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Valentine's Day

Ano: 2010

Realizador: Garry Marshall

Actores principais: Julia Roberts, Jamie Foxx, Anne Hathaway

Duração: 125 min

Crítica: No longínquo Verão de 2010 fui ao Brasil durante duas semanas. Para lá fui acompanhado mas para cá vim sozinho. E, num voo de 10 horas, uma pessoa chega a um ponto de saturação. Já leu o que tinha para ler. Já dormiu o que conseguia dormir. Resta o entretenimento de bordo, qualquer que ele seja. Bem, no meu caso, o entretenimento de bordo era nada mais, nada menos, que a nova comédia romântica de Garry Marshall, ‘Valentine’s Day’, que tinha sido lançada uns meses antes, mais precisamente no fim-de-semana de São Valentim, aproveitando o facto de nesse ano, muito convenientemente, o Dia dos Namorados ter calhado a um domingo.

Ou melhor, havia outros filmes à escolha, mas eu já os tinha visto a todos, ou quase todos no cinema e, se bem me recordo, a minha primeira escolha foi outro filme qualquer cujo som não estava a funcionar ou algo do género. Então, a inevitabilidade do enfado levou-me de novo ao universo de Garry Marshall, um universo de contos de fadas modernos, quer metafóricos (‘Pretty Woman’, 1990; ‘Runaway Bride’, 1999) quer literais (‘The Princess Diaries’, 2001), feitos com a chapa 5 de Hollywood, sem grande profundidade  e com um final feliz sempre ao virar da esquina. Um universo cinematográfico demasiado simplório, demasiado comercial que, sinceramente, nunca me apelou. E obviamente, não foi ‘Valentine’s Day’ que me fez mudar de opinião. 

Quando o avião aterrou já praticamente tinha esquecido o filme e estava disposto a nunca mais me recordar dele até ao fim dos meus dias. Mas umas semanas depois alguém o mencionou e, para incentivar a discussão, aquiesci a escrever umas breves notas, de memória, só para me divertir. São essas notas que agora mais ou menos transcrevo nos parágrafos em baixo, com algumas actualizações contextuais (já que rever o filme está fora de questão!).

A minha opinião sobre o filme foi bastante clara. Considerei-o imediatamente um dos piores, senão o pior filme que alguma vez vi na minha vida. Ou melhor, é o pior filme feito com o orçamento exagerado de Hollywood, com actores de classe A e lançado com distribuição alargada a escala mundial que eu já tive a infeliz infelicidade de contemplar em dias de minha vida. Normalmente os maus filmes não são maus de propósito (já discuti isso quando critiquei outra aberração completa; ‘Jennifer’s Body’). São maus porque foram feitos por gente sem talento que até pode ter tido uma ideia aceitável mas não a soube, ou não teve dinheiro, para a concretizar. Ou então são tentativas acéfalas de capitalizar num determinado tema ou uma exibição patética de efeitos especiais, com o intuito de ganhar o máximo de dinheiro com o menor esforço (inspiracional, técnico, intelectual) possível. Já no caso de ‘Valentine’s Day’ o que mais custa é sabermos que tudo foi cuidadosamente pensado para ser precisamente como é. Mas o resultado é mau, mau, mau; uma fonte infindável e vergonhosa de lugares comuns e baboseiras sentimentais, um insulto a todo e qualquer espectador, e um insulto ao próprio cinema simplesmente por existir [eh pá, fui um bocado forte aqui, mas tenho que respeitar a opinião, quiçá verdadeira, do meu eu passado!].

‘Valentine’s Day’ surge na tradição da comédia romântica em mosaico que tanto sucesso teve no início da década de 2000 com o fabuloso ‘Love Actually’ (2003). Mas replicar algo que resulta nunca é tão fácil como Hollywood pensa. Pagar para reproduzir não implica que se consiga dominar a chama. É verdade que este tipo de comédia romântica para as quadras festivas até teve alguns bons momentos pós ‘Love Actually’. Considero ‘The Holiday’ (2006) ou ‘Paris Je T’Aime’ (2006), por exemplo, filmes muito bem conseguidos. Mas a maior parte destes filmes-fórmula têm sempre grandes dificuldades em chegar aos calcanhares do seu Big Bang, principalmente quando se transladaram para as praias de Hollywood sob o Sol do comercialismo barato.

Em 2008 vimos ‘New York, I Love You’, um filme que perdeu a delicada finura e a mestria artística de ‘Paris Je T’Aime’. Em 2009, muitos poucos se lembrarão agora que ‘He's Just Not That Into You’ foi um sucesso por altura do Dia dos Namorados, seguindo à risca a fórmula de várias histórias de encontros e desencontros amorosos, em que os casalinhos eram todos interpretados por grandes estrelas (Bradley Cooper, Scarlett Johansson, Ben Affleck, Jennifer Aniston, Jennifer Connelly). Na realidade até fui ver ambos estes filmes ao cinema. Não os considerei nada de especial, mas ao menos consegui vê-los sem me dar a volta ao estômago e reconheço que estavam feitos para um determinado público-alvo que certamente os terá conseguido acarinhar, nem que tenha sido apenas durante as duas fugazes horas da exibição. Agora ‘Valentine’s Day’, surgindo no Dia dos Namorados do ano seguinte, parece ser um remake desinspirado, uma re-imaginação pouco conseguida, um parente extremamente pobre destas duas entradas. Então compará-lo com ‘Love Actually’ é como comparar o ‘Ataque dos Tomates Assassinos’ com o ‘Ben-Hur’.

Sinceramente, não vou perder nem o meu tempo, nem o do leitor, com uma descrita sumária do argumento. Consideremos que, para todos os efeitos, não há argumento. Ou pelo menos, para aquilo que nos é oferecido, é como se não houvesse. O filme basicamente segue um grande conjunto de pares românticos, em histórias que se cruzam, durante o dia de São Valentim – pares esses que são postos a fazer e a dizer coisas extremamente improváveis e extremamente forçadas do primeiro ao último segundo da película. Incluído neste pacote de fotocópias de má qualidade temos os mais que óbvios males entendidos entre casais (óbvios para toda a gente, claro está, menos para as próprias personagens), e ainda desgostos amorosos, corações partidos, encontros fortuitos, reconciliações, muitos close ups de olhares incompreendidos e esperançosos com música a condizer, e uma catrefada de discursos inspiracionais sobre a vida e sobre o amor, levando às clássicas morais banais que todos já conhecemos de cor e salteado.

E então qual é a novidade, pergunta o leitor?! É uma fórmula clássica deste tipo de comédias românticas. ‘Love Actually’ usa-a. ‘The Holiday’ usa-a. ‘Paris, Je T’Aime’ usa-a. ‘He's Just Not That Into You’ usa-a. E depois?! O problema, no caso de ‘Valentine’s Day’, é que tudo resvala para a mediocridade sentimental. Mesmo a cena mais simples é estragada como se não fosse nada. A culpa é do argumento, que é miserável, à falta de melhor palavra. E é miserável a grande escala. Não é uma questão de querer desviar o olhar da tela. Ao menos, o contínuo desfilar de estrelas vai saciando a vista (neste filme entram, sabe-se lá como, pessoas como Anne Hathaway, Shirley McLaine, Julia Roberts, Jamie Foxx, Jennifer Garner, Kathy Bates, Bradley Cooper ou Jessica Alba). É antes uma questão de querer pôr as mãos a tapar os ouvidos e berrar “lalalalalalalalala” para não ouvir absolutamente nada. Fiquei incrédulo com a maior parte das personagens unidimensionais que os argumentistas decidiram criar. Fiquei aparvalhado com a maior parte dos arcos argumentais que o filme tira da cartola. Fiquei genuinamente chocado com algumas das frases, incrivelmente pobres, incrivelmente lamechas, incrivelmente cliché, horrivelmente mal escritas, que vão surgindo ao longo do filme. Como estes actores algumas vez concordaram dizer estas frases está para além de mim. Leo DiCaprio ou Daniel Day-Lewis certamente nunca se dignariam a descer tão baixo. Mas o agente desta gente deve-lhes ter dito que era uma boa manobra para cair nas boas graças do público entrar num produto tão ”giro” como este. Um pequeno sussurro ao ouvido: não é!

Podia citar alguns exemplos mas a maior parte apaguei da minha memória. Recordo-me, por exemplo, da personagem de Eric Dane (que atingiu um semi-estrelato na série ‘Anatomia de Grey’), que interpreta um famoso desportista que não se parece interessar muito pelas mulheres em biquíni que desfilam em frente da sua casa na praia. Pudera, é homossexual e, num momento chave do filme, dá uma conferência de imprensa inspiracional para o anunciar ao mundo, como se fosse uma grande coisa. Não é pela personagem, nem pela homossexualidade, obviamente, que isto é uma completa baboseira. É uma baboseira pela forma inacreditavelmente forçada como o filme espeta este conteúdo na sua estrutura. Na sua tentativa de ser inclusivo é na realidade altamente ofensivo. Tinha que haver um gay portanto toma, aqui está ele. Mais estereotipado não podia ser. E tinha que haver um discurso tolerante portanto toma, aqui está ele, literalmente caído do céu. Mais estereotipado não podia ser. Uma pessoa não sabe se há de rir ou se há de chorar. Com o casal dos Taylors (Taylor ‘Twilight’ Lautner e Taylor Swift no ano em que se revelou ao mundo) não há dúvidas; é mesmo para rir de incredulidade pela sua completa anormalidade.

Resumindo e concluindo ‘Valentine’s Day’ é mau, é forçado, está mal escrito, é tão enjoativo que dá vontade de vomitar e foi feito por pessoas que não queriam pensar para pessoas que não pensam. Na tentativa de fazer a comédia romântica definitiva do Dia dos Namorados, o resultado final acaba por ser uma estupidez autêntica, um insultuoso pedaço de lixo cinematográfico que não tem ponta por onde se lhe pegue. E acredito piamente que o objectivo dos produtores era propositadamente pouco ambicioso, o que torna a coisa ainda pior. Queriam simplesmente lançar, com o menor esforço possível, qualquer coisa temática nas salas de cinema que os casais pudessem ver nesse domingo de S. Valentim. Queriam enganar tolos, usando todos os truques disponíveis no meio (os actores famosos, as histórias ‘engraçadinhas’, os twistzinhos com semi-piada, a moral de trazer por casa) para ser apelativamente comercial sem na realidade apresentarem nada digno. E não é que conseguiram?

Mesmo assim, não acredito que tenha havido alguém com interesse em ver este filme fora do fim-de-semana de estreia. Não é possível. O filme não tem absolutamente nada que o permita funcionar noutra circunstância. Mas também nem queríamos que tivesse já que é um filme que nunca deveria ser (e provavelmente nunca será) visto outra vez. Portanto fica o aviso. Caro leitor, não veja este filme. Nunca. Nem sequer num avião ao regressar de umas férias no Brasil.

Ontem, a transcrever estas notas, li a infeliz notícia que Garry Marshall faleceu aos 81 anos de idade. Desde 2010, Marshall só havia realizado mais dois filmes, completando a sua trilogia de comédias românticas em mosaico de dias temáticos; ‘New Years’ Eve’ (2011) e há poucos meses ‘Mother’s Day’ (2016). Depois do choque de ‘Valentine’s Day’ obviamente não vi nenhum destes filmes, nem quero ver. Eu respeito Marshall como respeito todos os realizadores de cinema. Afinal, conseguiram fazer um filme (e no caso de Marshall inúmeros sucessos de bilheteira), enquanto eu estou apenas aqui sentado num sofá a mandar vir. Mas mesmo no dia em que o recordamos e lamentamos a sua morte, ‘Valentine’s Day’ não se torna um filme melhor e essa é a infeliz verdade. Por isso vamos recordar o que ele fez de melhor; argumentista de séries icónicas de comédias dos anos 1960 até aos anos 1980 como ‘The Dick Van Dyke Show‘, ‘Happy Days’ ou ‘Mork & Mindy’ (que lançou Robin Williams) e alguns dos seus filmes como ‘Frankie & Johnny’ (1991) ou ‘Pretty Woman’ (1990), e vamos esquecer, de preferência para sempre, ‘Valentine’s Day’ porque toda a gente tem direito a fazer um filme miserável. No caso de Marshall foi sem dúvida este. Que descanse em paz.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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