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The Heiress

Ano: 1949

Realizador: William Wyler

Actores principais: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson

Duração: 115 min

Crítica: Olivia de Havilland não só foi uma das melhores actrizes que o cinema alguma vez conheceu como é uma pessoa extraordinária. Digo “é” porque, felizmente, apesar do seu último crédito cinematográfico ser de 1988, esta actriz que entrou em ‘Gone with the Wind’ (1939) e fez par com Errol Flynn em nada menos que 9 filmes ainda está viva e de boa saúde, do alto dos seus 97 anos de idade. Para além do mais, é só ver, por exemplo, as entrevistas que deu para a recente edição de Blu-Ray de ‘Gone with the Wind’ para perceber o quão lúcida ainda está. Ora esta gloriosa senhora ganhou dois Óscares de Melhor Actriz. O primeiro foi em 1946 pelo filme ‘To Each His Own’. O segundo foi-lhe concedido três anos mais tarde pela sua monumental e indescritível performance no filme ‘The Heiress’ (A Herdeira).

Feito pelos estúdios Paramount, ‘The Heiress’ tinha todos os ingredientes de base para ser um filme grandioso: um argumento sólido baseado no romance clássico ‘Washington Square’ de Henry James; o realizador vencedor de 3 Óscares, William Wyler, ao leme da produção (o homem que dirigiu ‘Ben-Hur’, ‘Friendly Persuasion', ‘Roman Holiday’, ‘Mrs. Miniver’ e outras tantas obras primas); e claro, um elenco de luxo. E nenhum destes elementos desapontou. A mistura só podia ser (e ainda hoje é) explosiva. O filme é melodramático, sim, especialmente na sua primeira metade, mas é um tipo de melodrama completamente fascinante e hipnotizante, do qual não se consegue tirar os olhos. Desenrola-se como a melhor das telenovelas, mas com o lustro de ser igualmente uma lição extraordinária de como fazer Cinema.

Por isso mesmo, ao contrário de outros filmes do género, este melodrama cativa-me, e fico agarrado ao ecrã. Em particular, fico agarrado ao rosto de de Havilland, que tem neste filme os olhos mais expressivos, aqueles que dizem mais ao público só de serem filmados, de toda a história do cinema. Nenhuma outra actriz, em nenhum outro filme, disse tanto com os olhos como de Havilland aqui. Verdade que de Havilland sempre teve uma grande queda para os papéis melodramáticos, e era uma mestre a interpretar personagens ingénuas e tímidas com um bom coração. Aqui ela mergulha neste tipo de personagem com todo o talento que tem e mais algum, mas depois, surpreendentemente, deturpa estes conceitos, numa fantástica tour de force emocional.

Passado no século XIX, no seio da alta sociedade nova iorquina, de Havilland interpreta uma rapariga tímida de boas famílias, filha de Ralph Richardson (um fantástico actor que, diga-se, fica perto de roubar todas as cenas em que está). De Havilland não é inteligente, nem bon vivant, nem uma rapariga da sociedade. Passa a maior parte do tempo em casa a tricotar, e nas festas de sociedade é geralmente negligenciada, deixada a assistir e a sonhar a um canto. O seu pai teme que ela nunca irá encontrar um marido e portanto pede ajuda à sua irmã, interpretada por Miriam Hopkins, que acaba por se tornar a melhor amiga da jovem. Numa festa, esta acaba por finalmente conhecer um jovem pretendente. Este é interpretado por Montgomery Clift que, apenas no seu terceiro filme, detém já todo o carisma trágico e doce mística que caracterizariam as suas personagens para sempre. E, uma vez mais, nas mãos hábeis de Wyler, estas características que o público associa imediatamente a Clift são deturpadas e viradas do avesso. Wyler constrói as suas duas personagens principais quase como uma caricatura dos estilos que o público estava habituado a identificar com estes actores. E depois larga a bomba. E assim o efeito é muito mais devastador.

À medida que Clift professa o seu amor por de Havilland de uma forma que nenhum homem jamais havia feito, esta fica cada vez mais lisonjeada e seduzida, mas o seu pai teme que Clift só esteja atrás do seu dinheiro e da herança, portanto não aprova logo o casamento. Quer o público quer de Havilland terão que descobrir se isto é verdade ou não, mas a ‘surpresa’ (se é realmente uma surpresa) só é adiada por meia dúzia de minutos. No auge da paixão, o casal propõe-se a fugir, mas à hora combinada Clift não aparece. Fugir assim significaria viver apenas de amor, não de dinheiro. O público entende isso sem que nada seja dito, e de Havilland também. Esse segundo, esse momento do filme em que de Havilland finalmente interioriza que Clift não vai aparecer nessa noite, inicia uma das cenas mais fabulosas da história do cinema. De Havilland resigna-se, e vai para a cama. Para isso, tem que subir as escadas de casa e é nessa subida que se dá a completa transformação da sua natureza. Durante a subida, deixa de ser a rapariga ingénua e inocente, e passa a ser uma mulher marcada e corroída. De Havilland está perfeita nestes breves segundos, e o plano das escadas é magnífico. Aliás, estas escadas têm um significado; no início do filme de Havilland sobe-as levemente e com facilidade. Nesta cena sobe-as pesadamente enquanto tudo aquilo que ela é se altera profundamente (e o espectador sente esse peso). Mas haverá uma outra subida, com outro significado… na última cena do filme. Porque esta noite fatal ocorre apenas a meio do filme. A segunda metade passa-se vários anos depois, após a morte do pai. Nessa altura, quando de Havilland se torna finalmente ‘A Herdeira’, Clift regressa, e com ele um monte de desculpas e um (suposto) renovado amor. As duas personagens terão um confronto emocional climático que poderá culminar numa segunda ‘fuga’, mas que acaba por ter um desfecho surpreendente e cinematograficamente extraordinário.

A única coisa que acaba por ser realmente melodramaticamente exagerada neste filme é a transição que se dá em de Havilland na noite fatal. Esta transição, apesar de existir numa cena brilhantemente composta, é talvez demasiado rápida. Cinematograficamente faz sentido, e as escadas poderão até representar um percurso estendido no tempo, compilado apenas para efeitos de acção dramática, mas se decompusermos bem a cena, poderá parecer que a forma como atinge uma maturidade emocional marcada pela amargura ocorre muito em cima do seu desgosto e muito em cima da sua anterior personalidade tão crente. Independentemente disso, em ambos os extremos emocionais, antes e depois, de Havilland tem uma performance de cortar a respiração. A sua face nunca deixa de expressar sentimentos captáveis e entendidos pelo público, e os seus olhos estão sempre a brilhar de emoção. Clift, por seu lado, criou uma série de camadas na sua personagem que a tornam difícil de interpretar, apesar do contexto algo fútil e lamechas em que existe. No final, continua a não ser claramente dito se ele é ou não um caçador de fortunas e se as suas justificações por não ter aparecido na noite fatídica são ou não verdadeiras. Só procurando ler as atitudes e as expressões desta personagem é que se pode tentar adivinhar a verdade, e aí está o génio desta performance. E a mão de Wyler guia o público muito inteligentemente através de planos engenhosamente compostos (e alguns até tecnicamente complexos) e da sucessão cativante e bem ritmada de eventos. Mesmo que a primeira parte do filme seja lenta e possa ser confundida com um melodrama de época, o público é lentamente puxado para dentro de uma rede até que, de um momento para o outro, tal como a personagem de de Havilland, ninguém consegue sair. O público fica ligado ao filme e só desvia os olhos quando acaba, meros segundos depois da última subida soberba de de Havilland escada acima, com o significado derradeiro do filme, que eu claro não irei revelar aqui.

‘The Heiress’ é um dos mais fortes pilares da excelência de Hollywood na sua época de ouro. É uma tour de force de actuação, é brilhantemente filmado e tem um argumento cinco estrelas. Como consequência óbvia venceu 4 Óscares (Actriz, Direcção Artística, Guarda-Roupa e Música, pelas composições grandiosas ‘de época’ de Aaron Copland). ‘The Heiress’ contém tudo o que um grande filme pode ter e é impossível pedir mais (talvez menos melodramatismo, principalmente na parte inicial). E esta é bem capaz de ser a melhor performance da carreira de de Havilland, o que é dizer muito. O seu arco emocional perdurará no público muito depois do filme ter acabado. É uma personagem tão credível que quase que é real. E isso torna-a infinitamente mais interessante, e o drama em que está envolvida infinitamente mais cativante. Este é o tipo de filme que por definição Hollywood nunca poderá voltar a fazer. É o cruzar dos píncaros da excelência de dezenas de profissionais de todos os departamentos da realização de um filme, pessoas que viviam e respiravam cinema e conheciam todos os segredos que uma câmara e um actor (só uma câmara e um actor, sem qualquer artificio artificial) podiam revelar. É uma obra-prima de ponta a ponta.

Apesar de ter sido feito em 1949, ‘The Heiress’ é hoje tão bom como era na altura, e supera completamente o teste do tempo tão bem como o livro que lhe deu origem. É mil vezes melhor que qualquer ‘Downton Abbey’ ou qualquer outro produto de época feito nos dias de hoje.

Por falar nisso, o período histórico, o arco emocional da personagem principal, e o tema do caçador de fortunas fazem-me lembrar um dos meus filmes favoritos, ‘Gaslight’ (1944) de George Cuckor com Ingrid Bergman. Acho que ‘The Heiress’ e ‘Gaslight’ se complementariam perfeitamente numa sessão dupla. Será que alguma cinemateca já tentou isso? Seria brutal. Fica a sugestão.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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