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Spectre

Ano: 2015

Realizador: Sam Mendes

Actores principais: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux

Duração: 148 min

Crítica: James Bond está de volta. Repito. James Bond está de volta! E com isto não quero dizer o óbvio, que estreou o novo filme de James Bond, o 24º, esta semana. Quero dizer, isso sim, que o verdadeiro James Bond cinematográfico, aquele que imediatamente amamos desde o lançamento de ‘Dr. No’ em 1962, e que nos seduziu e cativou com o carisma, o charme, a acção e a fantasia escapista, quiçá realista, das suas aventuras spy-fi ao longo de cinco décadas, finalmente regressou ao grande ecrã, após anos em que essa sua aura esteve ausente. Mas um bom filho a casa retorna. Neste caso, regressa às suas origens estilísticas, o que não deixa de ser surpreendente (eu, pelo menos, não estava à espera).

Não vou dizer que ‘Spectre’ é um dos melhores filmes de James Bond. Não é. Mas é o melhor filme de Bond, de longe, desde o soberbo ‘Casino Royale’ (2006). ‘Spectre’ mete ‘Quantum of Solace’ (2008) num bolso e está anos-luz à frente de ‘Skyfall’ (2012), mas não é para todos. Nem de propósito, quem disse maravilhas de ‘Skyfall’ é precisamente quem está a dizer agora que ‘Spectre’ não satisfaz. São preferências. Na minha opinião, quem sempre amou o Bond de Sean Connery e Roger Moore, quem olha com nostalgia para os filmes dos anos 1960 e 1970 como os melhores da saga, não poderá deixar de encontrar em ‘Spectre’ um parente próximo, em termos de forma, ambientes e até argumento, mais ponderado (embora não necessariamente mais bem trabalhado), mas menos assente na acção e menos preocupado em ser épico. ‘Spectre’ pode não ter a ambição artística de ‘Skyfall’, mas tem a ambição de ser um grande filme de James Bond. Não de Borne, não de Missão Impossível, não de Taken. De James Bond. E é precisamente isso que consegue ser.

Não há dúvidas que o primeiro filme de Bond da era Daniel Craig, ‘Casino Royale’ é extraordinário. Como ‘Batman Begins’ do ano anterior, foi um dos primeiros filmes a fazer uma ligação credível entre uma boa história de acção fantasiosa e o sabor amargo da realidade. ‘Casino Royale’ era fabuloso como um filme de acção, mas tinha outra coisa que lhe dava ainda mais valor: substância. E essa substância não era fruto do acaso. Advinha, claro, do facto de ser uma adaptação fiel (incrivelmente fiel) do primeiro romance de James Bond datado de 1952, o único que por motivos de direitos de autor nunca tinha sido objecto de uma adaptação ‘oficial’. A alma de Fleming existe no cerne de ‘Casino Royale’, na psicologia de Bond, no papel de Vesper na sua vida, bem como existe em todas as cenas que foram ‘inventadas’ para dar maior dimensão ao filme. Mas se esta dureza e realismo passou a ser norma em todos os blockbusters de espionagem, ficção científica e super-heróis do novo milénio, poucos são os filmes que o conseguiram fazer com qualidade. A maior parte só introduz estes elementos porque agora é quase lei fazê-lo, não porque faz sentido de acordo com a psicologia do filme. A partir de 2006, tudo teve que passar a ser grandioso, duro e emocionalmente desgarrado, fizesse ou não sentido, de Batman, a Super-Homem, a Bourne. E os filmes de Bond seguintes não foram excepção.

Para mim quer ‘Quantum of Solace’ quer ‘Skyfall’ são filmes que tentam ser filmados de uma forma épica, dura e negra mas, se esmiuçarmos cuidadosamente a sua história, não o são (o plano patético do vilão em ‘Skyfall’ é prova disso, por mais bem disfarçado que esteja). ‘Quantum of Solace’ ainda resulta psicologicamente se o pensarmos como o terceiro acto de ‘Casino Royale’ (a sede de vingança de Bond justifica todo um filme frenético que não pensa nem pondera) mas ‘Skyfall’ é completa parvoíce argumental, um sucesso de marketing e de forma, não de substância. Estes filmes apostaram numa história ‘de origens’ a conta-gotas, com contornos exagerados de uma artificial grandiosidade e um suposto pesado realismo dramático que, sinceramente, já enjoava. ‘Quantum of Solace’ ainda se conseguia perceber pelos motivos acima citados, mas esticar isso até ‘Skyfall’ já foi de mais. Bond o pária do sistema. Bond o renegado. Bond o atormentado pela morte de Vesper. Já percebemos. Não dá para seguir em frente? E depois, preocupado com estes apartes conceptuais, e enrolados em histórias elaboradas em demasia mas paradoxalmente desinteressantes (ninguém perdeu tempo a pensar muito nelas) e com excessivas e espalhafatosas cenas de acção a torto e a direito para satisfazer os gostos contemporâneos, estes filmes pareceram esquecer-se o que fazia de Bond especial; o charme, a sedução, a cor local. Repara-se nestes filmes que a montagem frenética impede toda e qualquer apreciação do local escolhido para as filmagens. Repara-se nestes filmes que as personagens, particularmente os vilões e as Bond-girls parecem (e são) colados a cuspo. Por muito que se diga que a Bond-girl moderna é uma mulher de armas, as Bond-girls de ‘Skyfall’ são tratadas como meros objectos. Nem nos anos 1960 eram tratadas assim.

Mas tudo isso muda aqui, surpreendentemente. Surpreendentemente porque ‘Skyfall’ foi altamente popular (o filme mais rentável da saga). Surpreendentemente porque nunca esperei que pudessem abdicar de uma fórmula errada mas que satisfez o público mundial em prol de um regresso à alma da saga para satisfazer os puristas. Surpreendentemente porque é o próprio Sam Mendes (realizador de ‘Skyfall’ e que havia ganho o Óscar de Melhor Realizador em 1999 por ‘American Beauty’) que regressa para comandar o filme. Mas ainda bem. Ver ‘Spectre’ é como passar do oitenta de novo para o oito, e lentamente começamo-nos a aperceber que o filme não regressa às suas origens estéticas por acaso. Regressa às origens para acabar de dar a volta ao círculo e fechar uma era. A era Craig.

Nos primeiros cinco segundos do filme ouvimos o clássico tema Bond e vemos um ‘gun barrel logo’ – a primeira vez que tal acontece num filme de Craig. Só isto já faz sorrir. E quando o filme começa na cidade do México, numa sequência de acção/tensão, brilhantemente filmada com longos planos sem cortes e com milhares de extras (finalmente podemos apreciar a tal cor local), sorrimos ainda mais. E depois, quando entra o genérico com a música de Sam Smith ‘Writing’s on the Wall’, um throwback (mesmo que só parcialmente bem conseguido) ao glamour das músicas dos anos sessenta, enquanto assistimos a imagens dos filmes anteriores projectadas nas clássicas sombras femininas (só me recordo disso acontecer em ‘On Her Majesty’s Secret Service’, 1969) então é aí que percebemos que este Bond vai ser especial e que vai honrar, como nenhum filme desde os anos 1990, o legado da saga. E o filme fá-lo subtilmente, sem precisar de forçar as homenagens nos diálogos ou nos adereços de cena (como ‘Die Another Day’ fez). ‘Spectre’ fá-lo no seu estilo visual, fá-lo no seu tom, fá-lo no seu ritmo. Isto é óptimo mas é preciso dizer que não é sempre uma vantagem. O humor estilo Roger Moore é quase paradoxal numa cena de acção moderna, com fotografia realista, e a primeira conversa Bond-M ao estilo desafiador de Sean Connery gera alguns momentos constrangedores nos actores. Craig, por exemplo, parece forçado aqui (é o único sítio em que não faz jus ao seu grande Bond).

Outra coisa que não cai bem é mais uma vez fazerem de Bond um pária (outra vez?!). O MI-6 continua em restruturação, e o M de Ralph Fiennes continua a lutar contra a dissolução do programa ‘00’, desta vez contra uma nova figura, C (o actor Andrew Scott) que quer substituir todos os agentes de campo por uma rede de vigilância digital à escala global. Porque Bond deixou a cidade do México em alvoroço (como de costume) M está de novo sob pressão de o retirar do serviço e a sua licença é revogada. Mas o que Bond não diz a ninguém (pelo menos no início; M, Q e Moneypenny todos irão acabar por ajudá-lo) é que está a seguir uma pista deixada pela recém-falecida M (Judi Dench). Claro que é ridículo que a antiga M deixe uma mensagem de vídeo que não explica absolutamente nada e portanto quer Bond, quer o espectador, tenham que juntar as peças pelo caminho, mas isso acaba por ser menos importante. Aliás, todos sabemos que quando se explica uma história de menos nestes filmes, as falhas são notórias, mas quando se explica demais também, porque os buracos ficam mais perceptíveis (ver ‘Skyfall’). O segredo é encontrar o equilíbrio, e ‘Spectre’ têm-no. Explica o suficiente para ficarmos convencidos e não fazermos mais perguntas, mas não tanto para começar a ter incongruências. E isso é perfeito.

Assim sendo, Bond segue na pista de uma misteriosa organização à qual pertencia o homem que matou na cidade do México. Primeiro vai a Roma tentar saber mais da sua viúva (Mónica Bellucci, com 51 anos a mais velha Bond-girl da história, mas que ainda está para as curvas – perdoem-me o trocadilho). É aí que tropeça numa reunião secreta da SPECTRE e tem o primeiro vislumbre do seu líder, Oberhauser (o grande Christoph Waltz, vilão Bond par excellence), antes de este desaparecer de novo nas sombras e só reaparecer mais tarde no filme. É em Roma também que aparece pela primeira vez Hinx, interpretado pelo gigante, ex-lutador de wrestling, Dave Bautista (o Drax de ‘Guardians of the Galaxy’) e que é, digo eu, o melhor capanga desde Oddjob em ‘Goldfinger’ (1964). É só músculo, é só força bruta ameaçadora, sem conversa desnecessária. É ele que persegue Bond na grande sequência de perseguição automóvel “à antiga” pelas ruas de Roma. Há quantos Bonds não tínhamos uma cena tão clássica, mas tão eficaz e excitante como esta?

Perseguindo Oberhauser, cujo passado está mais ligado ao de Bond do que ele inicialmente pensa, e que agora mudou de nome (todos sabemos para qual, mas eu não vou revelar nesta crítica para os mais distraídos), Bond vai aos Alpes Austríacos rever um velho conhecido, e depois é junto da filha deste, Madeleine (a bela Léa Seydoux brilhando no papel) que vai viver o resto das suas aventuras. Juntos viajam até Marrocos e depois claro, há o showdown no lar do vilão, no meio do deserto. Se acabasse aqui, já me daria mais do que satisfeito. Mas o filme ainda tem um quarto acto, de volta a Londres, aqui sim para tentar recapturar aquela essência épica, maior do que a vida, de ‘Skyfall’. Na minha opinião era desnecessária, mas não faz grande mossa na qualidade do filme.

Com excepção desta última sequência em Inglaterra, todo o filme se desenrola com o ritmo do Bond clássico. Sorvemos todas as magníficas localizações, nos três continentes por onde o filme passa. Sentimos a energia de Bond, que aqui está mais solto e relaxado, como se Craig estivesse a fazer o percurso emocional para se aproximar mais de Connery ou Moore. Não, não manda one-liners (confesso que às vezes senti falta, como depois da cena do helicóptero), mas o sorriso atrevido de Craig diz muito e o próprio filme não se importa de ter piada de vez em quando. Há muito menos enfoque no vilão em si e no seu plano (faz o que tem a fazer, diz o que tem a dizer no tempo devido) e deixa Bond fazer das suas perante os vários capangas, em cenas de acção filmadas realmente, com reduzidos efeitos especiais e com a espectacularidade de outrora, usando uma panóplia de veículos, quer seja em terra (Roma) no ar (Áustria; mais uma fantástica sequência) ou no mar (Londres). Regressamos finalmente (já não era sem tempo) ao glamour da sedução das Bond-girls. Madeleine é a primeira depois de Vesper que não é tratada como um objecto e finalmente vemos uma ligação realista e credível entre ela e Bond. E depois, claro, há as constantes reminiscências. A sequência inicial no dia dos mortos relembra-nos de ‘Live and Let Die’ (1973). Q no terreno relembra-nos de ‘Licence to Kill’ (1989). A clínica no topo dos Alpes e a cena do teleférico relembram-nos de ‘On Her Majesty’s Secret Service’ (1969). Hinks relembra-nos de Oddjob. A sequência no comboio relembra-nos de ‘The Spy Who Loved Me’ (1977). E toda a sequência no lar do vilão relembra-nos, imenso, ‘Dr. No’ (1962), como seu vagar entre o charme e a tensão. E é maravilhoso passar por todos estes estados que não são bem cópias nem homenagens, mas sim recreações de ambientes aos quais os fãs reagirão, envoltos na frescura de uma nova aventura.

O maior problema de ‘Spectre’, a meu ver, é que o ritmo a que desenrola o seu novelo já não se adequa às expectativas do público moderno, o mesmo público que aclamou a parvoíce espalhafatosa que era ‘Skyfall’ e que agora não percebe muito bem porque é que de repente James Bond ficou assim. Ficou assim porque sempre foi assim, e é óptimo que os produtores Bond não se tenham esquecido disso. Claro que podemos afirmar que a história não está muito desenvolvida. Mas que filme de James Bond, bom ou mau, a tem? Nem ‘Skyfall’ nem nenhum. Porque não é isso que é importante. Passados tantos filmes Bond, seria surpreendente se algum filme conseguisse realmente inovar. A verdadeira questão é se cada novo filme de Bond consegue contar a mesma história com novas nuances, e com novos motivos de interesse, numa cena de acção, numa interacção com uma Bond-girl, numa localização paradisíaca, ou num discurso do vilão (que obviamente não vai matar James até ser tarde de mais...). ‘Spectre’ recebe um estrondoso sim em todas estas questões.

‘Spectre’ não é um grande filme de acção. Se o espectador quer isso que veja ‘Taken’. Não é uma aventura cheia de fantasia e adrenalina. Se o espectador quer isso que veja ‘Missão Impossível’. É sim um grande filme de James Bond. Aqui, a saga reinventa-se como nunca nos últimos vinte anos, anos esses em que se esforçou (muitas vezes em demasia e desesperadamente – ver ‘Die Another Day’ ou ‘Skyfall’) por encontrar o seu tom no mundo cinematográfico moderno repleto de heróis de acção indestrutíveis. Aqui, finalmente, a saga descobre que a resposta não está em imitar quem os havia imitado anteriormente. A resposta está no passado. Bond descobre isso no filme, mas num pedaço de bem-vinda ironia, os produtores e o espectador também. Era este o filme que eu estava à espera desde ‘Casino Royale’. Um filme de James Bond com elementos de modernidade, mas intrinsecamente ligado à herança clássica. Num mundo moderno intento em avançar a uma velocidade vertiginosa, ‘Spectre’ é uma carta de amor ao Bond clássico, reformulando elementos familiares para criar uma nova aventura sedutora, e ensinando aos críticos e ao público moderno que o carisma fascinante do romance de espionagem está na força das suas personagens, no glamour da aventura, na subtileza dos pormenores e não exclusivamente na testosterona da sua acção. 

Por estes motivos ‘Spectre’ ascende facilmente ao topo da lista dos melhores filmes de Bond da era moderna. Não fosse a genialidade de ‘Casino Royale’ bem que se poderia dizer que era o melhor Bond dos últimos vinte anos. Devia ter sido este, e não ‘Skyfall’, o filme lançado para comemorar os 50 anos da saga, em 2012. Porque este filme é uma verdadeira celebração, uma homenagem sentida e reverente, mas que consegue ainda ter elementos suficientes por si próprio para se erguer sozinho. E por último, é a forma mais perfeita possível (não consigo imaginar outra) de terminar o arco de Daniel Craig como Bond. Nada contra o senhor (muito pelo contrário), mas espero sinceramente que não mais volte a interpretar Bond. Porque isso seria estragar o seu contributo que neste momento é (quase) perfeito. Se se ficar por aqui, Craig irá para sempre ser recordado como o Bond das origens, que fez o arco, emocional e conceptual, mais multifacetado e mais profundo de todos os actores que já detiveram o papel. Já foi o verdadeiro ‘Ian Fleming’s 007’ em ‘Casino Royale’. Já foi um herói de acção pura e dura em ‘Quantum of Solace’. Já foi um herói ao mesmo tempo épico e vulnerável, cliché da década de 2010, em ‘Skyfall’. E agora é um Bond cinematográfico à imagem de Connery ou Moore que finalmente, quatro filmes depois, ruma ao horizonte com a miúda nos braços. Nada que pudesse fazer a partir de agora alguma vez iria superar isto.

Bond, James Bond, o verdadeiro, o único, o inigualável, está de volta. E essa é a maior maravilha que Sam Mendes, Daniel Craig, os argumentistas John Logan, Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth, e os icónicos produtores Barbara Broccolli e Michael G. Wilson podem oferecer. São os fãs que agradecem, do fundo do seu coração. Agora é nunca perder esta chama em filmes vindouros, quem quer que seja o próximo Bond. Ficaremos à espera.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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