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L'amour à vingt ans (segmento 'Antoine et Colette')

Ano: 1962

Realizador: François Truffaut

Actores principais: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Jean-François Adam

Duração: 32 min

Crítica: Excerto de uma crónica sobre a quintologia cinematográfica de Antoine Doinel que pode ser lida aqui.

Três anos depois, 5 realizadores diferentes contribuíram com 5 curtas-metragens sobre o amor para constituir um filme chamado ‘L’amour à vingt ans’ (1962). Truffaut foi um desses realizadores e para a sua contribuição de 30 minutos decidiu repiscar a sua personagem de Doinel. Ao fazê-lo, faz saltar a sua personagem para a vida real, pois actor e realizador cresceram entretanto e isso reflecte-se em Doinel. A partir daqui, é quase como se estivéssemos a ver um documentário. Há uma sensação que é uma vida real que está a surgir de improviso na tela.

‘Antoine et Colette’, assim se chama o segmento, tem apenas 28 minutos, mas consegue condensar neste curto espaço de tempo tudo o que alguma vez significou ser um adolescente apaixonado desde que o Mundo começou. Uma voz-off inicial diz-nos que Antoine Doinel tem agora 17 anos de idade (a idade de Jean-Pierre Léaud durante as filmagens), mora sozinho num apartamento parisiense, ama música intensamente e trabalha numa companhia discográfica. Como chegou a esta posição desde a praia onde o vimos pela última vez não é revelado. Mas sinceramente não interessa. Doinel fugiu para Paris e aí construiu a sua vida, sozinho, passo a passo.

À noite, depois do trabalho, Doinel geralmente deambula pela noite parisiense com o seu amigo René (tal como fizera em 'Les Quatre Cent Coups’). Mas desta vez o par não está sem rumo, nem procura a delinquência. Em vez disso sabem aquilo, senão o que querem, pelo menos o que gostam, e vão a cafés e a concertos de música. É num desses concertos que Doinel conhece Colette, por quem imediatamente se apaixona.

Doinel já não é um jovem inocente, mas há ainda uma área na qual ele está muito verde, e essa área é o amor. A sua confiança e o seu espírito convicto não são ao início suficientes para atrair a atenção de Colette. Tem que se esforçar e finalmente consegue que fiquem amigos. Ambos partilham uma paixão por música e tornam-se inseparáveis, vendo-se praticamente todos os dias. Doinel conhece os pais de Colette, que gostam imediatamente dele e o vêem como um pretendente adequado para a sua filha, e torna-se portanto uma visita frequente em casa dela. Mas Colette, como muitas raparigas, não está muito interessada em Doinel, pelo menos em termos de amor. Ela compreende as intenções dele, mas também não quer estragar uma amizade com a qual está satisfeita, portanto, sem o afastar, finge ignorar os avanços dele, ganhando tempo, provavelmente com a esperança que isso lhe passe.

Colette é o primeiro amor de Doinel. E, tal como acontece com todos os rapazes com os seus primeiros amores, Doinel guarda cada gesto, cada frase, cada olhar de Colette e interpreta-os completamente fora do contexto, ou seja, interpreta-os da forma que se adequa àquilo que ele sente e que obviamente não é a realidade. A sua obsessão, a sua ânsia de estar perto dela é tão grande, que se muda para o apartamento em frente, pensando que Colette vai adorar a ideia. Os pais dele adoram. Ela, obviamente, não. Uma noite, Doinel tenta beijar Colette, e finalmente ela quebra. Afasta-o, e Doinel primeiro fica furioso, depois amua. Cresceu em muitas coisas, mas no amor é ainda uma criança.

Isto leva-nos até à última cena, onde Colette executa o golpe final, com uma subtileza e um à vontade que as raparigas certamente louvarão mas que os rapazes acharão ser um golpe demasiado baixo. Primeiro ela vai ao apartamento em frente convidá-lo para jantar em casa dela, não ligando, mais uma vez, aos apelos dele. Depois, deixa-o em casa a comer com os pais dela, enquanto vai sair com outro homem… No final de ‘Antoine et Colette’, Doinel, com o seu ar impagável, está sentado a ver televisão com os pais do seu primeiro amor ao seu lado, enquanto esse amor anda a divertir-se na noite parisiense com outra pessoa qualquer. É o seu primeiro desgosto amoroso, o seu primeiro vislumbre do que é ser um homem crescido e independente, e do que significa amar.

Truffaut fez ‘Antoine et Colette’ mais uma vez como uma série de sketches. Vemos Doinel no seu emprego, a sair com Colette, a divertir-se com o seu amigo René, e acomodando-se na casa dos pais de Colette, em sequências rápidas e de objectivos bem definidos. O fantasma do primeiro filme está no entanto sempre presente. Existe directamente através de um flashback (que nos mostra imagens de 'Les Quatre Cent Coups’), e indirectamente através de um retrato que Doinel tem em sua casa, a famosa foto promocional de Léaud proveniente do primeiro filme. O filme é assim extremamente directo e terra-a-terra, sem qualquer emoção climática. É muito mais um estudo introspectivo sobre o primeiro amor, contendo toda a ternura e paixão que associamos a ele, mas que está estruturado de uma forma muito contida, porque o próprio Doinel é contido, e tem muita dificuldade em expressar as suas emoções. O filme imita a personalidade de Doinel.

Agora Doinel sabe o que é amar sem ser correspondido, e na última cena a palavra que o descreve melhor não é tristeza, mas sim resignação. Está a viver a vida que queria, tem um emprego e só depende de si próprio. As coisas correram mal no amor, mas só porque era inexperiente e porque é assim o amor quando se tem 20 anos de idade; algo que nunca existiu, excepto na imaginação, um sentimento formulado do nada, uma ilusão da mente, um capricho de emoção, um sopro de fantasia que só podia acabar mal, mas que abre as portas para a vida. Agora que já desvendou alguns dos segredos do amor, Doinel está pronto para abrir essas portas, está pronto para encarar a vida. E a vida viria rapidamente ter com ele…

Apesar de ser o segmento mais pequeno, e de não ser um filme, esta é a sequência de Doinel que mais aprecio, porque por detrás da sua estrutura simplista reside a perfeição, a perfeição da chama do primeiro amor, a perfeição do amor ilusório não correspondido, com o qual toda a gente no planeta se consegue identificar e que tem aqui a sua materialização mais bela.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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