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The Fighter

Ano: 2010

Realizador: David O. Russell

Actores principais: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams

Duração: 116 min

Crítica: De quando em quando Hollywood lança filmes maus. Bem maus. Isto obviamente não é novidade para ninguém, nem é surpreendente. O problema é que de quando em quando Hollywood lança filmes maus, bem maus, mas que são aclamados como a oitava maravilha da humanidade. E isso é que, para mim, é totalmente incompreensível. ‘The Fighter’, a obra de 2010 que relançou a carreira do realizador David O. Russell, é um desses filmes.

‘The Fighter’ obteve sete (sete!) nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme (!!!) e ganhou dois, para Christian Bale e Melissa Leo nas respectivas categorias de actuação secundária. Ganhou exactamente as mesmas categorias num total de seis nomeações nos Globos de Ouro. Ganhou filme do ano na gala do American Film Institute. E tem uma pontuação total que desde o seu lançamento ronda os 8 (em 10 pontos) no imdb. Como? Quando? E mais importante de tudo, porquê? Estão a gozar com a minha cara?! É brincadeira, só pode! Às vezes penso que no início de 2011 não vi o mesmo filme que todos os aclamados críticos ou que a maior parte do grande público. Mas depois penso melhor e creio que sim, vi. Eu é que há muito não me deixo levar por estas obras, especialmente quando elas são feitas com tamanha falta de gosto e cunho pessoal, apostando em vez disso em todo um corrido de lugares comuns que caracterizam estes filmes inspiracionais cor-de-rosa, mascarados de pseudo-dramas baseados em histórias verídicas, que são lançados ano após ano na época dos Óscares.

Enerva-me, como já escrevi noutras críticas, que estas condições só por si automaticamente se traduzam, na perspectiva de alguns, num bom filme. O filme pode ter estas características e ser bom, claro. Mas não é obrigatório. Porque o resto também tem de contar. Mas filmes como ‘The Fighter’ não têm o resto, e vivem da reputação do seu tema. Mas caramba, há filmes e filmes sobre estes ‘temas socialmente relevantes’. Porquê uma chuva de prémios para ‘The Fighter’ se não tem absolutamente nada que já não se tenha visto antes, e melhor? Aliás, em mais de metade do filme, não se passa praticamente nada, apenas uma sucessão de cenas que soam bem mas cujo enfoque está, na minha perspectiva, em todos os aspectos errados. Claro que ao dizer isto estou a responder à minha própria pergunta. É precisamente porque se processa assim que o filme se tornou um sucesso para ‘as massas’ e o filho pródigo de uma Academia sedenta de produtos facilmente digeríveis que possam vender muitos bilhetinhos e cujas frases inspiracionais possam dar memes e likes no Facebook.

‘The Fighter’ conta uma história tipicamente americana, feita para que o público se sinta bem consigo próprio, não só porque a história é supostamente inspiradora, mas também porque gostar do filme demonstra, o próprio filme o insinua várias vezes, que o espectador tem uma grande sensibilidade para com as questões sociais. Mas esmiuçado devidamente, é paradoxal notar que todos os problemas sociais que supostamente retrata são convenientemente empurrados para um canto e arrumados confortavelmente num pacote ‘bonito’ de clichés e situações de comicidade ligeira. Dizer "baseado numa história verídica" (yupiiii, fixe para ele) não pode ser desculpa suficiente para levar avante um filme que faz o retrato de problemas sérios, como a dependência de drogas, num tom levíssimo, displicente, feel good, ‘tudo esta bem quando acaba bem’, mas que depois exige ser tomado como um drama pungente, só porque tem uma história mais ou menos parecida com uma que realmente aconteceu e as personagens têm nomes de pessoas reais.

A história de ‘The Fighter’ segue dois irmãos boxeurs no Massachusetts dos anos 1990, num estilo ‘de zero a herói, de volta a zero, de volta a herói’ (‘Rocky’ o modelo mais que óbvio), ao longo de uma longa, muito longa, hora e três quartos. Um dos irmãos, Dicky (Christian Bale naquela que é a verdadeira grande interpretação deste filme) foi famoso no passado graças a um grande combate; um daqueles combates de uma vida que ele não se cansa de contar e recontar a quem o queira ouvir. Mas isso foi já há muitos anos, e desde então Dicky caiu nas malhas da dependência do crack e arrasta-se pelas ruas da cidade a sonhar com um regresso. A televisão HBO segue-o com câmaras, ostensivamente a fazer um documentário sobre o seu regresso aos ringues, mas que na realidade, sem Dick saber, é sobre a sua dependência das drogas (um pequeno, mas por vezes deslocado, pedaço de reality TV da década de 2000 em plenos anos 1990).

Porque é o famoso membro da família, Dicky também treina o seu irmão mais novo, Mickey (Mark Wahlberg no seu modo clássico, cabedal incluído), que tem grande potencial e poderá ter um futuro no boxe. Mas a sua grande oportunidade nunca chega, porque Dicky e a mãe de ambos (Melissa Leo) gerem muito mal a sua carreira, escolhendo todos os combates errados, num misto de ambição desmedida com o prazer macabro de usar Mickey para os seus próprios proveitos e nunca o ver ultrapassar a memória do irmão. Portanto é só quando Mickey conhece Charlene num bar (a genial Amy Adams, não me canso de dizer, uma das grandes actrizes da nossa geração) e ambos iniciam uma relação que, inspirado por ela e após mais um combate que dá para o torto, decide finalmente quebrar os laços com a família e procurar um novo rumo para a sua carreira. 

Enquanto Dicky é preso por causa das drogas, Mickey inicia uma ascensão meteórica nos ringues, acentuando o contraste entre ambos. Mesmo assim Mickey vai permanecer dividido. Por uma lado há a sua necessidade de ganhar, de singrar no boxe, alimentada pela sua paixão por Charlene, que o inspira a ser melhor, mas que contudo não está a ser bem aceite pelo resto da sua família. Por outro, apesar de tudo o que lhe fizeram, há a sua devoção para com a família e para com o seu irmão mais velho, e a obrigação que sente de os ajudar no que puder. No fundo, sabe que provavelmente estas duas vertentes do seu afecto nunca serão compatíveis. Mas terá que escolher que rumo tomar, já que o combate para o título de campeão está mesmo ao virar da esquina, precisamente na mesma altura em que o seu irmão está prestes a sair da cadeia. Livre das drogas e redimido (Curou-se na prisão?! Mesmo?! Incrível), Dickey parece estar preparado para enterrar o passado e verdadeiramente ajudar Mickey até ao ambicionado título…

Resumido assim, o filme parece muito, mas muito mais interessante do que aquilo que realmente é. A forma como decide contar a sua história e o tom que assume para o fazer são, na minha perspectiva, os elementos que deitam tudo a perder. Conscientemente, o filme decide não explorar o potencial das cenas de boxe, que são poucas e pouco interessantes. Como achar interessante cenas cíclicas que se processam todas da mesma maneira; ou Mickey perde em grande (os seus primeiros combates, treinado pela família) ou ganha em grande (com Charlene como musa)?! Como achar interessante combates e mais combates em que, sempre da mesma forma, Mickey leva literalmente uma coça durante dez rounds e depois ganha com um único soco, o do KO?! Como achar interessante um conjunto de combates em que já se sabe, no início, se Mickey os vai ganhar ou perder, simplesmente pela forma reveladora como o realizador constrói e enquadra as cenas?

Mas se o filme não se apoia na excitação do boxe (mais valia), porque tem ambições artísticas e dramáticas, então o que e que sobra? A resposta é simples: o drama familiar! O filme quer ser suficientemente sério para ser tido como um grande drama familiar da América ‘dos bairros’ e narrar as problemáticas de gente pobre, sujeita às malhas da droga. Mas o aplauso da crítica por estes motivos não abafa o facto de que, de novo, é tudo só fachada. Neste filme, tudo está cuidadosamente feito para agradar a um público americanizado de media-alta sociedade, com uma visão embelezada da pobreza onde a comédia de costume aligeira sempre o tom e torna tudo muito engraçadinho. Veja-se por exemplo a cena em que as sete ou oito irmãs de Mickey e Dickey, mais a sua mãe, tentam literalmente linchar Charlene. Quantas comédias ‘de bairro’ dos irmãos Wayans ou de Will Ferrell não têm uma cena igualzinha? Algo parecido pode ter acontecido realmente mas reproduzida assim toma exageradas proporções caricatas. Se isto fosse uma comédia todos achariam ofensivo. Se isto fosse um drama de afro-americanos todos achariam ofensivo. Como a caricatura é feita aos caucasianos devotamente católicos da classe media-baixa  dos arredores de Boston, então já é aceitável como um escape cómico (e realista, pretendem dizer) de um drama sério. Ridículo.

Por isso mesmo é que acho que o Óscar de Melhor Actriz Secundária foi dado à pessoa errada. É inacreditável que tenha sido Melissa Leo (o que anda a fazer hoje?!) a levá-lo para casa quando Amy Adams não só entra no mesmo filme como também estava nomeada. Um ano antes a Academia tinha dado um também imerecido Óscar a Sandra Bullock por ‘The Blind Side’, praticamente pelos mesmos motivos. O que Melissa Leo faz é representar aquilo que se espera do estereótipo da sua personagem. Fala alto, rapidamente, com o sotaque característico de Boston, debitando discurso atrás de discurso que são escritos para demonstrar a sua força e esperteza saloia, ao mesmo tempo que têm uma ponta de comicidade para o público dar um risinho no final. Mas mais uma vez é tudo superficial. Leo não rouba as cenas pelo poder da sua interpretação. As cenas são-lhe totalmente oferecidas quer pelo argumentista quer pelo realizador que a foca e a deixa falar muito mais alto que os outros… Já Adams pode não encher o ecrã com o seu character acting, mas a sua interpretação é muito mais poderosa na forma como é contida e, especialmente, real. Aqui prova mais uma vez como é uma grande actriz, e não precisa de roubar cenas para o demonstrar. Adams passou muitos anos em filmes menores e subiu a custo em Hollywood ao contrário de outras como Jennifer Lawrence (que teve logo o carinho dos média e foi levada ao colo até à estatueta). Mas após cinco nomeações na última década (não se nota, mas já tem 42 anos) já era tempo de compensarem Adams, especialmente após esta desfeita em ‘The Fighter’.

Como escrevi na minha crítica a ‘American Hustle’, houve uma altura em que David O. Russell prometia ser um dos nomes a ter em conta no novo cinema americano do seculo XXI. Após algumas comédias menores, o seu primeiro grande sucesso chegou com ‘Three Kings’ (1999), ainda para mim o seu melhor filme, uma grande alegoria que augurava um bom futuro para o seu realizador. Mas foram precisos cinco anos para regressar com ‘I Heart Huckabees’ (2004), um fiasco que, como escrevi “pareceu dar a machadada final numa carreira que realmente nunca tinha despoletado”. Seis anos depois, Russel ainda não tinha voltado a realizar, mas quando finalmente o fez tudo mudou. Darren Aronofsky abandonou o projecto de ‘The Fighter’ para filmar ‘Black Swan’ e aparentemente a sugestão de contratar Russell proveio de Christian Bale. E Russell pagou bem o favor, abdicando do seu subtil olhar crítico e transformando-se, como escrevi, num realizador que se vendeu “aos valores comerciais do filme social confortável e estereotipado, feito única e exclusivamente para ganhar prémios e para agradar a críticos americanos.” 

Seguiu-se uma incrível popularidade e um mar de nomeações para os Óscares com ‘Silver Linnings Playbook’ (2012), ‘American Hustle’ (2013) e mais recentemente ‘Joy’ - a trilogia Bradley Cooper / Jennifer Lawrence. Mas como escrevi na critica de ‘American Hustle’ são filmes que, na minha modesta opinião, “foram mediatizados muito para além da sua verdadeira qualidade (…), que têm em excesso daquilo que apelido de ‘cenas de trailer’ (para exibir as personagens e o seu papel com planos e frases bombásticos que ficam na retina e no ouvido mas que são completamente ocos), e que se apoiam no seu espalhafato visual, na qualidade das suas interpretações (que admita-se, são de qualidade), e no seu tema e mediatismo para ter sucesso, quando a história, e a maneira como ela é dirigida, é morna e sem sabor.”

‘The Fighter’ é precisamente isto. Foi feito para que os americanos se sintam bem consigo próprios, se sintam felizes com a sua grande consciência social, e acima de tudo, para que continuem a acreditar na ilusão que o cinema proporciona. A ilusão do sonho americano. A ilusão de que uma pessoa má se pode sempre, sempre, redimir. A ilusão de que estar nas malhar da droga nunca é assim tão mal quanto isso e que a cura é facilmente obtida. A ilusão de que um drama social pouco mais é do que uma carrada de lugares comuns que podem facilmente ser ditos a choramingar no sofá da Oprah. A ilusão de que um lutador de boxe a perder fortemente a meio de um combate pode sempre arranjar forças para a reviravolta graças ao poder do seu amor e um discurso inspiracional entre rounds (volta ‘Rocky’ estás perdoado!). Eu tenho a certeza que o coitado do adversário que não fez mal a ninguém (a não ser, claro, ser o adversário do herói), tem também uma namorada à espera no balneário e também ouviu um discurso inspirador do seu treinador. Mas isso não lhe dá o direito de ganhar, só porque o filme está a seguir o lutador do canto oposto… Num filme supostamente tão consciencioso, está aqui um grande exemplo de justiça social…

Detestei ‘The Fighter’ como filme. Não dá nada. Não é nada. A Academia e todos os críticos que o aplaudiram deviam ter vergonha na cara. Ou então deviam explicar-me a coisa muito bem explicadinha porque eu, sinceramente, não percebo. Mas eu sou casmurro.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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