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Allegro non troppo

Ano: 1976

Realizador: Bruno Bozzetto

Actores principais:  Marialuisa Giovannini, Néstor Garay, Maurizio Micheli

Duração: 85 min

Crítica: O filme de animação italiano, pouco conhecido, pouco recordado, ‘Allegro non troppo’ é uma pérola. Mais, é, sem dúvida alguma, o melhor filme que mistura acção real e animação alguma vez feito. É melhor que ‘Mary Poppins’, ‘Who Frammed Rogger Rabbit’ e claro, que o filme de onde vai buscar toda a sua inspiração: ‘Fantasia’ (1940), da Prisney, ou Grisney, ou lá como se chama aquele estúdio (uma confusão recorrente de uma personagem neste filme).

O objectivo (supõe-se, já que tudo ali é muito estranho – surreal talvez seja a palavra) é que o filme seja uma espécie de ‘Fantasia’ à italiana. Mas é verdade que esse tal de Prisney, ou Grisney, ou lá como ele se chama, nunca fez nada que remotamente se assemelhe a isto!

‘Allegro non troppo’ é a obra-prima do mestre da animação italiana Bruno Bozzetto. A sua mais famosa criação no mundo da animação, aquela que é mais internacionalmente conhecida, é o signor Rossi, que por acaso até faz um pequeno ‘cameo’ neste filme. ‘Allegro non troppo’ não teve o sucesso internacional do signor Rossi (embora em Italia seja ainda lembrado), mas é um tesouro a descobrir para os amantes da animação.

Tal como ‘Fantasia’ (e mais tarde ‘Fantasia 2000’), o conceito do filme consiste em animar pequenos segmentos de música clássica. Mas todas as semelhanças param aqui. ‘Fantasia’ foi feita como uma obra de arte, uma criação de um mestre, com o intuito de perdurar como um produto cultural, superior, mas que pudesse igualmente ser apreciado como uma obra de entretenimento. Só a magia e a perseverança da Disney (ou melhor, do próprio Disney) poderia incutir este equilíbrio numa obra tão arriscada (ver por exemplo a sequência da dança dos hipopótamos). Já em ‘Allegro non troppo’, não só o lado cómico da animação está constantemente em primeiro plano, como as pequenas histórias demarcam uma posição e escondem um comentário social.

Se em ‘Fantasia’ as imagens eram belas apenas por motivos artísticos e estéticos, em ‘Allegro non troppo’ a animação é mais caricaturada com o intuito de atacar alguns estereótipos ou estados sociais da Itália dos anos 1970. Em ‘Fantasia’, o grande maestro Leopold Stokowski introduzia (com uma pequena ajuda do Rato Mickey) os vários segmentos musicais, sempre com muito decoro e seriedade. Já em ‘Allegro non troppo’ as introduções dos diversos segmentos são elas próprias pequenas curtas-metragens (de imagem real e a preto e branco) de tom surreal e absolutamente hilariantes. Uma das personagens é um produtor, que tenta explicar tudo tintim por tintim para que o público entenda bem. Este produtor acha que o que está a fazer é completamente original, e vangloria-se disso, até que eventualmente recebe uma chamada telefónica desse tal Prisney, Grisney, ou lá como é que ele se chama. O maestro da orquestra é uma figura Orson Wellsiana, gorda e imponente. O animador principal, coitado, foi recentemente libertado de uma masmorra debaixo do palco, no qual havia estado 5 anos aprisionado, só para poder trabalhar como escravo no filme. E se isto já não é absolutamente brutal, então o toque de génio está na composição da orquestra. Todos os músicos são velhotas, que são tratadas (literalmente diga-se), como gado.

Estes pequenos interlúdios são deliciosos e, como são a preto e branco, quando as sequências de animação se iniciam, o impacto da cor é muito mais sentido. O corte é ainda mais abrupto porque as sequências animadas nada têm a ver (pelo menos à superfície) com o surrealismo das cenas de imagem real. E muita da riqueza deste filme está no pormenor destes contrastes.

Existem seis sequências de animação em ‘Allegro non troppo’. O tipo de animação e de desenho está muito longe das linhas perfeitas e bem definidas que caracterizam os filmes da Disney. Este tipo de animação tem muitas mais afinidades às escolas europeias (como a Checa), que preferem formas mais redondas e pouca definição da separação das cores. Os melhores momentos incluem o retrato do nascimento da civilização ao som do Bolero de Ravel, ou o último episódio, no qual a cobra, após não conseguir tentar Eva, acaba por morder ela própria a maçã, iniciando assim uma viagem pelo mundo da tentação e do consumismo. O episódio mais divertido é o segundo, ao sabor da música Slavonic Dance nº 7 de Dvorak, que retrata a expansão urbana.

Pouco conhecido e pouco falado, ‘Allegro non troppo’ é uma obra-prima, não só da animação, mas do cinema em geral. Poderá não ter os melhores desenhos do mundo, mas é uma paródia maravilhosa, hilariante do início ao fim, mas com a seriedade suficiente para conseguir ser artística quando quer. É só olhar para o quarto episódio, que retrata, com um sentimentalismo brilhante, a infelicidade de um adorável gato vadio. ‘Fantasia’ e ‘Fantasia 2000’ são soberbos triunfos da animação e magníficos espectáculos visuais. Mas só têm a arte, e não o prazer, da animação. Por seu lado ‘Allegro non troppo’ oferece aquilo que as melhores comédias/paródias oferecem. Uma grande homenagem ao conceito/filme original, mas com categoria suficiente para manter a sua própria originalidade e criar um produto tão bom, ou melhor, do que aquele de onde foram buscar a inspiração. E a originalidade de ‘Allegro non troppo’, diga-se, só poderá ter surgido num grande momento de inspiração. Imperdível para os fãs da animação. A considerar seriamente para os fãs do cinema em geral.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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