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Captain America: The First Avenger

Ano: 2011

Realizador: Joe Johnston

Actores principais: Chris Evans, Hugo Weaving, Samuel L. Jackson

Duração: 124 min

Crítica: Trinta tipos com armas laser futuristas enfrentam trinta tipos com espingardas da Segunda Guerra Mundial no meio de uma floresta alemã. Em meia dúzia de segundos, os tipos com as espingardas banais subjugam os tipos com os lasers. Credível? Não. Lógico? Não. Então acontece porque…. porque os tipos com as espingardas de repetição são as Forças Aliadas, e estamos na Segunda Guerra Mundial, e ainda por cima têm o Capitão América do seu lado, e portanto não podem perder, muito embora os Nazis tenham um armamento de ficção científica. Que os maus não saibam disparar e falhem centenas de tiros e que os bons com meia dúzia de tiros resolvam a situação todo o público consegue aceitar, já que está habituado a isso desde que o cinema começou. Mas não está habituado a uma situação tão patética como esta que acontece em ‘Captain America: The First Avenger’ e que se vai repetindo, de uma maneira ou de outra, ao longo de todo o filme. Os bons têm que ganhar. Sempre. Mesmo que não seja lógico. Mesmo que os adversários tenham um armamento do outro mundo. Mas ao contrário a lógica já não é a mesma. Em todas as lutas entre o Capitão América e os Nazis o Capitão América ganha sempre porque, não é verdade, ele é um SUPER-HERÓI e tem força sobre-humana. Entre um tipo com força sobre-humana e um tipo normal ganha o tipo com força sobre-humana. Parece-me bem. Entre um exército com armas sobre-humanas e um exército normal ganha o exército normal. Isto já não me parece bem. Deve ser o factor ‘somos os bons’, já que o factor casa não pode ser, visto estarem na Alemanha.

‘Captain America: The First Avenger’ foi a última tentativa desesperada (é esta a palavra, desesperada) do Marvel Studios de lançar um filme introdutório sobre a última personagem que faltava, antes do então altamente antecipado ‘The Avengers’, que acabaria por ser lançado no Verão de 2012, e que se tornou um dos maiores sucessos de bilheteira da história do cinema (e é um excelente filme, diga-se!). Mas esta qualidade de ‘The Avengers’ veio com um preço elevado, senão financeiro (todos os filmes introdutórios foram sucessos de bilheteira), pelo menos de fraca qualidade cinematográfica da maior parte deste espólio, ‘Captain America: The First Avenger’ incluído. Uma das maiores valências de ‘The Avengers’ é precisamente a pouca necessidade que o filme tem de desenvolver historias e personagens de uma forma lamechas e superficial (que resulta numa unidimensional BD mas não num filme de carne e osso), pois isso já tinha sido feito nos filmes anteriores, e assim poder focar-se na ação, nas brilhantes cenas explosivas e de espalhafato visual, onde neste caso (caso raro) tudo se conjugou na perfeição. 

E se ‘The Avengers’ mostrou em pleno tudo o que a Marvel pode produzir e a excelência que pode atingir, é infelizmente quase o único filme do estúdio que o faz. A génese do Marvel Studios remonta ao início da década de 2000. Quando os efeitos especiais permitiram os filmes de super-heróis atingir um patamar nunca antes visto, e quando os filmes de ‘SpiderMan’ e ‘X-Man’ se tornaram recordistas de bilheteira, então os senhores da Marvel acharam que ceder os direitos a um estúdio e ficar com uma percentagem não era tão bom, financeiramente, do que ficar com o bolo todo. Mas uma coisa é um estúdio fazer dezenas de filmes num ano e um deles ser de super-heróis. A outra coisa é um estúdio que só tem capacidade para produzir este tipo de filmes, e cujos heróis são, inevitavelmente, limitados. O primeiro ‘Iron Man’ de 2008 (para mim ainda o melhor filme de herói ‘individual’ da Marvel) foi um sucesso inusitado, o que convenceu a Marvel de que este tipo de filmes tinha futuro. Mas cedo descobriram a capacidade limitada deste tipo de filme. Por um lado começaram a emparelhar heróis. Não é por acaso que a personagem de Scarlett Johansson entra no segundo ‘Iron Man’ (2010) e entrará no segundo Capitão América, ‘The Winter Soldier’, que esta prestes a estrear. Não é por acaso que a personagem de Jeremy Renner entra no filme do ‘Thor’ (2011). O único herói que ainda tem capacidade de se suster sozinho é o Iron Man de Robert Downey Jr, mas isto deve-se à fabulosa performance de um fabuloso autor (o que não é o caso dos restantes actores que a Marvel foi seleccionando para interpretar os restantes heróis). Por outro lado, a Marvel foi demasiado célere a anunciar o seu ‘The Avengers’ como o grande chamariz, para manter o interesse nestes filmes e nestas personagens. E a verdade é que de 2009 ate 2012, ano em que ‘The Avengers’ finalmente chegou às salas de cinema, a Marvel pouco mais fez que promover este filme, com lançamentos apressados, filmes pouco trabalhados, mas carradas de efeitos especiais.

Quando em 2009 critiquei ‘Iron Man 2’ escrevi “… o único objectivo deste filme é promover o filme ‘The Avengers’, que será lançado em 2012, e que consistirá numa liga de super-heróis, Iron Man incluído, liderada pela personagem de Samuel L. Jackson (…) e se era para promover ‘The Avengers’, então deveriam ter comprado um cartaz, não deviam ter feito um filme”. Quando fui ao cinema em 2011 ver ‘Captain America: The First Avenger’ as minhas impressões foram semelhantes. Mais um filme fraco, mais um filme a apontar para ‘The Avengers’. E então fiquei chateado e só pude desejar que ‘The Avengers’ fosse o melhor filme de super-heróis de sempre, visto que a Marvel passou anos e anos a promovê-lo e a produzir filmes que ofereciam pouco mas prometiam muito: “isto foi só construção, o filme a sério é para o ano”. Felizmente, ‘The Avengers’ cumpriu (e ultrapassou) as espectativas (melhor filme de super-heróis de sempre… alguém duvida?!), o que minimizou um pouco a minha ira contra a Marvel, mas por amor de Deus, Thor, os dois Hulk, e Captain America são bem fracos! São muito fracos!

E agora que já divaguei, regresso ao tema em questão. Resumidamente, há um enfezado jovem de Brooklyn, interpretado por Chris Evans (ex-Fantastic 4… outro grande fiasco cinematográfico) que deseja combater na Segunda Guerra Mundial, mas não passa na inspecção devido ao seu tamanho e fraca musculatura. Então é abordado para fazer parte de uma experiencia genética para ficar com força sobre-humana. Aceita, sujeita-se à experiencia, que é um sucesso, e transforma-se num avantajado Capitão América (o nome surge mais tarde). So far, so good, não fosse a única coisa de interesse no filme ser tentar descobrir como é que eles fizeram o efeito visual do enfezado Chris Evans. 

Auxiliado pelo seu próprio Q (o pai de Iron Man, Howard Stark, interpretado por Dominic Cooper), e por um monte de gadgets jeitosos, o Capitão América torna-se um dos comandantes das forças aliadas no coração da Europa. Aqui a sua maior ameaça não são os nazis de Hitler (isso seria demasiado fácil), mas uns nazis dissidentes liderados pelo vilão Red Skull, que possui o mesmo tipo de poderes que o Capitão América (interpretado por Hugo ‘Mr. Smith, Elrond’ Weaving, um toque de classe, a par de Tommy Lee Jones, numa produção sem muita). Mas para tornar as coisas ainda mais interessantes (não sei se consigo aguentar tanto interesse) Red Skull vai à Noruega (ou lá onde é) no início do filme e descobre um artefacto divino que o permite conceber a tal tecnologia laser que deveria ser suficiente para conquistar o Mundo, não fossem as tropas aliadas estar bem treinadas para este tipo de situação.

A maioria dos eventos desta parte de construção do filme não são muito dignos de registo, com a única excepção da excelente performance de Lee Jones. Basicamente, o filme consiste em uma hora inteira de enchimento de ‘como o Capitão América se tornou no Capitão América’, à qual se sucede uma segunda hora que consiste em sequência atrás de sequência de lutas desleais, tal como mencionei no inicio desta critica. O Capitão América só tem que aparecer em cena e usar os seus poderes para resolver a questão (o que não é nada interessante, onde esta a dúvida de se ele irá conseguir salvar o dia?). E as forças aliadas dão cabo dos Nazis facilmente porque toda a gente sabe que lazeres são mais eficazes que balas. E para terminar (vou revelar um pouquinho do final agora) quando finalmente há alguma excitação e alguma tensão, ou seja, quando o Capitão América esta prestes a enfrentar o Red Skull, um adversário digno, com os mesmos poderes – quando finalmente a luta não é desleal – ele não precisa de fazer absolutamente nada, nem sequer de lutar, para o vilão perecer. Red Skull morre, sem grande esforço, vítima de outra coisa qualquer (estúpida, por sinal). Como é que é possível?! Em ‘Captain America: The First Avenger’ até o clássico showdown entre o herói e o vilão é negado ao publico. Se o público for minimamente exigente, irá sentir-se, como eu me senti, fortemente roubado.

Contudo, suponho que o filme terá outras qualidades. No Verão de 2011, vi este filme no cinema com um autêntico especialista em banda desenhada, e ele cuidadosamente me apontou, quase cena a cena, as várias homenagens, as várias referências só para os fãs, e explicou-me o quão bem o filme conseguiu reproduzir e ser de certo modo fiel aos conceitos originais. Neste sentido, é de louvar o trabalho do realizador (Joe Johnston, veterano realizador destas extravagâncias visuais de pouco conteúdo como ‘Jurassic Park III’, ‘Jumanji’ ou ‘Hidalgo’), dos argumentistas e da equipa de produção, e portanto creio que para um conhecedor da BD (não é o meu caso) este filme terá facetas interessantes. Mas o meu amigo também foi célere a concordar comigo no facto de o filme, como ente isolado, ter muito pouco para oferecer. Os parabéns à equipa poderão ser justificados quando nos estamos a referir às referências à BD. Mas nunca nenhum filme pode viver somente das suas referências. O interesse das cenas, o ritmo, os diálogos, a construção das personagens, a lógica fílmica dos eventos, tudo isso tem uma qualidade muito abaixo da média. O filme sustêm-se com cenas de acção, com explosões, com um ou outro one liner realmente engraçado (como quando Lee Jones diz “I will not kiss you!”), mas tudo somado é apenas entretenimento descerebrado, na longa e desapontante tradição a que o Marvel Studios (e de certo modo também Joe Johnston, como excepção do seu primeiro filme ‘Honey I Shrunk the Kids’ de 1989) infelizmente já nos habituou, especialmente neste punhado de filmes que antecederam o lançamento de ‘The Avengers’. São filmes que parecem ter sido feitos com tanta pressa, que os pilares basilares do ‘fazer bom cinema’ parecem ter sido ou esquecidos ou postos de lado em prol do deadline 2012 e do rendimento na bilheteira.

Felizmente, e nunca é de mais repeti-lo, ‘The Avengers’ foi realmente algo de extraordinário nos anais dos filmes de super-heróis. Isso é uma felicidade a vários níveis, entre eles a de dar alguma pequena razão de existir a estes filmes de apresentação das personagens. Se ‘The Avengers’ fosse mais um fiasco cinematográfico, estes filmes seriam desprovidos de qualquer sentido, para além de serem desprovidos de qualidade. Sendo ‘The Avengers’ o filme que foi, então ao menos estes filmes, tal como ‘Captain America: The First Avenger’ serviram para alguma coisa. Valha-nos isso.

Mesmo assim, não vejo grande futuro no cinema da Marvel. Hoje, a uma semana de estrear o segundo Capitão América (e sem se saber se vai ser um sucesso ou não), já o terceiro foi anunciado para 2016, para estrear no mesmo dia e fazer concorrência directa ao filme da Warner Brothers que juntará o Batman (Ben Affleck?!) com o Super-homem. Ao mesmo tempo, já foi anunciado que até lá a personagem de Scarlett, a Black Widow, também terá o seu próprio filme. Aonde isto vai parar eu não sei,  mas uma coisa é certa. As sequelas não surgem para agradar ao público ou capitalizar em sucessos anteriores (embora seja isso que acaba mais ou menos por acontecer). Surgem, na realidade, porque o Marvel Studios não tem absolutamente mais nada que possa fazer. Não tem mais nenhum material de base que possa desencantar. E portanto gira à volta destas personagens, e até ao dia em que estes filmes deixarem de fazer dinheiro, provavelmente irá continuar a girar e a girar. O ‘Capitão América 12’ está quase aí, tal como o ‘The Avengers 17’… 

Mas voltando ao primeiro Capitão América, já quase me esquecia de uma coisa. Porque motivo é que os Nazis deste filme falam todos com os sotaques alemães usados na série Alô-Alô?! Será igualmente uma homenagem a esta série?!

3 comentários:

  1. Concordo, foi um fiasco enorme este Capitão América.

    Quando dizes que os Avengers foi o melhor filme de super heróis está a incluir a trilogia do Batman do Christopher Nolan? Dentro dos filmes de super heróis,"The Dark Knight". sem dúvida para mim é o melhor.

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  2. Claro, a trilogia do Dark Knight de Nolan está num plano à parte. Curiosamente (ou não), não me veio à cabeça estes filmes quando escrevi aquela frase. No fundo, para além de terem um tipo com uma máscara de morcego, os filmes de Nolan não são realmente 'de super herói'. São mais dramas psicológicos de acção. Em Vingadores é pedido ao público que faça um esforço de imaginação para aceitar personagens como o Hulk ou os extra-terrestres da dimensão de Thor. Em Dark Knight é tudo muito realista. Até o Joker de Ledger não cai num contentor de ácido, como caiu o Joker de Nicholson. É simplesmente um tipo com uma máscara. Ou seja, isto na realidade não entra na categoria de extravagâncias de super-herói que agora inundam o cinema. Portanto, melhor filme de uma adaptação de Banda Desenhada de super-herói. Sim senhor 'Dark Knight'. É Cinema com C maiúsculo. Mas melhor filme fantasioso, de acção e de entretenimento de massas: sem dúvida Avengers. Também é cinema, talvez não com C grande, mas também merece respeito.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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