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Chariots of Fire

Ano: 1981

Realizador: Hugh Hudson

Actores principais: Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell

Duração: 124 min

Crítica:Let us praise famous man”.

Esta é a primeira frase que se ouve neste filme. Estamos em 1978, no funeral de Harold Abrahams, o homem que ganhou a medalha de ouro na corrida dos 100 metros nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924. Um dos últimos membros vivos dessa comitiva dá o seu elogio fúnebre e pede aos presentes para recordarem os homens com esperança no coração, e asas nos calcanhares. E neste ponto há o fade para uma praia, onde dezenas de atletas, constituindo a comitiva britânica, correm em câmara lenta ao longo da linha onde as ondas beijam a areia, ao som de uma música electrónica que se tornou um hino do desporto do século XX, naquela que é uma das sequências de genérico mais icónicas de que há memória no cinema. Talvez por se aperceberem disso, os produtores decidiram repetir a cena no genérico final, e a repetição não a faz perder, muito pelo contrário, a sua essência bela, poética e inspiradora.

‘Chariots of Fire’ (em português ‘Momentos de Glória’), o filme surpresa de 1981, que se tornou um sucesso, e que acabou por ganhar 4 Óscares – para Melhor Filme (batendo a concorrência de peso de ‘Atlantic City’, ‘Raiders of the Lost Arc’ ou ‘Reds’), Melhor Argumento Original, Melhor Guarda Roupa e claro, Melhor Banda Sonora – tinha uma concepção teórica suficientemente ousada para passar completamente despercebido. Era uma produção Inglesa até à medula, sobre a campanha da Grã-Bretanha nos JO de 60 anos antes, com uma equipa de produção inglesa, com um realizador inglês estreante e virtualmente desconhecido (Hugh Hudson), e uma série de actores ingleses também desconhecidos mas sólidos, que se misturavam com alguns actores de palco reputados em breves aparições (John Gielgud, Ian Holm). Para além do mais, apesar do filme se passar na década de 1920, alguém tomou a decisão de contratar um tal de Vangelis Papathanassiou (tal como é creditado), um compositor grego de música electrónica que pouco ou nenhum trabalho tinha feito até então no cinema.

Mas, tal como outras reputadas produções inglesas da década de 1980, ‘Chariots of Fire’ é menos um produto de individualidades, e mais de uma sólida colectividade. Desta amálgama, surge uma obra de arte, que detém alguma inocência mas muito coração, que detém muita verdade e realismo dramático apesar de constantes adulterações históricas, que tem um apelo universal porque é um hino ao desporto, aos atletas, que são, acima de tudo, seres humanos. ‘Chariots of Fire’ resultou e tornou-se o filme nº1 do desporto, para mim menos pelas suas cenas poéticas de corrida, menos por falar de uma campanha olímpica, menos por ser sobre corredores, mas porque subjacente a tudo isto, como um fio condutor, como a verdadeira força da sua história está o atleta como pessoa, que sofre e luta para atingir a glória, mas quando a atinge não se vangloria desse feito. É uma afirmação pessoal, e não apenas um desejo de ganhar para ser o melhor. ‘Chariots of Fire’ é realmente sobre "homens famosos", mas não é o facto de serem famosos que interessa ao filme. É muito mais o facto de terem esperança no coração, asas nos pés, e uma vontade de correr que lhes vem de dentro, não pela fama e fortuna, mas para saciarem os seus demónios interiores e experienciarem um infinito prazer. E isto está tão bem exteriorizado no filme que apela a todas as pessoas que alguma vez praticaram desporto por prazer. É essa qualidade que o torna tão bom e tão universal.

O filme começa nos anos após a Primeira Grande Guerra e segue, durante a primeira hora, as proezas de dois atletas, Abrahams (interpretado com alguma rigidez por Ben Cross) e Liddell (interpretado com humildade e coração por Ian Charleson). Abrahams é o filho de um financeiro Judeu e é caloiro na Universidade de Cambridge. Desde cedo quer provar o seu valor e lutar contra o anti-semitismo que ainda está enraizado na sociedade inglesa. Torna-se o primeiro homem a completar, nas doze badaladas do meio dia, a volta ao claustro da faculdade e o filme vai acompanhado um pouco da sua vida pessoal e universitária, a sua senda por afirmação, em pequenos sketches inteligentemente construídos, que contam menos uma história mas definem perfeitamente uma personagem. Ao mesmo tempo, é-nos dada a oportunidade de conhecer outros colegas seus de Cambridge que acabarão também por fazer parte da comitiva olímpica, bem como o espírito de camaradagem universitária que reinava numa época em que os JO eram competições de supostos ‘amadores’.

Depois de se debruçar quase meia hora em Abrahams, o filme muda para Liddell. Liddell é um escocês nascido na China, filho de missionários, e que é devotado à Missão e a Deus. De regresso à Escócia tornou-se famoso como jogador de rugby e como corredor. Enquanto Abrahams corre nos mais prestigiados círculos, Liddell corre nas belas paisagens escocesas. Abrahams é técnica, treino e, pelo menos inicialmente, vontade de vencer. Até acaba por contratar o treinador Sam Mussabinbi (Ian Holm) - algo controverso já que amadores não deviam ter treinadores - e que se torna uma espécie de figura paternal. Já Liddell é paixão, devoção e coração. Tal como ele diz, a vontade de conseguir levar a corrida até ao fim vem de dentro e, quando corre, sente o prazer de Deus a correr-lhe pelo corpo. Se o ‘dilema’ de Abrahams é uma afirmação contra a sua condição étnica e uma vontade de se provar, como diz, à família, à sua faculdade e ao seu país, o ‘dilema’ de Liddell surge sobre a forma da sua irmã, que vê nas suas corridas algo maléfico que o afasta de Deus e da sua Missão. Mas enquanto a fama de Abrahams é boa para Cambridge e o director da escola (Gielgud) engole o sapo pelo facto de Abrahams não ser inglês de gema e mostrar alguma arrogância, também os directores da Missão de Liddell vêm nele um instrumento poderoso para propagar a vontade de Deus. Quase após todas as corridas, Liddell dá um sermão, honesto, sincero, puro (tal como o actor que o protagoniza, que tragicamente também morreu jovem aos 40 anos). E o filme vai fazendo lentamente que ambos convirjam, à medida que o Verão olímpico se aproxima.

E depois, na segunda hora do filme, os Jogos começam. O filme mostra, de uma forma contrastante, a simplicidade da cerimónia de abertura da altura com a intensidade dos treinos, o silêncio dos balneários pré-corrida com o barulho extasiado da multidão, a vontade simples dos atletas de correrem com os interesses políticos de afirmação nacional que fervilham nos bastidores. E no centro, dois atletas, Abrahams e Liddell, os vencedores, respectivamente, da prova dos 100 e dos 400 metros. Apesar de vermos outras corridas e termos o vislumbre de outros atletas, a verdade é que estas outras provas pouco interessam e pouca atenção lhes é dada. Tudo converge para as duas provas principais e tudo se foca nos dois vencedores. Ambos têm os seus dilemas e os seus arcos pessoais rumo à imortalidade olímpica. Liddell inicialmente também está inscrito nos 100 metros (rival de Abrahams sob a mesma bandeira) mas como uma das qualificações é ao domingo ele recusa-se a correr, já que o domingo é um dia que deve ser dedicado a Deus. Após muito drama e pressão política, a solução surge na forma da camaradagem do desporto. O membro da comitiva inglesa que ia disputar os 400 metros e que havia ganho uma medalha de prata numa prova menor cede o seu lugar a Liddell, pelo “prazer de o ver correr”. Isto dá ainda mais epicidade à corrida dos 400 metros, já que supostamente Liddell não tem treino nesta distância. Já os dilemas de Abrahams são consigo próprio; o seu medo da derrota, o seu desejo de se provar, mais a si (como o filme vai revelando) do que propriamente aos outros (como parece ser quando o conhecemos). Os seus rivais americanos são o principal obstáculo, especialmente depois de ter perdido uma prova nos primeiros dias dos Jogos que o filme não especifica bem qual é (já me referirei a ela daqui a pouco). Os dois momentos de cada uma destas finais, a dos 100 e a dos 400 metros, constituem momentos altos de cinema; a música de Vangelis, o slow motion, a tensão no balneário, e depois a explosão. E as provas reflectem a natureza das personagens. A prova de Liddell é muito mais poética. Na de Abrahams há a decisão genial do realizador de a mostrar sem slow motion e sem música (os 100 metros são mostrados na íntegra e o filme faz o mesmo silêncio que os espectadores à espera do resultado). Abrahams está concentrado, focado, e o filme também. Só na ‘repetição’, quando Abrahams vive o seu sonho, é que entra de novo Vangelis, e a câmara lenta.

A verdade pura e dura é que qualquer livro sobre as olimpíadas ou qualquer pesquisa rápida na internet revelará as grandes inconsistências históricas do filme. Abrahams nunca venceu a corrida à volta do pátio de Cambridge. Liddell já sabia que a eliminatória dos 100 metros era no domingo meses antes das Olimpíadas e passou esse tempo a treinar-se nos 400 metros. A ordem das corridas nas Olimpíadas está trocada para efeitos dramáticos do filme. Quer Abrahams, quer Liddell ganharam mais uma medalha cada um, em corridas que nunca são mostradas. Abrahams ganhou prata na estafeta dos 4*100 metros, e Liddell ganhou Bronze nos 200 metros, prova essa ganha pelos americanos e em que Abrahams ficou em 6º (a tal derrota que o filme refere de soslaio sem explicar o que está a mostrar, quando quer definir o desespero emocional de Abrahams antes da corrida dos 100 metros). A tal rivalidade olímpica entre Abrahams e Liddell que o filme vai espicaçando quando ainda estão em Inglaterra, e depois se perde porque Lidell passa para a prova dos 400, realmente aconteceu e o filme faz de conta que não. 

Pessoalmente, não sou fã de incongruências históricas no cinema, exceptuando obviamente as estritamente necessárias para dar interesse dramático ao filme. Mas as deste filme têm objectivos tão claros (não são meros artifícios para criar emoções artificiais) que é um pecado que facilmente se pode perdoar. Na realidade não interessa muito se Abrahams ganhou outra medalha, ou se a passagem de Liddell para os 400 metros não foi assim tão repentina. Não interessa porque o filme não vangloria as vitórias destes atletas. O objectivo não é idolatrar o vencedor, nem mostrar o rumo para a conquista. Esta conquista faz parte de algo muito mais íntimo. Era essencial para estes homens terem o ouro para poderem seguir com as suas vidas, para tirarem esse peso da consciência, para saberem que o fizeram, que o conseguiram fazer. Não para contarem aos outros, mas para sentirem dentro deles essa verdade. E é nisso que o filme se foca. Liddell voltou para o seu trabalho de missionário na China, onde acabaria por morrer após a Segunda Guerra Mundial, tendo apenas regressado ao atletismo muito esporadicamente. Abrahams, por seu lado, tornou-se jornalista desportivo da BBC. Mas aquele momento, aquela corrida em Paris no Verão de 1924 em que cada um ganhou ouro, foi a sua razão de existir. Na realidade ‘Chariots of Fire’ é sobre a alma dos homens. E é por isso que é tão bom.

Hugh Hudson nunca mais realizou um filme britânico tão internacionalmente bem sucedido ou bem conseguido, e a maior parte destes actores nunca fez o salto para outras produções que não britânicas. Mas em ‘Chariots of Fire’ alcançaram, sem dúvida alguma (e perdoem-me o trocadilho) a medalha de ouro. É um filme tão honesto e tão puro que às vezes até soa estranho. A simplicidade da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, por exemplo, é tão evidente que salta à vista. Hoje seria impossível filmar uma cena assim, tão desprovida de glamour e efeitos visuais, mas em defesa de Hudson a verdade é que em 1924 é bem provável que essa cerimónia tenha sido tal como está aqui retratada. É esta verdade, inerente a todo o filme, que mais permanece no espectador, e que o permite perdoar a deturpação histórica. Porque esta verdade que o filme contém não é histórica, mas sentimental. É por o seu significado ser intemporal, por exemplo, que a banda sonora fora de época se adequa perfeitamente. Vangelis liberta rugidos e melodias electrónicas que são declamações da alma, e quando a música deste se funde com o hino britânico secular ‘Jerusalem’ de William Blake (cujos versos ‘Bring me my bow of burning gold! Bring me my arrows of desire! Bring me my spear! O clouds, unfold! Bring me my chariot of fire!’ inspiraram o título do filme) a metamorfose não soa absolutamente nada artificial, pois é aí que a alma chega ao seu êxtase.

‘Chariots of Fire’ é um filme inspiracional que não se estrutura como tal e um filme de desporto que não deifica a vitória, ou seja, desenrola-se ao contrário daquela que é a norma em Hollywood. Mas isso só lhe dá mais valor. É um clássico humano e intemporal, que até pode ser visto em parte como filme britânico ‘de época’, e que merece inteiramente o seu lugar de destaque na história do cinema. Ascende humilde mas focado como os atletas que retrata, e explode numa perfeita glória vitoriosa cinematográfica. E resta dizer que a nova versão digital restaurada, lançada em blu-ray no seu 30º aniversário, a tempo dos Jogos Olímpicos de Londres (aquela que já faz parte da minha biblioteca e que originou esta crítica) está fabulosa e apinhada de extras.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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