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The Lego Movie

Ano: 2014

Realizador: Phil Lord, Christopher Miller

Actores principais (voz): Will Arnett, Elizabeth Banks, Alison Brie

Duração: 100 min

Crítica: Fazer animação usando as personagens da Lego não é propriamente uma novidade. Durante anos o público infantil tem sido brindado (ou bombardeado) com filmes de animação da Lego para a TV ou directos para DVD (o Lego Indiana Jones, o Lego Star Wars), e centenas de jogos de computador de tema semelhante. Estou pouco familiarizado com este espólio mas isso não me impediu de ficar curioso quando o trailer de ‘The Lego Movie’ surgiu há uns meses. Na altura confessei que não conseguia perceber se o filme iria ser genial ou então uma grande porcaria. O humor do trailer era, no mínimo, invulgar, um misto de surrealismo com paródia, que tanto podia elevar o filme a um patamar monty pythonesco como podia dar completamente para o torto. Mas no fundo, no fundo, suspeitava que iria ser apenas “mais um”. Mais um filme de animação por computador que agora há às dezenas cada mês, cada um oferecendo pouco ou nada a mais que os anteriores. E durante quase metade do filme, nada vi no ecrã que me contrariasse essa ideia. Mas de repente o filme deu uma reviravolta. De repente, tudo fez sentido e o filme encontrou o seu rumo. De repente, aquela vozinha na minha cabeça que no passado recente tem estado sempre silenciosa quando vou ao cinema começou a sussurrar “Miguel, jovem, estás a ver um bom filme. Quiçá, estás a ver um grande filme”. 

‘The Lego Movie’ está nos cinemas nem há um mês. Ganhou o dinheiro que tinha a ganhar nos primeiros fins de semana (que não foi pouco, diga-se, os lucros já ascenderam os 300 milhões de dólares) e agora já praticamente desapareceu e deu lugar aos filmes seguintes. Quando o fui ver este fim de semana, já só haviam duas sessões por dia e já não havia sessão em 3D. O filme foi visto por pais e crianças ou por pessoas curiosas com o trailer, amantes da Lego, e pouco mais. Agora toda a gente fala dos filmes antes de estrearam. Poucos falam deles depois. E ‘The Lego Movie’ era um filme que merecia ser falado depois. Há 15 anos os filmes podiam ficar até 6 meses nas salas de cinema, à espera de serem descobertos ou sendo descobertos aos poucos. ‘The Shawshank Redemption’ (1993), por exemplo, foi um fiasco nas primeiras semanas (talvez a publicidade não tenha sido boa) mas depois a palavra de boca foi, usando um termo moderno, viral. Creio que o mesmo se poderia passar com ‘The Lego Movie’ se lhe dessem uma maior oportunidade. Fez muito dinheiro sim, mas por um lado podia fazer muito mais e por outro o dinheiro não é tudo. Há um segredo neste filme que o trailer não pôde (ou não quis) revelar, que toca uma nota mais profunda, mais artística, mais universal, que merecia ser discutida, saboreada e revisitada (o que agora só é possível se se vir o filme em casa, comprando ou…).

‘The Lego Movie’ é o primeiro filme da Warner Bros. Animation, embora não seja o primeiro filme de animação promovido por este secular estúdio. Ao leme estão dois realizadores/argumentistas, Phil Lord e Christopher Miller, que até hoje nos deram o engraçado e original (pelo menos em conceito) ‘Cloudy with a Chance of Meatballs’ (2009) e a comédia de imagem real (que não vi) ’21 Jump Street’ (2012), o remake da série dos anos 1980. O filme começa como tantos outros filmes de animação; muita cor, muita música, muitos efeitos, uma história linear, referências modernas e pouca substância. Seguimos Emmet (voz de Chris Pratt) um Lego perfeitamente vulgar cuja vida é semelhante à de milhares de outros Legos, e que é regida por regras bem claras (as famosas instruções de montagem). Precisa das instruções para tomar o pequeno-almoço, para sorrir, para ir para o trabalho. Ouve sempre a mesma música (a enervante mas viciante ‘Everything is Awsome’), vê sempre o mesmo programa de TV sem graça (As calças do miúdo cresceram) mas a que acha sempre muita graça, e é uma autêntica maria vai com as outras. Tudo isto é muito artificial e logo percebemos que é uma manobra do Presidente de Negócios (voz de Will Ferrell) uma espécie de líder totalitário desta sociedade semi-utópica. Emmet é apenas um peão como tantos outros, que no fundo tem uma existência vazia e sem amigos, mas que se agarra à rotina e àquilo que o sistema diz que ele deve fazer e sentir. Haverá aqui alguma moral certamente, mas o filme não a explora.

Um dia Emmet atrasa-se a sair do trabalho e vê Wyldstyle (voz de Elizabeth Banks, cuja personagem em português se chama… Supercool?!) a vasculhar nos escombros. Ela é uma espécie de Trinity (de ‘Matrix’), que pega em Emmet e revoluciona a sua vida numa das muitas cenas de perseguição/acção que o filme contém, quando este encontra uma peça secreta, por acaso, nos escombros, o que poderá significar que ele é ‘o escolhido’, satisfazendo uma profecia proferida anos antes por uma espécie de Gandalf (voz de Morgan Freeman). Esta peça é a única que consegue parar a máquina que o presidente de negócios quer utilizar para criar uma nova ordem no universo dos Legos. Não estarei a estragar o filme (cedo se descobre) que a arma é um tubo de cola e a peça que acaba por ficar colada às costas de Emmet é a tampa desse tubo. O presidente de negócios quer colar todos os Legos para manter a ordem e a perfeição, e assim evitar as constantes construções e demolições que caracterizam a existência destas criaturas.

O que se segue é um clássico filme de aventuras, em que o ‘escolhido’ sem jeito nem talento tem que encontrar o seu lugar e a sua força, só porque é o escolhido. Alia-se a várias personagens Lego, do passado e do presente, e visita vários mundos clássicos da Lego; o velho Oeste, a Cidade, o mundo rosa da Lego feminina. E depois, tudo se resume à clássica luta do bem conta o mal, dos 'zombies' Zé-ninguéns que um dia descobrem que podem ter vontade própria e juntam-se aos heróis para lutar contra o sistema.

Até aqui não estava muito satisfeito com o filme. A história era algo batida e previsível, a linha argumental do ‘escolhido’ já enjoa (alguém é capaz de fazer um filme em que alguém não seja o ‘escolhido’?!) e o filme parecia mais preocupado em capitalizar em personagens Lego modernas e identificáveis (vejam a atenção que é dada ao Lego Dumbledore para construir uma piada) do que nos Legos clássicos, o que foi um senão. Isto para além de citar Matrix, Transformers, Senhor dos Anéis, Batman e muitas outras coisas até ao exagero. Mas ao mesmo tempo o filme foi revelando outras valências, como a animação, que é extraordinária. Tudo é Lego, o mar é representado por um infindável conjunto de pecinhas Lego amontoadas, os tiros de pistola por pequenos cubos Lego, etc, etc. Apesar de ser inteiramente feito por computador (CGI), o filme chega a parecer ser feito em stop motion, e recria perfeitamente o que é brincar e existir no universo Lego. E isso, só por si, é magnífico. Fazer estas coisas constitui o verdadeiro potencial de animar digitalmente, que infelizmente muitas vezes é banalizado. Mas em ‘The Lego Movie’ não o é.

E então o filme encontra a sua passada. A partir do momento em que a equipa é reunida para invadir a Torre do mestre de negócios, de forma a tentar colocar a tampa na cola, então começamos a assistir a um grande filme de animação. Para mim o momento da viragem foi o aparecimento do cosmonauta russo dos anos 1980, sempre desejoso de construir a sua pequena nave. Ora eu tive este cosmonauta, eu tive esta nave, iguaizinhos, quando era criança, e senti um calor quente no coração quando assisti a estas cenas. E a verdade é que depois do filme atirar para o ecrã as referências às personagens da Lego e do cinema moderno, como se sentisse uma grande necessidade de desta forma cativar o público jovem, finalmente desprende-se, fica livre e humilde, e consegue regressar ao mais básico do cinema e às origens, ao cerne da própria Lego. A partir dai desbloqueia um sentimento especial em todas as pessoas que já tiveram um Lego, que já brincaram com um Lego. O Batman Lego (voz de Will Arnett) é hilariante, a espécie de Gandalf bem como o policia de dupla personalidade, o capanga do mestre de negócios (voz de Liam Neeson) podem ser personagens interessantes e até engraçadas, proporcionando diversas risadas (o mais desinteressante é mesmo Emmet, é vulgar na historia mas também para o público) mas na realidade isto interessa pouco. O que interessa é mergulharmos de repente neste universo Lego. No verão passado falei da nostalgia existente em ‘The Lone Ranger’ e como isso poderia transformar o filme em algo mágico, mesmo que por breves instantes. Pois bem ‘The Lego Movie’ também a tem, quiçá melhor. 

À superfície é mais um filme de animação, uma aventurazinha que irá saciar os miúdos mas não um público mais adulto e mais exigente (será por isso que tantos gente saiu da sala a meio da sessão este fim de semana?!), mas é preciso dar tempo ao filme para ele mostrar o seu cerne, a sua magia. Será isto um golpe de génio dos realizadores ou fruto do acaso? Não sei. E não quero saber. É como um grande truque de magia. Depois de descoberto o segredo, a ilusão perde-se. E eu não quero que a ilusão se perca. Isto porque o filme tem ainda mais um trunfo na manga, e no último terço do filme oferece-nos isso, de uma forma (quase) inesperada.

Falou-se muito em 2010 do final extraordinário de ‘Toy Story 3’ (para mim era mesmo a única coisa extraordinária que o filme tinha) e da forma como completava o arco da trilogia, como mergulhava no sentimento de ser criança, de ter um brinquedo. ‘The Lego Movie’ tem um truque semelhante na manga, mas para mim está ainda mais bem conseguido. Não é forçado, é uma consequência natural do fluir do filme, e é praticamente bem sucedido em fazer a ponte para a realidade, para o espectador, de lhe chegar ao coração. E isto mesmo apesar de eu por norma não gostar de Will Ferrell, em voz ou em imagem real…

Não é necessário que tudo seja awsome e este filme não o é completamente, pois tem várias falhas construtivas. Mas o maior trunfo é que, chegando ao fim, não nos lembramos delas (a não ser que se pense no assunto para escrever uma crítica, bem entendido). Quando os créditos rolam (e o público sai da sala a cantar Everything is Awsome), ‘The Lego Movie’ é um produto que sacia os dois públicos, as crianças e os adultos, e é, digamos-lo com sinceridade, a mais perfeita homenagem que podia ser feita ao universo Lego. E isto não é dizer pouco. Peca por demorar demasiado tempo a chegar ao seu objectivo (a construção é a parte mais desinteressante do filme), por divagar por referências da cultura contemporânea, e por um espalhafato visual e sonoro facilmente conseguido, mas pouco trabalhado, na animação moderna. Mas quando a essência de brincar com os Legos começa a jorrar aos magotes por todos os poros do filme, então só não gostará dele quem nunca teve um Lego. Eu tive, inúmeros, por isso é difícil de não gostar, quiçá amar, o que os senhores da Warner fizeram aqui.

Muitos, mas mesmos muitos parabéns. Adorei o final. Obrigado Lego pela magia, pela felicidade que me deste em criança. No fundo, este filme é também uma forma da dupla de realizadores dizer o seu obrigado também. Como vem do coração, independentemente de tentar ao mesmo tempo ser um produto rentável e com possibilidades de merchandising infinitas, então será sincero, honesto e, no final de contas, bom. ‘Toy Story 3’ não tinha música tecno nem gozava com o Super-Homem, mas era menos completo como filme, apesar de ter mais possibilidades de apelar a um critico mais ‘artístico’. ‘The Lego Movie’ pode ser algo vendido, mas é coeso e sabe perfeitamente onde quer ir. E para onde vai nós queremos segui-lo, nós que ainda brincamos ou já brincamos aos Legos.

Infelizmente, já li que a sequela está agendada para 2017. Isto é asneira. Ainda a semana passada vi ‘The Goonies’ (1985) na TV e pensei que, se fosse agora, quantas sequelas não teria tido até o seu jovem elenco ter 25 ou 30 anos. Assim sendo permanece, não um ‘fenómeno’ (uma palavra hoje na moda) mas uma pérola de culto, sempre recordada, nunca esquecida, nunca substituída pela nova moda. Fazer uma sequela de ‘The Lego Movie’ é arruinar a aura mágica que o original concebeu, é estragar a pérola, a ilusão. Como se irá apresentar a junção entre os mundos, do real e do imaginário? Como filme, como mensagem, deixará de fazer sentido. Vai deixar de ser uma carta de amor à infância para passar a ser uma aventurazeca para ganhar mais uns trocos. E isso já estamos todos fartos de ver...

PS: ao reler a critica apercebo-me de uma coisa óbvia. Eu cresci nos anos 1980, tive Legos nos anos 1980, por isso são esses com os quais me identifico e que me fizeram criar uma ligação forte ao filme. Talvez hajam outros Legos do passado ao longo da película dos quais não me tenha apercebido, e talvez o debitar de Legos da nova geração não seja assim tão descabido. Se calhar a criança de hoje sentirá a ver o Lego Dumbledore o mesmo que eu senti ao ver o Lego cosmonauta russo. E se isso acontecer, então o filme tem mais um trunfo, uma universalidade que se reflecte no cruzar de gerações através do amor comum ao mesmo brinquedo. E isso é maravilhoso.

1 comentários:

  1. Grande crónica. Achei genial o filme com uma mensagem profunda. Achei que ali para o meio, o filme perdeu-se um pouco, mas o final é simplesmente profundo e toca muito a quem gosta de legos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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