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Sherlock Holmes and the Secret Weapon

Ano: 1942

Realizador: Roy William Neill

Actores principais: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Lionel Atwill

Duração: 68 min

Crítica: (Nota: Esta é a segunda de três críticas sobre os filmes de Sherlock Holmes realizados durante a década de 1940. Pode ler a introdução a este ciclo na crónica ‘Basil Rathbone é Sherlock Holmes!’ que publiquei há uns dias.)

O reavivamento da saga Sherlock Holmes por parte da Universal, três anos depois dos dois filmes da Fox, provou ser um sucesso. Com Basil Rathbone como o detective de Baker Street e Nigel Bruce como o seu fiel companheiro, ‘Sherlock Holmes and the Voice of Terror’ (1942, já criticado) transladou Holmes da Londres vitoriana para a Londres sediada pelo Blitz durante a Segunda Guerra Mundial, com um argumento que tinha, como escrevi, “muito mais de propaganda do que propriamente de excitação dedutiva”, mas ao qual o público respondeu muito positivamente porque, digo eu, misturava escapismo com um herói clássico com a necessidade premente de acreditar que os Nazis podiam ser derrotados.

Por isso mesmo, nem três meses depois da estreia do primeiro filme, já a Universal lançava o segundo (o quarto em que Rathbone interpretava Holmes): ‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ (1942), um filme que é também o primeiro da saga realizado por Roy William Neill. Neill, um mestre do noir low-budget, ficaria para a posteridade intrinsecamente associado a esta saga, visto que acabaria por realizar e produzir todos os restantes dez filmes que se fariam até 1946, ano em que, infelizmente, também viria a falecer.

Lançado nos Estados Unidos no dia de Natal de 1942, sensivelmente um ano após os ataques de Pearl Harbour que tinham levado o país a entrar na Guerra, ‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ mantém muitos dos trejeitos do filme anterior; os ambientes enevoados nocturnos (a começar pelo genérico clássico, repetido nos filmes seguintes, de Watson e Holmes a andar por entre o nevoeiro londrino); as conspirações Nazis em Inglaterra (neste filme Moriarty, o arqui-inimigo de Holmes, trabalha inclusive para os alemães); e, como contraponto moralista, os discursos heróicos finais de "a Inglaterra prevalecerá e iremos ganhar a Guerra".

Contudo, o toque de Neill e, supõe-se, a lição aprendida relativamente às falhas do filme anterior, fazem com que este filme seja muito melhor em todos os departamentos. Aliás, acabaria por ser um dos melhores filmes de toda a saga e o motivo é bem simples: o patriotismo exacerbado não consome todo o filme, tal como acontece no anterior, mas existe em low-profile na sua subcorrente, como uma necessidade intrínseca e subtil que não precisa de ser abertamente relembrada a cada instante mas que cada espectador sabe que existe. Para além do mais, a história deste filme é muito mais dinâmica e interessante do que aquela de ‘Sherlock Holmes and the Voice of Terror’. De novo, há um ostensivo crédito de que se baseou a história num conto de Doyle (neste caso ‘The Adventure of the Dancing Men’), mas mais uma vez, exceptuando o código secreto dos homens dançantes que o filme utiliza, não há muito mais que vai retirar à história de base. Mesmo assim, Neill consegue manter uma tensão constante ao longo da 1h de duração desta película que, se não é propriamente excelente (da perspectiva do produto em série, low profile, B-picture, que é), pelo menos é cativante, que nos prende à história como um bom episódio de uma série de espionagem, ou um bom conto de detectives, nos prende. E é precisamente isso que, como espectadores, queremos.

O filme abre na Suíça (ou melhor dizendo num cenário pobre que nos dizem ser a Suíça…), num pequeno cafezinho onde um senhor idoso entra ostensivamente para vender livros mas que na realidade vem trocar informações com dois agentes Nazis sobre o paradeiro de uma famoso cientista (William Post Jr.), que detém um invento (que funciona como o famoso McGuffin de Hitchcock) que poderá mudar o curso da Guerra. Mas o velhote é na realidade Holmes (Rathbone prova o seu enorme range de actuação neste filme, assumindo uma série de disfarces credíveis e multifacetados) que ludibria os Nazis e resgata o cientista, trazendo-o para Londres. Aqui contudo, o cientista parece estar mais interessado em visitar a sua velha chama (Kaaren Verne) do que com a sua segurança e, ao fazê-lo, é raptado por Moriarty. Felizmente, o cientista havia tomado precauções e dividido o seu invento em peças que espalhou por Londres. O código dos homens dançantes funciona precisamente como um mapa do tesouro, que quer Holmes quer Moriarty terão então que conseguir desvendar antes que o seu opositor o consiga fazer. Mas Holmes está em desvantagem porque o cientista está nas mãos de Moriarty, sujeito a tortura e em parte incerta…

Usando o novo invento, o rapto e a ‘caça ao tesouro’ como desculpa, o filme não abranda um único segundo desde que se inicia até que termina. Para isso contribui também um aproveitamento muito superior do potencial e do talento de Rathbone, ao qual é permitido ser muito mais dinâmico (mais acção, traduzido por um movimento constante, e menos dedução), e a quem se dá rédea livre para mergulhar a fundo nos vários disfarces que Holmes assume ao longo do filme. De novo, Rathbone oferece ao espectador uma grande representação da personalidade do Holmes literário.

Para além do mais, ao contrário do filme anterior, ‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ não é nada previsível na sua história, que vai sustendo a atenção do espectador com a excitação que proporciona. Não é que a história seja transcendental (num produto destes nunca será), mas é minimamente aceitável para justificar as constantes mudanças de interiores (dos apartamentos, aos bares, às docas, ao ‘lar do vilão’ no final), a acção e as deduções que acompanham esse movimento, e a tensão da corrida contra o tempo que, em contra-relógio, o filme acaba por se tornar e que sentimos com a vibração simpática da certeza de que no final os nossos heróis sobreviverão para lutar mais um dia. E é de salientar também o showdown final. Ao pôr frente a frente o Moriarty de Lionel Atwill e o Holmes de Rathbone torna-se um dos pontos altos deste filme, mostrando dois character actors a exibirem o melhor de si; uma soberba luta de egos com uma intensidade obtida por meios muito simples (99% actuação, 1% enquadramento) que muita falta faz, por exemplo, aos recentes filmes de James Bond. 

Mesmo não sendo, mais uma vez, inteiramente fiel ao cânone de Conan Doyle, ‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ já não é exclusiva (e meramente) um filme de propaganda, porque funciona da mesma forma que um grande episódio de uma série de espionagem funcionaria após o advento da televisão. É uma história de espionagem em tempo de Guerra com pitadas inevitáveis de inspiracionalismo suficientemente interessante para uma hora de escapismo, que cumpre na perfeição a sua dupla função (entreter e moralizar) e que tem um Holmes e um Moriarty no pico da forma, um confronto de titãs simples mas eficaz que faz o filme valer a pena. Por isso facilmente desculpamos o resto, nomeadamente a simplicidade estrutural da obra (mas 1h e um orçamento pequeno não dá para muito mais) e a ingenuidade que atravessa o filme, quer nas deduções (este não é ainda o melhor Holmes em termos de dedução intelectual), quer nos vilões que aqui, como na restante espionagem da história do Cinema, se recusam a matar Holmes até ser tarde de mais, embora tenham muitas, muitas oportunidades para o fazer…

‘Sherlock Holmes and the Secret Weapon’ não é certamente um grande filme, isto é, num contexto genérico de definição de um grande filme. Mas é um grande filme no contexto particular em que existe, sendo facilmente um dos melhores filmes da era Rathbone e constituindo uma memorável re-incarnação da lenda de Sherlock Holmes no grande ecrã. Por esta altura, Hitchcock, Fritz Lang e outros mestres estavam a conceber grandes obras de espionagem/luta contra o Nazismo. Mas no reino da espionagem de série B, não se encontra muito melhor do que isto, e é material como este que serviria de base para as grandes séries de espionagem que duas décadas depois surgiriam no meio televisivo, como ‘The Avengers’ ou ‘The Saint’. Para fãs dessas séries (culpado!) é excelente ver em filmes como este o big bang dessa forma de contar uma história de mistério e espionagem. Porreiro.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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