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Avengers: Age of Ultron

Ano: 2015

Realizador: Joss Whedon

Actores principais: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo

Duração: 141 min

Crítica: O primeiro filme dos Vingadores, ‘The Avengers’ (2012) é para mim um dos melhores, senão o melhor filme de super-heróis de ficção científica alguma vez feito (estou portanto a excluir a mais ‘realista’ trilogia do Cavaleiro das Trevas). ‘The Avengers’ tem tudo o que precisa um blockbuster hollywoodesco da era moderna; efeitos especiais maravilhosos, personagens cool e apelativas, carradas de epicidade e espectacularidade, humor, e uma sequência de acção climática que bate tudo ou quase tudo o que já se viu (está taco a taco com as batalhas de ‘Avatar’ ou ‘Transformers 3’). Portanto não foi com surpresa nenhuma que o filme se tornou um fenómeno mundial, já que é um espectáculo das massas por excelência, mas a verdade é que também tem uma essência surpreendente. A combinação destes ingredientes é explosiva e com 1.519 milhões de dólares arrecadados, ‘The Avengers’ é o terceiro filme mais rentável na bilheteira de sempre (sem contar com a inflação) atrás dos dois épicos de Cameron, ‘Avatar’ (2009) e ‘Titanic’ (1997). Com números destes não se discute e a sequela era mais que inevitável. Aliás, sequela é o nome do meio dos estúdios Marvel.

Contudo, a própria Marvel pareceu esquecer-se como é que chegou a um filme tão bem conseguido. Nada acontece por acaso e desde 2008 que ‘The Avengers’ estava a ser cuidadosamente preparado. Salvo raras excepções (o primeiro ‘Iron Man’), os filmes introdutórios de cada personagem não foram na minha opinião muito bem-sucedidos (ver por exemplo a minha crítica ao primeiro ‘Capitão América’). Os filmes parecem ter sido feitos à pressa e a cuspo, sem grande imaginação e estruturas argumentais frouxas e convencionais, parecendo ter como único propósito fazer dinheiro e tirar algum peso da construção das personagens a ‘The Avengers’. Se a manobra não resultou, pelo menos artisticamente, nestes filmes (‘Captain America’ é mau, ‘Thor’ ainda pior, ‘Iron Man 2’ uma patetice), resultou perfeitamente em termos de bilheteira (as massas adoram explosões e super-heróis!) e resultou ainda mais perfeitamente em ‘The Avengers’.

Livre da construção de personagens e da maior parte do teor emocional, ‘The Avengers’ pôde dedicar-se em exclusivo àquilo que o Marvel Studios sabe fazer melhor: acção, acção, acção, efeitos especiais e super-heroísmo do melhor que a sétima arte alguma vez produziu. E por isso é que era tão bom. E mais, era uma novidade, era fresco. As personagens não o eram, mas a sua união dava azo a uma nova química (imensamente bem explorada) que seduzia, porque tinha o misto de humor e testosterona necessário para estarmos sempre do lado dos heróis, a torcer por eles, a sofrer com eles, até aos créditos finais. Numa altura em que a Marvel já não sabe mais o que há-de fazer (‘Iron Man 3’ não acrescenta absolutamente nada de novo por exemplo) e as sequelas sucedem-se em piloto automático, o público precisa dessa frescura, dessa novidade, que estes filmes já não conseguem dar. Mudando destramente de universo, ‘Guardians of the Galaxy’ (2014) tinha-o, aliado a uma gigantesca irreverência, por isso é que foi para mim uma fabulosa surpresa e um dos melhores filmes do ano. Já os filmes do universo dos Vingadores há um par de anos que estão a ficar apenas mais ambiciosos e mais ruidosos, não necessariamente melhores.

Portanto a pergunta que se impõe é: como é que se bate o melhor filme de super-heróis de sempre? Como é que se bate a fabulosa batalha final? Depois de se ter atingido o topo, de se ter juntado uma série de super-heróis num único produto tão épico, tão colossal, como é que se consegue levar avante uma sequela? A resposta é incrivelmente simples. Não se consegue. E aqui está, em três palavras, a crítica mais sucinta a ‘Avengers: Age of Ultron’. Não se consegue. Nada que este novo filme nos possa mostrar será tão fresco, tão espectacular, tão épico como foi no primeiro filme. ‘The Avengers’ foi até ao pico da montanha, mostrou tudo, deu tudo. ‘Avengers: Age of Ultron’ esforça-se é certo, e até é um aceitável filme de super-heróis, mas comparado com o primeiro filme já soa a rotina, já soa a batido, já não tem surpresas. É um daqueles filmes que do ponto de vista financeiro vai ser muito rentável, mas do ponto de vista artístico nunca deveria ter sido feito, quanto mais não fosse para deixar imaculada a memória do primeiro filme.

Joss Whedon, o famoso criador das séries ‘Buffy’, ‘Firefly’ ou ‘Angel’, e que escreveu e realizou o primeiro ‘The Avengers’, regressa neste dual papel. De permeio, fez a pouco vista adaptação shakespeariana ‘Much Ado About Nothing’ (2012), mas não creio que os fãs da Marvel estejam muito interessados nisso. A ‘Avengers: Age of Ultron’ volta a dar um estilo visual bastante interessante, que consegue evidenciar o drama por entre os exagerados (mas bem conseguidos e não ocos) efeitos especiais, mas isso não é suficiente. O filme já não tem tanta piada. As personagens já não têm tanta química. O plano do vilão sempre foi o menos interessante nestas coisas (é apenas um catalisador para as acções dos heróis) mas aqui ainda tem menos interesse, não tanto por causa da falta de originalidade do plano em si, mas porque não origina uma batalha climática tão estrondosa como a do primeiro filme, como o público (ou pelo menos eu) quereria. E tudo isto são pontos negativos para a sequela.

‘Avengers: Age of Ultron’ inicia-se após os eventos de ‘Captain America: The Winter Soldier’ (2014), que não vi. Se também não viu, leitor, não se preocupe. É apenas mencionado de raspão, no facto do Capitão América de Chris Evans e a Black Widow de Scarlett Johansson terem tido lá uma pequena química. O filme abre com uma sequência de acção pré-créditos (infelizmente a única digna desse nome até à batalha final). A equipa completa, Iron Man (Robert Downey Jr. já sem a chama das suas primeiras interpretações), Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo), Hawkeye (Jeremy Renner), Capitão América e Black Widow (fabuloso fato), ainda estão à procura do ceptro de Loki (ver filmes anteriores). Portanto atacam um castelo no fictício país Sokovia, onde os vilões da HYDRA estão barricados a usar a tecnologia do ceptro para construir engenhos bélicos e fazer experiências genéticas. Directamente do mundo dos X-Men, as suas novas criações são dois gémeos mutantes, Quicksilver (o actor Aaron Taylor-Johnson), super-rápido e que entrou, interpretado por outro actor, no recente ‘X:Men – Days of Future Past’ (2014), e Scarlett Witch (Elizabeth Olsen, gostei bastante) que tem o poder da manipulação mental. 

A batalha pouco dura, o ceptro é resgatado, os vilões da HYDRA são derrotados mas os gémeos mutantes escapam. Mas antes de o fazer Scarlett Witch entra na mente de quase todos os Vingadores (originando algumas lamechas sequências sonhadas), e lança as sementes da dúvida e da discórdia entre eles, mostrando-lhes os seus próprios medos. Instigado por essa visão Tony Stark quer usar a tecnologia do ceptro para criar Ultron, um andróide supremo que mantenha a paz mundial. A experiência contudo dá para o torto e o todo-poderoso Ultron ganha vida própria (excelente voz de James Spader), e a sua visão de paz mundial consiste em aniquilar a humanidade, para que possa começar de novo, do zero (nunca vimos isto antes nem nada…).

Os Vingadores, quebrados pelo ataque inicial de Ultron e dos mutantes dividem-se e parecem estar sem recursos, sem ideias e sem fé. Mas tudo isso inevitavelmente mudará, e quando Ultron levanta a cidade inteira de Sokovia do chão para a largar da estratosfera e assim destruir o planeta Terra (tal meteorito aquando da destruição dos dinossauros), os Vingadores, agora com os mutantes e uma nova misteriosa criação, Vision (Paul Bettany), do seu lado, terão de se unir para mais uma épica (mas não assim tão épica) batalha final, pela salvação da humanidade…

Emocionalmente há bastantes falhas na estrutura de ‘Avengers: Age of Ultron’. Os filmes da Marvel sucedem-se uns aos outros supostamente por ordem cronológica, contudo os produtores não são estúpidos, e querem que cada filme possa ser visto como um ente isolado para não perder espectadores. Portanto ocorrem incongruências. Por um lado as referências aos filmes anteriores e ao desenvolvimento das personagens são tão mínimos quanto possível (manda-se umas boquitas de quando a quanto, mas apenas com intuito humorístico). Assume-se que a profundidade emocional de cada personagem é dada no seu próprio filme, pelo que aqui se mostra apenas ‘mais uma aventura’, mas que paradoxalmente não se constrói a partir das anteriores, nem terá consequência para as seguintes. Tal qual o episódio de uma série. Isto resultou em ‘The Avengers’ porque o filme era focado na ‘missão’ e essa missão tinha acção e adrenalina aos magotes, tanta, e tão boa, que nos fazia esquecer do resto. Aqui já não resulta tão bem, porque o filme é atabalhoado, avança sem sabor e tem imensa dificuldade em gerir tanta personagem.

Veja-se como novos desenvolvimentos das personagens caem literalmente do céu, apenas para fingir que este filme tem alguma substância emocional. Por exemplo, o romance passado de Black Widow e Hawkeye parece nunca ter existido, e desta vez Scarlett Johanssen está pelo beicinho de Hulk (agora já só lhe falta ter um caso com o Iron Man), uma química que só existe porque os actores são bons, mas que surgiu absolutamente do nada. Na realidade, talvez por nunca ter tido um filme próprio, a personagem de Hawkeye é a única cujo arco emocional é credível. Dão-lhe bastante tempo de antena, onde lhe é oferecido um maior background, com mulher e filhos à mistura, e é explorada a sua vertente ‘humana’ por não ter super-poderes como os restantes. Neste sentido a interpretação de Renner ajuda bastante (é a melhor do filme). Há também uns cameos suficientemente interessantes de Julie Delpy e Andy Serkis.

Já as personagens mais familiares têm tendência para desaparecer durante longos pedaços do filme, como se ninguém soubesse o que fazer com elas. Para mim a mais notória é a constante ausência de Hulk na batalha final. É de supor que ele estará por lá algures, mas nunca, ou quase nunca, o vemos a lutar. Até no plano clássico em que vemos todos os Vingadores numa roda a defender o perímetro, Hulk não parece lá estar. No close-up lá o vemos mas como pode um tipo tão grande passar tão despercebido numa épica batalha? Do mesmo modo Thor passa metade do filme à procura de sabe-se lá o quê, o que o leva a estar ausente de muitas cenas. Isto para não falar das ausências de gente famosa do universo como Gwyneth Paltrow ou Natalie Portman, justificadas com uma frase rápida; “está num laboratório não sei aonde”. Por causa disso é Cobie Smulders (a Robin de 'How I Met Your Mother') que vê o seu papel alargado, mas nunca será uma Gwyneth Paltrow...

Outra coisa que me chamou à atenção pela negativa foi a maior preguiça na descrição da ‘plot’ e das suas partes fantasiosas. A, chamemos-lhe ‘tecnicisse técnica’, que inclui as partes da criação de Ultron e Vision (até apreciei bastante o Vision), e as ‘batalhas’ na rede das duas inteligências artificiais, Ultron e Jarvis, são descritas de uma forma cada vez mais vaga, cada vez mais oca, cada vez mais incredível e cada vez menos relevante. Em ‘Iron Man 2’ (2010) depois de um filme inteiro a sofrer, Stark salvava-se a si próprio criando um novo composto químico, sem grande esforço, no final do filme. Ah, afinal era assim tão fácil! Desde então qualquer coisa que seja preciso parte-se do princípio que Stark a conseguirá criar. Uns planos no laboratório com coisas a girarem, muitas luzinhas coloridas a piscarem e voilá. Está feito. Avancemos com o filme…

Com a inclusão de mais dois elementos na equipa dos Vingadores (os mutantes que mudam de casaca a meio do filme), a batalha final, para além de ter um enquadramento muito menos propício à espectacularidade, tem uma enorme dificuldade em ser equilibrada com tantos heróis do mesmo lado. Depois já não tem grandes surpresas nem grandes momentos para suster a respiração. Os Vingadores salvaram o Mundo da ameaça mais espectacular de sempre no primeiro filme. Certamente o vão conseguir salvar de uma ameaça muito menos ameaçadora e, sem surpresa, fazem-no com um aparente muito menor esforço. ‘Avengers: Age of Ultron’ é suposto ser o segundo acto na saga dos Vingadores, que terminará com o filme em duas partes ‘Avengers: Infinity War’ (2018 e 2019). Mas não estudou bem a lição de segundos actos como ‘The Empire Strikes Back’ ou ‘Back to the Future: Part II’ – filmes espectaculares e épicos que acabam no pico e que deixam o público a salivar por mais. Em vez disso, está na linha de um ‘Machete 2’ – um filme que apesar de toda a sua intensidade é mais do mesmo; um novo número de uma revista, um novo episódio de uma série, que no fim termina com um olhar já no próximo número. A Marvel tornou-se a especialista do filme descartável, e daqui a nada os seus filmes serão como as suas revistas. Lê-se uma vez, deita-se fora, compra-se a seguinte. E infelizmente, ‘Avengers: Age of Ultron’ insere-se nesta categoria. Isto para além de ser um enorme turn-off do desfrute em pleno do final sabermos já de antemão que irá haver um terceiro e um quarto filme. Desfrutaríamos tanto do final de ‘The Dark Knight’ se já soubéssemos da existência de ‘The Dark Knight Rises’?!

O mais triste é que havia potencial neste filme. As partes ‘existencialistas’, representadas pelos andróides Ultron e Vision; as partes humanas, representadas por Hawkeye ou a constante luta de Hulk pela normalidade; as justificações emocionais, como por exemplo o porquê dos gémeos, órfãos de guerra, terem acedido a ser cobaias em experiências genéticas, todos estes aspectos podiam enriquecer o filme, não precisando assim de depender tanto da sua acção. Mas estamos a enganar quem? É isso que o público quer ver? Não. E portanto o filme só toca a superfície destes assuntos, perdendo mais tempo numa cena humorística chill-out em que todos tentam pegar no martelo de Thor do que em qualquer um desses elementos. Mas por outro lado, e retomando a minha pergunta inicial, como se bate o melhor filme de super-heróis de sempre? Como se batem as melhores cenas de acção de sempre? O filme não soube responder a esta pergunta, e como também não satisfez o seu potencial emocional, ficou num enervante meio-termo, morreu na própria praia que criou.

Em ‘Avengers: Age of Ultron’ revisitamos velhos conhecidos. Mas é um filme que depende dessa familiaridade, do espectador ter visto os filmes anteriores, para se suster. Tanto que ninguém notou que dentro do filme propriamente dito há pouca química, pouco humor, e as personagens pouco vibram. E a acção é um passo abaixo da do primeiro filme. Em termos de filmes de super-heróis ‘Avengers: Age of Ultron’ ainda tem categoria para bater a maior parte dos filmes isolados da Marvel, e outras aberrações que vão aparecendo de vez em quando. Mas fiquei extremamente desapontado. É um episódio de uma aventura, não uma longa-metragem. É um filme de acção de super-heróis grandioso, mas já não é, nem de perto nem de longe, épico, como foi o primeiro filme. E nesta nuance reside toda a diferença.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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