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2013 - um ano a ver (e a escrever sobre) CINEMA

Eu faço anos em Dezembro. Não me cabe a mim discutir as valências de tão formosa data, mas isto apenas para dizer que em Dezembro de 2010 uns amigos ofereceram-me uma agenda para 2011, com a temática cinematográfica ‘Charles Chaplin’ (uma grande prenda diga-se). Ora isto causou-se uma valente inspiração (tenham calma, não foi doloroso). A partir desse dia, 1 de Janeiro de 2011, comecei a anotar na agenda, nos dias respectivos, todos os filmes que vi. Um diário, digamos assim. Pouco depois, ainda mais contornos de diário ganhou, pois comecei a tomar breves notas sobre todos os filmes. É uma prática que ainda hoje mantenho, e comecei este ano a minha quarta agenda/diário (coisas que vão valer muito dinheiro um dia, certamente!).

Sinceramente, era uma coisa que já devia ter começado há anos. Não só consigo controlar melhor os ciclos que faço, o que já vi e o que não vi, como passei a ter a noção da minha produtividade de visualização cinematográfica. Para além do mais, posso, a qualquer momento, rapidamente ler as notas que tomei deste ou daquele filme, para assim escrever as formosas críticas que o caro leitor tão confortavelmente lê neste blog, para sugerir filmes, ou para eu próprio me orientar alguns meses (ou anos) depois. Mas ainda há mais vantagens. Sabendo o filme que vi num determinado dia, consigo recordar-me desse dia, onde estava, com quem estava. É maravilhoso e aconselho esta prática a todos os que amam o cinema, e que são minimamente organizadinhos!

Pois bem, os meus devaneios sobre a primeira experiência desta catalogação (para o ano de 2011), podem ser lidos na crónica ‘2011 - um ano a ver cinema’, neste link. Aliás, como o leitor pode notar, este post, inicialmente publicado noutra plataforma, é o quinto mais lido de Eu Sou Cinema (atrás das críticas de ‘A Melhor Oferta’, ‘Avatar’ e recentemente, ’47 Ronin’ e ‘Frozen’), o que só atesta à grande necessidade que há em eu partilhar com o Mundo o que ando a fazer com os meus serões. Infelizmente, em 2012 não escrevi um texto semelhante (mas nunca se sabe, posso pegar na agenda e escrever – lá está mais uma vantagem), pois mais ou menos há um ano, na iminência da entrega da minha tese de doutoramento, já há algum tempo que tinha abandonado a escrita por falta total e completa de disponibilidade. Mas em Março, já mais relaxadinho, criei este novo blogue (para alegria de muita gente, e se calhar tristeza de outros!), retomei a escrita e fui catalogando, certo e seguro, as minhas experiências, que agora partilho com vocês.

2013 foi um ano muito agitado para mim. Comecei com a entrega do doutoramento. Depois com o desemprego. Depois com a mudança de cidade para um novo emprego, e as constantes viagens, sextas e segundas, para casa, para longe de casa. E claro, o evento mais importante de todos, deixei de ser solteiro e bom rapaz, para passar a ser casado e (na mesma) bom rapaz. Parece-me agora incrível, com esta azáfama toda, como é que arranjei tempo para conseguir ver filmes. E mais, não sei como é que arranjei tempo para criar um blogue novo e escrever sobre cinema, numa aventura que já vai com 128 posts em 9 meses, mais de 9 mil visualizações e uns honrados 72 fãs na página do facebook (não tenho, nem almejo ter, qualquer tipo de publicidade – quem tiver que aparecer aparece, quem quiser ler, lê!). Maravilha.

Pois bem, de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2013 vi nada mais nada menos que 255 filmes. Um marco? Nem de perto nem de longe. Está mais de 100 filmes abaixo daquilo que vi, respectivamente, em 2012 e em 2011, e serve o parágrafo acima para justificar tamanha quebra. A estes acrescem, obviamente, todos os episódios de séries, as curtas-metragens e vários extras de DVDs e Blu-rays que ainda arranjei tempo para ir vendo, quando não sobrava tempo para despender duas horas num filmezinho. Isto porque o vício (pois é um vício) tem sempre que ser saciado, de uma maneira ou de outra. E o meu vício, para o bem ou para o mal, é este. Vá lá, podia ser pior. Podia ser viciado em comprar máquinas de lavar ou loção para a queda de cabelo (porquê máquinas de lavar? Porquê loção para a queda de cabelo? Não sei. Talvez porque esteja a ler por estes dias a prosa completa de Woody Allen e estou a tentar imitar, sem sucesso, o estilo…).

Tal como nos anos anteriores, a grande maioria destes filmes vi-os no conforto da minha habitação. Ou melhor, das minhas várias habitações, o meu quartinho em Lisboa, a minha casa no Porto, o meu assento no Alfa ou no Intercidades. Aumentou consideravelmente o número de filmes que vi no portátil, em ecrã pequeno, diminuiu, mas não assim tanto, o número de filmes que vi no maior ecrã de todos, o cinema (ainda foram 23, dois por mês! – sinceramente não tinha a noção que tinham sido assim tantos). E souberam-me pela vida os filmes que ainda consegui ver, nas férias, no fim de semana, na melhor sala de cinema do País: a minha casa, artilhada com carradas de filmes, desde os VHS velhinhos que ainda marinam nas estantes (e sempre vão continuar a marinar), até aos mais recentes Blu-rays 3D. Não é o formato que faz a diferença, é o filme que conta, afinal de contas, e muito embora sempre que encontre uma oportunidade baratinha ande a substituir a ala geriátrica dos VHS, vou continuar a estimá-los com carinho. Eu sou assim, trato bem quem me trata bem. E os VHS trataram-me muito bem. Ajudaram-me a crescer. Formaram-me o carácter.

Como já referi na crónica de 2011, o que eu gosto é de alternar filmes que já vi (que quero rever para os ficar a conhecer melhor, ou porque são velhos conhecidos que devido ao vício não aguentam muito tempo sem passar por estes meus dois belos olhos), com novas descobertas, e explorações de realizadores/actores/géneros que quero, total ou parcialmente, ficar a conhecer, por fora e por dentro. Confesso que esta dinâmica do ‘ciclo’ ocupou muito do meu 2013. A minha divisa é algo do género: "Uma vez por semana vejo um filme deste realizador ou deste actor, começando no primeiro e indo direitinho até ao último. Se já vi, revejo, se ainda não vi encontro-o, peço-o emprestado, alugo-o ou compro-o, e vejo". E cada vez prefiro muito mais isto, muito mais este embrenhar-me no passado, do que ficar a rondar a produção recente. A produção recente, principalmente a que chega às nossas salas de cinema nacionais, começa a dizer-me cada vez menos. A falta de disponibilidade faz com que agora comece a perder os ‘grandes êxitos’, ou os filmes mais badalados do momento, o que antes não acontecia. Ainda vou apanhando um ou outro em casa poucos meses depois, mas se os deixo passar fico com muito mais pesar por não ter escrito a crítica e assim agradar ao leitor (como se vê pelo top 10, a preferência será sempre o contemporâneo), do que propriamente por não ter visto o filme na altura em que todos falavam dele e estava a ser mediatizado. Sinceramente, não me importo. Não me importo mesmo. Porque, como vou enumerar a seguir, as pérolas estão noutro lugar, noutro tempo.

Mesmo assim ainda vi 87 filmes (cerca de 1/3) que foram feitos após o ano 2000. Isto é facilmente explicado pelas idas ao cinema, pela exposição ao mediatismo, pelas exibições da TV, pela facilidade de arranjar os filmes, pela necessidade de em casa ainda tentar compensar as falhas de visualização do par de anos anteriores, e assim ficar ‘up to date’ com os nomes contemporâneos. Mesmo assim, ainda vi cerca de 25 filmes por década desde os anos 1920, algumas um pouco mais (1950, 1960, 1980) outras um pouco menos (1920, 1970, 1990), consequência dos ciclos que fiz e dos realizadores que quis explorar ou rever neste ano que passou. Surpreende-me a minha distribuição quase homogénea. Tirando a década de 1920, da qual só vi 10 filmes, das outras visualizei um número total de filmes sempre da mesma ordem de grandeza. Não foi de propósito. Só posso atribuí-lo a uma necessidade inata.

Destes vi 103 que já tinha visto pelo menos uma vez anteriormente. Os restantes, 152, vi-os pela primeira vez. Este ano acho que não vi nenhum filme duas vezes. Não houve tempo para ver os filmes todos que queria, quanto mais repeti-los!

E agora vamos às listagens do melhor e do pior, do memorável e do facilmente esquecível de 2013. Comecei o ano internacionalmente. O primeiro filme que vi foi num hotel em Barcelona, onde passei o ano com a minha noiva. Esse filme foi ‘Holiday Inn’ (1942). O último, no dia 31 de Dezembro, foi o ‘Batman Begins’ (2005) (quis ver a trilogia de Nolan nas férias), com exactamente a mesma pessoa ao lado, mas que por esta altura já ostentava outro título, o de esposa! E de dizer (só eu para fazer isto) que no dia do meu casamento também vi um filme. Vi, de manhãzinha, o filme de animação ‘Shark Tale’ (2004), que já não via desde o cinema, enquanto fazia horas à espera que o meu padrinho chegasse, e da altura para me equipar a rigor para o evento. Tal como há 10 anos, não gostei do filme. Do evento que se seguiu gostei muito mais. 

Foi um ano, como disse acima, de muitos ciclos. Comecei o ano a apaixonar-se pela dupla Dean Martin e Jerry Lewis, depois de em 2012 me ter embrenhado na carreira a solo de Lewis. Destaco, desde já, ‘Sailor Beware’ (1952) como um dos pontos mais altos da comédia deste par cómico. E por falar em comédia, foi também o ano em que descobri a fundo Louis de Funés (ai o maravilhoso ‘Oscar’, 1967, que filmão!), em que vi o meu primeiro Abbot and Costello (o engraçado ‘Rio Rita’, 1942) e em que vi de uma ponta a outra a quase dezena dos filmes repetitivos da ‘Pantera Cor-de-Rosa’ com Peter Sellers (nunca vi tanto filme diferente ser quase exactamente igual – na minha infância creio que pensava serem todos o mesmo!). Revi (sem ficar muito convencido) todas as comédias independentes de Wes Anderson (até então só gostava mesmo de ‘Rushmore’, 1998), para descobrir uma obra-prima, um filme maravilhoso, mesmo no final do ciclo: o seu último filme ‘Moonrise Kingdom’ (2012), para mim o melhor filme desse ano (Argo? please…). Afinal, fazer estes ciclos vale mesmo a pena. E vale ainda mais quando nos deparamos com realizadores e filmes que antes só sabíamos que existiam de ler nos livros da especialidade. Os 3 filmes que vi de René Clair foram um enorme abrir de olhos para a simplicidade bela do cinema (‘Sous les toits de Paris’, 1930; ‘Le million’, 1931; ‘À nous la liberté’, 1931), mas foi no trabalho de Frank Borzage que encontrei o melhor cinema do meu ano. ‘7th Heaven’ (1927), ‘Lucky Star’ (1929), ‘Bad Girl’ (1931) ou ‘The Mortal Storm’ (1940) são muito mais que bons filmes. São filmes que perduram, que marcam, que moldam, que inspiram, que deliciam e que dão uma vontade extraordinária de os rever, uma e outra vez. Borzage é Cinema, e é incrível que este outrora vencedor de 2 Óscares de Melhor Realizador seja hoje completamente esquecido.

Entretanto ainda arranjei tempo para rever todos os grandes filmes de Katherine Hepburn (um fascínio da minha esposa que partilho) e acabei o ano com Cary Grant, que se sobrepõe, pelo menos numa fase inicial. Revi David Lean (e descobri o maravilhoso ‘Hobson’s Choice’, 1954). Revi Jean Vigo (ver crítica de ‘L’Atalante’). Revi uma grande parte da lista oficial dos clássicos da Disney (‘Melody Time’, 1948, é um tesouro escondido). Vi os 4 filmes de ‘Lethal Weapon’, que, para grande vergonha minha, nunca tinha visto, e confesso que fiquei impressionado com a forma como as sequelas conseguem ser frescas, originais e cheias de ritmo explosivo. Vi os filmes deliciosos dos anos 1960 em que Margaret Rutherford faz de Miss Marple. E por fim iniciei ciclos para rever todos os filmes de dois velhos amigos, Kubrick e de Kurosawa (os dois grandes Ks) – to be continued em 2014.

Foi um ano também de surpresas (mais até do que aquelas que esperava), de velhos encontros, de encontros com filmes que já não via, alguns deles, há mais de uma década, e, como não podia deixar de ser, de mais uma série de desilusões, principalmente vindas do cinema moderno. 

Como disse em cima, adorei ver ‘Moonrise Kingdom’ e ‘Mortal Storm’, e estes são provavelmente, daqueles que vi pela primeira vez, os dois melhores filmes que vi em 2013. Mas 2013 deu-me também a oportunidade de encontrar filmes como ‘Letter from na Unknown Woman’ (1948) de Ophuls (uma das ‘telenovelas’ mais perfeitas que o cinema alguma vez debitou), ‘Love Streams’ (1984, o canto de cisne de Cassavetes), ‘Fitzcarraldo’ (1982, a loucura épica e magistral que o cinema pode significar), ‘Waterloo Bridge’ (1940, pungente, trágico), ‘Union Pacific’ (1939, como o western re-nasceu), ‘La Strada’ (1954, sem discussões, o melhor Fellini), ‘Vynález zkázy’ (1958, a pérola checa completamente esquecida com efeitos visuais extraordinários e 30 anos à frente do seu tempo), ‘Von Ryan’s Express’ (1965, o filme mais épico filmado da forma menos épica de sempre), ‘Broadway Melody of 1940’ (Fred Astaire tem uma rival à altura que dança tão bem quanto ele, se tal é possível) e ‘Les plages d'Agnès’ (2008, um grande auto-documentário de uma grande senhora). Adorei ver também a trilogia Millenium sueca com Noomi Rapace, as duas pérolas de Takahata, o nº2 dos estúdios Ghibli (‘Grave of the Fireflies’ e ‘Only Yesterday’) – até então só era versado em Miyazaki, o nº 1! – e outros filmes como ‘Driver’ (1978) ou o ‘Dracula’ de 1958, cortesia dos estúdios Hammer. As performances de Cary Grant em ‘Penny Serenade’ (1941), por ser tão trágica e tão intensa (melhor performance de sempre de Grant?!), e a de Roger Moore em ‘North Sea Hijack’ (1979), por ser espectacularmente espectacular (passe a redundância) também me ficaram na retina.

Mas no espectro oposto vi também uma série de filmes que só muito dificilmente reverei na minha vida. Talvez a maior decepção que tive foi ao ver ‘Dune’ (1984) de David Lynch. Eu sei que Lynch deserdou a versão final de estúdio, mas nunca pensei que fosse assim tão mau, tão incompreensível, e tão desinteressante! Outra enorme decepção foi o filme ‘Wuthering Heights’, versão de 1939 – dengosa, cheia de overacting, impossível de perceber como é lugar comum nos livros da especialidade. Tentei acompanhar o cinema moderno mas tive decepção atrás de decepção com filmes como ‘Amazing Spider Man’ (2012, se é para fazer um remake de um filme com menos de 10 anos, ao menos tornem-no interessante), ‘Savages’ (2012, só fogo de vista, nenhum conteúdo), ‘Extremely Loud and Incredibly Close’ (2011, nem consigo começar com tanta coisa a criticar, é melhor lerem a crítica), ‘Old Joy’ (2006, um exercício egocêntrico e totalmente desinteressante), ‘Anchorman’ (2004, não acho piada ao Ferrell, peço desculpa) ou ‘Planet of the Apes’ (2001, o Tim Burton deve ter tido uma demência temporária).... Outros dividiram-me, ‘Movie 43’ (2013, ou é genial ou é uma completa palermice), ‘Man of Steel’ (2013, visualmente brilhante, a história uma bacorada), mas quanto mais penso neles mais a balança tende para o lado pior. E para que não achem que só ataco o cinema moderno, eis alguns exemplos de clássicos que vi este ano pela primeira vez e que não me convenceram nada, mesmo nada: ‘Angel’ (1937, um filme de Lubitsch sem o seu ‘toque’, um melodrama cor-de-rosa desenxabido), ‘The Last Time I Saw Paris’ (1954, pode ter Liz Taylor, mas é vitima do mesmo mal que ‘Angel’), ‘Ocean’s Eleven’ (1960, provando que o original nem sempre é o melhor), ‘1941’ (1979, Spielberg, por favor, não realizes outra comédia… nunca!) ou ‘9 ½ Weeks’ (1986, talvez na altura tenha sido excitante, agora não).

Mas porque o cosmos acaba sempre por se equilibrar tive velhos encontros que me fizeram sorrir. Claro, em 2013 revi muitos dos habituais, só porque sim, só porque isso me faz feliz. ‘Casablanca’ (1943), ‘Gone With the Wind’ (1939, no dia de Natal!), ‘Heat’ (1995), ‘Les Demoiselles de Rochefort’ (1967), ‘The Bellboy’ (1960), ‘Chariots of Fire’ (1981) e a trilogia do Indiana Jones, fizeram parte do meu ano como deveriam fazer parte de todos os meus anos, se houver tempo para tal! Contudo 2013 também me trouxe filmes que já não via há anos, para não dizer décadas – desde a minha pré-adolescência/adolescência, em que comecei a descobrir o cinema. Há um conjunto de filmes que vi nesta altura e que desde então nunca mais lhes pus a vista em cima, por uma razão ou por outra, e que sempre que me vêm à memória escrevo o seu nome na minha listinha, para não me voltar a esquecer deles, para os procurar e rever. Desta forma (re)descobri filmes extraordinários como ‘Battleground’ (1949, fabuloso filme de guerra), ‘Odd Man Out’ (1947, uma ode à arte de bem filmar e de bem contar uma história), ‘Santa Fé Trail’ (1940, um vilão assombroso, décadas antes do cinema conhecer tais personagens), ‘Kiss Me Deadly’ (1955, como, paradoxalmente, o niilismo pode dar bom cinema, se associado ao noir), o glorioso ‘Ruggles of Red Gap’ (1935, o triunfo da simplicidade e da beleza de contar uma história divertida), ‘Christmas Carroll’ (1938, honesto, dedicado trabalho da idade de ouro de Hollywood), bem como as duas alvas obras mestras de Dryer ‘La passion de Jeanne d'Arc’ (1928) e ‘Ordet’ (1955). É sempre bom rever um bom filme. Independente do passar do tempo, um bom filme será sempre bom. E esta é a mais pura das verdades.

E quanto aos filmes portugueses, baixo a cabeça envergonhado. Só vi dois. Primeiro o ‘Balas e Bolinhos’ original. Não gostei. Pudera… O segundo, um documentário dos anos 1970 sobre a aldeia onde o meu pai nasceu: 'Casegas - Procissão dos Bêbados', visto  na Cinemateca de Lisboa. Foi uma experiência interessante e até comovente, em família. Mas dois é um número patético. Nota mental. Tenho que fazer um esforço por dar mais oportunidades à produção nacional…

Finalmente, chego a 2013. Como disse, fui apenas 23 vezes ao cinema. Não é muito, mas também não tive muito tempo. Tentei gerir a visualização dos filmes mais mediáticos, com alguns mais ‘fora’ (embora só tenha visto 4 não americanos… vergonha), e obviamente comecei o ano a ver os filmes dos Óscares de 2012 e acabei-o a ver os da cerimónia que se avizinha. Contudo, foi um ano sem um grande filme que me tenha seduzido completamente, um filme que me tenha ficado para a vida. Vi coisas boas, é certo, mas a definição de ‘bom’ nos dias de hoje está nas mesmas ruas da amargura que a de ‘Óscar de Melhor Filme’. Parece ser ‘aquilo que se pode arranjar’, o ‘nivelamento por baixo’, o que é triste. Concomitantemente, o cinema internacional também quer ser competitivo e portanto baixa igualmente o seu nível. E sendo que aqueles que apelido ‘animais de festivais’ não fazem filmes para distribuições alargadas, que pode um cidadão portuense almejar ver num fim de semana? O ‘Iron Man 3’? Se gosta de cinema, faz como eu… vê-o em casa. Sinto isto cada vez mais. Sinto isto esta mesma semana, depois de ter visto os supostos ‘grandes filmes do ano’… ’12 Years a Slave’ incluído! Se isto é o melhor cinema do Mundo dêem-me, tal McGyver (série 7!) uma pancada na cabeça e levem-me de volta para 1939. Aí podem ter a certeza que iria ao cinema. Todos os dias!

Ordeno os filmes, por ordem decrescente de qualidade, que vi ao longo do ano de 2013 no grande ecrã:

1. La Megliore Oferta 2. Django Unchained 3. Before Midnight 4. To the Wonder 5. Lincoln 6. Blue Jasmine 7. Frozen 8. Life of Pi 9. Argo 10. The Lone Ranger 11. Silver Linnings Playlist 12. Monsters University 13. Dans la maison 14. La cage dorée 15. Casegas - Procissão dos Bêbados 16. Oz: Great and Powerful 17. Hobbit: the Desolation of Smaug 18. Despicable Me 2  19. Iron Man 3 20. 47 Ronin 21. The Great Gatsby 22. Machete Kills 23. Pacific Rim

A maior parte já os critiquei neste blog (é só seguir os links) pelo que não vou tecer aqui muitos comentários, a não ser, mais uma vez, o nostálgico, o do típico ‘velho do Restelo’, que olha para esta lista e não vê grandes filmes, não vê filmes memoráveis, não vê, com excepção dos dois ou três primeiros, filmes que fiquem para uma vida, para as gerações futuras, para voltar, uma e outra vez, com enorme prazer.

Saliento também, para descomprimir, aquela que foi para mim a melhor cena de todo o 2013. Não é artística, não é dramática, mas é um grande pedaço de cinema. Muito depois de 'Despicable Me 2' ser esquecido, esta cena vai perdurar... e de que maneira!



2014 começa como começou 2013, a ver os filmes nomeados para o Óscar, nesta era em que os filmes são nomeados antes de estrearam (para aproveitar toda a publicidade possível) e são um conjunto de críticos em sessões privadas ou em festivais que acabam por decidir o que vai ser promovido, o que vai ser nomeado, o que vai ganhar prémios, o que vamos ver. E o restante cinema, a não ser que se veja em casa, a não ser que se desencante uma sessão num cineminha fora de um shopping, parece não interessar. Já fui ao cinema em 2014 ver ’12 Years a Slave’, ‘Dallas Buyers Club’ e 'American Hustle', e nenhum é memorável. ‘Argo’, o vencedor do ano passado, também não o foi. Passado 2 semanas da cerimónia estava completamente esquecido. Não gosto de viver nesta era. Felizmente, estava vivo, a respirar e a ver cinema nos anos 1990. Iremos daqui a 20 anos olhar para trás e pensar em ‘Argo’ como pensamos em ‘Braveheart’ ou ‘Titanic’? Não creio.

2014 entra com poucas promessas de grandes filmes. Isto porque o ‘sistema’ agora só nos dá 3 épocas. Agora (a dos Óscares), no Verão (os blockbusters), e no próximo Natal (as próximas cerimónias de prémios). De permeio os filmes americanos arrastam-se com falta de qualidade, e os outros têm que lutar para ser falados. Este ano vamos ter o novo de Mallick, o novo de Nolan, mas vamos ter também um recorde em termos de sequelas, prequelas, adaptações de livros ou BDs, como nunca antes se viu no cinema. A era do ‘argumento original’ já há muito passou. Quero descobrir pérolas, como descobri o ‘La Megliore Oferta’ deste ano (o filme de Tornatore nem sequer nomeado está para Melhor Filme Estrangeiro!), e quero descobrir algo no passado de extraordinário que por qualquer razão andou a fugir de mim até agora. Mas sei que quando essa magia acontecer provavelmente não vou estar numa sala de cinema. Vou estar em casa, ou no Intercidades, a ver um filme a preto e branco quando toda a gente ao meu lado estará a ver nos seus tablets episódios de ‘Sherlock’ ou da ‘Investigação Criminal’. E não me vou importar. Porque, como disse no final da crónica de 2011, "faz-me ainda mais feliz saber que ainda tenho maravilhas para descobrir nos quase 100 anos do Cinema. Falta-me descobrir poucos é verdade, mas mesmo quando esses acabarem há uma coisa que nunca me faz perder a fé. É sempre bom rever um bom filme. E um bom filme é sempre bom". E se o bom filme não é feito agora na América, pode ser feito agora em qualquer outro lado do Mundo. Se não passa no shopping poderá passar na recém re-aberta Casa das Artes no Porto. Se não é contemporâneo, pode ter sido feito em 1919, que a mim não me faz diferença nenhuma.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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