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Blue Jasmine

Ano: 2013

Realizador: Woody Allen

Actores principais: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard

Duração: 98 min

Crítica: O final do Verão geralmente trás o novo filme de Woody Allen. ’Blue Jasmine’ é o seu nome e constitui o 48º título de Allen como realizador, e ainda ocupa um número maior na sua listagem como argumentista. Como já discuti noutras críticas, é surpreendente como Woody Allen consegue, mesmo apesar de tantos argumentos e tantos filmes, ainda construir histórias com algum interesse e personagens com profundidade. Mesmo roçando temas familiares e muitas vezes indo apenas um pouco além da reciclagem de material anterior, os seus filmes possuem sempre, inevitavelmente, aquela magia cinematográfica que caracteriza um grande cineasta, bem como pequenas pérolas, numa actuação, numa cena, numa frase que capta um sentimento, que facilmente fazem esquecer que se calhar já vimos aquele filme antes com outras personagens. Um homem que faz um filme por ano não consegue fazer sempre obras-primas, mas por um lado quando as faz fá-las como ninguém, e por outro quando não as faz, o filme é, mesmo assim, e salvo raras excepções (‘When You Meet a Tall Dark Stranger’ por exemplo), uma peça cómico-dramática sólida da qual o público pode depender para 1h30 de qualidade cinematográfica que tão rara é de encontrar hoje em dia.

E mais surpreendente é ainda quando, depois de tantos títulos, Allen consegue inovar, ou pelo menos revisitar os conteúdos emocionais que fizeram parte dos seus filmes no final da década de 1970 e que há muito estavam enterrados. ‘Blue Jasmine’ poderá não ser um dos títulos mais marcantes de Allen (não é) mas acaba por ser uma lufada de ar fresco para o realizador em mais do que um sentido. Não é um filme que convença e seduza rapidamente, nem tão fácil de gostar como outros mais recentes (‘Vicky Cristina Barcelona’ ou ‘Midnight in Paris’), mas tem, por outro lado, uma das personagens (femininas) mais cativantes que Allen criou nos últimos anos, e aquela com mais camadas emocionais. Aliás, a coisa que chama logo à atenção em ‘Blue Jasmine’ é que exactamente o mesmo argumento, com o acrescento de uma ou outra cena de foro mais dramático para puxar à lágrima ou de um enfoque cinematográfico completamente artificial em certas situações ou emoções, tornaria este filme num produto Hollywoodesco digno de uma Angelina Jolie ou de uma Meryl Streep, com a mira apontadinha para o sucesso comercial e os Óscares. Mas Allen nega tudo isto e ao negá-lo diz adeus ao que poderia ser, claramente, o Óscar de Melhor Actriz para Cate Blanchet. Allen mantém tudo terra-a-terra, e não usa artificialismos cinematográficos para capitalizar no arco emocional da sua personagem principal. À la Allen, o filme mostra os factos, a câmara espia a acção mas não faz juízos de valor (esses o público deverá fazer) e poucas vezes pausa para que as situações sejam interiorizadas ou exploradas emocionalmente. Quando Cate Blanchet é assediada no trabalho, por exemplo, ou quando o seu desespero é tanto que leva as mãos à cabeça, treme e contém o choro, o filme lestamente passa para a cena seguinte. Um drama Hollywoodesco tomaria o seu tempo e faria o close-up, mostraria o choro, a lágrima, o choque, o ênfase dramático.

Não terá muito a ver, mas eu recordei-me, enquanto estava na sala de cinema a ver este filme, de ‘Changeling’ com Angelina Jolie, e como Clint Eastwood (outro mestre) insistia constantemente em obrigar o espectador a sorver o dramatismo de tudo e mais alguma coisa que pudesse estar a acontecer à personagem principal. Allen não obriga o público a nada. Como de costume, conta a sua história, com a leveza que o caracteriza, mas uma leveza que de si é pungente e trágica, embora isto não esteja a ser exibido em plenos pulmões à vista de toda a gente. Geralmente Allen é tragi-cómico. Mas Allen volta a quebrar aqui outra barreira auto-imposta. O filme é pouco, ou nada cómico. Não há um único diálogo, ou uma única cena para que o público solte uma gargalhada. Nem mesmo um escape cómico por personagens secundárias. Este não será um dos ‘filmes crime’ de Allen, como ‘Cassandra’s Dream’ (2007), mas trás consigo a memória de dramas como ‘Interiors’ (1978) ou ‘Another Woman’ (1988), filmes sem a, chamemos-lhe, distracção cómica de Allen e que se centram em personagens femininas em tensão.

Já desde 2009 com ‘Whatever Works’ que Allen não filmava numa cidade americana. Aqui, deixando as capitais europeias para trás, Allen capta, embora que muito brevemente, a natureza das ruas sinusoidais de San Francisco. A história centra-se em Jasmine, interpretada soberbamente por Cate Blanchett. Jasmine, de origens humildes, conheceu um promissor génio financeiro (Alec Baldwin) no último ano da faculdade. Desistiu do curso e iniciou uma vida ociosa e de luxo em Park Avenue. Contudo, sempre houve o fantasma de que os negócios do seu marido não fossem 100% legítimos e que a sua fortuna estaria a ser feita à custa de investimentos fraudulentos. Isto vai sendo desbobinado em sucessivos flashbacks, num formato que Allen raramente havia adoptado anteriormente.

O filme abre com Jasmine a regressar à sua terra natal (S. Francisco) para ir viver com a meia-irmã. O seu marido foi descoberto pelo FBI, foi preso e suicidou-se na prisão. Jasmine perdeu a fortuna toda e regressa para começar do zero. Ela é nervosa, tem ataques de pânico sucessivos e lentamente percebemos que roça a linha da sanidade e que acabou de sair de uma instituição psiquiátrica depois de ter praticamente ensandecido após a morte do marido e o desaparecimento do filho, que saiu de casa e nunca mais regressou. Agora, em S. Francisco, Blanchett tem que refazer a sua vida. Ao mesmo tempo, o filme também se foca na sua irmã (interpretada por uma surpreendente Sally Hawkins). Os flashbacks mostram-nos que anos antes esta havia ganho a lotaria mas como deixou Baldwin investir o seu dinheiro ficou sem nada, acabando isso por ditar também o final do seu casamento.

O filme divide-se entre uma Blanchett a tentar encontrar o seu lugar num mundo em que já não é privilegiada: encontrar amigos verdadeiros, um emprego e um novo homem; e a seguir o percurso da irmã, uma empregada de supermercado que namora com zé ninguéns e que sempre sonhou ser mais como Jasmine, ou melhor, mais como a visão idílica que tem de Jasmine. Cada uma passará a barreira para a vida da outra, experimentará um pouco e cairá na teia dos erros do passado, mas no final cada uma perceberá o seu lugar e regressará à sua condição, uma para a felicidade, outra para o futuro incerto.

No início o filme parece andar em círculos, batendo constantemente nas mesmas teclas e repetindo a história e as emoções de base cena após cena, apesar do público já as ter percebido. Mas felizmente, na segunda parte, quando uma série de catalisadores empurra as duas personagens femininas para mudanças nas suas vidas e para escolhas (Blanchett conhece um novo homem rico e Hawkins inicia um caso com um homem que parece ser bem diferente dos escroques com que costuma andar) o filme finalmente sai da espiral onde estava e ganha um renovado interesse, que vai agarrando o público até aos eventos finais.

Contudo, o filme é inconstante nas dualidades que apresenta. A centralização em Blanchett é tão forte (exacerbado pela sua performance cativante) que não se percebe muito bem algumas das cenas que se focam exclusivamente em Hawkins. O filme acaba por ser sobre as duas, mas só uma é que tem uma devida construção de personagem, só uma é que tem enfoque dramático, só uma é que realmente influenciará o espectador. A outra irmã serve sempre como contraponto, e talvez seja esse o objectivo. Mas se o é consome demasiado tempo de antena. Mas claro, estas histórias que se bifurcam são marca clássica de Allen e no final temos um pacote que vale como um todo. Das duas irmãs surge mais uma ou outra bifurcação, enquanto as cenas se sucedem dividindo-se entre os flashbacks que explicam a história e as atitudes das personagens, e um presente em que as acções do passado se revertem e influenciarão inevitavelmente o futuro. Esta ligação, entre o passado e o presente, é outra dualidade que o filme apresenta, mas é uma dualidade que se complementa. O puzzle é construído em dois tempo, e só quando está completo dos dois lados é que é possível entendê-lo.

Não há aqui um grande mistério nem um grande twist, em termos de história. Há uma pequena revelação no final, mas não é muito bombástica. O interesse está na personagem central e na forma como ela irá encarar o resto da sua vida. O filme caminha unicamente nessa direcção pelo que muito do resto parece, com distanciamento, menos importante. E nesse sentido Blanchett tem força suficiente para suster esta linha condutora.

Como muitos filmes de Allen acaba em suspenso. O que vimos foi uma foto, um retrato de um período de vida. Tal como a personagem de Scarlett Johanssen em ‘Vicky Cristina Barcelona’ teve a sua aventura no Verão e depois regressa à América para viver o resto da sua vida, aqui também as personagens passam por um período intenso em que cada irmã influencia a outra, e cada uma se torna a catalisadora para as acções da outra e que definirão aquilo que irão ser num futuro, que para ambas nunca será Hollywoodesco.

Allen foi ousado. Abandonou o território seguro dos filmes de mistério e das comédias semi-dramáticas europeias que tantos espectadores lhe deram nos últimos anos e regressou a um mundo muito mais intimista e realista. Isso provavelmente fará com que perca espectadores mas acaba por constituir uma das obras mais emocionalmente, se não cinematograficamente relevantes que produziu nas últimas duas décadas. Não é ostensivamente um grande filme nem um grande drama mas é um filme que permite deixar uma mensagem subliminar no espectador, e que o fará relembrar das emoções geradas bem depois de sair da sala. No clássico estilo leve e contido de Allen, ‘Blue Jasmine’ não faz chorar pedras da calçada nem poderá ser novelizado, mas apresenta um estudo realista de uma vida, dos sonhos de juventude que se perdem pelo arrastar da corrente do tempo, e da impossibilidade de começar de novo devido à pressão do passado, que se recusa a fugir. Tal como em ‘Midnight in Paris’ Allen continua a responder a questões importantes da vida, sem chamar a atenção para isso, e sem ser muito diferente na sua abordagem como realizador (o que poderá ser um senão).

Por tudo isto sei que ‘Blue Jasmine’ não será um grande sucesso de bilheteira nem apelará ao público jovem. Mas encontrará o público fiel de Allen mais cedo ou mais tarde, e este provavelmente ficará satisfeito pelo regresso ao drama sem comédia, e ficará completamente seduzido pela performance de Blanchett. Mais um ano. Mais um Allen. Mais uma obra que convence, pois mesmo sem ser extraordinária é sólida. É este o cinema de Woody Allen.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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