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Ema

Ano: 2016

Realizador: Kadri Kõusaar

Actores principais: Tiina Mälberg, Andres Tabun, Andres Noormets

Duração: 89 min

Crítica: ‘Ema’ é o meu filme número três do projecto Scope 100, depois do belga ‘Baden Baden’ (que não apreciei) e do grego ‘Suntan’ (que considerei o melhor filme de 2016 até agora). Desta vez este projecto, que seleccionou cem cinéfilos não profissionais portugueses para ver, criticar e discutir sete filmes europeus de forma a escolher aquele que será lançado comercialmente em Portugal em 2017, levou-nos até à Estónia.

Por acaso, o ano passado estreei-me no cinema estónio quando vi e critiquei ‘Mandariinid’ (em português ‘Tangerinas’) de Zaza Urushadze. Achei-o um filme até com os seus pontos de interesse na actuação e na realização, mas que infelizmente se acomodava na sua temática socio-política extremamente batida em vez de explorar o potencial das suas situações e personagens. ‘Ema’ (internacionalmente distribuído com o título de ‘Mother’) tem uma falha conceptual semelhante. O filme até tem uma história de base relativamente interessante e uma actuação central respeitável, mas todo o potencial do seu enquadramento nunca é devidamente explorado e o que sobra é algo um pouco frouxo e descoordenado.

"O filme até tem uma história de base relativamente interessante e uma actuação central respeitável, mas todo o potencial do seu enquadramento nunca é devidamente explorado e o que sobra é algo um pouco frouxo e descoordenado."

Tal como os outros dois filmes que já vi no âmbito deste projecto, ‘Ema’ é de mais um realizador com menos de 40 anos, neste caso a estónia Kadri Kõusaar. E tal como muitos realizadores europeus, as suas obras são feitas quase exclusivamente para o circuito de festivais, e só depois é que, muito lentamente, e se conseguirem distribuição, chegam timidamente aos mercados comerciais. Neste ritmo de criação cinematográfica tão diferente do estilo americano, ‘Ema’ chega como a terceira longa-metragem de Kõusaar, depois de ‘Magnus’ (2007) que lhe deu nome por ter sido seleccionada para a secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, e de ‘The Arbiter’ (2013), que tanto quanto consigo apurar não teve críticas muito favoráveis. Em ‘Ema’, a temática e o enquadramento soam bem para o tornar mais um habitué de festivais (nem de propósito foi lançado internacionalmente no Tribeca), mas a consumação da obra fica muito aquém das expectativas e dificilmente, creio eu, ganhará algum prémio.

O enquadramento de ‘Ema’ é bastante simples. Nas cenas iniciais seguimos a “ema” (mãe em estónio), Elsa, enquanto ela compra fruta no mercado e depois ruma a casa, onde se dedica às tarefas domésticas com uma assertividade mecânica mas cuidadosa. Tiina Mälberg interpreta Elsa com segurança na sua insegurança, ou seja, representa um papel de uma personagem que representa um papel do qual não está totalmente convencida, apesar de o tentar encarnar com todas as suas forças. Isso explica alguma ambiguidade que a personagem tem, entre uma mãe coragem e uma mulher interesseira, com um levo travo de instabilidade emocional. Pois Elsa tem um fardo demasiado grande para suportar. O seu filho Lauri (Siim Maaten) está em coma há já algum tempo, vítima de um tiroteio misterioso, e permanece deitado ligado a tubos no seu quarto no andar de cima. É ela que tem de constantemente cuidar dele, visto que o seu marido é bastante alheado, preferindo passar os dias com os amigos e a cuidar do jardim, e as noites a ver televisão.

O filme praticamente não abandona o espaço da casa, e entrecorta as cenas em que Elsa faz a sua rotina mecânica com um sem número de visitas que constantemente batem à porta. Aparentemente, toda a gente na cidade quer visitar o acamado Lauri, um popular professor de liceu. Só poucos, como a estudante que tem uma paixão por ele, o fazem por altruísmo. Todos os restantes estão muito mais preocupados em encontrar (várias personagens vasculham o seu quarto) a enorme quantia de dinheiro, quase 80 mil euros, que Lauri havia levantado aos poucos da sua conta pouco antes de ser atacado. Numa sucessão cíclica, o seu melhor amigo (interpretado por Jaak Prints), a sua namorada (interpretada por Rea Lest), o polícia que investiga o caso (o patusco Jaan Pehk) e outras personagens, visitam a casa e monologam com Lauri quando estão sozinhos no seu quarto, sob o olhar e os ouvidos atentos da mãe, ela própria com segredos a esconder. Logo nas primeiras cenas descobrimos que está a ter um caso com o director da escola (interpretado por Andres Noormets), e que ansiava fugir com ele para longe, algo que já não pode fazer por estar presa na casa a cuidar de Lauri, cada vez mais por obrigação do que por afecto… Cada personagem sabe mais do que aquilo do que conta, obviamente, e a história é revelada aos poucos, até que lentamente, passando por algumas falsas pistas, vamos reconstituindo o que aconteceu na noite fatídica em que Lauri foi alvejado.

"O filme não é muito justo com o espectador (...) As personagens são artificialmente elusivas quando não têm necessidade disso, propositadamente sonegando informação só para o espectador não a ouvir antes do final"

Tal como em muitos filmes, esta breve descrição (a história não sai disto) é muito mais interessante do que ‘Ema’ acaba por ser. Este é uma daquelas obras cujo interesse assenta quase exclusivamente no seu segredo, mas esse fardo acaba por ser demasiado grande para a fraca construção e a pobre solução que o filme apresenta conseguirem suportar. O filme ainda consegue captar (e bem) o interesse do espectador quando ele ainda se está a enquadrar na trama, precisamente pelo potencial que se sente que nela existe. Mas quando o novelo se começa a desfiar, assim também o interesse do espectador se esfuma, porque não há a capacidade de levar a bom porto tudo o que foi prometido.

Há três aspectos para mim que fazem ‘Ema’ falhar. O primeiro é que o filme não é muito justo com o espectador. Todas as personagens dos filmes envolvendo mistérios sabem mais do que aquilo que contam, é claro, mas porque o escolhem conscientemente fazer, porque se estão a esconder da polícia ou dos detectives ou dos amigos. Não é bem isso que acontece em ‘Ema’. Em ‘Ema’ as personagens são artificialmente elusivas quando não têm necessidade disso, propositadamente sonegando informação só para o espectador não a ouvir antes do final. Isto é claríssimo nas cenas em que cada personagem está sozinha no quarto de Lauri, aproveitando o facto de ele estar em coma e de não poder responder para desabafarem um pouco. Mas só desabafam às pinguinhas, vaga e incredívelmente, o que passado um bocado se torna extremamente enervante. Não aquele bom enervante de um excitante whodunit, mas o mau enervante de um thriller barato. E o mesmo se passa nas várias cenas de Elsa com o seu amante. A filmagem leva-nos até à sua intimidade, onde supostamente não têm segredos um do outro. Mas é como se tivessem, porque também eles falam em enigmas, só revelando ao espectador a natureza da sua relação a conta-gotas.

O segundo aspecto é que o estilo visual do filme acaba por ser pouco inventivo e desinteressante. A culpa, poder-se-á dizer, é da natureza do próprio argumento, que não sai de um conjunto limitado de espaços. Mas isso nunca impediu grandes mestres realizadores, directores de fotografia ou editores de imbuírem as suas obras de energia e ritmo intrínseco, mesmo sem mexer a câmara, mesmo filmando sempre na mesma divisão. A realização de Kadri Kõusaar é morna e sem grande sabor, a juntar a um singelo design de produção. Há uma uniformidade enfadonha em toda a filmagem. A história é simplesmente contada. É pouco vivida quer pelos intervenientes, quer pelo espectador. Poderá representar o modo de vida alheado das pacatas cidades pequenas da Estónia? Não faço ideia. Mas como obra para um público universal deixa algo a desejar, principalmente porque o tom é também continuamente indeciso. Até mesmo ao final Kõusaar nunca tem bem a certeza se está a filmar um drama, uma comédia de costumes ou uma comédia negra. Leveza cómica e intenso dramatismo conseguem andar de mão dada, obviamente, mas não em ‘Ema’ onde o primeiro apenas tira credibilidade ao segundo.

"A realização é morna e sem grande sabor, a juntar a um singelo design de produção. Há uma uniformidade enfadonha em toda a filmagem. A história é simplesmente contada. É pouco vivida quer pelos intervenientes, quer pelo espectador (...)  O tom é também continuamente indeciso. Até mesmo ao final Kõusaar nunca tem bem a certeza se está a filmar um drama, uma comédia de costumes ou uma comédia negra"

E este último ponto é mais premente porque o terceiro aspecto que faz ‘Ema' falhar é a solução final. Um whodunit só é tão bom quanto a sua construção ou a sua solução. Uma boa construção de personagens pode desculpar uma fraca solução e vice-versa. Em ‘Ema’ ambos os departamentos falham. A personagem que dá título ao filme, obviamente, será a mais explorada, com algumas nuances emocionais interessantes, mas isso não consegue ser de todo suficiente. Precisamente porque, muito embora inicialmente o filme mantenha o nosso interesse porque vai abordando, mesmo que de forma ténue (só raramente aprofunda), as consequências emocionais da condição em que Elsa se vê forçada a viver, quase paradoxalmente decide não prosseguir com esse rumo.

Em vez disso, decide jogar todas as suas cartas no mistério que envolve o ataque a Lauri, mas falha redondamente. Não há ramificações suficientes, principalmente ao nível das personagens, para que nos mantenhamos interessados, ou que nos embrenhemos realmente nesse mistério. E a solução surge, supostamente, como a grande revelação na última cena, para o filme acabar com um estrondo. Mas é um estrondo em surdina, não só porque o filme quer ser subtil na forma como supostamente choca o espectador, mas principalmente porque por esta altura a solução não é tão inesperada nem tão intensamente dramática quanto o filme faz querer. Aliás, é até forçada e incongruente. Haveria cem mil maneiras para o culpado obter o que queria, até noutras circunstâncias. Mas escolheu aquela. Não faz grande sentido. Ou melhor faz, porque faz tudo parte do jogo injusto que a realizadora quer jogar com o público. Contudo, o espectador mais exigente rapidamente descortinará o bluff

‘Ema’ é um daqueles filmes que soa bem no papel quando o argumento foi terminado, mas cuja materialização fílmica precisava de muito mais maturidade e profundidade para resultar. Se em vez de 85 minutos tivesse cerca de uma hora, bem que poderia ser um episódio mediano de uma dessas séries de investigação criminal que enchem as nossas televisões por cabo. Tem muito mais esse aspecto efémero de episódio que se vê no sofá do que de uma longa-metragem vista numa sala de cinema. A pequena ideia que explora é interessante, repito, e a forma como inicialmente se constrói é cativante. Mas passado pouco tempo o filme fica preso num círculo moroso, marcando passo até à revelação, sem mais valências, sem grande estrondo, sem grande impacto ou, em alternativa, sem pungência.

"‘Se em vez de 85 minutos tivesse cerca de uma hora, bem que poderia ser um episódio mediano de uma série de investigação criminal (...) mas qualquer episódio de Mentalista, Castle, CSI, Bones, Inesquecível dedica mais tempo às personagens centrais, aos suspeitos e tem soluções mais inventivas.‘Ema’ seria uma obra interessante talvez como telefilme há uns bons trinta anos. Todos sabemos que o leste da Europa anda sempre um bocadinho atrasado. Mas não assim tanto…"

Talvez com uma segunda visualização, já sabendo a solução, o espectador consiga vislumbrar outros pormenores que tornam a história mais interessante. Mas realmente, quem é que queria ver este filme pela segunda vez? O seu interesse esgota-se com a solução e o caminho que levou até ela não foi suficientemente intenso nem memorável, embora haja essa tentativa dramática (afinal, deram ao filme o título de ‘Mãe’!). Fica o sabor amargo de que o filme poderia ter feito muito mais, poderia ter tido muito mais. Qualquer episódio hoje em dia de Mentalista, Castle, CSI, Bones, Inesquecível dedica mais tempo às personagens centrais, aos suspeitos e tem soluções mais inventivas. ‘Ema’ seria uma obra interessante talvez como telefilme há uns bons trinta anos. Todos sabemos que o leste da Europa anda sempre um bocadinho atrasado. Mas não assim tanto… Resta o esboço de uma boa interpretação por Tiina Mälberg e aquela excitaçãozinha miúda quando achamos que o filme tinha imenso potencial, seguido da decepção quando descobrimos que esse potencial nunca se irá materializar…

Para terminar um conselho. Se centram o filme à volta de um mistério, não publiquem uma imagem promocional de uma das personagens a ser presa! É um pouco patético que o tenham feito. Mas, não se preocupe leitor, nesta página, pelo menos, não a vê… 


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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