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The Secret Life of Pets

Ano: 2016

Realizador: Chris Renaud, Yarrow Cheney

Actores principais (voz): Louis C.K., Eric Stonestreet, Kevin Hart

Duração: 87 min

Crítica: ‘The Secret Life of Pets’ (em português ‘A Vida Secreta dos Nossos Bichos’), lançado no Verão de 2016, é o sexto filme da companhia Ilumination Entretainment em outros tantos anos de vida. Quando surgiu em 2010 com o irreverente ‘Despicable Me’, esta produtora, cujos filmes são distribuídos pela Universal, chamou imediatamente à atenção numa Hollywood atolada de companhias e filmes de animação. De facto, após ‘Hop’ (2011), o melhor filme para crianças recente a misturar criaturas animadas com imagem real, e ‘The Lorax’ (2012), o menos cantado filme do estúdio mas para mim uma verdadeira obra-prima, com sublimes desenhos, humor e substância com a sua sentida mensagem ambiental, não tive dúvidas em chamar à Ilumination a “nova Pixar”.

Numa era em que a Pixar se tornou uma sombra de si própria, em que a Dreamworks mecanizou os seus processos de produção e perdeu o cunho de originalidade, e em que o Blue Sky se tornou praticamente Ice Age-dependente, a Ilumination deu um novo sopro de vida à animação americana e tornou-se a alternativa de referência aos estúdios Disney. Salientando-se a sua animação de travos humorísticos simples mas eficazes e a palete de cores garrida que nos envolve na fantasia das suas histórias, o destaque maior do estúdio está no facto de terem oferecido ao mundo da animação um novo rol de personagens animadas como há muito não se via, e como há muito não tinha um impacto tão grande na cultura popular: os Minions. Como os desenhos animados de outrora e com um humor físico intenso imbuído de surrealismo, estas pequenas criaturas amarelas desastradas fizeram, justificadamente, um enorme furor e tornaram-se rapidamente o símbolo do estúdio, como Scrat se havia tornado o símbolo do Blue Sky.

"A grande questão era: a Ilumination tinha ainda capacidade para ser original e criativa e engraçada e irreverente fora do universo Minions? Eu tinha fé que sim, mas infelizmente a resposta a esta pergunta é só um “mais ou menos”"

Mas tal como Scrat, tal como tudo o que é popular nesta era moderna, a Ilumination foi demasiado gananciosa, na minha opinião, na capitalização deste extraordinário filão. De repente o mercado encheu-se do merchandising dos Minions, a internet encheu-se de curtas destas deliciosas criaturas e o espólio cinematográfico da Ilumination ficou totalmente centrado nelas. Não é que ‘Despicable Me 2’ (2013) e ‘Minions’ (2015), ambos já criticados em EU SOU CINEMA, não sejam engraçados. São. Mas houve uma excessiva focalização na capacidade cómica dos Minions, desgastando assim o espectador. E em ‘Minions’, estas criaturas foram quase banalizadas, já que o filme se limita a mostrá-los de todas as formas e feitios mas sem muita consideração por aquilo que os tornava inicialmente especiais. Tudo isto fez-me perder a excitação pela Ilumination, ainda para mais que ‘Despicable Me 3’ e ‘Minions 2’ foram já anunciados.

Mas, felizmente, a Ilumination percebeu que para sobreviver criativamente tinha de conceber produtos originais, algo que já não acontecia desde 2012 e ‘The Lorax’. Assim, 2016 assistiu ao lançamento não de um, mas de dois filmes (a primeira vez que o estúdio lançou dois filmes num ano) baseados em conceitos originais: ‘The Secret Life of Pets’ no Verão e ‘Sing’ no Natal. Eu perdi ambos estes filmes no cinema por vicissitudes da vida de jovem pai, mas ontem à noite aconcheguei-me no sofá com a minha esposa para ver o primeiro. A grande questão era: a Ilumination tinha ainda capacidade para ser original e criativa e engraçada e irreverente fora do universo Minions? Eu tinha fé que sim, mas infelizmente a resposta a esta pergunta é só um “mais ou menos”.

Co-realizado por Chris Reanuld (o realizador-líder do estúdio dos dois filmes de ‘Despicable Me’ e ‘The Lorax’) e Yarrow Cheney (no seu primeiro filme após uma série de curtas)) ‘The Secret Life of Pets’ fez um furor enorme na internet aquando do lançamento do trailer, em meados de 2015. Foi um dos trailers mais vistos do ano e com razão. Com a definida imagem cheia de cor que caracteriza os filmes do estúdio, as cenas mostravam uma série de animais de estimação em pequenas acções humorísticas nas suas casas após os donos saírem para o trabalho. Estas cenas estavam imbuídas de um humor simples mas eficaz, enraizadas no lugar-comum de cada animal mas com uma pontinha de irreverência deliciosa, tornando-se ainda mais hilariantes por serem inesperadas. Aliás, esta palavra “inesperado” é para mim importante quando se fala dos filmes deste estúdio. Um grande erro em filmes anteriores foi mostrar os melhores momentos de humor nos trailers e não deixar nada para as salas de cinema. Todas (mas mesmo todas) as cenas dos Minions em ‘Despicable Me 2’ já tinham sido vistas nos trailers do filme, e praticamente todos os grandes momentos cómicos de ‘Minions’ foram revelados ao longo do ano que antecedeu a sua estreia nos inúmeros trailers, clips e spots promocionais que foram sendo lançados. Quando cheguei à sala de cinema para ver ‘Minions’ não me ri uma única vez. Já tinha visto tudo na internet.

"Nota-se imediatamente que a animação é soberba, com traços de incrível definição e cores fortes para apelar ao público jovem (...). Os planos estilizados de Nova Iorque (...) são algo de muito especial, e outro grande destaque tem de ser dado à superfície de cada animal. Quase que conseguimos sentir o calor e o macio dos pêlos só com os olhos (...). É raro ver animação animal melhor do que esta."

Não devo ter sido o único a notar isso porque saltava à vista que os trailers de ‘The Secret Life of Pets’ ofereciam-nos estas cenas, claramente introdutórias, mas não nos revelaram nada, absolutamente nada, sobre a história subsequente. E ainda bem. De facto, os primeiros dez minutos do filme, ao sabor do tema ‘Welcome to New York’ de Taylor Swift, enquadram-nos a esta cidade e aos animais de estimação de um bairro suburbano com vistas para Manhattan, precisamente com essas cenas que foram vistas e revistas nos trailers. Nota-se imediatamente que a animação é soberba, com traços de incrível definição e cores fortes para apelar ao público jovem (mas não tão artificiais que fiquem kitsch). Os planos estilizados de Nova Iorque neste padrão tão típico da Ilumination são algo de muito, muito especial, e outro grande destaque tem de ser dado à superfície de cada animal. Quase que conseguimos sentir o calor e o macio dos pêlos só com os olhos, e a forma como se movimentam é incrível. É raro ver animação animal melhor do que esta.

O filme centra-se em Max (voz do comediante Louis C.K.), outrora um cãozinho abandonado que agora vive uma vida confortável com Katie (voz de Ellie Kemper) a sua jovem dona. Os momentos com ela são, na sua perspectiva, fantásticos, mas depois há todo o resto do dia, em que fica perto da porta de casa à espera que ela regresse. Nesses períodos, Max vai interagindo com os restantes animais de estimação dos outros apartamentos. Há a fofa cadela Gidget (voz de Jenny Slate), a vizinha do lado que tem uma paixão por Max; a pesadona gata Chloe (voz de Lake Bell) que proporciona um típico (mas nunca enfadonho) humor felino; o patusco bulldog Mel (voz de Bobby Moynihan); o salsicha Buddy (voz de Hannibal Buress); o canário Sweetpea; o despassarado chiwawa Peppy, um hamster, uma ave (voz de Albert Brooks) e claro o cão que ouve heavy metal (aquele que mais nos fez rir no trailer).

Os momentos em que desfrutamos da introdução destas personagens são algo fantasiosos, no sentido em que neste universo fílmico não se vê um único humano neste prédio durante o dia, e os animais entram livremente nas casas uns dos outros, inclusive até pelas portas da rua (não estão fechadas à chave, pergunto eu?!). Mas tudo bem. O filme concebe este universo como uma simpática fantasia animal, fazendo lembrar os singelos filmes da Disney de outrora (o tom despreocupado dos anos oitenta vem mais do que uma vez à memória). Portanto tudo o que o espectador (não importa a idade) tem de fazer é relaxar na sua cadeira e descontrair-se com estes apelativos momentos de humor. O problema é que, obviamente, o filme precisa de ter uma ‘aventura’ para existir, e esta magia inicial, tão bem captada, é de certa forma perdida. Ou melhor, nunca consegue ser tão fascinante dos dez minutos de filme em diante, e isso estraga a qualidade da ilusão.

"O filme concebe uma simpática fantasia animal, fazendo lembrar os singelos filmes da Disney de outrora (...). Tudo o que o espectador (...) tem de fazer é relaxar e descontrair-se com estes apelativos momentos de humor. O problema é que o filme precisa de ter uma ‘aventura’, e esta magia inicial, tão bem captada, é de certa forma perdida. Ou melhor, nunca consegue ser tão fascinante dos dez minutos de filme em diante, e isso estraga a qualidade da ilusão."

No final deste dia Katie chega a casa com uma grande surpresa para Max: adoptou mais um cachorro abandonado, o enorme Duke (voz de Eric Stonestreet; o Cameron de ‘Modern Family’), cujo pêlo está animado de forma divinal. Imediatamente uma rivalidade pelo afecto de Katie se gera entre os dois cães, cada um temendo ser abandonado em prol do outro. No dia seguinte, quando são levados a passear ao parque juntamente com os outros cães pelo ‘dog walker’ do prédio (uma figura tipicamente americana), a sua rivalidade faz com que cada um tente que o outro seja abandonado. O resultado é que, após um encontro com uns gatos tresloucados num beco, ambos ficam perdidos.

A partir daqui o filme transforma-se numa grande odisseia, de contornos bastante previsíveis, em que os dois cães têm lentamente de pôr as suas divergências de lado para juntos encontrarem o caminho para casa. A sua aventura pela cidade de Nova Iorque inclui constantes encontros com os ‘dog catchers’, os funcionários do canil (outra figura típica do filme-de-cães americano) e com um bando de animais revolucionários que procura a independência dos ‘donos opressores’ e não vê com bons olhos os animais domesticados. Esta pandilha, que inclui um engraçado porco tatuado, é liderada pelo algo psicótico coelho Snowball (voz de Kevin Heart, que como de costume exagera). Esta personagem para mim não é tão engraçada como o filme pretende que seja (muito do humor das cenas depende dela) porque está construída de forma bastante semelhante a outro ‘vilão’ do estúdio: o pinto em ‘Hop’. Ao barulho juntam-se ainda todos os animais do prédio que, incentivados pela cadela Gidget, decidem sair do conforto das suas casas para procurar Max e Duke. Para isso precisam de um líder, que encontram na forma de um velho cão em cadeira de rodas, algo gaga, chamado Pops (voz da lenda do ‘Saturday Night Live’, Dana Carvey).

Em ritmo animado e acelerado pela cidade, e culminando na ponte de Brooklin, todos estes grupos vão entrecruzar-se, sem realmente grande propósito a não ser andarem uns atrás dos outros. Pelo caminho, obviamente, cada cão vai aprender um bocadinho mais sobre si próprio para que uma mini-moral possa passar para o espectador, antes do inevitável regresso a casa e o ‘tudo está bem quando acaba bem’.

"A favor do filme está a sua belíssima animação, a sua boa disposição, os seus simpáticos momentos de humor (...), o seu bom ritmo (...) e, tendo em conta o produto que quer ser, a sua estrutura contida. (...) Na realidade, o filme não perde muito tempo com detalhes supérfluos e não se importa nada de ter apenas 80 min (...) Mas por ser assim, no fundo, no fundo, o filme acaba por ser totalmente anónimo e aleatório na sua aventura e na sua história"

A favor do filme está a sua belíssima animação, a sua boa disposição, os seus simpáticos momentos de humor (as maiores gargalhadas são as do trailer, mas há outros momentos que nos arrancam um sorriso não forçado), o seu bom ritmo (exacerbado por uma banda sonora jazzística da autoria do grande Alexandre Desplat) e, tendo em conta o produto que quer ser, a sua estrutura contida. O filme ganha pontos ao desenrolar-se ao longo de um único dia e pelo facto de sentirmos (e observarmos no céu) o passar do tempo, neste contra relógio para encontrar o caminho para casa antes que os donos regressem dos seus trabalhos. Na realidade, o filme não perde muito tempo com detalhes supérfluos e não se importa nada de ter apenas 80 minutos. Oferece-nos a sua aventura com despreocupação, não estica as cenas desnecessariamente, avança para a cena seguinte mal estabelece o seu propósito e manda a sua piada, e não faz trinta por uma linha para nos dar uma moral que, pela própria definição destes filmes, é a lenga-lenga simples, apesar de sincera, que todos conhecemos.

Mas depois há o reverso da medalha. Por ser assim, no fundo, no fundo, no fundo, o filme acaba por ser totalmente anónimo e aleatório na sua aventura e na sua história. Já referenciei que o filme me fez lembrar aqueles filmes da Disney dos anos 1980 como ‘Oliver & Company’ (1988), ou em alternativa aqueles episódios especiais de uma hora das nossas séries de desenhos animados preferidos dos anos 1980 e 1990. Tem aquela aura de uma aventura que é apenas um veículo para desfrutarmos das personagens e nada mais. Se acontecesse o que acontece neste filme ou algo de diferente não faria grande diferença para a sensação com que o espectador sai da sala no final. O objectivo do filme não está propriamente na história, mas no ambiente (visual e humorístico) que se cria.

Por isso é que não é nada surpreendente que ‘The Secret Life of Pets 2’ já tenha data marcada para 2019. Podemos reciclar estas personagens em vinte mil histórias, tal como qualquer personagem de uma série de animação. Mas isso significa também que este primeiro filme não tem grande longevidade. É um daqueles filmes que se desfruta no momento em que se o está a ver, mas passado nem 24 horas já é uma memória indistinta em que nos lembramos das personagens (porque afinal são animaizinhos fofos) mas temos alguma dificuldade em recordar os contornos da história. Lá está, porque a história não é o mais importante. 

"É uma interessante lufada de ar fresco num estilo despreocupado e algo retro, com uma animação de topo e vozes engraçadas, que certamente apelará às crianças (...) Mas no final fica um saborzinho amargo por ser assim tão descartável (...) As personagens são excelentes. A aventura é de segunda categoria. Estava aqui um episódio-piloto para uma grande série do Disney Channel. Não está aqui o próximo grande filão cinematográfico da Ilumination"

Subjacente a todo o filme está, principalmente, uma homenagem sentida aos animais de estimação. Não é uma visão nostálgico-dramática como aquela de ‘Inside Out (2015)’ sobre o crescimento ou de ‘Toy Story 3’ (2010) sobre o amor aos brinquedos. É uma visão humorística mais na linha do primeiro ‘Toy Story’ (1995), em que cada personagem representa um estilo estereotipado de um animal de estimação e o objectivo final é apenas demonstrar o amor dos realizadores (e o nosso) por estes seres. Nunca se enfatiza muito a questão do abandono ou maus-tratos a animais, embora esteja presente na subcorrente emocional da história, porque não é esse tipo de filme. Salienta-se sempre a alegria, o aconchego e as humorísticas peculiaridades de cada animal, e é essa memória que os realizadores querem que levemos connosco. Daí a palavra ‘bicho’ no título português soar bastante mal. ‘Animal de Estimação’ pode ser demasiado grande para um poster, mas faz muito mais sentido.

No final não se pode dizer que ‘The Secret Life of Pets’ seja um grande filme. Não é. Não se compara às outras obras-primas do estúdio, mas por outro lado não tem o tom agastado de ‘Minions’. É uma interessante lufada de ar fresco num estilo despreocupado e algo retro, com uma animação de topo (mesmo!) e vozes talentosas e engraçadas, que certamente apelará às crianças por este mundo fora e originará talvez um aumento de vendas e adopções de cãezinhos de estimação. Ou se não isso, pelo menos de peluches! Mas no final fica um saborzinho amargo na boca por o filme ser assim tão descartável e esquecível, nunca conseguindo realmente fazer jus à sua magnífica construção inicial. As personagens são excelentes. A aventura é de segunda categoria. Ou seja, estava aqui um excelente preâmbulo, um episódio-piloto, para uma grande série do Disney Channel. Não está aqui o próximo grande filão cinematográfico da Ilumination, e lançar filmes como este de três em três anos irá apenas desgastar lentamente o espectador até ao ponto em que ele não ache mais piada a estas criaturas. Como em breve, infelizmente, acontecerá com os Minions… 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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