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Star Wars: Episode I - The Phantom Menace

Ano: 1999

Realizador: George Lucas

Actores principais: Ewan McGregor, Liam Neeson, Natalie Portman

Duração: 136 min

Crítica: Como é que se critica a mais bem-amada saga da história do cinema? O que é que se escreve sobre os filmes que já toda a gente viu, inúmeros adoram incondicionalmente, e outros tantos têm memorizado, cena a cena, frame a frame? O que se pode acrescentar a um universo que é muito mais do que um evento cinematográfico, é uma filosofia de vida para todos os fãs que se renderam ao universo de fantasia galáctica que George Lucas concebeu na década de 1970? A resposta a todas estas questões é: não é possível.

‘Star Wars’ (‘A Guerra das Estrelas’) é um mundo infinito e nada que o crítico possa dizer surgirá como uma revelação. Já tudo se escreveu e reescreveu sobre Star Wars. Já tudo se sentiu, já tudo se amou ou detestou; a herança mitológica, a nostálgica aventura, a magia do entretenimento, a exuberância da fantasia, os inovadores efeitos especiais, a soberba banda sonora de John Williams. Portanto a única coisa que se pode acrescentar, realmente, é mais uma visão pessoal sobre a saga. É precisamente isso que me proponho a fazer. Saltar tudo o que já foi sobejamente debatido nas últimas décadas para me centrar de novo nos filmes em si, em seis reflexões (nem lhes vou chamar críticas) inspiradas pelo facto de, como um bom fã nerd, nas últimas seis sextas-feiras ter revisto cada um dos seis filmes da saga, ou não estivesse a estreia de ‘Star Wars Episode VII: The Force Awakens’ a aproximar-se a passos largos!

O que se segue são as minhas sensações e reacções instintivas a cada um dos filmes, rabiscadas agora, tantos anos e tantas visualizações depois, com a plena consciência de que os sei de cor, de trás para a frente e da frente para trás até ao mais ínfimo pormenor (eu avisei… nerd!), mas ao mesmo tempo a tentar ter algum distanciamento (tarefa quase impossível num conjunto de filmes que diz tanto a nível pessoal) para procurar analisar objectivamente a lógica do todo. Como todas as sagas têm um princípio, comecemos pelo Ep. I. As restantes críticas seguir-se-ão nos próximos dias/semanas. Espero que apreciem e claro, que a força esteja convosco!


Em meados da década de 1990, começou o burburinho sobre o regresso de ‘Star Wars’ ao grande ecrã. Em 1997, para celebrar o 20º aniversário do primeiro filme, George Lucas relançou a trilogia original nos cinemas, com algumas cenas novas, e pouco depois saíram pela primeira vez em VHS, numa edição especialíssima limitada, que na altura considerei espectacular! Mas era para 1999 que estava marcado um novo filme, ‘Star Wars Episode I: The Phantom Menace’ (‘A Ameaça Fantasma’), um filme que há mais de dezasseis anos os fãs esperavam impacientemente. Mas se a antecipação para este filme atingiu proporções épicas (e eu que tinha 14 anos, imagine-se a minha excitação!), quando ele finalmente chegou foi ao mesmo tempo uma alegria e uma decepção. Ao revê-lo hoje, o filme ainda consegue alternar facilmente entre esses dois estados.

Por um lado é absolutamente inegável que o filme permitiu dar um gigantesco passo em frente em termos de efeitos especiais. George Lucas pode ter deixado a realização nos anos 1970, mas foi um dos mais influentes produtores dos anos 1980 e, mais importante que isso, o homem que realmente levou o cinema à sua era moderna, em termos de tecnologia. Graças a ele temos o som digital. Graças a ele temos a montagem digital. Graças a ele temos a animação digital (quem criou a Pixar, quem foi?). E graças a ele temos os efeitos especiais modernos. A Industrial Light and Magic (ILM), a companhia que criou para o original ‘Star Wars’ (1977) tornou-se a pioneira dos efeitos especiais, estando por detrás de todos os grandes marcos da história do cinema; ‘The Abyss’ (1989), ‘Terminator 2’ (1991), ‘Jurassic Park’ (1993), ‘Dragonheart’ (1996). Mas Lucas estava a guardar o melhor para si próprio.

Ver ‘Episode I’ é (ainda hoje!) ver um filme que tem efeitos especiais de topo e que, ao contrário de Ep. II e III, não existem, na sua maioria, gratuitamente. Aqui tudo está feito, principalmente, para potenciar a interacção entre as criaturas e os cenários animados digitalmente, com a imagem real. Qual Avatar, qual quê. Por exemplo, a interacção entre Jar Jar Binks (voz de Ahmed Best), todo animado digitalmente, e Obi-Wan Kenobi (um Ewan McGregor esforçando-se demasiado em imitar os trejeitos de voz de Alec Guiness), e Qui-Gon (Liam Neeson, o toque de classe do filme) é absolutamente soberba, nunca antes vista nos anais do cinema. Se compararmos a beleza e o realismo dos planos de Ep. I com a de outros filmes contemporâneos como ‘The Mummy’ (1999) ou ‘Gladiator’ (2000), percebemos imediatamente que este filme está a quebrar as mesmas barreiras que o original ‘Star Wars’ havia quebrado em 1977, e isso faz parte do seu encanto.

Mas o seu encanto maior reside no facto de Lucas ser bastante inteligente em usar a tecnologia em prol da fantasia. Ep. I recaptura, talvez não a brilhante mitologia aventureira da trilogia original (a triste verdade é que lhe falta força no guião, mas já aí vamos), mas pelo menos a familiaridade fantasiosa de um universo (quase) encantado que apelará a miúdos e graúdos. Ep. I é solarengo e colorido, e raramente estamos no negro e vazio do espaço. Tudo é exuberante e garrido. Tudo tem uma alegria simpática. E continuamente temos a perspectiva de um gamer; o espectador não só a assistir ao filme, mas praticamente a jogar o melhor jogo de computador de sempre (até então, claro está!), vivendo intensamente a magia de voar pelo espaço a alta velocidade, com uma exuberância inocente e, chamemos-lhe, ingénua. A cena da corrida das pods, um aparte no fio condutor da história que demora no entanto quase um quarto de hora, é o exemplo mais perfeito dessa forma de conceber magia cinematográfica.

Nada disto, contudo, é uma novidade. Era este o ar fantasioso, Flash Gordon encontra Gunga Din ou as Minas do Rei Salomão, que Lucas queria dar ao filme original e que este acabou por só ter em parte. A falta de tecnologia, de tempo e outros acasos do destino desviaram ‘Star Wars’ ligeiramente do seu rumo original, e isso fez toda a diferença. Mas agora, com dinheiro infinito, tempo de sobra e recursos tecnológicos de vanguarda, não havia nada para fazer parar Lucas em Ep. I, nada para o fazer pensar um pouco e ponderar outras soluções, cénicas, visuais e argumentais, e é a falta dessa ponderação que se nota, e bem, aqui.

A primeira coisa que realmente se nota (e ainda mais quando revemos o filme anos mais tarde) é que o filme é demasiado ligeiro (atrevo-me a dizer infantil?!) para fazer jus à brilhante psicologia aventureira dos originais. O calcanhar de Aquiles de Lucas, em todos os seus filmes (tal como James Cameron), sempre foram os diálogos. A diferença é que para fazer ‘Star Wars’ Lucas demorou 4 anos, e nesse tempo o argumento foi reescrito meia dúzia de vezes, tendo até decisivo input criativo não creditado dos seus amigos Brian de Palma, Coppola ou Spielberg. Se Lucas tivesse filmado o seu argumento original, de 1974 (que pode ser lido em parte no magnífico livro ‘The Making of Star Wars: The Definitive Story Behind the Original Film’) é garantido que ‘Star Wars’ não teria a popularidade que tem hoje. Mas mais dois elementos foram decisivos. O primeiro a existência de talentosos improvisadores em cena, que podiam tornar diálogos muito melhores com alterações quase imperceptíveis (Harisson Ford, Cary Fisher, Alec Guiness). O segundo (algo frequentemente esquecido) a entrada em cena de Lawrence Kasdan como argumentista de ‘The Empire Strikes Back’ e ‘Return of the Jedi’. Kasdan nunca foi um grande realizador (não sou grande fã de ‘The Big Chill’ ou ‘Wyatt Earp’), mas sempre foi um grande argumentista. Ninguém o credita, mas foi o seu toque que elevou a saga Star Wars para outro patamar (quem consegue esquecer as interacções entre Leia e Hans Solo?!).

Ora nem um nem outro elemento brilham em Ep. I. Star Wars foi um menino de Lucas, dele adveio toda a sua fortuna e toda a sua reputação, e creio que em parte Lucas terá começado a acreditar na sua própria lenda. Isto porque, quando chegou a altura de fazer as prequelas, naturalmente (mas erradamente) decidiu que ia escrever e realizar tudo sozinho e, para além do mais, que podia repetir a fórmula de actores ‘anónimos’ que tão bem tinha resultado no original. Big mistake. Vamos ser sinceros. Com raras excepções os actores são fracos. Jake Lloyd como Anakin Skywalker, o suposto centro emocional do filme, é pateticamente mau e incrivelmente enervante na sua exagerada bondade artificial, e não se percebe como de todos os miúdos americanos que queriam o papel, Lucas se tenha decidido por este (idem para Hayden Christensen em Ep. II e III).

Depois o argumento de Ep. I é apenas mediano. A história base, incluindo a invasão do Planeta Naboo pela Federação do Comércio (e a misteriosa ameaça ‘fantasma’ dos Sith renascidos), a fuga para Tatooine da Princesa Amidala (Natalie Portman – alguém alguma vez teve dúvidas que ela era Padmé?!) protegida pelos dois Jedi, e o encontro com o jovem escravo Anakin Skywalker, que mais tarde será levado para Coruscant para iniciar o seu treino Jedi, roça o desinteressante na maior parte do filme. Alguns diálogos (principalmente referentes a Anakin) são de fugir (a falta que não faz Kasdan), e o filme tem uma estranha telegrafia, como se tivesse sido reduzido de uma versão original de 5 horas para uma versão final de 2 horas, ficando-se pelos diálogos básicos para que a história fosse minimamente compreendida.

Não devemos, contudo, confundir isto com falta de intensidade e ritmo. O filme tem-no, imensamente; salta continuamente de um lado para o outro, de cena em cena, de cliffhanger em cliffhanger, sem nos dar tempo para respirar e sempre a atirar-nos coisas para nos cativar, mas no final de contas tudo é efémero e parece que falta sempre qualquer coisa. Para que serve, por exemplo, a pequena aventura em que Qui-Gon, Obi-Wan e Jar Jar atravessam o centro de Naboo num submarino e são perseguidos por monstros marinhos, se ela é tão rápida que nem dá tempo para se sentir a tensão?! A ideia é óptima (criar mais um pico de emoção), mas a necessidade de fazer o filme avançar rapidamente para não ficar demasiado longo faz com que a cena pareça puro exibicionismo de efeitos especiais, que sabemos bem que não é. A cena análoga em ‘The Empire Strikes Back’ (o monstro no meteorito) é mais simples mas funciona muito melhor, pois está muito mais bem gerida, e é alongada, gerando mais tensão, ao ser entrecortada por cenas de outras personagens (Luke e Vader).

Com uma batalha final em órbita de Naboo, onde de novo regressamos àquela exuberância quase infantil quando a própria criança (Anakin, ou como dizem ‘Ani’) se vê a pilotar uma nave, satisfazendo as fantasias de todas as crianças e adolescentes que se poderão identificar com o filme, em paralelo com uma espectacular batalha de sabres de luz entre Qui-Gon, Obi-Wan e Darth Maul (Ray Park), esta para satisfazer o público mais adulto – nunca tínhamos visto nada assim na trilogia original – Ep. I representa, digo eu, o sonho original de Lucas para Star Wars. O sonho de uma aventura inocente e infantil, onde os bons e os maus estão perfeitamente definidos, e que é rica em naves e criaturas estranhas e gadgets e corridas a alta velocidade e lutas brilhantemente coreografadas e uma história com elementos místicos. Isso é o que existe de melhor em Ep. I e o seu maior trunfo. Mas é ao mesmo tempo um pau de dois bicos que Lucas não conseguiu gerir.

Porque Lucas não teve a possibilidade de incluir muitos destes elementos na trilogia original, substituiu o que estava em falta por subtilezas, subtilezas essas que acabaram por transformar ‘Star Wars’ na maravilha que é. Mas se há palavra que não caracteriza Ep. I é subtileza. Havia mesmo a necessidade, por exemplo, de explicar aquela coisa dos midi-clorianos? Eis um diálogo inútil. E depois a facilidade de conseguir tudo; criaturas, cenários, veículos, com um ‘mero’ toque num botão de um computador, parece ter inibido a criatividade de encontrar a verdadeira essência das coisas (um mal generalizado dos efeitos especiais modernos). Em Ep. I, Lucas não se conteve, vítima da tentação dos novos avanços tecnológicos. Tudo é exagerado, tudo é feito à grande e à francesa, mas se isso contribui para tornar o filme a colorida e brilhante aventura visual que é, o cerne dramático e emocional do filme fica completamente oco. Não era preciso muito (‘Star Wars’ é a prova disso) para o obter. Mas esse mínimo necessário não existe em Ep. I. Tudo o que parece existir é algum desespero em tentar imitar elementos do filme original, quer emocionais, quer em termos de escapes cómicos, que, pelo destino e com naturalidade, funcionaram optimamente. Mas o destino não funciona quando é forçado. Podemos realmente comparar C3P0 com aquele que é, consensualmente, a pior personagem da saga, Jar Jar Binks?!

Ep. I é artificial. Artificial na fotografia (contrastando com o estonteante realismo de ‘Star Wars’ – foi isso que o vendeu!), artificial nas emoções, artificial nas actuações, artificial no argumento, artificial na substância. Mas reconhecido este ponto, tenho que confessar que nunca me importei muito com isso, nem quando vi o filme pela primeira vez no cinema com 14 anos de idade, nem quando o revi, pela n-ésima vez, a semana passada. E o motivo é o mais óbvio. Com Ep. I, Star Wars está de volta, e a sua magia, apesar de tudo, também. Pode ser o mais infantil filme da saga, pode ser leve e familiar, e mais espectáculo visual do que soberba alegoria mitológica aventureira, mas faz-nos, oh sem sombra de dúvida faz-nos, regressar a esse universo nas estrelas e termina, tal como o original ‘Star Wars’ havia terminado, com um sorriso solarengo. Tanto, que a morte de Qui-Gon nunca será tão impactante como a de Ben Kenobi em ‘Star Wars’. Tanto, que até os mais distraídos nem repararão na boca que o Senador Palpatine (o genial Ian McDiarmid) manda antes da animada cena final. Não importa. Há muitas falhas, mas no final o filme conquista-nos com a sua energia e exuberância. E isso é suficiente. 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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