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Sherlock Holmes Faces Death

Ano: 1943

Realizador: Roy William Neill

Actores principais: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Dennis Hoey

Duração: 68 min

Crítica: (Nota: Esta é a terceira e última de três críticas sobre os filmes de Sherlock Holmes realizados durante a década de 1940. Pode ler a introdução a este ciclo na crónica ‘Basil Rathbone é Sherlock Holmes!’ que publiquei há uns dias.)

Após ‘Sherlock Holmes and the Voice of Terror’ (1942), ‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ (1942), ambos já criticados neste ciclo de críticas, e ‘Sherlock Holmes in Washington’ (1943), mais uma história original de espionagem durante a Segunda Grande Guerra, o quarto filme de Basil Rathbone como Holmes para a Universal (sexto no total), ‘Sherlock Holmes Faces Death’  finalmente e felizmente esquece (já não era sem tempo!), a moral em tempo de Guerra e a luta contra o Nazismo. O filme não resiste à tentação de introduzir um costumeiro heróico monólogo final (completamente desadequado, mas pronto…), para satisfazer as exigências contemporâneas do cinema propagandista, mas até lá, e pela primeira vez desde que a Universal assumiu a produção da saga, o filme mergulha no universo de Conan Doyle para dar ao espectador uma história de investigação verdadeiramente “à la Holmes”.

Após tantos filmes centrados na luta contra o Nazismo, chegar a ‘Sherlock Holmes Faces Death’ (em português ‘Sherlock Holmes Enfrenta a Morte’) e apercebermo-nos que não vamos ter nada disso é imediatamente um alívio. Claro que em 1943 a luta contra o Nazismo era fundamental à escala mundial, mas numa perspectiva cinematográfica sabíamos que, truncado nesse papel simbólico, Holmes não estava a ser explorado na sua verdadeira essência nem até ao seu verdadeiro potencial, especialmente tendo um actor tão talentoso como Rathbone a incarnar o papel. Por isso mesmo, o espectador, especialmente se for fã da literatura de Conan Doyle, irá imediatamente sorrir ao aperceber-se que este filme faz um back to basics, abandonando as conspirações Londrinas de Nazis infiltrados e regressando aos ambientes típicos e clássicos das aventuras de Sherlock Holmes. Em ‘Sherlock Holmes Faces Death’ regressamos à mansão senhorial no countryside inglês, regressamos ao mistério centrado num segredo de família e regressamos a uma investigação que, apesar de ter menos acção, movimento e tensão do que aquela que construía os filmes anteriores, é mais fascinante pois processa-se, tal como nos livros, através do processo dedutivo, das entrevistas aos suspeitos, e do encontrar de pistas e de corpos até atingir a solução final.

Contudo, se esta opção argumental torna esta encarnação de Holmes bem mais interessante que as anteriores, não a torna, infelizmente, necessariamente melhor. A história é levemente baseada num conto de Doyle, ‘The Adventure of the Musgrave Ritual’, escrito em 1893, e leva Holmes, a pedido de Watson (de novo Nigel Bruce, tão pachorrento como de costume), a uma mansão de retiro para ex-militares, do qual Watson é médico consultor, onde estão a ocorrer um conjunto de misteriosos assassinatos. O filme desenrola-se como um whodunit clássico (quem é o assassino e porquê, e que segredos esconde a mansão) que na realidade está feito mais ao estilo de Agatha Christie do que de Conan Doyle. Para além do mais é um whodunit algo frouxo já que a sua construção não é propriamente exímia em estimular as nossas curiosidades ou as nossas suspeições.

Em ‘Sherlock Holmes Faces Death’ as coisas vão simplesmente acontecendo, as cenas e as pistas encadeiam-se umas nas outras sem grande sabor e o espectador limita-se a assistir aos eventos com o mesmo desfrute descartável e pouco memorável que mais tarde associaríamos ao episódio uma série de televisão. O próprio Rathbone, paradoxalmente, apesar de estar num meio muito mais propício à sua personagem, acaba por ter muito menos chama, o que é uma clara perda para o filme. Isto acontece simplesmente porque, tal como o espectador, ele apenas segue mecanicamente as pistas de um argumento linear e que só não é previsível pois nenhum espectador se dará ao trabalho de pensar muito sobre ele.

Para começar, uma hora de duração é muito pouco tempo. A história não tem o vagar suficiente, o design de produção não tem a qualidade suficiente, e as personagens não têm a profundidade suficiente para nos permitir mergulhar a fundo neste ambiente e nesta trama. Aliás, uma das coisas que mais me fez impressão a assistir a este filme foi o anonimato das personagens secundárias. Pela mansão deambulam os herdeiros Musgrave, o clássico casalinho amoroso, o suspeito mordomo, alguns eventuais caçadores de fortunas e claro, os vários oficiais reformados, mas sinceramente as personagens não se distinguem umas das outras porque não têm realmente personalidades; são apenas estatística para os cálculos de Holmes (este não pode ser porque, aquele poderá ser porque…). Claro que num episódio de uma série de mistério tudo tem que ser dado muito rapidamente, mas tem que haver algo que identifique os suspeitos. Só assim poderemos sentir e desfrutar dos twists. Neste filme, pelo contrário, rapidamente chegamos à conclusão que o assassino ser uma ou outra personagem é, literalmente, “igual ao litro”. Quando Holmes faz as suas deduções e revela o assassino, dei por mim a pensar "qual era este?”… e isso claro, nunca é bom.

Para além do mais, fiquei algo desapontado com a forma como a investigação é conduzida. O ponto central, o segredo por detrás da lenga-lenga do ritual de Musgrave, é um daqueles artifícios que resulta muito bem no livro, quando podemos dar largas à nossa imaginação, mas que materializado na tela da maneira como Roy William Neill (o realizador) o imagina não parece fazer grande sentido. O jogo de xadrez humano que Holmes obriga os habitantes da casa a jogar é elaboradíssimo mas resulta numa conclusão simplória (vamos para a cave!), algo que Holmes poderia ter facilmente deduzido sem xadrez nenhum…

Picuisses à parte, tenho que admitir que não é tudo mau neste sexto filme da saga. Gostei bastante do back to basics, que a saga aprenderia a usar melhor daqui para a frente (mas tem de se começar por qualquer lado e o esforço merece ser reconhecido). Desfrutei da aventura pela aventura, da investigação pela investigação, que vi relaxadamente sem esforço. Desfrutei como o filme se desenrola sem pressões de propaganda, sem uma única menção aos nazis. Desfrutei da familiaridade dos ambientes de Doyle e das personagens centrais, bem interpretadas por Rathbone e Bruce, de apelo universal. Agora a história nunca desperta grande interesse e rapidamente se esquece, principalmente porque quer os espectadores, quer os produtores da Universal, sabiam perfeitamente que daí a uns breves meses Sherlock Holmes regressaria para mais uma aventura, para mais uma investigação, para mais uma lista de suspeitos e para mais uma solução. E é verdadeiramente isso que interessa a todos; a longevidade do mito das personagens e não a longevidade dos argumentos, meros panos de fundo para essas personagens. E é por isso também que estes filmes superaram o teste do tempo. O novo 'Sherlock Holmes' pode ser muito mais filme, mas Robert Downey Jr. nunca será um Basil Rathbone.

‘Sherlock Holmes Faces Death’ é o exemplo perfeito de um escape de entretenimento ao estilo televisivo antes de haver televisão. Comporta-se precisamente assim e portanto é ao mesmo tempo tão interessante e tão descartável como qualquer série, dos anos 1960 (O Santo, Os Vingadores) ou dos dias de hoje (CSI, Bones). É um filme-episódio de uma hora de duração com a rotina mecânica da qualidade técnica de um estúdio da Hollywood clássica (e que tanta falta hoje faz ao cinema moderno), mas sem chama porque simplesmente não foi feito para a ter. O filme cumpre aquilo que promete ser, é o que é, mas nunca o excede. E mais não pode ser e ter. E mais não se pode dizer. Mas também, na realidade,  mais não precisa.

Obrigado, caro leitor, por esta semana me ter acompanhado nesta viagem de recordação pelos filmes em que Basil Rathbone é Sherlock Holmes. Em EU SOU CINEMA falamos de três dos catorze da saga. Elementar portanto, caro leitor, que faltam ainda onze que pode investigar por si. Agora é consigo…


3 comentários:

  1. Gostei muito de todos os textos, mas gostaria que você fizesse críticas sobre os outros também. Um filme da série que me surpreendeu no final foi "Sherlock Holmes e a Casa do Medo".

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  2. Gostei muito de todos os textos, mas gostaria que você fizesse críticas sobre os outros também. Um filme da série que me surpreendeu no final foi "Sherlock Holmes e a Casa do Medo".

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  3. Obrigado! Não prometo que seja num futuro próximo, mas vai para a minha "listinha".

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Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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