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Wild Things: Foursome

Ano: 2010

Realizador: Andy Hurst

Actores principais: Jillian Murray, Marnette Patterson, Ashley Parker Angel

Duração: 92 min

Crítica: Quando comecei a escrever sobre cinema, no final de 2009, escrevia noutra plataforma online, e em inglês. Aí, a minha crítica mais lida por esse mundo fora foi (e continua hoje a ser) a do filme ‘Wild Things: Foursome’ (2010), o quarto filme da saga de thrillers semi-eróticos (nem chegam a ser eróticos, são mais sensuais), que começou com ‘Wild Things’ (Ligações Selvagens) em 1998. Parece-me óbvio o motivo pelo qual essa página obteve tantos cliques. Não foi certamente pelos meus dotes de escrita. Mesmo assim, não sabendo se agora, aqui, e em Português, resultará de igual modo, permitam-me que partilhe convosco a experiência de ver este filme.

A primeira coisa que o leitor poderá perguntar é “Mas então tu, um cinéfilo dedicado, amante de Chaplin, Malick e Demy, perdeste tempo da tua vida a ver o Wild Things 4some?”. A resposta é sim, realmente vi este filme, do início ao fim. E a pergunta que se segue é: “Mas foi um caso isolado, ou viste os outros três filmes do franchise?”. E a resposta de novo é sim, vi ‘Wild Things’ (1998), vi ‘Wild Things 2’ (2004) e vi ‘Wild Things: Diamonds in the Rough’ (2005). “Mas porquê? Não te cansaste de ver exactamente o mesmo filme quatro vezes?”. Sim, cansei-me. Mas há uma coisa que é diferente de filme para filme… as miúdas. E antes que o leitor se assuste e comece a pensar mal de mim queria apenas lembrar que quando o primeiro ‘Wild Things’ saiu eu era um adolescente, e quando o segundo e o terceiro saíram eu andava nos primeiros anos da faculdade. E nessas alturas, nada mais natural do que se ver um thriller leve com miúdas giras e alguns twists numa noite de sábado com (ou sem) os amigos. 

Mas permitam-me que defenda pelo menos o primeiro ‘Wild Things’. É um bom filme e um bom thriller. Claro que teve muita notoriedade graças a uma cena controversa, motivo pelo qual ainda hoje é recordado. Essa cena é um menáge a trois entre Matt Dillon, Neve Campbell e Denise Richards, que se tornou o símbolo do franchise e eclipsou na comunidade cinematográfica todo o resto do filme que, verdade seja dita, até resulta bem. Tem um argumento bem trabalhado com twists e revelações surpreendentes que apanham o espectador de surpresa, é, usando dois estrangeirismos, sexy e cool, tem actores secundários da categoria de Kevin Bacon e Bill Murray (e não é qualquer filme que tem Bill Murray!), e acaba por ser um bom pedaço de entretenimento.

O problema é que, inspirados pelo sucesso de bilheteira de ‘Wild Things’ e achando (provavelmente com razão) que isso se devia mais às cenas provocantes do que propriamente à história, os produtores decidiram começar uma saga de sequelas menores directas-para-DVD, com piores actores, argumentistas e realizadores, para gastar pouco e fazer muito dinheiro. Mas cometeram um grande erro. Quer ‘Wild Things 2’ (2004), quer ‘Wild Things Diamonds in the Rough’ (2005 – apenas um ano depois, o que significa que a primeira sequela vendeu muitos DVDs) são exactamente o mesmo filme que ‘Wild Things’. A história é exactamente a mesma, o perfil das personagens também, a maior parte dos twists também, portanto se se viu o primeiro filme, não há surpresa nenhuma, ou qualquer emoção a mais (em termos de história, quero dizer) que estes filmes possam oferecer. As diferenças, à medida que o número a seguir ao título ‘Wild Things’ aumenta, reflectem o motivo pelo qual as sequelas foram feitas (e o motivo pelas quais os homens as vêem). Primeiro as raparigas são diferentes, em maior número e mostram cada vez mais facilmente o seu corpinho nu, principalmente na clássica cena a três (que se repete em todos os filmes). Segundo o sexo leve (chamo-lhe leve porque nunca é explícito, envolve sempre apenas beijos e algum nudismo) tem maior tempo de antena. Terceiro as cenas de lesbianismo (no primeiro filme Campbell e Richards partilham uns beijos…) ganham cada vez mais peso nas histórias. Quarto, as reviravoltas do argumento ganham ainda mais reviravoltas (muitas delas algo forçadas diga-se, só para tentar que os twists sejam ligeiramente diferentes). E quinto, a única coisa diferente, é que não se sabe quem ficará com a massa toda no final. Ao menos é uma personagem diferente em cada filme, portanto há (alguma) surpresa de filme para filme.

Quem viu três vê quatro, e quando Foursome saiu eu pensei ‘Porque não?’. Foi um erro, porque em 2010 já tinha chegado à idade em que a ideia de ver um filme inteiro que não presta só porque tem miúdas semi-despidas já não era assim tão tentadora quanto isso. O quarto filme desta saga reciclada, de nome ‘Wild Things: Foursome’ apresenta um trocadilho no título nada feliz que reflecte como todo o filme também é feito à base de colagens de clichés já estabelecidos pelo modelo do primeiro filme. Mesmo assim, e levando a acção um nico mais para a frente que o segundo e o terceiro, este quarto filme acaba por ser, na minha opinião, o melhor do franchise a seguir ao original (mesmo assim ainda a anos luz deste).

Voltamos a Blue Bay e ao seu jet set de miúdos de liceu mimados com pais endinheirados. Grandes mansões, grandes festas, grandes carros e barcos. Um enquadramento que já enjoa mas que, enfim, se compreende. Seria como fazer um filme do Jurassic Park sem dinossauros. Claro, estes miúdos ricos têm as suas clássicas desavenças com os menos abonados do liceu, e um deles tem um pai multimilionário que tem uma morte prematura e fez um testamento (um ponto que não existe no primeiro filme mas que existe, igualzinho, no segundo e no terceiro). Tudo isto parece-me muito bem mas há duas coisas que falham redondamente. Primeiro os actores (especialmente os da classe ‘Morangos com Açúcar’) são péssimos. A maior parte destas jovens vedetas está ali porque fica bem de fato de banho e nenhuma delas terá grande futuro em Hollywood. Segundo os argumentistas deixam muito a desejar. Imagino estes senhores como quarentões semi-nerds que fantasiam ser jovens, ricos, giros e terem todas as raparigas que querem; e assumem que as verdadeiras pessoas nessa situação falam e mexem-se de uma certa maneira que na realidade é completamente artificial e descabida.

Mas à medida que a história se adensa (ou melhor, avança um pouco para além do superficial), finalmente parece estar a dar um contributo minimamente original ao franchise. Mas isto é uma alegria que dura pouco. A inspiração, se é que o foi, dissipou-se depressa. De repente, injustificadamente, completamente fora do contexto, eis que aparece a acusação de violação, um ponto chave do primeiro filme e que se repetiu, só por repetir, nos seguintes. Neste quarto filme não faz sentido nenhum aparecer. Só aparece porque filme de ‘Wild Things’ sem a acusação de violação não seria filme de ‘Wild Things’. Mas sinceramente achei horrível. Já não aguento mais. Quatro vezes a mesma história base ainda se aguenta com as atenuantes que falei em cima. Agora quatro vezes uma acusação de violação? Não há nada original que se possam lembrar que seja minimamente semelhante? Uma fraude fiscal? Um insulto racista? Uma traição conjugal? 

Desta vez o trio Odemira é composto pelos actores Ashley Parker Angel (não faz a menor ideia como é que um actor deve pronunciar uma frase), Marnette Patterson, que faz de sua namorada (e não faz a menor ideia de como é que uma actriz deve actuar), e Jillian Murray, a suposta vítima de violação (e que é suficientemente sexy para eu não fazer a menor ideia se ela é ou não uma boa actriz). Não há uma única pessoa no público que veja esta acusação e as poucas cenas de tribunal e acredite que isto é mesmo verdade, mesmo que não tenha visto os outros filmes. E, como seria de esperar, o público não tem de aguardar muito mais por aquilo que sabe que está ao virar da esquina.

Há um acordo fora do tribunal, o executor do testamento do pai debita um monte de massa, Murray fica com uma mala cheia de notas e vai a correr para uma penthouse partilhá-la com os seus cúmplices e festejar com a clássica dança da vitória a que estes filmes já nos habituaram. Os seus cúmplices, claro, são Angel e Patterson, e a dança da vitória é nada mais nada menos que um ménage a trois, só para que o público entenda bem que estavam todos em conluio (e não só). Ménage a trois? Não… espera. AH, por isso é que o filme se chama ‘foursome’. Uma menina que até então estava apenas remotamente ligada a estas personagens e que depois desta cena não volta a aparecer (ou volta?) surge do nada, despe o roupão e junta-se à festa. Esta acaba por ser a grande diferença deste filme para os outros três. São quatro pessoas e não três que ficam durante um par de minutos aos beijos, nus num chuveiro. E visto que esta cena é o motivo pelo qual a maior parte das pessoas verá este filme, o realizador não se acanha, nem os actores, e dão tudo o que têm, para que o público não peça o seu dinheiro de volta. Sinceramente (e digo isto não num sentido machista ou voyeurista) é uma pena que esta cena não seja maior. Isto porque o resto do filme é tão mau que esta cena ao menos entretêm. Os quatro nunca voltam a estar juntos, mas de quando em quando há uma cenita mais íntima entre algum dos pares. De permeio pouco ou nenhum interesse há, e nada de novo em relação aos outros filmes aparece.

O que acontece, tal como nos outros filmes, é que estes jovens cúmplices, em vez de dividirem o dinheiro por três e seguirem a sua vida, começam a jogar o jogo das intrigas, das mentiras, do sexo e até do homicídio, uns contra os outros. Cada um deles quer ficar com a massa só para si, ao mesmo tempo o clássico inspector da polícia tenta desvendar o mistério e o que esconde o passado (no filme original este era interpretado por Kevin Bacon, aqui é por John Schneider, que acaba por ser a única pessoa no meio desta rebaldaria toda que sabe actuar, dando à investigação uma conotação minimamente interessante).

Este desenrolar do novelo, apesar de ser mais interessante do que o homólogo no segundo e no terceiro filme, é mesmo assim pobremente desenvolvido e muito, mas muito previsível. Factos atrás de factos surgem do nada e sem cabimento para proporcionar um pouco mais de suspense e mistério. Confuso? Sim. Mais interessante para o filme? Não. E assim o filme vai-se desenrolando sem muita imaginação até aos créditos finais.

No primeiro filme, é a rapariga rebelde do lado errado da linha que fica com o carcanhol. No segundo é a rapariga das famílias ricas. No terceiro é de novo a rapariga vítima da suposta violação. Quem ficará com o dinheiro desta vez? Essa é, realmente, a única incógnita do filme. Uma coisa é certa, não é o homem de certeza. Este é um filme para os homens verem mulheres sexys de bikini, portanto as raparigas ganham sempre. Mas qual das três? Haverá outro twist? Há outras personagens dentro da marosca? Se alguém for ver este filme pela história (duvido) tem aqui o único ponto de interesse. Esta dúvida é desfeita, como de costume na saga ‘Wild Things’ apenas quando rolam os créditos finais. Pelo menos desta vez, e tal como no primeiro filme, achei a solução interessante. Fiquei até agradavelmente surpreendido. Os filmes 2 e 3 têm twists banais. Este filme ao menos conseguiu re-captar um pouco do efeito de choque e surpresa que o primeiro filme tão bem foi capaz de produzir.

Sinceramente este filme é mau. Tem péssimos actores e um péssimo argumento. Não seria assim tão mau, confesso, se os filmes ‘Wild Things’, ‘Wild Things 2’ e ‘Wild Things: Diamonds in the Rough’ não existissem, mas ninguém gosta de remakes disfarçados de sequelas. Este filme existe única e exclusivamente para que os homens tenham uma desculpa para ver mulheres belas meias despidas, a sair de piscinas, ou aos beijos, enquanto uma história leve de intriga, traição e sedução enche o espaço até que novas cenas com estas meninas possam surgir. O franchise ‘Wild Things’ não chega a ser um de thrillers eróticos, como ‘Basic Instinct’, nem um com um o mínimo de profundidade associado quer ao sexo quer à tensão das intrigas. É apenas um produto de entretenimento menor que pode passar na TV sem causar um grande escândalo, e que apresenta cenas de nudez praticamente inofensivas quando comparadas com a maior parte das cenas de sexo que surgem hoje em dia até nas séries e filmes mais banais. São basicamente filmes para jovens do sexo masculino, para verem à noite quando não têm nada para fazer, ou numa noitada com amigos. Só o primeiro filme merece uma visualização mais atenta por um cinéfilo. Os outros, bem, só valem pelas miúdas. E algumas até são bem fotogénicas, embora rara é a que tenha pingo de talento.

Duas coisas mais. Primeiro, faço um apelo aos produtores de ‘Wild Things’ para, se ousarem fazer um quinto filme, não voltarem a usar a ‘desculpa’ da violação. Podem manter o mesmo argumento, podem manter a história patética da herança, e podem manter o ménage a trois (que vai surgindo cada vez mais cedo no filme… neste quarto quase nem meia hora de filme passou, enquanto no primeiro o filme já ia a mais de metade). Mas violações outra vez não. Já enjoa, e muito. Segunda coisa, achei a banda sonora instrumental deste filme muito boa, por incrível que possa parecer. Os meus parabéns ao compositor, um tal de Steven Stern.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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