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The Portrait of a Lady

Ano: 1996

Realizador: Jane Campion

Actores principais: Nicole Kidman, John Malkovich, Barbara Hershey

Duração: 144 min

Crítica: Adaptar livros de grandes dimensões para o cinema é sempre algo problemático. Há sempre cedências que têm de ser feitas, ou ao nível da história ou a nível emocional. Ainda há pouco tempo vi a interessante adaptação dos estúdios Ealing (os famosos estudos britânicos da década de 1940) do romance de Dickens ‘Nicholas Nickelby’, depois de ter terminado o livro. O livro tem 700 páginas, o filme 90 minutos. Algo tem que ceder. E embora o filme seja divertido, ritmado, bem construído e segue a linha da história, não mergulha nas personagens (não tem tempo!), especialmente nas personagens secundárias, que são o cerne do universo dickensiano. 

Agora se a riqueza do livro está na construção psicológica das personagens, das emoções e das tensões sub-reptícias, ou seja, está mais naquilo que é descrito, e menos naquilo que é dito, então a tarefa é ainda mais ingrata, e só está ao alcance de um punhado de argumentistas, que devem estar muito bem articulados com os respetivos realizadores. Há emoções que não podem ser transmitidas por diálogos, que têm de ser transmitidas visualmente. Portanto é ainda pior quando as 600 páginas do livro são convertidas em 140 minutos assentes quase unicamente em diálogos. Aí a tarefa passa de ingrata e difícil a completamente impossível. Pode-se escrever e fazer o maior filme de todos os tempos, mas será sempre um produto novo, original. Nunca se conseguirá reproduzir uma décima, ou uma centésima parte, da essência do romance. E isto é precisamente o que se passa com o filme ‘The Portrait of a Lady’ (Retrato de uma Senhora) realizado por Jane Campion em 1996 e baseado no romance com o mesmo nome de Henry James (que li há uns anos, antes de ver o filme). Verdade que ‘The Portrait of a Lady’ bem que poderá ser o melhor filme que poderia ser feito a partir de um material de base tão complexo e difícil de adaptar, mas mesmo se o for não será maravilhoso, nem poético, nem belo, nem encantado como o livro, ou seja, nunca lhe chegará aos calcanhares. A história poderá ser igual na superfície (pelo menos as suas linhas gerais), mas nunca terá o poder que o romance transmite.

É difícil não gostar de ‘The Piano’, o filme de 1993 que tornou a australiana Jane Campion famosa, e lhe deu a honra de ser a segunda mulher (a primeira num filme em inglês) nomeada para o Óscar de Melhor Realizador. Até ao aparecimento de Kathryn Bigelow, Campion era provavelmente a realizadora mais importante da historia do cinema anglo-saxónico, rivalizando talvez só com Ida Lupino (?! – não sei, o leitor que se pronuncie). ‘The Piano’ é artístico, profundo, convincente e tem significado. Portanto foi com grande interesse que a comunidade cinematográfica e o público aguardou o seu projecto seguinte. E como de costume, após um grande sucesso, os realizadores podem basicamente fazer o que lhes apetece, os seus projetos de sonho, o que muitas vezes dá para o torto. Recordo-me sempre do filme que Roberto Benigni fez após ‘La Vita é Bella’ (1997), ‘Pinocchio’ (2002), um projecto que ele queria fazer há décadas e que os produtores não hesitaram em financiar após o grande sucesso do filme da segunda guerra mundial. Para bom entendedor meia palavra basta, e quem viu esta aberrante versão de ‘Pinocchio’ sabe o que eu quero dizer. Do mesmo modo, este era um dos romances preferidos de Campion, do qual ela sempre quisera fazer uma adaptação. Mal teve a oportunidade, fê-lo. E muito embora a escolha deste romance ‘feminino’ de Henry James tenha sido ousada, de alguma forma pareceu natural após ‘The Piano’ e perfeitamente adequada ao gosto de Campion e ao seu óbvio talento.

Mesmo assim, Campion e o resto da equipa puseram-se na boca do lobo. Como disse no início, adaptar este livro é colocar-se na rota de inúmeros obstáculos. Mesmo que muitas das personagens e histórias secundárias do romance sejam descartadas sem pensar duas vezes (como aquelas envolvendo as personagens de Henrietta ou Warbuton), simplesmente não há tempo suficiente de película para conseguir transmitir ao público na perfeição a delicada construção emocional que Henry James tão cuidadosamente trabalhou em crescendo ao longo de 500 páginas. O filme faz o óbvio. Numa tentativa de contar a história de base o mais depressa possível para chegar ao âmago das personagens, retira muito da sua construção. Todo o background da personagem principal, Isabel Archer (interpretada por Nicole Kidman), bem como a sua relação inicial com a família Touchett é completamente descartada (se o espectador quer saber, que leia o livro!) e o filme abre logo com o pedido de casamento de Warburton, que surge de uma forma muito pouco justificada. Da mesma forma, quase duas horas depois de ter começado o filme, outra personagem, Ralph, diz a Isabel “és a minha melhor amiga”. No livro acreditamos. No filme não, pois estas duas personagens tiveram pouco mais de 2 cenas juntas, portanto a sua conexão emocional é quase nula. Este tipo de incongruências, de forçar emoções que realmente existem na história mas que o filme não torna credíveis, acontecem durante toda a película. 

‘The Portrait of a Lady’ conta a história de Isabel Archer, uma mulher Americana que é uma parente afastada e pobre de uma rica e respeitada família britânica, os Touchett. Quando os visita por uma temporada, toda a família (e os amigos da família) ficam seduzidos pela sua beleza e personalidade, e ela torna-se o centro de todas as atenções. Ralph (interpretado por Martin Donovan), o filho do patriarca Touchett (interpretado por John Gielgud), é doente e caminha lentamente para a morte, e silenciosamente adora e idolatra a prima. Warbuton, um amigo da família interpretado por Richard E. Grant, pede a mão de Isabel em casamento e é recusado pois ela, apesar de pobre, não quer casar sem amor, por um lado, nem perder a liberdade, por outro. Da mesma forma, o seu pretendente americano, interpretado por Viggo Mortensen, segue-a até Inglaterra e volta a oferecer a sua mão, para voltar a ser recusado.

E então acontece o primeiro ponto de viragem. Quando o velho Touchett está a morrer, Ralph convence-o a deixar a sua fortuna, não a ele, pois cedo seguirá o pai na morte, mas a Isabel. De repente, Isabel vê-se livre e com uma enorme fortuna, livre da pressão de escolher um marido. Muda-se para Itália para viver a vida, e lá trava amizade (que poderá ser interesseira) com Madame Merle (interpretada pela sempre fascinante Barbara Hershey, nomeada para o Óscar neste papel). Quando Isabel se apaixona por Gilbert Osmond (John Malkovich), um aristocrata sem vintém e com uma filha pequena, Merle convence Isabel a casar com ele. Os papéis trocados, Isabel só pensa no seu amor e na sua liberdade e não se apercebe que a posição de Osmond foi a sua, há bem pouco tempo. Casam e os anos passam.

O filme salta uma década. A filha de Osmond agora pretende casar com um jovem interpretado por Christian Bale (como é engraçado ver os filmes da adolescência de Bale, sempre munido do seu beicinho). Mas Osmond, que sempre viveu às custas da mulher, não aceita este casamento. Mas Isabel vê na filha um pouco da sua antiga personalidade e o desejo de liberdade que nela se abateu ao longo dos anos, presa num casamento que cedo descobriu ser sem amor, e onde nunca alcançou a felicidade que pretendia. Perante estes eventos, a forte personalidade de Isabel, que a permitiu manter-se à tona durante todos estes anos, finalmente vacila, e ela quebra, física e emocionalmente, algo que é ainda mais acelerado pela iminente morte de Ralph (o seu único amigo?). 

‘The Portrait of a Lady’ desenrola-se como uma batalha de personalidades entre as personagens principais, e de como elas ascendem ou caem, vitimas dos próprios jogos que jogam. São estes jogos, estas intrigas de sociedade que lhes tiram o tédio e que os mantêm vivos, pelo que é mais que justo que sejam também estes jogos psicológicos que acabem por os destruir a todos, por lhes vergar o espírito e por levar até alguns à morte. O filme, tal como o romance (e acertadamente, diga-se), mostra todo este intrincado xadrez emocional da perspectiva de Isabel. Mas o romance explica ao leitor a personalidade e a perspectiva de Isabel, o que está por trás das suas escolhas, e porque motivo as faz. Já o filme não. Não existe praticamente nenhum desenvolvimento de personagem, em ponto algum do filme. Portanto as suas escolhas são basicamente impingidas ao espectador, só porque “o livro diz que tem que ser assim”, e várias não se adequam à personagem que o filme (não o livro, note-se) criou.

O leitor poderá eventualmente argumentar que eu, por não ser mulher, não entendo a verdadeira essência da história, e que as mulheres compreenderão as escolhas de Isabel. Se estivermos a falar do livro até poderei concordar, mas não o posso fazer se estivermos a falar do filme. É difícil, muito difícil de acreditar, por exemplo, como é que todas as personagens masculinas imediatamente se perdem de amores por Isabel, porque ela, pelo menos no ecrã, não faz absolutamente nada para o justificar. Tirando o facto óbvio de Isabel herdar as feições e o corpo laroca de Nicole Kidman, não há uma única cena que nos revela a sua inteligência, o seu humor, o seu poder sedutor. Depois o filme tem outra grande falha; a gravitação de personagens em torno de Isabel é altamente artificial. Porque a história do livro é condensada e dada em estilo telegráfico, as personagens secundárias também carecem de desenvolvimento e parecem pop-ups. Aparecem nas cenas só para dar a contribuição necessária para a história poder avançar e depois desaparecem sem deixar rasto. No meio de tudo isto, achei que a única personagem credível era mesmo a de Malkovich. Como ele não é o único actor bom deste filme, então não creio que seja uma questão de personalidade. Suponho que seja apenas um acaso do argumento.

Campion procurou, acertadamente, tentar compensar a falta de profundidade emocional das personagens que o argumento continha com alguns recursos visuais. Mas mesmo assim não creio que a sua escolha tenha sido a mais acertada, pois não é nada subtil. Em vez de optar por alguma ponderação fílmica, por algum close up mais contemplativo, a realizadora tenta revelar ao público os demónios interiores de Isabel através de slow motions artísticos ou então sequências sonhadas. Se por um lado estas até cumprem o seu objectivo até certo ponto e acabam por saber a pouco, ou seja, são em menor número do que aquele que o filme devia ter, por outro, infelizmente, estas cenas têm pouco conteúdo, ou melhor, são feitas para chocar, forçar a mensagem da emancipação da mulher moderna (os paralelismos para o presente são óbvios e banais) e tentar tornar o filme menos, digamos assim, enfadonho para o público moderno (variando das cenas de interiores comandadas principalmente por diálogos). 

Que outro motivo poderá haver senão estes para fazer a cena dos créditos iniciais no presente, na qual mulheres dos anos 1990 falam das suas experiências a beijarem? Que outro motivo poderá haver senão estes para inventar uma cena em que Isabel tem um sonho no qual está a ter um ‘foursome’ com os seus três pretendentes? Que outro motivo poderá haver senão estes para fazer com que a cena da viagem de Isabel pelo Mundo, quando herda a fortuna, se assemelhe a um filme mudo dos anos 1920? Se pensarmos bem, esta viagem ocorreu 100 anos antes dos filmes mudos, portanto não tem lógica nenhuma. É apenas um artifício fílmico, extremamente artificial, mas que tenta colmatar uma falha emocional do argumento. A verdade é que algumas destas cenas realmente resultam para transmitir uma mensagem (a cena de amor a quatro é uma destas… a sério!), mas a maior parte destas cenas sonhadas não resulta muito bem. O que resta é um monte de cenas que se amontoam umas por cima das outras a uma velocidade vertiginosa, com carradas de diálogo, que é dito no menor tempo possível, sem as pausas adequadas para assentar emoções. O objectivo ao longo do filme parece ser sempre não contar a história, mas sim chegar à cena seguinte. Mesmo que os diálogos sejam fortes e emotivos (são), e mesmo que os actores os digam de uma forma quase perfeita (dizem), não há tempo algum para assentar as ideias, pois há ainda muita história que o filme precisa de cobrir, apesar dos cortes, e portanto é como um dínamo, avançando sempre, non-stop.  

Tudo somado, ‘The Portrait of a Lady’ tenta ser fiel à narrativa do romance, e como é bem sucedido em fazê-lo poder-se-á dizer que isso é o seu grande trunfo. Para além do mais, o design de produção, a fotografia, e o trabalho de câmara são todos excelentes. Mas ao mesmo tempo a maior parte dos elementos da narrativa são adicionados artificialmente só porque têm de lá estar, as personagens não estão desenvolvidas e o público é obrigado a acreditar em sentimentos que não cresceram no filme, apenas no livro. Portanto o filme é um bom complemento do livro (venham ver as cenas principais do livro representadas por um monte de actores famosos, e os penteados estranhos de Kidman!!), mas como ente isolado tem muito pouco para oferecer, ou seja, não é um filme que se consiga suster sozinho. Tentaram condensar demasiado num tempo muito limitado (apesar do filme ter mais de duas horas), e por causa disso todos os gramas de sentimento foram sugados da história, isto apesar dos actores darem o seu máximo (e isso é perceptível) para tentar manter esses sentimentos lá (bem, todos menos Mary-Louise Parker no papel de Henrietta, que é, sinceramente, péssima!)

E por falar em actores, quase não mencionei Kidman. Supostamente este papel foi-lhe prometido por Campion nos anos 1980, quando ambas eram ilustres desconhecidas na Austrália. E verdade que por esta altura Kidman pouco mais era que a mulher de Tom Crise, entrando nalguns blockbuster mas em poucos filmes relevantes. Sinceramente Kidman é quase sempre Kidman, e neste filme não é excepção, embora seja, a meu ver, uma convincente Isabel Archer. Pelo menos a sua beleza, por vezes distante, pode justificar muita coisa do filme, mesmo que a sua expressão e a forma como diz as frases não o justifiquem completamente. A sua cara bonita ajuda muito mas em sua defesa não é tudo o que ela tem para oferecer. Contudo se me perguntarem se a mulher dos anos 1990 se consegue identificar com Nicole Kidman e Isabel Archer (afinal, parece ser esse o objectivo desta adaptação) então eu tenho de responder: com Archer não me parece, mas com Kidman é provável que sim… mas não neste filme!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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