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Le déshabillage impossible

Ano: 1900

Realizador: Georges Méliès

Actores principais: Georges Méliès

Duração: 2 min

Crítica: Um único plano estático de um quarto. Vê-se uma porta, uma cómoda, um cabide e uma cama. Um homem entra, bem agasalhado. Começa a despir-se. É um viajante cansado que apenas deseja tirar as roupas para ir para a cama. Retira o sobretudo, a camisa, as calças... Quando já está praticamente de ceroulas, de repente, por magia, as suas roupas voltam-lhe a aparecer no corpo. Retira as calças e volta-lhe a aparecer a camisola. Retira a camisola e voltam-lhe a aparecer as calças. Quanto mais luta para desesperadamente se despir, mais camadas de roupa parece ter vestidas. Retira camada após camada, mas as camadas parecem infinitas. Inicialmente ainda estava a colocar as roupas arrumadamente no cabide. Agora atira-as para o chão com fúria. Tenta inclusive meter-se na cama vestido mas a própria cama desaparece, evapora-se no ar. No final, o homem ainda está no chão, a lutar com a roupa….

A curta-metragem chama-se ‘Le deshabillage impossible’ (em inglês ‘Going to bed under difficulties’, em português não faço a menor ideia), demora menos de dois minutos e foi feita no ano de 1900 por George Méliès. Como qualquer cinéfilo sabe, Méliès foi o primeiro grande artista do cinema. Quando os irmãos Lumiére estavam simplesmente a usar o novo meio para retratar fielmente a realidade, Méliès, mágico de profissão, viu a sétima arte como um novo truque de magia que podia acrescentar aos seus espectáculos. Para além de "meros" truques de fotografia e de montagem dos quais foi pioneiro, Méliès também incendiou a imaginação do público ao retratar pela primeira vez a ficção do fantástico. O seu espólio não é, a meu ver (pelo menos aquele que eu conheço), todo brilhante (nem de perto nem de longe), mas pertencem a ele as primeiras grandes pérolas do cinema, o que só de si já torna o seu nome imortal.

Contudo enerva-me o facto de Méliès ser sempre inevitavelmente associado a ‘Voyage das la lune’ (1902). Recentemente, no pequeno surto de popularidade que Méliès reviveu aquando do lançamento do filme ‘Hugo’ (2011, crítica neste link), de novo só se ouvia falar (como aliás durante todo o próprio ‘Hugo’) de ‘Voyage dans la lune’. Esta primeira adaptação da obra de Júlio Verne é excelente, obviamente, mas será mesmo o melhor cinema que Méliès produziu, ou é simplesmente o título que se popularizou referir do seu espólio? Não sei se é por eu ser do contra (um defeito de personalidade eu sei). Não sei se é por eu não me seguir pelo ‘ouvi dizer’ e tentar formar a minha própria opinião. Não sei se é por ter um gosto esquisito. Seja pelo que for, tal como não considero que ‘Safety Last’ é o melhor Lloyd, nem que ‘The General’ é o melhor Keaton, nem que ‘Sons of the Desert’ é o melhor Laurel and Harry (embora sejam sempre estes que aparecem nos livros da especialidade), assim também não considero que ‘Voyage das la Lune’ seja o melhor Méliès. Para mim, e o leitor já adivinhou, esse título cabe a ‘Le deshabillage impossible’.

À primeira vista é um filme conceptual e estruturalmente muito simples. A câmara está imóvel assente num tripé e o enquadramento é sempre o mesmo. O truque utilizado é também sempre o mesmo. É o chamado stop trick, que Méliès descobriu acidentalmente a filmar o tráfego de Paris quando a sua câmara momentaneamente parou de filmar, e que acabou por popularizar a larga escala e utilizou constantemente na maior parte das suas curtas-metragens. Simplesmente consiste em fazer um corte invisível, ou seja fazer a transição entre dois planos quase quase iguais de forma a parecer ao espectador que as coisas (neste caso as roupas) aparecem no mesmo plano ‘sem cortes’ por magia. Claro que ao vermos hoje em dia esta curta nos apercebemos claramente de onde estão os cortes, mas eles estão tão bem feitos que não nos sentimos muito incomodados com isso (e provavelmente em 1900 ninguém se apercebeu da sua existência). É de louvar a técnica de Méliès e dos seus adjuntos e é de louvar mais ainda a dedicação do próprio Méliès, como o único actor da película, que por vezes tem transições nas posições mais incómodas. Imagine o leitor Méliès em 1900, no seu pequeno estúdio, a ficar completamente imóvel quando grita ‘corta’, e a tentar manter essa posição quando os seus adjuntos reajustam o plano e lhe metem mais uma série de roupas. Imagine o leitor o tempo devotado para realizar este simples efeito visual, que hoje em dia poderia ser feito com o estalar de um dedo mas não teria um infinitésimo da magia. Aliás, quem perderia tempo a realizar uma curta-metragem assim tão simples, já que hoje o efeito especial é banalíssimo?

A resposta a essa pergunta é para mim o cerne da qualidade de ‘Le deshabillage impossible’. Verdade que esta curta foi provavelmente toda concebida para exibir o truque de fotografia e assim surpreender o público. Talvez nem o próprio Méliès tenha visto mais além disso. Mas há, nem que seja instintivamente, uma camada muito mais profunda nesta curta. Há um conteúdo totalmente imbuído de significado, um significado existencialista, filosófico. E é aqui que esta curta se afasta dos outros espectáculos visuais de Meliés, e é esse tipo de significado que hoje em dia os realizadores se esquecem de introduzir nos seus filmes, muito embora os efeitos visuais sejam muito mais perfeitos. Um homem está preso a uma inevitabilidade que desconhece, a um capricho do cosmos, a um truque de magia. Por qualquer motivo, não se consegue despir, um poder místico faz com que a sua roupa volte sempre a aparecer no corpo, por mais que a tire. O homem é um joguete do fado, um peão do destino. Não consegue lutar contra estas forças cósmicas e quanto mais tempo passa, mais é arrastado para o desespero. No final, no chão do quarto, está praticamente subjugado a essa entidade misteriosa. E as roupas continuam a aparecer, uma pressão, uma amarra existencialista. Porque lhe fazem isso? Não sabe. Como pode fugir, resolver a situação, ficar nu para finalmente ir para a cama? Não sabe. Não consegue. Não pode. Foi a mão que o destino lhe jogou. E não há nada que possa fazer para o contrariar.

Por estes dois motivos, pela excelência técnica e pela profundidade trágico-cómica da situação apresentada, num pacote de apenas dois minutos, é que considero esta curta magnífica. Adoro quando a beleza cinematográfica surge das coisas mais simples. Porque há uma pureza associada a isso, uma liberdade e uma alegria na realização que passa para o espectador. ‘Le deshabillage impossible’ mais simples não pode ser. Mas contém uma enormidade de CINEMA. É uma pena que esta excitação da descoberta se tenha completamente perdido, e, com ela, também se perderam este tipo de pérolas, que só o cinema dos primórdios pode ainda oferecer.

Não se fie pela minha palavra, caro leitor. Veja a curta aqui em baixo. Demora apenas 2 minutos. E que nunca tenha este tipo de problemas antes de ir para a cama!


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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