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Star Wars: Episode II - Attack of the Clones

Ano: 2002

Realizador: George Lucas

Actores principais: Hayden Christensen, Natalie Portman, Ewan McGregor

Duração: 142 min

Crítica: Como é que se critica a mais bem-amada saga da história do cinema? O que é que se escreve sobre os filmes que já toda a gente viu, inúmeros adoram incondicionalmente, e outros tantos têm memorizado, cena a cena, frame a frame? O que se pode acrescentar a um universo que é muito mais do que um evento cinematográfico, é uma filosofia de vida para todos os fãs que se renderam ao universo de fantasia galáctica que George Lucas concebeu na década de 1970? A resposta a todas estas questões é: não é possível.

‘Star Wars’ (‘A Guerra das Estrelas’) é um mundo infinito e nada que o crítico possa dizer surgirá como uma revelação. Já tudo se escreveu e reescreveu sobre Star Wars. Já tudo se sentiu, já tudo se amou ou detestou; a herança mitológica, a nostálgica aventura, a magia do entretenimento, a exuberância da fantasia, os inovadores efeitos especiais, a soberba banda sonora de John Williams. Portanto a única coisa que se pode acrescentar, realmente, é mais uma visão pessoal sobre a saga. É precisamente isso que me proponho a fazer. Saltar tudo o que já foi sobejamente debatido nas últimas décadas para me centrar de novo nos filmes em si, em seis reflexões (nem lhes vou chamar críticas) inspiradas pelo facto de, como um bom fã nerd, nas últimas seis sextas-feiras ter revisto cada um dos seis filmes da saga, ou não estivesse a estreia de ‘Star Wars Episode VII: The Force Awakens’ a aproximar-se a passos largos!

O que se segue são as minhas sensações e reacções instintivas a cada um dos filmes, rabiscadas agora, tantos anos e tantas visualizações depois, com a plena consciência de que os sei de cor, de trás para a frente e da frente para trás até ao mais ínfimo pormenor (eu avisei… nerd!), mas ao mesmo tempo a tentar ter algum distanciamento (tarefa quase impossível num conjunto de filmes que diz tanto a nível pessoal) para procurar analisar objectivamente a lógica do todo. Depois de ‘Ep. I: The Phantom Menace’ agora ‘Ep II: Attack of the Clones’. Que a força esteja convosco!


‘Ep II: Attack of the Clones’ (Ataque dos Clones) sempre foi um filme de promessas. ‘Ep. I: The Phantom Menace’ (1999) foi um enorme sucesso de bilheteira (outra coisa não seria de esperar), mas o filme teve de lutar para ter uma aceitação crítica. Muitas coisas se disseram sobre Ep. I; a sua infantilidade, o seu uso abusivo de efeitos especiais, a sua história fraca, e a existência de personagens inúteis como Jar Jar Binks. Algumas destas coisas podem ser verdadeiras (ver a minha crítica anterior), mas quando, três anos depois, ‘Attack of the Clones’ estava prestes a ser lançado, lembro-me perfeitamente da expectativa de que era desta que Lucas ia satisfazer completamente os seus fãs. Era desta que a saga se ia tornar mais densa e a história mais madura, pois Anakin já estava adulto e ia começar a virar para o lado negro da Força. Era desta que íamos ter uma história com mais acção, que não ia perder tanto tempo com trivialidades. Era desta que iriamos ver, pela primeira vez na saga, os Jedi em pleno exercício das suas funções pela galáxia. Era desta…

O mais curioso é que, mais de uma década depois, Ep. II ainda é um filme que faz as mesmas promessas. Quando nos predispomos a rever Ep. II, mais que certo acabamos de ver Ep. I e portanto não podemos deixar de sentir essa mesma expectativa uma e outra vez (mesmo sabendo que não vai ser saciada), e somos ingénuos ao ponto de acreditar, por momentos, nessas promessas nas entrelinhas. Mas uma e outra vez, agora tal como em 2002, ficamos decepcionados (pelo menos eu fico). Para mim não há qualquer dúvida. ‘Star Wars Ep. II: Attack of the Clones’ é o pior filme da saga Star Wars. Repito. É O PIOR FILME DA SAGA.

Várias coisas se combinam para que assim seja, e todas, tal como em Ep. I, estão associadas às escolhas pessoais de Lucas, em termos de tom e rumo que decidiu dar às prequelas. Se Lucas tivesse escrito os três argumentos nos anos 1990 seria uma coisa. Mas, obviamente, não o fez. Foi escrevendo-os à medida que foi fazendo os filmes, e nota-se perfeitamente como de filme para filme vai modificando coisas para acomodar as críticas que foi sofrendo. Mas é curioso notar também como Lucas fez caso das críticas digamos, mais populares (veja-se o drástico corte no tempo de antena da personagem de Jar Jar, reduzido a um aparte), mas parece ter feito ouvidos moucos às críticas mais sérias. Claro, entre as massas e os críticos, ouvem-se as massas. Afinal, são elas que pagam os bilhetes, certo?!

Uma promessa que o filme realmente cumpre é proporcionar-nos, no seu ultimo terço, a mais opulenta e visualmente rica batalha de toda a saga (o ataque dos Clones que dá título ao filme). Para lá caminha desde a abertura do filme (é o seu grande propósito) mas o caminho que percorre é tortuoso, em vários sentidos. Visualmente, Ep. II representa tudo o que não se deve fazer em termos de efeitos especiais. O filme tem um uso exageradíssimo de CGI e um look completamente artificial, estragando, tal como o primeiro filme já começara a fazer (mas não com estes contornos tão exagerados) a grande memória do realismo aventureiro que os originais estabeleceram, e que ainda hoje perdura nos nossos corações. Em Ep. I elogiei o facto de os efeitos especiais serem soberbos, não só para a época, mas na forma como não eram usados gratuitamente, mas sim para potenciar a interacção entre os humanos e as criaturas e os cenários digitais. Apesar de tudo, em Ep. I os efeitos especiais ainda trabalham em prol da história e da colorida fantasia, familiar e infantil, que o filme pretende ser.

Mas em Ep. II, muito embora, paradoxalmente, os efeitos especiais sejam bastante melhores (em três anos muito se avançou) nada disto acontece. O filme é preguiçoso e exibicionista. Todas as cenas são CGI. Todas as cenas são filmadas em bluescreen, e dá a ideia que o filme foi filmado inteiramente numa única sala, com os actores a fazerem mímica num espaço vazio e tudo o resto, os cenários, os adereços, a iluminação e todas as personagens não humanas tivessem sido adicionadas a posteriori. Funcionaria se isto fosse um ‘300’, um ‘Avatar’ ou um ‘Tintim’. Não funciona porque não é isso que Star Wars is all about. De novo, anteriormente elogiei o facto de Ep. I parecer um jogo de computador, mas no sentido em que nos punha dentro da acção (a corrida das pods por exemplo) e essa acção era realista. Ep. II também parece um jogo de computador, mas não um empenhado em nos tornar parte da aventura. Ao invés, parece daquelas novelas gráficas computadorizadas em que o visual é belo, sem dúvida, mas completamente artificial, e o conteúdo é praticamente inexistente. Para mim a machadada final é a personagem de Yoda. Antes era uma marioneta, mas uma marioneta com vida. Aqui transforma-se numa criatura digital morta, por mais que ande livremente pelos cenários e por mais saltinhos que dê na sua batalha de sabres de luz com o Conde Dooku (o grande Christopher Lee). Em Ep. II, Franz Oz só consegue dar a sua voz a Yoda. Já não lhe consegue dar a alma. Porque a alma estava na forma como ele movia a marioneta. Agora é um qualquer técnico de software anónimo que o faz mover. Não é a mesma coisa.

E a coisa ainda se torna pior quando descansamos os olhos da torrente de efeitos especiais que o filme nos atira desde o primeiro segundo e começamos a tentar prestar atenção à história. Mas que história?! O argumento de Ep. II é o pior de toda a saga. Literalmente. Desta vez, Lucas partilhou a co-autoria com Jonathan Hales, o homem por detrás do argumento da série Jovem Indiana Jones dos anos 1990 e que no mesmo ano de Ep. II escreveu o argumento para ‘Scorpion King’ (2002). Ou seja, Lucas escolheu trabalhar com um guru da aventura familiar simpática, não com um homem com o talento para tornar, como se esperaria, a saga mais madura. A falta de destreza de Lucas com os diálogos, juntamente com a percepção mais infanto-juvenil de Hales e a preguiça dos efeitos computadorizados resulta num argumento superficial e banal, rico em lugares comuns e inconsistências, que não faz jus, nem de perto nem de longe, à trilogia original. Tal como em ‘Batman Forever’ (1995) e ‘Batman & Robin’ (1997), parece ter havido aqui a escolha consciente de baixar a idade do público-alvo do filme. Nem de propósito, a série de animação spin-off que a Cartoon Network começou a produzir pouco depois, ‘Clone Wars’, tem praticamente o mesmo tom e o mesmo aspecto visual deste filme. Mas isso não é desculpa suficiente para as inacreditáveis más frases que saem da boca dos actores e que estes (principalmente Hayden Christensen como Anakin, tão mau quanto o miúdo Jake Lloyd havia sido em Ep. I) pronunciam com muita pouca convicção. Ewan McGregor às vezes nem parece acreditar bem no que está a dizer, e quando o espectador nota isso é sempre mau.

Mas vamos lá ver. Isto é Star Wars. Independentemente do que escrevi em cima, isto é Star Wars, e portanto, por definição, não pode ser completamente mau, porque há uma herança que sustenta o filme e um fascínio que é inato. Aliás, esse é o grande ponto a favor deste argumento. Existe no universo que amamos, as personagens movem-se nos limites da nossa familiaridade (mesmo que não o materializem e seja apenas uma sensação subconsciente) e consegue fazer a ponte, minimamente, entre as personagens que aprendemos a gostar em Ep. I (principalmente quando regressamos a Tatooine) e os eventos que sabemos, dos filmes originais, avizinharem-se num futuro próximo. Mas sinceramente, havia cem mil maneiras de fazer essa ponte em termos de história, e George Lucas escolheu a pior delas todas. O espectador pode rever o filme as vezes que quiser que haverá sempre coisas que nunca se poderão explicar. 

Portanto, quando o filme começa a mostrar-nos os atentados contra a senadora Amidala, perguntamo-nos sempre porque raio há-de querer o Imperador matá-la, se o seu plano já está perfeitamente em marcha?! Isto para não falar do papel actual que ela detém no senado, que parece, neste momento, tão importante como o de qualquer outro senador (sensação essa ainda mais enfatizada em Ep. III onde Padmé já não parece ter importância política nenhuma). E se ela precisa de se esconder, porque é que há-de ir para o seu próprio planeta natal, Naboo, o local mais óbvio se alguém a quisesse procurar? O mais afastado Tatooine, onde acabam por ir quando Anakin começa a sentir que a sua mãe está em perigo, faria muito mais sentido. Mas claro, a história dos atentados origina algumas cenas iniciais de tensão (a perseguição em Coruscant é um dos momentos mais interessantes da prequela, tal como a caracterização da cidade) e depois a fuga de Anakin e Padmé para Naboo serve como catalisador do seu romance.

Isto é, se é que se pode chamar àquilo que se passa entre os dois um romance. O fantástico novo tema de John Williams (Across the Stars), e o facto de darem um beijo são as únicas indicações credíveis de que estas duas pessoas estão apaixonadas. Não será por nada do que dizem certamente. Este é um dos romances mais forçados e mais mal escritos da história do cinema, e a química entre Natalie Portman e Christensen é absolutamente inexistente. Emocionalmente, a sua relação não é nada mais que uma mistelada pastosa, forçada e incoerente, pior do que aquela que se vê em inúmeras novelas na TV. Continuo sem perceber como é que Padmé gosta de Anakin se tudo o que ele faz neste filme é amuar, queixar-se e ter atitudes egoístas. É por as mulheres gostarem de bad boys? É uma atracção física? Só pode. Padmé conheceu um miúdo de 10 anos em Ep. I. Não se apaixonou por ele aí certamente. Mas depois conheceu um tipo de 20 anos completamente mimado e que não tem um único gesto de afecto a não ser dizer umas baboseiras telenovelescas. Nem a mim nem a ninguém estas cenas convencem e só se salvam por serem as únicas filmadas em cenário real (nos lagos italianos), o que ao menos é um alívio depois de uma hora de CGI. Em Tatooine apenas o destaque para o ataque de Anakin aos Tusken Raiders, como um momento chave da sua viragem para o lado negro. Resulta, mas só porque ele não abre a boca. Esta é a triste verdade deste filme.

Paralelamente, o filme tem muito mais interesse na aventura de Obi-Wan. Mas mais uma vez, o seu percurso é demasiado fácil, pouco trabalhado e inconsistente. Pode haver uma ponta de salvação, se admitirmos que o Imperador previu isto tudo e portanto Obi-Wan está simplesmente a enterrar-se cada vez mais numa armadilha, mas mesmo assim os Jedis parecem muito ingénuos nas suas atitudes. A ida ao diner de Dex é mero show-off de efeitos especiais. A ida à aula do templo Jedi é fofa (os mini-jedis são giros), mas a solução é demasiado infantil e um tipo como Obi-Wan já a devia saber, se o próprio espectador já o adivinhou. Depois, Obi-Wan vai até Kamino visitar os clonadores de Stormtroopers (estranhamente semelhantes aos extraterrestres de ‘A.I.’ lançado um ano antes), e acaba nas fábricas de droides em Geonosis, para onde convergirão também Anakin, Padmé, C3PO, R2-D2, os Jedi e o exército dos clones. Ainda hoje acho incrível como é que a gigantesca coincidência de Jango Fett pertencer aos dois exércitos passa despercebida aos Jedi. Mais incrível como Yoda aceita logo comandar o exército de Stormtroopers, sabendo muito bem que alguém o terá criado com segundas intenções.

Mas temos inevitavelmente que admitir que a batalha final em Geonosis, entre os droides e os Stormtroopers, e entre os Jedi e o Sith Dooku enche o olho e é, como disse, um dos momentos mais excitantes da prequela, pela sua espectacularidade computadorizada e pelo simples facto de vermos tantos Jedi a lutar (e quão cool é Samuel L. Jackson a empunhar um sabre?!). Contudo, são emoções que duram sempre pouco, porque Ep. II é demasiado artificial, muito mais do que Ep. I. E rapidamente (demasiado rapidamente) perdemos o fio condutor da batalha para nos focarmos num pormenor que não tem o mínimo de força. Os trejeitos de personalidade de Anakin estragam tudo e não sabemos bem se é suposto partirmo-nos a rir quando Yoda se transforma numa espécie de Pokemon quando cruza sabres com o Conde Dooku.

No final, Ep. II não tem muito que abone em seu favor, em comparação com os restantes cinco filmes da saga. Podemos dizer que é o filme mais “urbano” da saga (os ambientes estilo ‘Blade Runner’ de Coruscant são exclusivos deste filme), é o mais disperso e diversificado em termos de planetas e espécies extraterrestres, é o mais ambicioso em termos de cenas de acção (que se multiplicam, desde a perseguição nocturna, à cena na linha de montagem, ao inicio da guerra), e tem alguns inesperados toques de classe, como por exemplo o Conde Dooku de Christopher Lee e claro, sempre que o agora Chancellor Palpatine aparece em cena. Ian McDiarmid continua a ser o mais espectacular actor das prequelas (de longe).

Contudo, no reverso da medalha, todos os escapes cómicos do filme roçam o ridículo (que dizer da cena C3PO vs. Droides?!), e a psicologia emocional das personagens é bastante fraca, para não dizer errada. Acima de tudo, acho que Ep. II não é apenas um mau filme (se se pode chamar isso a um filme de Star Wars sem ser atingido por um raio). É um filme que confunde os fãs porque existe à parte do universo que amamos. Ep. I é que era supostamente o filme mais infantil da saga, com a exuberância colorida dos anos 1990 e centrado num herói de 10 anos. Mas paradoxalmente, Ep. II com o seu argumento pastoso e a sua excessiva computadorização parece ser para um público ainda mais jovem. Ou melhor, Ep. I era para crianças que pensavam e que davam asas à imaginação e à fantasia. Ep. II já não. É para crianças preguiçosas, tal como Lucas parece ter sido extremamente preguiçoso a fazê-lo.

Mas, tudo somado, Yoda anda por aqui, Obi-Wan também, e aquele badameco que um dia se vai tornar Darth Vader (a sério?!) igualmente. Isso deve ser suficiente para a passagem obrigatória por este filme, entre os Ep. I e III. Não fosse essa feliz coincidência, poucos veriam este filme certamente. Sorte a dele. Assim vemo-lo sempre, uma e outra vez, com uma inevitabilidade trágica, como um guilty pleasure. E sempre que o vemos esperamos ser surpreendidos. Mas nunca somos. E sempre que o vemos esperamos que de tão mau se torne bom. Mas nunca se torna. O filme simplesmente não tem o que é preciso. Siga para o bem melhor ‘Ep. III: Revenge of the Sith’. Begun the Clone War has.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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