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L'amour en fuite

Ano: 1979

Realizador: François Truffaut

Actores principais: Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Marie-France Pisier

Duração: 94 min

Crítica: Excerto de uma crónica sobre a quintologia cinematográfica de Antoine Doinel que pode ser lida aqui.

Nove anos depois, em 1979, a reputação de Truffaut continuava a subir, agora à escala mundial. 20 anos precisamente depois de ter despoletado com ‘Les Quatre Cents Coups’, e apesar de alguns fiascos de bilheteira e alguns filmes menos conseguidos, os anos 1970 tinham dado a Truffaut o seu único Óscar, para Melhor Filme Estrangeiro com ‘La Nuit Americaine’ (1973), o seu maior sucesso comercial na América, e também incrível exposição mediática internacional por ter interpretado um dos papeis principais do filme ‘Close Encounters of the Third Kind’ (1977) de Steven Spielberg, um grande admirador e um promotor de Truffaut na América.

As razões para Truffaut decidir regressar a Doinel quase uma década depois poderiam ser facilmente entendidas se este filme mantivesse o mesmo tom dos anteriores. Mas, olhando para o resultado final, as suas razões tornam-se um pouco mais obscuras. ‘L’Amour en fuite’ (1979), em português ‘Amor em Fuga’, o quinto e último filme da saga de Doinel, desenrola-se como um filme de homenagem, uma auto-homenagem a realizador e actor, uma homenagem à personagem e à sua vida fictícia no ecrã, uma homenagem aos quatro filmes anteriores. Nada disto é disfarçado: quase metade dos 90 minutos de duração de ‘L’Amour en Fuite’ são ocupados por imagens (na forma de flashbacks) dos filmes anteriores, para além de algumas cenas extraídas de ‘La nuit americaine’, onde, como disse, Léaud quase se auto-parodia. ‘Antoine et Colette’ é tão curto (28 min) que está praticamente reproduzido na íntegra em ‘L’Amour en fuite’.

Será provavelmente esta a razão para muitos acharem este filme supérfluo, uma decepção, e apenas uma desculpa para Truffaut fazer algum dinheiro à custa da reputação dos filmes de Doinel, mas eu sinceramente não o interpreto desta maneira. Truffaut havia estado muito doente durante toda a década de 1970, uma antecipação da sua morte prematura que ocorreria em 1984 com apenas 52 anos de idade. Talvez Truffaut sentisse que tal iria acontecer, talvez quisesse fechar a saga de Doinel, talvez quisesse prestar-lhe um último tributo, quem sabe? A personagem ganhara uma vida própria, e cresceria indefinidamente, se não na celulóide, pelo menos na mente do público, até à terceira idade, mas quereria Truffaut ver um Doinel idoso? Nesse momento, quer Doinel quer Truffaut estavam na casa dos 40 anos, o primeiro a começá-la, o segundo a terminá-la. Os dois estavam ligados (o próprio Doinel começa a vestir-se com as mesmas camisas azuis pelas quais Truffaut era sobejamente conhecido), mas Doinel nunca poderia ultrapassar Truffaut. Talvez Truffaut tivesse achado que aqui, no início dos seus 40 anos, era o ponto ideal para manter Doinel, pelo menos em termos de um registo cinematográfico. E o destino acabou por fazer que assim fosse. E aí permanece, nesse momento no tempo, para sempre, a balouçar na nossa imaginação, um imortal cavaleiro da vida.

A palavra de ordem deste filme é ‘nostalgia’. Nostalgia com uma breve chama de esperança no final. Neste último capítulo Doinel é Léaud completamente. Apenas a personagem permanece, ou melhor, a memória da personagem, de onde veio, como evoluiu, e aquilo que se tornou. O realizador Truffaut mostra ao público a personagem que concebeu, mostra aquilo que esta personagem foi ao longo de 20 anos e 5 filmes, uma personagem que já deixou de ser Truffaut ou sequer de pertencer a ele, uma personagem que agora pertence ao Cinema. Um documentário sobre os quatro primeiros filmes não faria melhor esta homenagem e ‘L’Amour en fuite’ não só faz essa homenagem como oferece um bónus. Os flashbacks são todos justificados por uma pequena aventura de Doinel, agora um homem quarentão numa espécie muito peculiar de uma crise de meia idade (à la Doinel/Léaud).

O filme abre com Doinel a acordar. A câmara logo revela que não é Christine que está a seu lado, mas sim Sabine, o seu novo amor. Rapidamente o filme estabelece que ambos estão muito apaixonados e que partilham muitas pequenas coisas em comum. Sabine até vai ao ponto de dizer frases que haviam sido pronunciadas por Doinel em filmes anteriores, o que não é só uma homenagem a esses filmes, mas também um modo de dizer que estas duas almas são compatíveis, que pensam do mesmo modo, e que constituem caras-metades. Mas estou-me a adiantar um pouco, porque o filme só lentamente é que revela que Doinel poderá finalmente ter encontrado o amor da sua vida. No princípio, o filme mostra o mesmo instável Doinel, incapaz de criar um compromisso e laços afectivos, apesar de estar muito mais ciente da sua idade e dos seus erros do passado.

Esse dia em que o filme se inicia é precisamente o mesmo em que terá que aparecer em tribunal para finalizar o seu processo de divórcio amigável com Christine. E é no tribunal que reencontra outra velha conhecida, Colette, que é agora (convenientemente) uma advogada. Colette, por seu lado, está desesperadamente apaixonada pelo irmão de Sabine, completando o círculo que constitui o universo destas personagens.

Toda a rotina do divórcio faz com que quer Doinel quer Christine tenham flashbacks da sua vida em conjunto (a deixa para a entrada das cenas dos filmes anteriores), e quando Colette surge, a curta ‘Antoine et Colette’ é praticamente exibida na sua totalidade. Devido a uma tragédia no seu passado, Colette já não é o espírito livro que era no passado e na memória de Doinel, mas ao reencontrá-lo não consegue resistir a fazer transparecer de novo o seu charme rebelde. Doinel, por seu lado, fica de novo muito afectado por a ter reencontrado. Provavelmente, nunca a tinha esquecido, e as suas ideias de amor idílico associadas sempre à primeira paixão regressam.

Mais tarde encontram-se num comboio (não por acaso, diga-se). Momentos antes, Colette tinha estado a ler o romance autobiográfico que Doinel tinha começado a escrever na altura de ‘Domicile Conjugal’, e que dois anos antes da acção deste filme tinha sido publicado. Isto é uma desculpa para mais flahsbacks, e lentamente Truffaut acaba por retirar destas memórias dispersas o retrato completo da sua personagem, daquilo que ela realmente é, da sua natureza, como evoluiu e aquilo que se tornou. Verdade que isto poderá ter sido feito  simplesmente, usando recursos banais, mas também é feito de um modo muito inteligente, porque esta construção faz sentido, e conduz o filme até ao seu momento crucial, ao momento definitivo da saga, e, para mim pelo menos, o momento que explica porque é que este filme de memórias foi realmente feito, e porque  é que ele faz todo o sentido se considerarmos que estes 5 filmes são apenas um. Estou a falar da cena em que Doinel e Colette conversam no comboio. Aí, ela confessa-lhe que, durante os eventos de ‘Antoine et Colette’, estava realmente apaixonada por ele, mas foi a possessividade dele, a sua obsessão constante por ela e o facto de ele nunca ter ‘desampararado a loja’ que a fizeram ficar farta e desistir.

Ao ouvir isto, Doinel tem finalmente o seu ponto de viragem. Aos 40 anos finalmente atinge a sua idade adulta, e finalmente começa a compreender-se a si próprio. Aí, confessa outro ponto relevante para a história deste filme, que é como é que conheceu Sabine (não o sabíamos até este ponto) e o que é que o fez apaixonar-se por ela. Agora, porque finalmente entendeu, sabe que não pode perder Sabine, que é literalmente o amor em fuga do qual se está a afastar devido à marcha do comboio. Aí, Doinel deixa de fugir do amor como antigamente. Há um simbolismo óbvio inerente ao facto de ele se pôr de pé e puxar o cordão de emergência do comboio e saltar, para correr para trás.

Sabine já não quer nada com ele, mas o facto de Doinel finalmente ter feito as pazes consigo próprio, permite-o aceitar de uma nova maneira as restantes coisas que irão acontecer no filme até que a saga chega ao seu final último, em que Doinel poderá finalmente encontrar estabilidade, amor e, principalmente, paz.

Outros eventos do filme incluem um encontro entre Christina e Colette (o clube das ex-de-Doinel, como Colette as chama), onde elas discutem o que é amá-lo e viver com ele, bem como mais flashbacks, quer ‘reais’ (ou seja, retirados de filmes anteriores), quer ‘inventados’ (ou seja, novas cenas filmadas de propósito para este filme). Aqui, vemos alguns dos motivos porque é que Doinel se divorciou de Christina. Por exemplo, teve um caso com uma das amigas dela, mas é esta amiga que primeiro acaba com Doinel, ainda por cima usando a mesma frase sobre o facto de ele precisar de uma mãe, de uma irmã, de uma filha e de uma mulher tudo em um, que Christine já tinha pronunciado num filme anterior. Mas estas cenas apenas servem para embalar o filme até à tal cena no comboio que explica tudo, que significa tudo. Após esta cena, o poder do filme reside na história por detrás da fotografia de Sabine que Doinel tem sempre no seu bolso. É ao mesmo tempo um pormenor muito Doinelesco, mas que consegue simbolizar o encontrar do amor verdadeiro. Acaba por ser simples? Sim. Mas é completamente enternecedor.

No final de contas, ‘L’Amour en fuite’ representa o momento na vida de Doinel em que ele finalmente faz as pazes com o seu passado. Isto explica porque é que metade da duração do filme consiste em cenas dos filmes anteriores. Não é uma mera táctica para encher. O passado é recorrente, e regressa ao presente constantemente, uma e outra vez. Mas se aqui primeiro regressa para assombrar Doinel, e para o fazer lamentar das escolhas que fez ou das escolhas que nunca teve coragem de fazer, progressivamente o passado começa a ensiná-lo, até ao momento em que consegue lidar com ele, e finalmente o pode descartar completamente, para poder seguir em frente, e começar a viver.

Obviamente nunca há certezas. Ele continua hesitante, continua incerto. Nem sempre é correcto nem nunca será um homem perfeito. Foi infiel no casamento, mente, escreveu coisas na sua auto-biografia que o público sabe que não são verdade pois viu esses eventos em filmes anteriores (são uma ligeira distorção, quiçá aquilo que Doinel gostaria que tivessem sido). Mas apesar de tudo aprendeu a amar, e em Sabine, numa forma que na realidade quase só pode acontecer nos filmes, encontrou o seu amor. Primeiro corre, fugindo dele. Depois corre de novo na sua direcção para o salvar, e o reter. Durará? Se houvesse um sexto filme talvez não. Mas eu acho que Truffaut sabia que não iria haver outro filme, portanto as pequenas pistas que nos deixa ao longo deste filme, principalmente a mesma frase que Sabine ao falar com o seu irmão, que é exactamente a mesma frase que Doinel havia dito a Christine dois filmes antes, constituem sinais, sinais de que estas duas almas, Sabine e Doinel, foram feitas uma para a outra.

E creio também que Léaud sabia que esta iria ser a sua última aparição como Doinel. Começando o filme o Doinel do costume, de uma forma quase rotineira, Léaud progressivamente apresenta-nos uma personagem que amadurece e que finalmente se compreende, fechando um ciclo que tinha começado com a sua incompreensão constante, 20 anos antes em ‘Les 400 Coups’. Doinel já havia corrido atrás do amor antes, e já tinha encontrado, supostamente, o verdadeiro amor antes. Mas nunca tinha mostrado tanta determinação como agora, tanta capacidade de decisão, tanta certeza. Doinel nunca lutou por Colette. Doinel suplicou como uma criança perdida para Christine o aceitar de volta no final de ‘Domicile Conjugal’. Doinel fugiu de Sabine numa primeira instância. Mas, de repente, tudo muda. Em ‘L’amour en fuite’ Doinel corre e luta por Sabine, e aqui reside toda a diferença.

Mas curiosamente, não é Sabine a personagem feminina mais forte do filme. Nem Christine. É Colette. Sabine é ainda um mundo por descobrir (talvez a perspectiva do próprio Doinel) enquanto Christine acaba por ser um universo que já não tem interesse (talvez por deixar de ter interesse, mais uma vez, para o próprio Doinel). Sempre que aparece, Christine parece estar contente, com um sorriso, e ao lado do seu filho, agora crescido, não parece sentir muito a falta de Doinel. O filme nunca acaba por mostrar se ela tem um novo namorado ou o que faz agora da vida. Uma falha do filme, talvez, mas justificável se pensarmos, como disse, que tudo é mostrado do ponto de vista de Doinel. Para além do mais a personagem de Christine teve dois filmes inteiros e Sabine tem a vida inteira para ser explorada, enquanto que Colette tinha tido apenas 20 minutos. Então, naturalmente, como o amor do passado que regressa em muitas vidas, a personagem de Colette tem em ‘L’Amour en fuite’ um desenvolvimento muito mais profundo, algo que acaba por ser tornar numa surpresa agradável ser uma mais valia do filme. Esta mais valia é ainda exacerbada pelo facto da actriz Marie-France Pisier se ter transformado numa mulher lindíssima, muito mais do que aquilo que era 20 anos antes, quando filmou ‘Antoine et Colette’!

Doinel chegou à meia idade. Doinel atingiu a estabilidade na sua vida. Doinel aprendeu a aceitar-se, e a dar-se aos outros. Algures neste filme acaba por confessar que nunca foi bom a explicar ou a partilhar os seus sentimentos. Isto é o primeiro passo. Quanto ao resto, Truffaut deixa-o à imaginação dos espectadores. Cada espectador poderá dar a Doinel o futuro que quiser. Qualquer que ele seja. Já o seu passado é intocável, e está retratado em 5 filmes belíssimos. Um (o primeiro) uma obra prima. Outro (o segundo) uma comovente história sobre o primeiro amor. Os dois seguintes duas comédias ligeiras de detalhes deliciosos. E finalmente ‘L’Amour en fuite’, que simplesmente não existe como um filme de direito próprio, mas que ganha respeito como o final de uma saga brilhante, como uma incrível auto-homenagem a uma personagem cinematográfica criada a meias por realizador e actor, como um filme que se debruça sobre a revelação de um homem a si próprio, que aceita o passar dos anos e o envelhecimento, que aceita o seu passado, que descobre o verdadeiro amor eterno e que abre os braços para o futuro, esse futuro, que não será feito por ele, nem pelo realizador, nem pelo actor, mas pelo público. E isso é genial. É bem capaz de ser o mais genial que este filme possui e revela.

Doinel é um romântico. Sempre foi, sempre será. É o centro da sua própria história, a personagem principal do seu próprio livro. Continua a necessitar de atenção, continua a necessitar de afecção. Mas agora já desvendou os segredos do seu passado, já confrontou os seus arrependimentos, já aprendeu a lidar com eles e seguir em frente e conseguiu, muito timidamente, pela primeira vez, crescer. Perdura, não só na memória do público, mas claramente visível, mesmo que invisível, mesmo que escondido em pedaços, em pormenores de outros filmes que esta saga inspirou, e continua a inspirar desde então. Neles, e em nós, público, a sua vida permanece. Truffaut faleceu tragicamente em 1984, mas Léaud ainda é vivo, hoje com 69 anos, mas isso não é importante. Porque a personagem já se desprendeu deles e agora transita, de bobina em bonina, de filme em filme, de espectador em espectador, sem nunca se perder.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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