueça de continuar esta construção. Deixa de explorar as facetas das personagens, que estagnam, porque obviamente passa a estar muito mais interessado no mistério, nos sustos e no jogo de gato e do rato entre os adolescentes e as misteriosas criaturas que os perseguem.

"O que se segue é uma até excitante odisseia com tensão, gore e humor suficiente (nunca em demasia, mas suficiente) para satisfazer o seu público-alvo (...). Talvez não seja adequado para os fãs de Tarantino ou do próprio Rodriguez, mas também não tem a superficialidade morosa do típico thriller de adolescente. A história não tem propriamente grandes ramificações (...) mas consegue sempre proporcionar momentos de tensão e surpresa"

O grupo-base é formado por seis adolescentes. Delilah é a popular mas convencida cheerleader, a típica menina-bem que também é a editora do jornal da escola (Jordana Brewster na sua estreia cinematográfica). O seu namorado Stan (Shawn Hatosy) é a estrela da equipa de futebol, mas está farto de que isso interfira com os seus estudos e pondera desistir. Stokely (Clea DuVall) é a clássica gótica solitária enquanto Casey (um novinho Elijah Wood) é o tímido nerd constantemente vítima de bullying. Zeke (Josh Hartnett, igualmente no seu ano de estreia) é o charmoso repetente, que apesar de ser muito inteligente prefere baldar-se e ganhar dinheiro como o contrabandista de serviço da escola. Por fim Marybeth (Laura Harris) é a rapariga que veio de outra cidade, que não conhece ninguém e procura orientar-se no seu primeiro dia na nova escola.

Primeiro isoladamente, depois aos pares e por fim todos juntos, estes seis vão começar a suspeitar do estranho comportamento dos professores e, à medida que o tempo vai passando, de um maior número de colegas. Depois será a mal, numa série de encontros assustadores (quando Stan toma banho tem uma visita inesperada; Delilah e Casey vão assistir a um assassinato; e todos são quase vítimas do ataque de um professor), que vão descobrir, ou pelo menos supor o que se está a passar, embora o achem extremamente difícil de acreditar.

Stokely refere-se ao filme ‘Invasion of the Body Snatchers’ (1956), o brilhante thriller no qual extraterrestres lentamente se vão apoderando dos seres humanos, tomando as suas identidades. Este é mais uma aberto pedaço de autoconsciência (afinal, esta é apenas uma re-imaginação dessa história), mas não há, claro, a mesma classe. ‘Invasion of the Body Snatchers’ é uma poderosa alegoria sobre a identidade humana, mas acima de tudo é uma poderosa alegoria sobre a situação política que se vivia na América (o mccarthismo e a perseguição da liberdade individual). ‘The Faculty’ não tem nenhum destes nobres objectivos (apesar de alguns discursos finais apontarem nesse sentido, adaptados algo atabalhoadamente à condição de ser adolescente no mundo moderno), e perde talvez excessivo tempo com jargão técnico desnecessário.

"O filme transita habilmente entre estes géneros (Rodriguez é um realizador seguro com um propósito bem definido) que aponta quer para o jovem de liceu à procura de entretenimento escapista quer para o connoisseur que até se diverte com estes bem-intencionados remakes de clássicos. Ajuda que as personagens sejam apelativas, os actores satisfatórios nos seus papeis e que o argumento tenha sobriedade suficiente para não descer baixo para obter um susto."

Casey encontra um bicharoco de espécie desconhecida no campo de futebol que o grupo irá analisar ao microscópio e depois testará num rato para perceber o que o parasita faz quando ataca uma vítima. Justificação a mais! Mais tarde, o grupo descobre que a droga caseira que Zeke fabrica e vende na escola é suficiente para matar os humanos possuídos. Mais explicações científicas são dadas, sem que isso dê propriamente maior credibilidade ao filme, embora provavelmente satisfaça os fãs de ficção científica. O filme finalmente encontra a sua melhor passada quando os jovens decidem munir-se da droga para tentar encontrar e matar o líder dos extraterrestres, na esperança que matando-o todos os outros sucumbirão e os seus amigos, professores e familiares voltarão ao normal.

O que se segue é uma até excitante odisseia com tensão, gore e humor suficiente (nunca em demasia, mas suficiente) para satisfazer o seu público-alvo adolescente e outros espectadores mais velhos com um fraquinho por este tipo de produções. Talvez não seja adequado para os fãs de Tarantino ou do próprio Rodriguez, mas também não tem a superficialidade morosa do típico thriller de adolescente. A história não tem propriamente grandes ramificações – fogem para casa de Zeke para buscar a droga e rumam de novo à escola – mas consegue sempre proporcionar momentos de tensão e surpresa, assentes no mistério de quem será o líder dos extraterrestres (spoiler: não é quem achamos que é), e também nos twists de identidade (há alguém do grupo que já foi possuído sem os outros saberem?). Para apimentar as coisas, Zeke obriga os colegas a snifarem a droga de quando em quando, só para todos garantirem aos restantes que não estão possuídos, o que os leva a estarem ganzados nos momentos mais inconvenientes. É talvez o toque mais ousado da história (o toque Rodriguez), mas é minimizado quando Zeke confessa que a droga é maioritariamente cafeína em pó. Não se pode ferir susceptibilidades num grande blockbuster

No showdown no pavilhão desportivo da escola, os jovens que sobram vão descobrir o segredo (um twist que até é inesperado) e têm de fazer o que todos os heróis adolescentes antes deles já fizeram para salvar a escola, a cidade e a humanidade: encontrar a sua verdadeira identidade para além da estereotipada condição da sua personagem. Contudo, se os efeitos especiais do extraterrestre revelado em todo o seu esplendor até são bastante bem conseguidos para a altura, já a veia humana e emocional do filme é algo coxa. As personagens realmente não avançaram depois das cenas iniciais e passada a pouco inventiva batalha final o filme simplesmente não sabe como acabar. O final de ‘Invasion of the Body Snatchers’ seria demasiado pesado para o público alvo deste filme e totalmente desadequado aos anos 1990. A solução encontrada é simplista, pouco convincente e até incredível. Ou seja, assenta como uma luva no género de entretenimento escapista dos anos 1990, mas isso não significa que resulte hoje em dia.

"Um filme para ver mais pelo seu ambiente do que pelos sustos; mais pela sua reverência a um grande clássico do que pela originalidade da trama e irreverência; mais pelo twist e pela forma como se constrói até ele do que propriamente pelos heroísmos finais; mais pelos jovens actores então a desabrochar do que aquilo que as personagens acabam por se tornar; mais pelo entretenimento “de grupo” do que pela memorabilidade da obra como um todo."

Tudo somado ‘The Faculty’ não é de todo um mau filme. Aliás, dentro deste género de slasher de adolescentes até é dos melhores, ao mesmo nível de ‘Scream’. Ao contrário dos filmes deste género, ‘The Faculty’ não aposta muito no humor nem em cenas de sexualidade (os casalinhos só se formam no fim com uns beijinhos rápidos), o que lhe dá credibilidade, mas ao mesmo tempo também não aposta muito nas cenas de acção/tensão (o assassinato pré-créditos é o momento mais intenso do filme, o que não abona muito a favor da sequência final). Em vez disso, o filme transita habilmente entre estes géneros (Rodriguez é um realizador seguro com um propósito bem definido) que aponta quer para o jovem de liceu à procura de entretenimento escapista quer para o connoisseur que até se diverte com estes bem-intencionados remakes de clássicos. Ajuda que as personagens sejam apelativas, os actores satisfatórios nos seus papeis e que o argumento tenha sobriedade suficiente para não descer baixo para obter um susto.

Mas aqui é que a porca torce o rabo. Estamos mais que habituados que um slasher comercial se cinja por certas regras, tenha típicas peculiaridades argumentais e rodeie familiares lugares comuns. Mas ‘The Faculty’ construiu-se, salvo um ou outro pormenor, com muito mais sobriedade, pelo que é desapontante que depois não extravase a sua condição de base. Rodriguez podia ter inserido muito mais gore. Podia ter brincado muito mais com a “possessão” dos extraterrestres. Podia ter explorado muito mais a capacidade ameaçadora de actores como Robert Patrick. Podia ter tornado os sacrifícios finais muito mais épicos. Em suma, poderia ter feito o mesmo que fez em filmes de ‘From Dusk Till Dawn’ a ‘Machete’. Mas talvez tenha estado demasiado condicionado pelo estúdio, que apenas queria um novo ‘Scream’.

Um filme para ver mais pelo seu ambiente do que pelos sustos; mais pela sua reverência a um grande clássico de ficção cientifica do que pela originalidade da trama e irreverência; mais pelo twist e pela forma como se constrói até ele do que propriamente pelos heroísmos finais; mais pelos jovens actores então a desabrochar do que aquilo que as personagens acabam por se tornar; mais pelo entretenimento “de grupo” do que pela memorabilidade da obra como um todo. Contudo, não deixa de ser um dos expoentes de um movimento cinematográfico especial, e certamente sempre encontrará nos adolescentes e pós-adolescentes um mercado para ser revisto e redescoberto. Só nunca terá tanto impacto como naqueles que o viram nesse momento no tempo. Um bocadinho mais de sangue, ou pelo menos viscosidade alienígena podia ter ajudado (como em ‘Alien’). Mas não se pode ter tudo…

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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