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Flesh and the Devil

Ano: 1926

Realizador: Clarence Brown

Actores principais: John Gilbert, Greta Garbo, Lars Hanson

Duração: 112 min

Crítica: Em 1925 uma jovem actriz sueca de 20 anos chamou à atenção da MGM. Com toda a pompa e circunstância que caracterizaram Hollywood na sua primeira época dourada, Louis B. Mayer trouxe esta actriz para a Califórnia e imediatamente a colocou sob contracto, ou seja, tornou-a uma engrenagem na poderosa máquina do sistema de estúdio. Em 1926 esta actriz fez três filmes, ‘Torrent’, ‘The Temptress’ e ‘Flesh and the Devil’ e em 1927 já era uma super estrela e uma das actrizes mais conhecida do Planeta. O nome desta actriz era Greta Garbo e o filme que a permitiu catapultar para o estrelato foi ‘Flesh and the Devil’, em português, ‘O Demónio e a Carne’.

Em meados da década de 1920, antes do som e da grande depressão, Hollywood estava a crescer e amadurecer. Parecia que toda a experimentação já tinha terminado, as curtas-metragens deram lugar aos filmes, os estúdios refinaram-se, os filmes também. Era a época do grandioso, de épicos de aventura, de melodramas opulentos, de romances de fazer empalidecer Romeu e Julieta. Realizadores como Stroheim, Murnau e Borzage revelavam a arte de fotografar, os directores de fotografia revolucionaram a iluminação de uma cena. ‘Sunrise’ e ‘7th Heaven’ seriam feitos em 1927 e o culto do actor romântico estava a ser cultivado pelos estúdios. Pela primeira vez os fãs ficaram doidos pelas estrelas, cujas personalidades eram cuidadosa e artificialmente criadas pelos estúdios. E ‘Flesh and the Devil’ parece ter condensado todas estas valências num único produto.

Realizado por Clarence Brown, um homem que se iria tornar o realizador preferido de Garbo e com quem trabalharia em ‘Anna Christie’ (Garbo Talkes, o seu primeiro filme sonoro, em 1930) ou ‘Queen Christina’ (1933), ‘Flesh and the Devil’  é a epítome dos clichés que hoje associamos aos filmes mudos. É um melodrama romântico de voltas e reviravoltas amorosas (que certamente fez muitas fãs nos anos 1920 chorar baba e ranho), super teatral (é daqueles filmes em que os actores batem com as mãos no peito e põem as costas da mão na testa), emocionalmente algo infantil e superficial, mas que é, ao mesmo tempo, cativante, sedutor e possui um bom ritmo (algo essencial para mim em qualquer filme mudo). Ou seja, o espectador até não se importa de ser arrastado para esta artificial telenovela, porque está extraordinariamente bem filmada. Há uma beleza em cada plano, no design de produção, na colocação das luzes, no contraste de luz e sombras, que praticamente só existiu nesta altura do cinema e que Bown capitaliza como ninguém. Por mais melodramático e difícil de digerir que seja a cena do ‘amor à primeira vista’ no jardim, é impossível não deixar de ser seduzido pela forma como a luz do fósforo é filmada em contraste com os dois rostos por detrás. Da mesma forma a cena do duelo (outro clássico deste tipo de filmes), provocadoramente filmada à distancia, ganha outro interesse cinematográfico pelo enquadramento do plano, e os movimentos das sombras ao amanhecer. E depois claro, há a atracção da própria Garbo, embora esteja ainda relegada para um plano secundário. Mas como os dois actores principais, John Gilbert (outro galã do mudo, mas que ao contrário de Garbo não conseguiu fazer a transição para o sonoro) e Lars Hanson não são na realidade grande coisa (fazem-me lembrar o gozo que é dado aos actores mudos em ‘Singing in the Rain’) Garbo consegue roubar todas as cenas em que entra. Isso somado ao seu papel de tentadora e sedutora, permitiu selar o seu destino de estrela.

O filme passa a primeira meia hora a introduzir-nos as suas duas personagens masculinas principais, Gilbert (que interpreta o papel de Leo) e Hanson (no papel de Ulrich), dois jovens oficiais do exército alemão no virar do século. Logo na primeira cena, Ulrich tenta encobrir do general que Leo passou a noite toda fora da caserna e apercebemo-nos, talvez de uma forma um pouco exagerada, que estes dois rapazes fazem tudo um pelo outro. Há até um flashback (ridículo e ainda mais teatral e mais telenoveleiro que o resto do filme) em que os vemos em criança a fazer uma jura de sangue; amigos para a vida. Visto hoje em dia, algumas destas cenas ao longo de todo o filme entre Leo e Ulrich parecem um pouco, enfim, como dizer, amaricadas. Há alturas em que parecem que irão dar um beijo na boca de tão amigos que são. Não há nada de mal nisto, claro, não é isto que estou a dizer. Estou simplesmente a dizer que à luz dos dias de hoje isto torna pouco credíveis as suas personagens de galãs românticos e a ideia de que se possam perder de amores por uma mulher….

Leo vai passar a sua licença com a família de Ulrich. A irmã deste está claramente apaixonada por Leo e todos pensam que mais cedo ou mais tarde serão um casal. Mas primeiro na estação de comboios, e mais tarde nesse dia numa festa, Leo vê Felicitas (Garbo) ao longe e fica logo loucamente apaixonado. Isto é, se abrir a boca imenso e arregalar e revirar os olhos (é isso que Gilbert faz!) significa ficar loucamente apaixonado. Depois da romântica e belíssima cena no jardim, tornam-se amantes. Mas pouco depois o marido de Felicitas aparece. Leo não sabia que ela era casada, pelo que, sempre um homem honrado, aceita bater-se num duelo, e aceita também dizer a toda a gente que o duelo se deveu a uma disputa a jogar às cartas, para não manchar a honra nem de Felicitas nem do seu marido. Curiosamente nunca culpa Felicitas de não lhe ter dito que era casada…

No duelo, Leo mata o marido de Felicitas e depois aceita ir servir 5 anos no estrangeiro para que também a honra do exército não seja manchada. Pensa que Felicitas irá ficar à sua espera, e até pede a Ulrich, que não sabe a verdade, para não a deixar sozinha. Ulrich pensa que Leo apenas se sente culpado por a ter deixado viúva e aquiesce. Agora mal Felicitas descobre que Ulrich é rico, liga o seu charme e acabam por casar. Três anos depois, Leo é finalmente livre para voltar, mas em vez de ficar possesso com Garbo, mais uma vez a perdoa, e claro perdoa o amigo porque este não sabia do seu romance passado. Nem ele o revela. Em vez disso tenta ser honrado pela milionésima vez neste filme e afasta-se. Mas nem Ulrich quer que Leo se afaste (a sua grande amizade!) nem Felicitas quer perder esta oportunidade, já que está enfadada com o seu casamento e procura novas emoções. Leo, como um tótó, cai de novo na esparrela inicialmente, mas entre a amante e o amigo, tenta resistir à tentação e escolher o amigo. Já Garbo está mais interessada em pô-los um contra o outro, conduzindo o filme a mais um duelo, e a um desfecho, quiçá previsível, mas extremamente melodramático.

No global o pior ponto de ‘Flesh and the Devil’ é mesmo este argumento de melodramatismo exacerbado, onde o público (pelo menos o de hoje) tem alguma dificuldade em digerir algumas das decisões e de compreender algumas das emoções das personagens. Ao mesmo tempo, o final acaba por ser demasiado conveniente e não explora devidamente as consequências melodramáticas que o próprio filme estabeleceu,  o que é também um ponto a seu desfavor. Os heróis são os amigos, e a sua amizade está acima de tudo. Esta é a moral que o filme oferece, a meu ver. Mas vendo este final, de novo na perspectiva de hoje, em que a nuvem negra entre eles se desvanece e ficam livres, leva à tentação de pensar que, mais cedo ou mais tarde, estes dois vão descobrir que foram feitos um para o outro. E isto levaria a mais melodramatismo, já que a homossexualidade nesta época na era propriamente bem vista. Mas isto já sou eu a inventar.

Por fim, o filme tem outro ponto a seu desfavor. É todo contado da perspectiva dos amigos, principalmente na de Leo. Como disse, Gilbert gesticula muito e faz muitas caretas, mas não tem muita força como leading man. Sim, na altura era um galã do cinema e uma super estrela, mas as suas actuações não resistiram, a meu ver, ao passar do tempo. Já Garbo é outra historia. Está incrivelmente sedutora, brilhantemente contida (diz mais com um olhar do que Gilbert com todas as suas caretas), mas é de lamentar a sua artificialidade, ou melhor, a artificialidade da sua personagem. A culpa não é de Garbo, mas sim do argumento. Como tudo é visto na perspectiva de Leo, Garbo apenas aparece para seduzir. Nunca temos a noção das suas emoções nem das suas razões. O filme apresenta-a como uma caça tesouros e caça emoções, um diabo de saias só porque sim, e as consequências das suas acções só são medidas nas outras personagens. Portanto a sua espécie de redenção, no final, perto do clímax do filme,  não é propriamente muito credível, porque a personagem não foi nada trabalhada.

Garbo atingiria o estrelato pouco tempo depois e construiria uma carreira rica mas curta (retirou-se por vontade própria do cinema em 1941 – queria estar só!) com filmes como ‘Mata Hari’ (1931, já criticado aqui), ‘Camille’ (1936) ou ‘Ninotchka’ (1939). Clarence Brown iria continuar a trabalhar com Garbo e a realizar coisas como 'National Velvet' (1944) com Mickey Rooney e Elizabeth Taylor, e Gilbert perder-se-ia no sonoro acabando por ter uma morte prematura em 1934. ‘Flesh and the Devil’ permanece como um filme tecnicamente bem executado, com todo o exagero na história e nas actuações que o auge do cinema mudo proporcionava, e com todo o seu esplendor melodramático e romântico (o que poderá não ser necessariamente bom – neste caso não é!). E tem Garbo. Em qualquer altura, em qualquer lugar, em qualquer papel, é sempre bom ver e sentir Garbo.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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