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Deadpool

Ano: 2016

Realizador: Tim Miller

Actores principais: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T.J. Miller

Duração: 108 min

Crítica: Basicamente, nos últimos 15 anos, os filmes de super-heróis deixaram de ser um subgénero do cinema de aventura e ficção científica para se tornarem um género por direito próprio. E, é crucial notar, tornaram-se também o género mais importante, financeiramente falando, de Hollywood. Neste momento, os grandes estúdios; a Marvel/Disney com os Vingadores, a Warner Brothers com a Liga da Justiça, e a 20th Century Fox com os X-Men estão numa guerra aberta por recordes de bilheteira e por ver quem ganha a corrida de mais sequelas produzidas no menor espaço de tempo possível.

Em Eu Sou Cinema já comentei muitos destes filmes, mas como as minhas críticas recentes revelam começo a ficar cada vez mais enfadado com as sequelas das sequelas, que se escondem por detrás da mediatização no mundo das redes socais, dos efeitos especiais milionários mas ocos (antes era preciso um gigantesco trabalho dentro e fora de câmara com maquetes, modelos, miniaturas; agora é só preciso saber programar), e dos argumentos que por mais épicos que sejam, há muito perderam a frescura. Por isso mesmo, em vez de um ‘Iron Man 4’ (surgirá mais cedo ou mais tarde certamente), os cinéfilos mais exigentes (ou pelo menos eu), olham com muito mais expectativa para produtos que prometem ser diferentes. E quando realmente o são, então ainda melhor.

Recordemos ‘Watchman’ com o seu estilo alternativo, mas apelativo. Recordemos ‘Avengers’, epicamente fresco por ser o primeiro filme ensemble (‘Avengers: Age of Ultron’ já é “mais do mesmo”) e que nos deu uma das mais épicas batalhas finais de que há memória no cinema. Recordemos o soberbo ‘Dreed’ que uniu na perfeição o filme de acção típico dos anos 1980 (sem tretas, sem fillers, só acção), com a opulência visual que o cinema moderno pode oferecer. Recordemos ‘Guardians of the Galaxy’, imensamente desfrutável na sua irreverência cómica, um murro no estômago ao marasmo que a Marvel se havia tornado, mas mantendo o apelo comercial e a epicidade de entretenimento que caracteriza um blockbuster de Verão.

Nesta onda, quando os trailers de ‘Deadpool’ começaram a surgir no final do ano passado, os fãs do cinema de super-heróis deram gritinhos excitados. O filme prometia ser precisamente aquilo que ‘Guardians of the Galaxy’ não podia ser devido às suas ambições de apelo de bilheteira para todas as idades. ‘Deadpool’ prometia ser, digamos, um ‘Guardians of the Galaxy’ para maiores de 18 anos, apresentando-se com um trailer ousado sem papas na língua, com a promessa de violência, palavrões e sexo. O burburinho sobre o filme foi grande e aumentou quando recebeu um R-rating, ou seja, ninguém abaixo dos 18 podia ver o filme sem a companhia de um adulto. Na semana de estreia, o filme bateu recordes, o que levou imediatamente a imitações (o próximo filme de ‘Wolverine’, diz-se, será também R-rated), mas a verdade também é que logo a seguir se deixou completamente de falar do filme e as críticas não foram muito favoráveis.

Eu não fui ver ‘Deadpool’ ao cinema porque ele estreou na precisa altura em que a minha família aumentou, mas sempre me senti curioso por esta misteriosa falta de atenção que o filme recebeu depois de estrear. Claro que hoje em dia o sucesso dos filmes é todo feito de antemão, na fase do marketing, já que pouco mais de três semanas ficam nas salas de cinema. Se um filme não faz muito dinheiro no fim-de-semana de estreia (como aconteceu esta semana com o novo filme de Spielberg, ‘BFG’) já é considerado “um fiasco”, e é rapidamente lançado em DVD dois meses depois para recuperar o investimento, ao contrário do que acontecia há um par de décadas, quando um filme podia estar a marinar durante semanas nas salas até ser “descoberto”. Este contraste em ‘Deadpool’ era notório e podia fazer crer que o filme realmente não correspondeu às expectativas dos fãs. Verdade que o filme rendeu uns estonteantes 784 milhões de dólares a partir de um orçamento minúsculo (isto é, para um filme de super-heróis moderno) de 58 milhões, mas este dinheiro foi arrecadado nos mercados mundiais praticamente nos dois primeiros fins-de-semana. O marketing pré-estreia, não a palavra de boca, levou as pessoas ao cinema. E após ter visto o filme ontem à noite, percebi perfeitamente porquê.

Numa palavra, o filme é uma decepção. E é uma decepção não propriamente porque é um mau filme (está completamente na média dos filmes de super-heróis), mas porque não cumpre aquilo que prometeu. Incrível que em comparação, ‘Guardians of the Galaxy’ é muito mais irreverente, muito mais ousado, muito mas fascinantemente cool que ‘Deadpool’, e o motivo é simples. ‘Guardians of the Galaxy’ existia num universo cinematográfico surreal, em que ao mesmo tempo parodiava os filmes de super-heróis e era um extraordinário filme de acção/fantasia por mérito próprio, e onde o seu humor irreverente surgia naturalmente através da química dos actores e das personagens (como se tudo fosse uma grande improvisação). O pacote final era fresco e delicioso, com carradas de estilo e carradas de boa disposição.

Em contraste, ‘Deadpool’ já almejava ser todas estas coisas na fase do argumento, por isso tudo parece extremamente forçado e artificial. Há milhares de private jokes, milhares de referências à cultura pop e à cultura dos super-heróis, incluindo inúmeras quebras da quarta barreira (Reynolds fala repetidas vezes directamente para o espectador e manda bocas a tudo, incluindo ao cinema de super-heróis em geral, a si próprio e à sua interpretação no fiasco ‘The Green Lantern’, aos filme de X-Men, recorrentemente a Hugh Jackman, etc), que nos fazem rir claro, mas é um riso que se vai esbatendo à medida que o filme avança, porque chega a um ponto em que se torna completamente gratuito. Cena a cena, diálogo a diálogo, o filme insiste neste estilo quase por obrigação, e não se sente a química nem a naturalidade que tornaria credível, ou aceitável, este surrealismo aos olhos do espectador. Em ‘Guardians of the Galaxy’ entramos na onda e dançamos ao som dela. Em ‘Deadpool’ não.

Mas o filme tem mais uma grande fonte de decepção. Rapidamente chegamos à conclusão que toda a promessa de espectacularidade violenta, e a mediática atribuição do R-rating foram pouco mais do que bem conseguidas manobras de publicidade. O filme praticamente não tem cenas de acção violenta. ‘Machete’, por exemplo, mete ‘Deadpool’ a um canto. O que tem é alguma violência artística aquando das mortes e algum jorrar de sangue (mas nada que não vejamos noutro qualquer filme). Para além disso tem, e muito, uma catrefada de palavrões. E todos sabemos que humor com palavrões é a segunda pior forma de humor, a seguir, claro, aos duplos sentidos. ‘Deadpool’ não tem muitos duplos sentidos, mas quer ser cool só porque tem palavrões e um constante debitar de referências, que tornarão o filme datado em menos tempo que o próprio certamente esperaria.

Para mim a explicação é simples. Os produtores e o realizador estreante (Tim Miller, depois de ter trabalhado nos efeitos especiais de ‘Scott Pilgrim vs. the World’ (2010) e ‘The Girl with the Dragon Tattoo’ (2011) e ter sido o realizador de segunda unidade em ‘Thor: The Dark World’, 2013) tiveram medo. Medo de fazer o filme demasiado ousado, demasiado ofensivo, demasiado violento. Medo de ferir susceptibilidades, de não ser tão comercial, de não vender tantos bilhetes. Então o filme fica num limbo em que tudo se insinua mas nada realmente acontece. Então fica tudo na promessa do trailer e da primeira cena (a melhor do filme), onde num artístico freeze frame no meio de uma intensa cena de acção, cortesia da tecnologia moderna, assistimos a um genérico fake hilariante, descrevendo todos os lugares comuns deste género de filme (o vilão inglês, a personagem CGI, a miúda sexy, o melhor amigo nerd-brincalhão) com uma balada seventies como pano de fundo para tentar imitar a vibe de ‘Guardians of the Galaxy’.

Uma das vantagens do filme é que brinca consigo próprio e dessa maneira, num golpe talvez propositado, consegue minimizar as suas falhas intrínsecas. Assim, este genérico em tom de paródia permite disfarçar bem que as personagens do filme são na realidade os estereótipos que o próprio tão bem salienta, e portanto nunca têm grande dimensão ou substância. Do mesmo modo, por exemplo, no preciso momento em que o espectador se questiona porque é que só aparecem sempre as mesmas duas personagens do universo de X-Men (inclusive quando Deadpool vai à mansão do Professor X), é o próprio Deadpool que se vira para a câmara e diz precisamente isso: “Curioso que só vos vejo sempre aos dois. É como se o estúdio não tivesse dinheiro para adquirir os direitos de outro X-Men”. Mas ao mesmo tempo notamos que esta autoconsciência só é activada quando convém ao filme. A piada sobre ‘Taken’, por exemplo, é de mau gosto porque este filme poderia facilmente existir no universo de Besson e, se pensarmos bem, tem uma história tão linear e tão magra como algumas das extravagâncias de acção deste realizador, e vilões extraídos de lá a papel químico.

Na realidade, é incrível notar como este filme vive apenas de dois momentos. Primeiro, a cena de acção inicial, em que Deadpool ataca um conjunto de automóveis em busca de um tal de Francis (Ed Skrein, o homem que ficou com o papel de Transporter depois de Jason Statham e que é um vilão igualzinho ao desse género de filmes). Esta é uma cena que se estica por quase uma hora, sendo dada aos 30 segundos de cada vez, entrecortada com a história das origens de Deadpool. Ryan Renolds, interpretando o seu quarto super-herói e depois de ter sido Deadpool no primeiro ‘Wolverine’ (2009), tem sempre mais energia dentro da máscara do que propriamente fora dela (tenho pena que não seja levado a sério quando tem belas interpretações como a de ‘The Captive’ no ano passado). Como Wade Wilson, Renolds interpreta um ex-soldado que agora é uma espécie de homem do fraque dos mais fracos, e que tem sempre uma resposta na ponta da língua. Depois de o filme o enquadrar com algum dinamismo, estagna quando Wade conhece Vanessa (a surpreendente Morena Baccarin, provavelmente a melhor interpretação do filme), uma versão feminina da sua personalidade. Juntos vivem um romance tórrido que contudo se arrasta em demasia e cada vez mais afasta ‘Deadpool’ daquilo que prometeu ser.

Um belo dia Wade descobre que tem cancro e, numa tentativa de se curar para poder voltar para junto de Vanessa, aceita fazer parte de um suposto programa experimental de mutantes (onde é que já ouvi isto?!). Isso leva-o à câmara de horrores do sádico Francis, que na realidade é uma fábrica de mutantes para serem condicionados e vendidos a exércitos estrangeiros. Graças a um soro extraído de Wolverine, Wade torna-se imortal, mas fica desfigurado. Com medo que Vanessa não o aceite, e após conseguir fugir, Wade passa a segunda metade do filme, agora como Deadpool, em busca de Francis para que este possa reverter o processo. O que nos leva à cena inicial e ao segundo momento sobre o qual o filme gira. Escapando por uma unha negra a este ataque, Francis decide raptar Vanessa. É aí que Deadpool, com a ajuda dos tais dois X-Men, Colossus (Stefan Kapicic, o Schwarzenegger cá do sítio) e Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand, grande nome, personagem algo inútil a não ser oferecer possibilidades de bocas a Deadpool) atacam o navio onde Vanessa está retida para a salvar. E basicamente é isto.

Como a minha mulher salientou, se nunca tivéssemos visto um filme de origens de um super-herói, este ‘Deadpool’ até poderia ser interessante. Mas já vimos. Inúmeros. E com arcos completamente semelhantes. Pior, visto que 2017 nos trará um ‘Deadpool 2’ (confirmadíssimo!), não houve grande preocupação dos produtores/argumentistas de aprofundarem a personagem, a acção ou a história. Chegamos ao fim de ‘Deadpool’ com a sensação de que só agora o filme está a começar, e não nos conseguimos recordar bem exactamente que história houve pelo meio, porque na realidade não houve. Uma experiência genética criou Deadpool e seguiu-se uma rampage destrutiva para salvar a sua miúda. E têm eles a lata de gozar com ‘Taken’. Deadpool tem duas medianas cenas de acção, uma no início e outra no fim, algum jorrar de sangue, muito palavrão, algumas cenas artísticas que ficam bem na tela mas que são ocas e uma história que não tem uma única ramificação.

O filme pretende ser supostamente diferente e uma grande sátira, não por causa da história e das personagens, que o próprio assume serem banais, mas por causa do seu tom. Mas é o tom de ‘Deadpool’ assim tão irreverente, assim tão diferente, assim tão satírico, assim tão extraordinário? Não. As personagens secundárias proporcionam escapes cómicos claro (a velhota cega, o taxista indiano), mas tal também proporcionam as personagens secundárias de um filme de Adam Sandler. Ver Deadpool a fazer um desenho com lápis de cera antes de decapitar os inimigos é ponta de cool que salva o filme? Não. Pessoalmente, prefiro ver Star Lord a dançar em qualquer dia da semana. E as referências constantes daqui a meia dúzia de anos estarão totalmente datadas (e daqui a cinquenta tornarão o filme incompreensível), as piadas passam e perdem o gosto, e da segunda vez que virmos o filme já não suscitarão o sorriso que suscitaram agora. Vão soar a velhas e batidas.

Caro leitor, acredito perfeitamente que Deadpool é um filme que terá de certa forma resultado numa sala de cinema, com o efeito ‘bola de neve’ de risada de um público jovem numa sala cheia de sexta à noite. Mas não é um filme para rever, não é um filme para ter na estante, não é um filme para recordar. É um filme que representa os nossos tempos. Um filme que foi sempre muito mais espectacular na promessa do trailer do que na sua forma completa. Um filme que vive no aqui, agora, apontado para o público que ainda percebe uma piada sobre Hugh Jackman, e que não está pensado para ter o mínimo de longevidade. Um filme que não quer ter essa longevidade, pois essa será garantida pelas inúmeras sequelas já planeadas. Um filme que não quer ser mais do que 110 minutos de fachada só para dar a ilusão ao público de que está a ver qualquer coisa, mas que não tem uma pinga de conteúdo. Pode servir para as hordas de sexta à noite. Mas não serve para mim. Preciso de mais.

Fiquei muito desapontado com ‘Deadpool’. Qualquer ‘Crank’, ‘Snatch’, ‘Machete’, tem muita mais irreverência, muita mais espectacularidade na acção, muita mais coolness. ‘Deadpool’ é um filme com irreverentes posters, trailers e cena inicial. E depois vive dessa reputação até ao final. Se o espectador já pagou o bilhete e já está sentado na sala, porque precisa o filme de se esforçar em tentar ter e ser algo mais?! É por estas que, parafraseando aquele senhor do skate, o blockbuster moderno é uma cena que a mim não me assiste. 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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