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Bandidas

Ano: 2006

Realizador: Joachim Rønning, Espen Sandberg

Actores principais: Penélope Cruz, Salma Hayek, Steve Zahn

Duração: 93 min

Crítica: Eu tenho sempre um conjunto de filmes em carteira para os momentos em que, há noite, depois de um longo e extenuante dia, com o cansaço acumulado, não existe a disponibilidade corporal e mental para prestar realmente atenção a um filme ou realizar qualquer tipo de esforço intelectual. São aqueles filmes que se vê com um olho meio aberto no sofá, que nos embalam para o sono dos justos, e que nos permitem não ficar muito chateados se perdermos qualquer parte deles, porque na realidade, sabemos perfeitamente, não perdemos muito.

‘Bandidas’, o western de 2006 escrito por Luc Besson e o seu colaborador de longa data Robert Mark Kamen, e realizado pela dupla norueguesa, então estreante, composta por Joachim Rønning e Espen Sandberg (que entretanto realizou ‘Kon-Tiki’, 2012, e será responsável pelo próximo ‘Piratas das Caraíbas’), prometia ser precisamente um filme dessa natureza. Recordo-me bem de ver o trailer e os posters há quase 10 anos enquanto ainda andava na faculdade, e a sua mensagem era clara como água. Este era um filme que anunciava ser uma comédia moderna mas passada numa era clássica, feita mais para rir e entreter do que propriamente para ficar para a posteridade, e que prometia, acima de tudo, muita exibição (em vários sentidos) das suas duas voluptuosas hispânicas actrizes principais: a mexicana Salma Hayek e a espanhola Penélope Cruz, ambas a viver os seus maiores períodos de popularidade em produções americanas.

Assim anunciado, para mim não era certamente filme para gastar dinheiro no bilhete. O público mundial concordou imediatamente, deixando este filme com o rótulo de relativo fiasco. Mas mais cedo ou mais tarde, fiasco ou não fiasco, tudo o que é blockbuster extravagante (ou pelo menos extravagante à sua maneira, como é este) encontra o seu caminho para a televisão por cabo. E foi aí que, esta semana, num desses tais dias de maior cansaço e muito pouca pachorra para filmes sérios, eu e a minha esposa encontramos ‘Bandidas’ e nos acomodamos no sofá para, admitidamente, adormecermos ao seu sabor.

Para mim o único elemento que ainda me dava alguma esperança era a caneta de Luc Besson. Todos sabemos bem que Besson é um argumentista muito prolífero e multifacetado, mas também sabemos bem que é muito inconstante. Pode ter feito filmes brilhantes como ‘Léon’ (1994) e escrito argumentos de acção muito interessantes como o de ‘Taken’ (2008) ou o de ‘Colombiana’ (2011, já criticado), que quase incompreensivelmente cedeu a outros realizadores. Mas também escreveu e realizou filmes claramente de menor qualidade como a pobre trilogia de ‘Artur e os Minimeus’ (2006, 2009, 2010), o bem-intencionado ‘Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec’ (2010) ou o algo patético ‘Lucy’ (2014). Às vezes parece que Besson escreve um argumento de toda e qualquer ideia que tem e que não perde muito tempo a fazê-lo nem a pensar a fundo no material, o que parece incrível num homem que já deu, em partes iguais, tanta coisa boa e má ao cinema. ‘Bandidas’, como seria expectável, está no lado negativo da balança do cinema de acção cómico do homem que escreveu ‘Wasabi’ (2001) ou os filmes da saga ‘Taxi’.  

‘Bandidas’ é um híbrido. Por um lado existe no mesmo comprimento de onda dos blockbusters de acção cómica do início do milénio que apresentaram versões modernizadas do Oeste americano ou de outras épocas históricas, como ‘The Mask of Zorro’ (1998) e a sua sequela ‘The Legend of Zorro’ (2005), ‘Wild Wild West’ (1999) ou as trilogias da ‘Múmia’ e dos ‘Piratas das Caraíbas’. Ou seja, estamos a falar de um filme que tenta ser muito dinâmico em termos de humor e química entre as personagens, com um olho na história e o outro constantemente a piscar ao público. E estamos a falar de um filme com uma linguagem cinematográfica totalmente modernizada em que tudo se processa como se a acção se passasse agora, com a mínima diferença de que os elementos são “actualizados” para dar a ilusão de que se está a ajustar à época histórica (um cavalo em vez de um carro, um barra de dinamite em vez de uma granada, um homem com uma mala cheia de frasquinhos em vez de um técnico do CSI). Se isto está muito bem feito, tal como no primeiro ‘Piratas’ ou no mais recente ‘The Lone Ranger’ (2013, sim, gostei deste filme!), perdoamos a ofensa e desfrutamos imenso do entretenimento. Mas se não está, o espectáculo torna-se um pouco incrédulo e enfadonho.

Por outro lado, Besson parece ter estudado bem a história da comédia western, principalmente a dos anos 1960 onde surgiram obras lideradas por elencos femininos, o que não deixa de ser uma constatação interessante. Ao ver ‘Bandidas’ vêm imediatamente à cabeça obras como ‘Cat Ballou’ (1965) com Jane Fonda, mas principalmente ‘Viva Maria!’ (1965) realizado pelo grande Louis Malle que, não parece haver dúvidas, Besson terá visto antes de escrever este argumento. Em ‘Viva Maria!’ Brigitte Bardot e Jeanne Moreau interpretam duas coristas que acabam por ser tornar revolucionárias na revolução mexicana, num filme cheio de humor aventureiro e imensa química entre as duas estrelas da Nouvelle Vague.

‘Bandidas’ acaba por ser uma versão de trazer por casa desta história. A Maria de Penélope Cruz é uma menina pobre e ignorante, mas com garra, filha de um camponês. A Sara de Salma Hayek é uma menina rica, filha de um dono de um banco, recentemente chegada de Espanha onde foi educada, e que tem classe, inteligência mas também uma sensibilidade para aqueles de um estrato social mais baixo (qualquer semelhança com a personagem de Catherine Zeta Jones em Zorro é pura coincidência…). O destino de ambas vai ser o mesmo; os respectivos pais vão ser mortos por Tyler Jackson (o actor Dwight Yoakam) e o seu bando, que trabalham a mando de um poderoso banco americano. Este banco pretende construir uma linha de caminho-de-ferro através do México e, em vez de seguir os trâmites habituais, tem um plano muito mais intrincado. Compra pequenos bancos mexicanos para poder ser dono das hipotecas das terras dos camponeses por onde querem que passe o comboio. Depois é simples: matar quem está contra, numa linha argumental muito, muito original (estou a ser irónico).

Vítimas das circunstâncias, primeiro contrariadas e não se dando bem uma com a outra, depois muito mais excitadas e tornando-se até amigas, Sara e Maria vão unir esforços e juram vingar-se. Treinadas por um velho pistoleiro interpretado por Sam Shepard (que só está aqui para receber um cheque de ordenado), numa daquelas sequências ao som de música em que vão aprendendo a disparar cada vez melhor, Sara e Maria tornam-se assim uma espécie de Robin Hoods de saias. Roubam os bancos apropriados à força pelos americanos (o único pormenor da história que poderá ser visto como ‘sério’ numa espécie de crítica social ao sistema bancário actual), e dão o saque aos pobres e à igreja, instigando assim uma mini-revolução e lutando para salvar o México desta ameaça, algo que obviamente acabam por conseguir fazer, mais cedo ou mais tarde, num clímax a bordo de um comboio. De novo, nada de original.

A primeira coisa que imediatamente se nota neste filme é que a fotografia e a montagem nada se adequam à linguagem do western cinematográfico. Apesar de ser falado em inglês, o filme é uma co-produção europeia claramente dominada pelo estilo francês, e portanto é essa a estrutura-tipo que segue à risca, principalmente aquela das comédias pós ‘Ámelie’ que se encontra em filmes de aventura como os do ‘Ásterix’ (1999, 2002, 2008, 2012) ou ‘Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec’ (2010). Ou seja, ‘Bandidas’ é um filme com cores extremamente vivas mas artificiais (cuja artificialidade é mais enfatizada quando os cenários são ‘bluescreen’) que em vez de dar a ilusão, como a maior parte dos western dão, da naturalidade dos grandes espaços abertos, do Sol forte e do calor mexicano, dá a impressão de que o filme foi filmado por baixo de dezenas de holofotes e que as cores foram pintadas por um computador.

Do mesmo modo o filme possui uma montagem frenética, estilo videoclip, que faz avançar a história muito rapidamente para que não haja tempo do espectador se aperceber de que não há muito conteúdo. Se até devemos aplaudir os realizadores por quase nunca usarem o close-up ao estilo de Sergio Leone, não podemos deixar de lamentar os excessivos golpes de teatro visual a que recorrem (principalmente no clímax) para fazer a ponte à acção moderna de um ‘Transporter’ ou ‘Matrix’, o que deixa o espectador, ou pelo menos este crítico, incrédulo. Esta constante luta entre o conteúdo e o estilo visual, entre a herança clássica e o desespero de apelar ao público jovem actual com elementos de modernidade, deixa o filme num meio-tom bastante difícil de agradar ao espectador mais sério, e que acaba por resvalar para o kitsch, sem contudo, parece óbvio, o filme o querer exactamente.

A segunda coisa que chama a atenção nesta obra é a total e completa falta de química entre Hayek e Cruz. Quando ambas entram numa espiral cómica, a tentar trocar piropos “muito” engraçados uma com a outra como se isto fosse uma comédia screwball de outrora, o seu sotaque hispânico cerrado impede-as de ter fluidez de discurso. Ao falharem o tempo de quase todas as piadas é o próprio filme que perde a fluidez e o ritmo, frase a frase. Para além do mais ambas as actrizes desfilam por todo o filme com a perfeita consciência (até demais) de que estão numa comédia. Cruz então passa o filme todo praticamente a rir-se e com aquele brilho travesso no olhar que a caracteriza. Por terem autoconsciência de que a comédia não é propriamente um género que ambas dominam, ainda mais naturais e engraçadas tentam ser, o que obviamente acaba por ter o efeito oposto.

Isto claro para não falar na unidimensionalidade das suas personagens, cuja complexidade raramente vai para além da superfície. São o que são, alteram-se para satisfazer as necessidades do argumento, e nada mais. No final, cada uma revela à outra a forma como foi influenciada por ela, e como isso a ajudou a ser uma melhor pessoa. Só se isto aconteceu em cenas que o filme não mostra, porque eu cá não vi nada desse crescimento emocional… Um momento apenas merece destaque. Hayek fica genuinamente comovida numa altura em que grita em plenos pulmões “Viva México!” (afinal, ela é mexicana), naquele que é o melhor plano do filme porque finalmente tem uma sinceridade não fingida. É pena então que o resto do filme, apesar de se esforçar, nunca consiga ter essa mesma energia verdadeira…

A entrada em cena de Quentin (Steve Zahn), um investigador algo nerd que usa técnicas dignas do CSI mas adaptadas aos produtos do século XIX, é quase paradoxalmente o elemento que consegue dar uma bem-vinda química à relação entre elas e ao mesmo tempo espevitar o filme. Como um investigador inicialmente enviado pelo banco americano para encontrar as Bandidas, mas que depois, algo relutantemente, se junta a elas quando descobre que elas têm razão, Quentin torna-se um elemento de disputa e competição entre elas (quem o consegue seduzir, o que dá azo a mais exibição dos muitos atributos das actrizes), e o catalisador para as cenas mais inventivas do filme (embora algo incredíveis, se pensarmos no contexto da época), nomeadamente os assaltos aos bancos. O filme pode pertencer às meninas, mas sem Zahn nunca se livraria da sua frouxidão. Já relativamente ao vilão de Yoakam pouco há a dizer. De certa forma é ameaçador (sempre bom nestes filmes), mas está totalmente limitado ao cliché do seu papel (incluindo o clássico sotaque arrastado texano) e a um argumento extremamente simplista e completamente previsível.

Sabendo que a história pouco ou nenhum interesse terá para o espectador, o filme acaba por se perder no toma-lá-dá-cá visual entre Hayek e Cruz, com Zhan pelo meio (nunca tão dinâmico como pretendem e esgotando-se rapidamente) e nas tais cenas de roubos, que tornam este filme numa espécie de Missão Impossível do Velho Oeste (incluindo o soalho do banco que faz disparar o alarme quando pisado). Isto fará o crítico levar as mãos à cabeça mas poderá (talvez) fazer o público jovem rir-se e desfrutar do espectáculo, porque acaba por ser tudo muito “engraçadinho”. A única vantagem de ‘Bandidas’ é que ao mesmo tempo é também tudo muito inócuo. Nenhum do humor pobre é realmente ofensivo e a falta de qualidade é assumida com um sorriso, portanto é um produto que diz sem rodeios ao espectador: “desfruta-me relaxadamente, ri-te um bocadinho comigo, mas depois esquece-me”.

Contudo isto acaba por ser também uma desvantagem já que se nota que o filme tem muito pouca confiança em si próprio (terá tido uma má recepção com audiências de teste?). Parece que os produtores pediram qualquer coisa que Besson tivesse na gaveta, e produziram-no sem pensarem muito no assunto (só no apelo do póster e do casting!), com o menor dispêndio possível. Aliás, desde que o visual seja apelativo e a piadinha seja mandada, o filme não parece importar-se muito com o resto. Uma coisa que chama a atenção são os 90 minutos certos de duração, obtidos à custa de uma telegrafia excessiva, especialmente na parte inicial do desenvolvimento das personagens, mas também mais tarde no clímax frouxo, como se se tivessem feito cortes propositados, não importa aonde, para não ultrapassar essa importante barreira de duração das obras menos ambiciosas. Mais uma cena aqui e ali na construção da relação entre Maria e Sara e uma maior duração da luta final com o vilão teriam tornado o filme bastante mais completo. Assim sendo, todo o filme sustem-se numa ideia apenas meia-formada e no apelo sedutor das suas leading ladies, com a dupla de realizadores a demonstrar muito pouca inventividade formal, e continuamente a tentar mostrar muita inventividade na modernização da acção e do humor, infelizmente com pouco sucesso.

Verdade que estava à espera de bastante pior, por isso fui agradavelmente surpreendido com a leveza simpática desta história que até consegue arrancar uns sorrisos e entreter. Contudo, a notória falta de conteúdo e a notória falta de química entre Hayek e Cruz, que leva a que a sua interacção nunca seja explorada como deveria, deita tudo a perder. Serem jeitosas só por si não chega. ‘Bandidas’ é um filme difícil de criticar pelo simples motivo que é um filme difícil de recordar depois dos créditos rolarem. É um filme para ver como eu o vi, meio a dormir no sofá. É um TV Movie. Ninguém no seu perfeito juízo pagaria para ver isto no cinema ou para ter o DVD na estante. Ao mesmo tempo é inofensivo e suponho que isso seja uma vantagem, especialmente para entreter o público jovem ou satisfazer os gostos sonolentos de viciados em cinema em dias em que não têm pachorra para um ‘Lawrence da Arábia’. Numa frase, 'Bandidas' é um misto de ‘Viva Maria’ (1965) com o mais recente Zorro e com duas tipas jeitosas. E é isto. Vá, podia ser pior.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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