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La La Land

Ano: 2016

Realizador: Damien Chazelle

Actores principais: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt

Duração: 128 min

Crítica: ‘La La Land’. O filme de que toda a gente está a falar. O filme que toda a gente está a ver. O filme que tem estado a arrebatar tudo o que é cerimónias de prémios mais comerciais: ganhou 7 Globos de Ouro, 5 BAFTA e está nomeado para 14 Óscares (dos quais provavelmente vai ganhar a grande maioria). Eu por norma desconfio destes filmes-Óscares porque a maior parte são uma decepção para o cinéfilo dedicado, e a excitação construída à volta deles é geralmente uma “moda” fortemente baseada em marketing (caramba, até ‘Slumdog Millionaire’ ganhou 8 Óscares!). Mas ‘La La Land’, desde o primeiro trailer, sempre pareceu especial. E de facto, após meses de espera, e depois de tudo o que já foi dito e escrito sobre ele, no passado sábado à noite, numa sala apinhada, consegui comprovar duas coisas. A primeira é que ‘La La Land’ não é uma obra-prima, mas está lá quase, quase, quase (há dois pontos que para mim estragam a experiência, mas já lá chegarei). A segunda é que o vulgar crítico profissional de cinema demonstra, mais uma vez, uma gigantesca falta de conhecimento da história do cinema, e isso enjoa-me até ao tutano.

Que o público em geral veja ‘La La Land’ e não o perceba, ou melhor, não o aprecie, eu compreendo, porque não é o seu género de filme (muito pelo contrário). A maior parte das pessoas não aprecia musicais. A maior parte das pessoas não vê musicais, e ainda menos conhece os musicais clássicos, que há muito desapareceram das produções de Hollywood. Mas toda a gente foi ver ‘La La Land’ simplesmente porque está a ganhar prémios, porque toda a gente gosta de dizer que “já viu” o filme que está a ganhar prémios. Durante a sessão, inúmeros foram os comentários de gozo, incredulidade, desespero e pleno desdém que ouvi de outros membros da assistência, novos e velhos. “Isto nunca mais acaba?!”. “Vão cantar outra vez?!”. “Que porcaria!”. Mas tudo bem. Gostos são gostos e não se discutem, mas é importante salientar que ‘La La Land’, pela sua própria definição, não é um filme que irá ser apreciado nem aplaudido transversalmente como uma grande obra.

"No passado sábado à noite, numa sala apinhada, consegui comprovar duas coisas. A primeira é que ‘La La Land’ não é uma obra-prima, mas está lá quase, quase, quase (...) A segunda é que o vulgar crítico profissional de cinema demonstra, mais uma vez, uma gigantesca falta de conhecimento da história do cinema, e isso enjoa-me até ao tutano."

Agora o que não me entra na cabeça é como os ditos grandes especialistas do cinema, internacionais e nacionais, consigam escrever uma crítica a ‘La La Land’ sem discutir a sua verdadeira essência. A maior parte dos críticos está a chamar a ‘La La Land’ uma homenagem aos velhos musicais de Hollywood, e suspeito até que esteja a receber muitos prémios por esse motivo, tal como aconteceu com ‘The Artist’ (2011). Inúmeros tentam traçar um paralelismo forçado à referência fortuita ao filme de Ray, ‘Rebel Without a Cause’ (1954) com James Dean, que as personagens vêm numa reposição, visitando posteriormente o Observatório de Los Angeles, um local de filmagem desse filme. Agora nem uma nem outra coisa são realmente verdade, e acho piada que os produtores do filme e o seu jovem realizador/argumentista Damien Chazelle (o prodígio de 32 anos que realizou ‘Whiplash’, 2014, e cujo futuro é extremamente risonho) não os desdigam. Para quê, se chovem tantos prémios? 

A verdade é que ‘La La Land’ é um filme que existe em dois planos. Primeiro há o plano superficial, que tem de existir porque o filme foi feito agora, numa época moderna em que o conhecimento do cinema clássico há muito se dissipou, e portanto, para que o filme não perca interesse, para que seja reconhecido como uma “homenagem”, tudo o que é realmente dito tem de estar num comprimento de onda de referências batidas e facilmente reconhecíveis. ‘Casablanca’, ‘Bringing up Baby’, ‘Notorious’, ‘Rebel Without a Cause’, só para dar alguns exemplos, são referenciados pelo nome. Mas depois há o outro subtil plano, o que nunca é mencionado abertamente, mas que existe, num adereço de roupa, num cenário, numa escolha de um plano, no tom que atravessa toda a obra, que electriza todas as cenas. Que o público em geral, ou até os júris das cerimónias de prémios, não se apercebam destes dois planos e se agarrem apenas ao primeiro é compreensível. Agora que seja um dito especialista de cinema a fazê-lo é mais grave. São poucos, muito poucos, aqueles que para entender, apreciar e criticar ‘La La Land’ referem um determinado nome e um determinado filme. E esse nome e esse filme não estão na Hollywood clássica. Estão na França em plena Nouvelle Vague. O nome é Jacques Demy. O filme é ‘Les parapluies de Cherbourg’ (1964).

Para mim a valência mais extraordinária de ‘La La Land’ é que é um filme que colmata uma séria falha na história do cinema americano. O filme musical foi o primeiro grande género do cinema sonoro, com sagas como as ‘Broadway Melody’ (1929, 1936, 1938 e 1940), as ‘Golddiggers’ (1929, 1933, 1935, 1936, 1938), e filmes icónicos como ‘42nd Street’ (1933) ou os de Fred & Ginger e Gene Kelly. Este género de musicais originais, passados geralmente nos bastidores do mundo do espectáculo, proliferou até ao final da década de 1950 e depois foi substituído, nos anos 1960, pela primeira grande onda de adaptações de espectáculos teatrais, com filmes vencedores de Óscar de Melhor Filme como ‘West Side Story’ (1961), ‘My Fair Lady’ (1964) e ‘Oliver!’ (1968).

"São muito poucos aqueles que para entender, apreciar e criticar ‘La La Land’ referem um determinado nome e um determinado filme. E esse nome e esse filme não estão na Hollywood clássica. Estão na França em plena Nouvelle Vague. O nome é Jacques Demy. O filme é ‘Les parapluies de Cherbourg’ (1964)."

Mas na mesma altura, em França, Jacques Demy, um dos meus realizadores preferidos, estava a transportar este género musical para a era moderna, incutindo-o do espírito sixties da Nouvelle Vague e do free love, e substituindo as clássicas sinfónicas bandas sonoras pelas composições jazzísticas e cheias de ritmo de Michel Legrand. A trilogia das cidades médias francesas de Demy: ‘Lola’ (1961, já criticado); ‘Les parapluies de Cherbourg’ (1964) e ‘Les demoiselles de Rochefort (1967, o meu filme preferido) é absolutamente divinal, misturando o amor pela vida e pelo musical, com um melodramatismo emocional talvez algo exagerado (que Demy herdava do cinema de Max Ophüls), num pacote extasiante de cor, energia e liberdade.

Na década de 1970, o cinema americano apoiou-se no cinema europeu em geral e na Nouvelle Vague em particular; a liberdade cinematográfica de Godard, a quebra com o sistema de estúdios, a perda da inocência do cinema. Mas numa década de alheamento social e paranóia existencialista, numa época suja e dura e decadente para o cinema americano, o escapismo do musical não tinha lugar. Os westerns, por exemplo, deram a volta completa; partiram da Hollywood clássica de John Ford, revolucionaram-se em Itália na década de 1960 pela mão de Sergio Leone, e voltaram com um estilo mais duro para Hollywood no final dessa década através de McLaglen e Peckinpah. Mas os musicais ficaram a meio do caminho, ou seja, não houve sucessores americanos de Demy. Em vez disso, os musicais surgiram apenas esporadicamente nas últimas três décadas do século XX, e depois tiveram um zénite de revivalismo na década de 2000, pós ‘Chicago’, mas sempre, ou quase sempre, no estilo ‘musical-da-Broadway’. Se o cinema americano a partir dos anos 1970 tivesse realmente adoptado o género musical, tal como concebido na Hollywood clássica e re-inventado para a era moderna por Demy, então este teria precisamente o tom e o look de ‘La La Land’.

‘La La Land’ chega quase meio século atrasado, mas finalmente chega; o elo perdido entre o cinema de Demy e o cinema de Hollywood, o voltar do musical a casa. A cena de abertura do filme, depois de um genérico que mistura o look de ‘Les parapluies de Cherbourg’ com o da Hollywood dos anos 1950, é a magistral prova disso mesmo. O cinema já não via uma cena destas há muitas, muitas décadas. E portanto, quando um engarrafamento Godardiano se transforma num épico número musical ao som da música ‘Another Day of Sun’, praticamente num plano contínuo (não queremos cá cortes à la ‘Mamma Mia’) então sabemos que estamos a assistir a algo muito, muito especial. A fluidez provém toda de Demy (o musical clássico de Hollywood era muito mais rígido); tal como a banda sonora em tons jazz, com os subtis coros pop a surgirem como mais um instrumento (‘Les Demoiselles’ a referência óbvia); e tal como toda a escolha de guarda-roupa, caracterizado pelas cores garridas (os amarelos, os azuis, os vermelhos). Para um fã de Demy é uma cena divinal, especialmente porque Damien Chazelle pega nesta herança e torna-a sua, em pleno século XXI, e obriga os críticos e os espectadores a reconhecerem a magia e a qualidade deste género com uma cena de, perdoem-me o trocadilho, fazer parar o trânsito. Quando a cena acabou eu disse à minha mulher que já podíamos ir embora. A compra do bilhete já tinha valido a pena. Só não chorei de emoção porque me estava a guardar para o que estava para vir.

"Se o cinema americano a partir dos anos 1970 tivesse realmente adoptado o género musical, tal como concebido na Hollywood clássica e re-inventado para a era moderna por Demy, então este teria precisamente o tom e o look de ‘La La Land’. Chega quase meio século atrasado, mas finalmente chega; o elo perdido (...) A cena de abertura do filme (...) é a magistral prova disso mesmo. O cinema já não via uma cena destas há muitas, muitas décadas"

E o que estava para vir continuou a surpreender pela positiva. Seguindo uma estrutura de separadores como ‘Les parapluies de Cherbourg’, o filme decorre, com excepção da última cena, ao longo de um ano, com as sequências divididas por estações (de Inverno a Inverno). Durante o engarrafamento, Sebastian (Ryan Gosling no seu estilo introspectivo pós ‘Drive’) e Mia (Emma Stone com uma exuberância trágica digna de Catherine Deneuve) trocam umas buzinadelas, e o filme segue alternadamente o percurso de um e de outro até que se reencontram uns dias mais tarde. Ela é uma aspirante actriz que entre audições trabalha como empregada de café nos estúdios da Warner Brothers (teria mais sentido, na onda do musical, que fosse na RKO – que já não existe – ou pelo menos na MGM, mas tudo bem…). Ele é um pianista de jazz (o jazz é a segunda grande paixão que alimenta este filme) cujo sonho é abrir o seu próprio clube, mas que até lá tem de tocar música que considera “banal” em restaurantes e pequenos concertos.

Ambos, obviamente, estão desencantados com a vida, e amargurados com as promessas de sonhos não cumpridas na meca do espectáculo – Los Angeles, a La La Land. Mia nunca é chamada após uma audição. Sebastian não consegue manter um trabalho fixo porque não quer tocar o que não gosta, e portanto não consegue poupar dinheiro para abrir o seu clube. Quando se reencontram (ela é a única que realmente o “ouve” a tocar num restaurante, e mais tarde conversam pela noite dentro numa festa) a química é (quase) instantânea. Ao som da música que os une, Mia e Sebastian vão viver a sua própria versão de uma história de amor. Primeiro com exuberância e fé, apoiando-se um no outro e no seu amor para acreditarem que conseguem atingir os seus sonhos. Mas mais tarde, como em todas as histórias de amor, quando as coisas correm menos bem vão hesitar, fazer escolhas erradas, desistir, e talvez perder a chama que os une.

Muitos críticos estão a criticar ‘La La Land’ por ser pobre ao nível emocional. Eu sinceramente não concordo. Como todo o musical que se preze, a sua história não é contada pelas cenas íntimas de diálogo; é contada musicalmente através de números de canto e dança. E para isso não é preciso que haja necessariamente close ups e músicas íntimas e intensas (pense-se em ‘Les Miserables’). Um número de canto e dança ostensivo ou mágico ou poético ou simplesmente divertido pode ser igualmente eficaz a transmitir as emoções das personagens. E nesse departamento, pelo menos na sua primeira metade, ‘La La Land’ é fabuloso. As cenas íntimas realmente não são muito poderosas, e algumas até têm elementos dramaticamente forçados que acabam eventualmente por ser esquecidos (por exemplo o filme nunca explica, como promete, o que ocorreu no passado de Sebastian). Mas as sequências musicais são praticamente imaculadas (isto é, para o fã do género musical) e acompanham o estado de espírito das personagens de forma perfeita. Veja-se a exuberante intensidade dos números iniciais; ‘Another Day of Sun’ e ‘Someone in the Crowd’, representando a esperança nos sonhos. Veja-se a subtil paixão do tema principal ‘City of Stars’; o tema que está a ganhar todos os prémios de melhor música (mas que na realidade não o merece porque não é a melhor música do filme). Veja-se a beleza delicada do bailado no Observatório, representando o amor mágico – porque o amor sempre o é – entre as personagens (o verdadeiro objectivo dessa cena; a conexão James Dean é só para os levar até lá, digo eu…). E veja-se a perfeita execução de Emma Stone do momento mais dramaticamente intenso do filme: a sequência musical ‘Audition (The Fools Who Dream)’. Soberbas cenas, umas atrás das outras.

"Como todo o musical que se preze, a sua história não é contada pelas cenas íntimas de diálogo; é contada musicalmente (...) As cenas íntimas não são muito poderosas, e algumas até têm elementos dramaticamente forçados que acabam eventualmente por ser esquecidos (....) Mas as sequências musicais são praticamente imaculadas (...) e acompanham o estado de espírito das personagens de forma perfeita."

Realmente, a minha primeira grande crítica a ‘La La Land’ é que o filme não teve a ousadia de manter esta estrutura até ao final. Talvez tenha sido o medo de alhear o público moderno. Ou talvez tenha sido a incapacidade do realizador de representar através de canções a dureza emocional do segundo acto. Quando Mia faz uma última grande tentativa de ser reconhecida como actriz montando a sua própria peça e quando Sebastian capitula e se junta à banda comercial de Keith (John Legend), a relação entre o casal começa a vacilar, e o seu amor a esfumar-se, tal como os seus sonhos. Nesta altura, o filme esquece-se, propositadamente, que é musical e passam-se largos minutos (demasiados) sem uma sequência musical. Aqui, o filme tem a estrutura de qualquer outro drama romântico, o que, para o produto que é, é um grande turn off. Felizmente, consegue recuperar com duas grandes sequências finais (uma delas emulando os gloriosos bailados estilizados de Gene Kelly), levando a um final inesperado (isto é, para um filme comercial moderno e para um aberto candidato aos Óscares), mas que na realidade é quase tirado a papel químico de ‘Les parapluies de Cherbourg’.

O segundo grande turn off é o facto de, realmente, Gosling e Stone serem "apenas" actores, não génios do canto e da dança. O fascínio de ver um filme de Fred Astaire não está na história, está na bênção que é ver o senhor a dançar. Não é por acaso que, independentemente do realizador, era Astaire que concebia as suas próprias coreografias. Gene Kelly fazia o mesmo. Agora, mesmo que Gosling e Stone passem meses a ensaiar uma coreografia antes de a filmar, e mesmo que sejam muito bem intencionados e até de certa forma bem sucedidos (Gosling é melhor a dançar, Stone a cantar), nunca será a mesma coisa. A cena no parque (a que homenageia as rotinas de Fred & Ginger) prova-nos isso mesmo. Seria uma cena memorável num filme de Fred Astaire. Aqui é apenas uma boa cena em que até sorrimos pela beleza da rotina e pela forma com que é executada. Mas não tem aquele toque de genialidade que um grande dançarino poderia oferecer, o que é uma enorme pena. Igualmente, nas grandes cenas de multidão nota-se que Stone e Gosling pouco se movem, apenas há a ilusão de movimento porque são rodeados por um grande número de bailarinos profissionais (um truque que Demy também utilizava).

O terceiro, menor, turn off é o facto da fotografia ser propositadamente menos nítida, somente porque é esse o padrão comum do cinema moderno para representar um tom “antigo” e “clássico”. Ora isto é uma grande parvoíce porque todos os cinéfilos sabem que a cor dos filmes dos anos 1960 é a melhor da história do cinema (e fica a matar em blu-ray, muito melhor que a de filmes actuais…). Portanto o filme deveria ter uma fotografia nítida ao estilo Technicolor, enfatizando todas as cores primárias, num tom de autoconsciente artificialidade. Mas suponho que adicionar ainda mais esse elemento seria demasiada ilusão para um filme (moderno) só.


"A minha primeira grande crítica a ‘La La Land’ é que o filme não teve a ousadia de manter esta estrutura até ao final. Talvez tenha sido o medo de alhear o público moderno. Ou talvez tenha sido a incapacidade do realizador de representar através de canções a dureza emocional do segundo acto (...) O segundo grande turn off é o facto de, realmente, Gosling e Stone serem "apenas" actores, não génios do canto e da dança."

Talvez Chazelle exagere um pouco nos close-ups e não resista a truques algo banais e teatrais (como baixar a luz à volta das personagens quando elas cantam as partes mais íntimas das canções). Talvez se o cinema moderno estivesse cheio de musicais neste estilo não acharíamos ‘La La Land’ assim tão especial. Talvez o filme seja “apenas” um remake bem intencionado da obra de Demy, com pozinhos dos musicais de Hollywood. Talvez no final fiquem algumas pontas soltas e desconfiemos que o filme não tem uma grande profundidade emocional. Mas todos estes pormenores acabam por se perder porque a experiência global de assistir a ‘La La Land’ é magistral. A glória maior do filme é que existe, está aqui, foi produzido, podemos vê-lo, podemos desfrutá-lo com alegria; a mesma alegria com que foi feito, com que sentimos que foi feito. É um filme único porque é, literalmente, único. A ousadia de conceber um produto destes, quase cinquenta anos depois, só pode ser aplaudida. E a ousadia de o fazer tão bem comove, senão o público em geral, pelo menos este fã incondicional dos grandes musicais em geral e de Demy em particular.

Não parece haver dúvidas que ‘La La Land’ vá ganhar a maior parte das 13 categorias para que está nomeado nos Óscares. Pode ser até que chegue ao recorde de 11 Óscares partilhado por ‘Ben-Hur’, ‘Titanic’ e ‘Return of the King’. Se fosse um filme feito há cinquenta anos não o mereceria. Mas sem dúvida merece-o agora, principalmente nas categorias de realização, banda sonora (não mencionei mas é da autoria de Justin Hurwitz, com letras de Benj Pasek e Justin Paul), edição, design de produção e até Melhor Actriz para Emma Stone, maioritariamente pela cena da audição (já dar a Gosling seria extremamente forçado...). Numa época em que o cinema está totalmente descaracterizado, ‘La La Land’ oferece de novo chama, paixão, cor e vida à arte de fazer Cinema. É uma celebração, uma carta de amor a Demy (um cineasta genial que demasiado poucos conhecem) mas também aos jovens que partem todos os dias para a meca do espectáculo para singrar, e aos sacrifícios que têm que fazer para o conseguir.

"A experiência global de assistir a ‘La La Land’ é magistral. A glória maior do filme é que existe, está aqui, podemos vê-lo, podemos desfrutá-lo com alegria (...) É um filme único porque é, literalmente, único. A ousadia de conceber um produto destes, quase cinquenta anos depois, só pode ser aplaudida. E a ousadia de o fazer tão bem comove, senão o público em geral, pelo menos este fã incondicional dos grandes musicais em geral e de Demy em particular."

E acima de tudo é um importantíssimo filme na história do cinema americano, porque trás o legado que deveria ter sido trazido há cinquenta anos. E certamente poderá inspirar uma nova onda de musicais neste estilo mais livre, mais poético, muito mais interessante que as batidas adaptações de espectáculos da Broadway, que sinceramente já não se aguentam. É um filme que tem falhas, principalmente porque não teve coragem de ir “all the way”. E é um filme que nunca se irá tornar de culto porque o musical é um género que o crítico intelectual nunca irá reconhecer como grande Arte. Mas é. Astaire provou-o. Kelly provou-o. Demy provou-o. E ‘La La Land’ tem a ousadia de o tentar provar também. Nos tempos que correm, isso é mais do que suficiente. E se tudo o resto até poderá ser criticado, sobram aqueles primeiros geniais, soberbos, magistrais, mágicos, extasiantes cinco minutos – a melhor cena de um filme musical em meio século e um convite irrecusável para dançar, para capitular à magia da vida e da sétima arte. Por mim, não preciso de mais nada.  

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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