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Jennifer's Body

Ano: 2009

Realizador: Karyn Kusama

Actores principais: Megan Fox, Amanda Seyfried, Adam Brody

Duração: 102 min

Crítica: Breves instruções para ver ‘Jennifer’s Body’, em português 'O Corpo de Jennifer':

a) Se o espectador for um homem heterossexual ou uma mulher homossexual: Pressione Play no seu leitor ou computador. Pressione no botão de fast forward e avance para o minuto 58. Ponha em velocidade normal e desfrute confortavelmente da cena de 2 minutos em que Jennifer (Megan Fox) e a sua melhor amiga (Amanda Seyfried) estão aos beijos no quarto desta última. Faça fast forward até aos créditos finais.

b) Se o espectador for um homem homossexual ou uma mulher heterossexual: Por favor, nem sequer chegue a carregar no play. Não veja este filme. Não vale a pena. Poupe a si próprio esse sofrimento.

Esta pequena piadinha foi escrita por mim algures em 2009 após ter acabado de ver este filme. Foi uma experiência verdadeiramente atroz e tirando a dita cuja cena lésbica, que para um jovem de então 25 anos acabou por ser a grande recompensa deste filme, mais nada consegui aproveitar desta aberração cinematográfica. Muito naturalmente o filme acabou por ser um fiasco critico e comercial e raramente é recordado, excepto para gozar com Megan Fox (que hoje esta a fazer…..?!).

Mas voltemos um pouco atrás para explicar a grande aberração que este filme é. Há pouco mais de 10 anos uma ex-stripper começou a escrever um blog na Internet. Tirando o facto de a autora escrever sobre temas quentes e relações (o que chama sempre mais leitores), e talvez ter um pouco mais de talento com as palavras, não haveria grande diferença entre esse blog e este que o leitor esta a ler neste momento. Simplesmente um cidadão anónimo a dar asas à imaginação literária, sobre um tema que gosta, no éter livre da internet. Mas este blog tornou-se tão viral, começou a ter tantos seguidores interessados nestes devaneios sobre relações, que chamou a atenção de gente interessada em fazer muito dinheirinho. Um dia, esta escritora recebeu uma chamada de um produtor de Hollywood, que a convidou a escrever um argumento. Se gostasse produziria o filme, já a pensar certamente na tagline ‘da argumentista do blog XYZ’. Ora bem, esta escritora não se fez rogada e produziu um argumento realmente interessante, irreverente e original. O nome da escritora era Diabo Cody (um pseudónimo) e o nome do filme foi ‘Juno’ (2007). A mediatização e a loucura por este filme e por este argumento foi tanta que Cody acabou mesmo por ganhar o Óscar de Melhor Argumento.

Ora, dizem que toda a gente tem um grande romance dentro de si. Talvez se possa dizer o mesmo relativamente aos argumentos. Toda a gente tem um grande argumento de filme dentro de si. Matt Damon e Ben Affleck, por exemplo, escreveram o magnífico ‘Good Will Hunting’ e absolutamente mais nada. ‘Juno’ foi provavelmente o único grande argumento de Cody. Desde então escreveu a serie 'United States of Tara' (tem apenas 9 episódios) e o filme ‘Young Adult’ (2011), que ainda não vi (mas que até quero ver porque gosto de Jason Reitman), e nunca mais foi tão mediatizada como foi com 'Juno'. E falta pouco, muito pouco, para a frase ‘da argumentista de Juno’ já não querer dizer nada ao público.

E onde entra ‘Jennifer’s Body’ nesta historia? Bem, obviamente, após o sucesso de Juno e o Óscar recebido, Cody foi inundada de ofertas. Toda a gente queria um argumento escrito por ela. Qualquer coisa. Qualquer coisa só para se poder escrever no trailer e no poster a tal fase ‘da argumentista de Juno’. Ora bem, supostamente Cody foi à gaveta e sacou um argumento que tinha escrito algures antes do sucesso de Juno (há quem diga que o escreveu na faculdade, outros que o escreveu ao mesmo tempo que Juno, as versões divergem). Independentemente disso, Foi uma manobra inteligente. Literalmente, vendeu por milhões a primeira porcaria que encontrou na gaveta. E essa porcaria chamava-se ‘Jennifer’s Body’.

Quando ouvi a historia que acabei de contar, percebi como as coisas fazem sentido e não acontecem por acaso. O argumento deste filme é fraco, pouco trabalhado, ingénuo, superficial, ao mesmo tempo que tenta ter muita e piada e ser muito inteligente (fazendo carradas de referências), sem nunca o conseguir, mas fazendo muito espalhafato acerca disso. Precisamente o tipo de coisa que se poderia escrever na faculdade ou quando ainda não se tem o talento limado, ou um estúdio por detrás para fazer revisões. É um argumento que está a milhões de quilómetros de ‘Juno’, que a escritora debitou após horas e horas de treino no seu blog e que teve que passar por um escrutínio grande de produtores para ser aceite. O mesmo já não se passou com ´'Jennifer's Body'. Não creio que alguém tenha escrutinado aquilo. "É da Cody? Então siga".

A historia de ‘Jennifer’s Body’ é completamente linear. Megan (a!) Fox é Jennifer, uma estudante de liceu que é obviamente o epicentro de toda a escola e de todos os rapazes excitados. Uma noite, um conjunto de rapazes de uma banda que foi tocar à cidade vai para o meio da floresta fazer um ritual pagão (?!), nomeadamente matar uma virgem (Jennifer), que haviam raptado. Mas como Jennifer não era virgem (ups – como é que nenhum deles topou isso?!), a coisa corre mal, e acabam por colocar o diabo dentro do corpo dela. Esta passa o resto do filme a seduzir rapazes e raparigas e a matá-los logo em seguida, até ao desfecho climático, em que a sua amiga Seyfried tenta dar uma de van Helsing, para acabar ela própria por ser mordida (afinal Jennifer é um diabo, um morto-vivo ou um vampiro?!) e ainda fazer mais umas coisitas com os seus novos poderes. Posso contar a coisa em mais pormenor? Posso. Quero fazê-lo? Não.

Tirando a cena de dois minutos que descrevi no inicio, que agora com as internets deixa de ser um chamariz para o filme até mesmo para os rapazinhos excitados de liceu (hoje já nem eu estou para isso) o resto é mau, mau, mau. Mau de mais até para ser verdade. Não chega a ser assustador. Não chega a ser engraçado. Não chega a ser ‘filme de liceu’. Não é ‘Twin Peaks’, não é ‘Carrie’, não é ‘Exorcista’, não é ‘Scream’. Não é nada. Está cheio de lugares comuns, cenas sem força, carisma, inteligência ou fascínio, e depois exibe até mais não Fox (embora isto não seja totalmente mau!). Às vezes parece que os actores estão a brincar, por isso chega a haver a suspeita que isto é tudo uma grande paródia (não seria a melhor, mas já seria qualquer coisa). Mas de repente esta suspeita é deitada por terra já que todos assumem uma expressão séria, profunda e intensa, e as cenas de terror (ou a tentativa de terror) tentam ser tudo, tenho a certeza, menos a gozar. Portanto no meio desta corda bamba, e sendo o material de trabalho tão fraco, creio que até os próprios actores (onde se incluem Adam Brody ou J.K. Simmons) e a própria realizadora (Karyn Kusama que apenas fez a extravagancia banal de ficção cientifica ‘Aeon Flux’ com Charlie Theron e… mais nada!), realmente não se conseguiram decidir por aquilo que queriam fazer. E quem sofre com essa falta de convicção é o espectador.

Reitero que a única coisa que vale a pena ver neste filme é, literalmente, o corpo de Megan ‘Jennifer’ Fox. O resto é tão acéfalo e tão desprovido de qualidade que nem vale a pena discutir. A própria Megan também o pode ser, mas ao menos tem um visual apelativo. O filme não. Por um lado, pelo menos para mim, pôs fortemente em causa as qualidades de escritora da vencedora de um Óscar Diablo Cody. Depois de ver este filme comecei a pensar se 'Juno' era assim tão bom por o argumento ser bom, ou foi simplesmente a brilhante interpretação de Ellen Page que o elevou a esse estatuto. Por outro faz-me sempre rir pensar em Megan Fox. Depois de evoluir de menina para um corpo curvilíneo na serie ‘Hope & Faith’ e de atingir o estatuto de ícone na saga de Transformers, deitou tudo a perder quando, antes das filmagens de Transformers 3, acusou Michael Bay de não a deixar actuar, e afirmou que os filmes dos Transformers não tinham “actuação a sério”. Muito bem, até posso concordar com estas declarações, e ser expulsa da saga dos Transformers (no terceiro, se o leitor se lembra, arranjaram outra menina) até lhe podia fazer bem, se almejava uma carreira séria. Agora Fox saiu daqui directamente para 'Jennifer's Body' (será que achava que ia ser nomeada para o Óscar como Ellen Page?) e para outros fiascos como ‘Jonah Hex’ (2010) e aparições ‘como ela própria’ desesperadamente degradantes como aquela em ‘The Dictator’ (2012). Se era para isto, mais valia ter ficado a “não actuar” em Transformers! Boa sorte para o resto da carreira Megan. Aparentemente vai ser a April O'Neil no próximo filme das Tartarugas Ninja. Sim, isto é sem dúvida um passo acima dos Transformers…

Bem, voltemos à batata quente para terminar. Eu escrevo sobre alguns filmes neste blog. Não todos os que vejo, apenas alguns. Por cada filme que escrevo aqui, vejo talvez uns cinco ou seis. Vejo mais de 300 filmes por ano. E até acho que percebo alguma coisa de cinema, ou pelo menos vejo o suficiente e leio o suficiente para saber mais ou menos de que é que estou a falar. Já vi a maior parte das coisas que merecem ser vistas, quer pelo bom sentido quer pelo mau sentido, dos mais de 110 anos que o cinema já leva. Mas eu nunca, ou quase nunca, vi um filme tão mau como este, que não pretendesse sê-lo. Ou seja, há filmes piores claro, mas são de serie B, de baixo orçamento, perfeitamente conscientes que irão ser maus, mas feitos na mesma só porque sim, só para ganhar alguns trocos, e porque os responsáveis não sabiam fazer melhor. Aí muita coisa é perdoada, e estes filmes até se podem tornar de culto (tão maus que ficam bons!). Mas aqui não. Os responsáveis sabiam perfeitamente fazer melhor. Mas não se interessaram em fazê-lo. E isso já é grave.

1 comentários:

  1. Quando vi este filme por ser tão mau ainda deu para rir em algumas partes e assim o tempo passou mais rápido, lol.

    Gostei da crónica, foi directa, interessante e divertida.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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