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300: Rise of an Empire

Ano: 2014

Realizador: Noam Murro

Actores principais: Sullivan Stapleton, Eva Green, Lena Headey

Duração: 102 min

Crítica: No mercado dos filmes de animação directos-para-DVD há uma pequena pérola chamada ‘Lion King 1 ½’ (2004). É um filme irreverente, engraçado e genial, apesar de, na verdade, ter muito pouco de original. O filme reconta toda a história de ‘Lion King’ (1994), mas a partir da perspectiva de Pumbaa e Timon. Estamos a ver quase exactamente as mesmas cenas, pela mesma ordem, mas onde os pequenos comparsas de Simba têm sempre qualquer coisa extra (e extremamente cómica) a dizer, que a câmara, supostamente, se esqueceu de mostrar no filme original. E aí está a subtileza da sua mestria. Sem o filme original, ‘Lion King 1 ½’ não faria sentido nenhum, nem teria qualquer interesse. Por todo o público conhecer ‘Lion King’ de trás para a frente, então o filme está livre para se divertir, e dessa maneira divertir e entreter o seu público alvo.

Agora pode perguntar-se o leitor porque motivo me refiro a uma sequela menor de animação para comentar ‘300: Rise of an Empire’. A resposta é um pouco triste, mas inevitável. A sequela do inovador e surpreendente ‘300’ (2006) é totalmente dependente deste filme, em termos de história e estrutura, e apoia-se nele praticamente até à exaustão (de si próprio e do público). Numa manobra inesperada mas completamente desinspirada, ‘300: Rise of an Empire’ em vez de tentar seguir o seu próprio rumo, numa reciclagem do material original mas com outras personagens e outra história (como todas as sequelas que se prezem), escolhe dar uma de ‘Lion King 1 ½’, e mostra-nos uma série de eventos paralelos ou que se cruzam com aqueles do ‘300’ original. ‘300: Rise of an Empire’ é, por incrível que possa parecer, ao mesmo tempo uma prequela, uma sequela, e um contemporâneo (em termos de ação filmica) do filme original. Inicialmente isto é um choque para qualquer espectador, que demora algum tempo a ultrapassar esse trauma, e é só numa fase muito avançada do filme, quando este tem (finalmente) rasgos de originalidade, que o espectador pode retirar qualquer coisa de interesse e que fique na retina. Mas isso não é suficiente para salvar o filme, apesar de ter um único elemento de grande valor. Mas já aí vamos.

Há várias coisas que não parecem resultar em ‘300: Rise of an Empire’ em comparação com ‘300’. Mas a culpa é toda do rumo que a história decidiu tomar. Por estar tão próxima, a comparação torna-se inevitável o que é um senão para este segundo filme. Hoje em dia, qualquer filme que faça dinheiro está sujeito, mais cedo ou mais tarde, ao tratamento de sequela. Quando ‘300’ surgiu, em 2006, um ano depois de ‘Sin City’ (2005), ajudou a erguer uma nova forma de cinema. ‘300’ pode não ser o filme mais profundo, nem o melhor filme de acção, mas o realizador Zack Snyder fez algo de surpreendente. Transformou um filme todo filmado num estúdio com painéis verdes numa obra de arte. A fotografia, a acção estilizada, os cenários pintados digitalmente, os diálogos parcos mas icónicos tornaram ‘300’, justificadamente, num filme de culto. Mas Snyder partiu para coisas maiores (embora não necessariamente melhores) como ‘Watchman’ (2009) ou ‘Man of Steel’ (2013), e a sequela ficou a cargo de Noam Murro, um realizador que até agora só havia realizado uma comédia-romântica, ‘Smart People’ (2008), embora Snyder também tenha contribuído para o argumento e como produtor. Murro não é nem de perto nem de longe Snyder, nem Sullivan Stapleton, o novo herói (no papel de Themistokles) é tão impactante, tão pujante nem tão hipnotizante em cenas de batalha como foi Gerard Butler (ainda o grande papel da sua carreira, pelo menos para mim).

Para além do mais, ‘300: Rise of an Empire’ tem ainda outro grande senão. Não tem uma novela gráfica de Frank Miller onde se inspirar. Supostamente, o filme é baseado na nova obra de Miller, ‘Xerxes’, que era suposto sair ao mesmo tempo que o filme por motivos de marketing. Mas Miller trabalha ao seu próprio ritmo e diz-nos a internet que ainda não terminou essa obra e que o argumento do filme é apenas levemente inspirado no conceito dessa novela. Quer ‘300’ quer ‘Sin City’ filmaram a novela gráfica quase quadrado a quadrado, copiando os ângulos, os contrastes, as cores. E era isso que os distinguia e tornava o seu estilo tão único. Já ‘300: Rise of an Empire’ desenrola-se menos neste estilo e mais como um filme ou uma série de acção contemporânea e totalmente banal passada na gloriosa era dos impérios mediterrânicos. Desenrola-se como um Hercules, um Spartacus, um Imortais, e nunca é tão artístico nem tão visualmente apelativo como o original. Contribuem para isso também a maior parte das cenas serem de noite ou passadas num mar tempestuoso. O tom do filme é sempre escuro ou azulado, e nunca se vê os vermelhos e os amarelos que tingiam o primeiro filme e que enfatizavam a artificialidade do cenário. Os cenários neste caso são tão escuro que nem se nota se são reais ou digitalizados (como é o caso). O facto de não haver uma novel gráfica como base também torna o filme moroso em termos de argumento. Em vez de termos diálogos parcos mas incisivos e impactantes como ‘tonight we dine in hell’, temos longas conversas imbuídas de lugares comuns. O discurso pré-batalha final proferido por Themistokles faz os discursos de Butler no primeiro filme parecerem a mais bela das poesias…

O filme abre com a actriz Lena Headey, que no primeiro filme havia interpretado a rainha de Esparta, mulher de Leonidas, a personagem de Butler. Está num barco, a liderar uma frota, 10 anos depois dos eventos de ‘300’, e começa a recontar uma história em estilo de elevação de moral, seguindo a fórmula do primeiro filme. É a primeira grande surpresa; a história que ela começa a recontar é quase a do próprio ‘300’. Como assim, pergunta-se o espectador? É mesmo verdade. Numa sequência que dura mais de 20 minutos, a sua voz off entranha-se no espectador até ele não poder mais, enquanto ela nos conta tudo e mais alguma coisa sobre eventos que antecederam a invasão dos persas à Grécia e que levou a que Leonidas e os seus bravos 300 fossem para a batalha. Assistimos à ascensão do lado persa, à transformação de Rodrigo Santoro de um enfezado príncipe no temível rei-deus Xerxes, e à aparição de duas personagens aparentemente importantíssimas, mas que obviamente o primeiro filme não mostrou; Themistokles, um guerreiro grego, e Artemisia, a concelheira do rei persa interpretada pela extraordinária e sempre fabulosa Eva Green (quem acha como eu que ela merecia o Óscar de Melhor Actriz Secundária pelo seu papel de Vesper em ‘Casino Royale’?!), que é a grande mais valia do filme.

A primeira coisa que não gostei é o facto de o filme estragar algumas coisas, muito desnecessariamente, do filme original. Por exemplo, Xerxes era uma figura estranhíssima mas fascinante do primeiro filme. É um pouco irrelevante sabermos como ele ficou assim. O não sabermos ainda torna a sua personagem mais mística e mais assustadora. Agora ficamos a saber, e não é propriamente uma transição de Anakin para Darth Vader; é algo muito mais patético e pouco trabalhado, e por o ser já põe o espectador de pé atrás. Entretanto o nosso herói Themistokles anda pela Grécia a tentar preparar-se para a guerra. Vai inclusive a Esparta e fala com muita gente do primeiro filme, excepto Leonidas que ‘está numa reunião’ (Butler recusou-se a aparecer na sequela, embora usem algumas imagens de arquivo suas). E tudo converge para a mesma batalha de ‘300’, mas aparentemente uns metros mais ao lado. O que o filme nos quer dizer é que, enquanto os 300 de Leonidas estavam a combater os exércitos de Xerxes no desfiladeiro, no mar estava a haver outra batalha, entre os exércitos gregos liderados por Themistokles e os persas liderados por Artemisa! Repito: ao mesmo tempo! Como é possível haver tão pouca originalidade? É incompreensível. Mais incompreensível ainda é, depois da noticia chegar que Leoninas e os 300 foram batidos, a batalha entre Themistokles e Artemisia continuar, aparentemente, durante 10 anos (já que depois acaba por engatar com a cena inicial). 10 anos? Quanto muito passaram 10 dias. Ninguém envelhece e as sequências não mostram qualquer passagem do tempo…

Depois de passar 45 minutos a girar à volta dos eventos de ‘300’, de ter pouca originalidade e se apoiar completamente no filme original, na segunda parte, quando finalmente assistimos às cenas de batalha, um pouco da magia cinematográfica que o original possuía também começa a correr pelas veias de ‘300: Rise of an Empire’. Depois de tudo justificado e tudo engatado nos eventos que o publico já conhece, o filme tem finalmente a liberdade para tomar o seu próprio rumo. Ai, transforma-se numa luta entre dois guerreiros, Themistokles e Artemisa, mais do que propriamente dois exércitos, o que dá uma mais valia de intimidade ao filme. Confesso que fiquei embrenhado nesta batalha a dois que o filme salienta no meio da batalha global, esta luta entre os egos, os medos e os desejos dos líderes dos dois exércitos. Infelizmente, isto deve-se pouco ao trabalho algo insosso de Stapleton. É Eva Green que se encarrega de todas as despesas e por conseguinte é ela que carrega todo o filme às costas. Ela é o centro hipnotizante da trama, é a sua única centelha, e passa o seu desafio como heroína de ação com notas máximas. Seria fabuloso vê-la taco a taco com Butler, mas não se pode ter tudo. Infelizmente, o filme as vezes parece não estar consciente da mais valia que possui, e Green por vezes acaba por ser tratada como mais um produto de exibição deste tipo de extravagâncias (a serie Spartacus é especialista nisso), no qual é obrigatorio capitalizar. A cena de sexo entre ela e Stapleton, muito embora seja uma metáfora para a batalha de egos entre ambos, acaba por descambar numa exibição do belíssimo corpo nu de Green…

Mesmo assim, é esta cena que marca em definitivo o inicio da melhor parte do filme. E quando acaba, apenas ao fim de 100 minutos, eu pelo menos estava a berrar para o ecrã por mais. Este sim, era um filme que pedia uma duração maior. Na sua melhor parte, quando finalmente está embrenhado numa batalha digna, rica em efeitos visuais, e golpes artísticos, o filme termina sem saciar o espectador, sem mostrar em pleno o género de coisas que viu em ‘300’ e o fez comprar o bilhete para esta sequela. Pior, sem nenhuma tentativa para o mascarar, o filme deixa a porta aberta para a continuação. ‘300’ deu tudo o que tinha, deu tudo o que podia dar. ‘300: Rise of an Empire’ dá só um cheirinho, e depois daqui a uns anos um filme com um título semelhante irá pedir ao publico mais dinheiro para poder dar um bocadinho mais. Assim não vale.

Tudo somado ‘300: Rise of an Empire’ é um desperdício. É um filme que sozinho vale pouco e está completamente assente no filme original. É um filme que poderia ter continuado a tradição de batalhas épicas e artísticas centradas em personagens com carradas de carisma mas em vez disso entretêm-se a contar a mesma historia mas noutra perspectiva. Desperdiça Green ao rodeá-la de ilustres desconhecidos com pouco talento, e desperdiça a primeira metade do filme com construção e mais construção de coisas que, no final de contas, vão ser pouco relevantes para o cerne do filme. A ascensão de Xerxes não vai interessar para nada na luta entre Themistokles e Artemisa. Ao mesmo tempo, os 300 estarem a lutar uns quilómetros mais ao lado também não. Por fim, há o desperdício do estilo visual, que as cenas nocturnas e marítimas não permitem exibir em pleno, e apesar dos slow motions, do sangue a esguichar e dos golpes cools é tudo pior, menos artístico e com menos testosterona que no filme original. É de acordo com o ABC das sequelas, não é assim que deve ser. O filme vale pela excelente performance de Green e pela sequência de batalha final. Quando estes dois elementos se encontram então finalmente este filme tem qualidade. Mas primeiro não vale por absolutamente mais nada e segundo quando está a começar a ficar interessante começam a rolar os créditos finais. E isso é uma grande infelicidade. Pedia-se mais. Exigia-se mais. Mas com apenas 5 dias em exibição já está em primeiro da Box Office americana. E só isso conta, hoje em dia. Contra estes factos, não há argumentos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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