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Der Tiger von Eschnapur + Das indische Grabmal

Ano: 1959

Realizador: Fritz Lang

Actores principais: Debra Paget, Paul Hubschmid, Walter Reyer

Duração: 101 + 102 min

Crítica: Como a maior parte dos cinéfilos, sou um fã entusiasta do trabalho do enorme Fritz Lang. O cineasta alemão foi um dos mais extraordinários visionários do cinema e a sua lista de filmes é uma contínua sucessão de obras-primas. Desde o meu primeiro contacto (que mais, ‘Metropolis’ de 1927 que assisti num FantasPorto há muitos anos!) fiquei fascinado pela sua capacidade de realização e pela qualidade dos seus filmes. Quer no seu período alemão, em que literalmente revolucionou o cinema – até fugir ao Nazismo no início da década de 1930 (‘Metropolis’, ‘M’ de 1931, ‘Spione’ de 1928, os filmes da saga Mabuse), quer no seu período ‘noir’ em Hollywood (‘Fury’ de 1936, ‘Woman in the WIndow’ de 1944, ‘Scarlett Street’ de 1945, ‘The Secret Beyond the Door…’ de 1947, ou ‘Big Heat’ de 1953) Lang nunca vacilou, e todos estes filmes que mencionei valem a pena ser descobertos, vistos e revistos. Como a maior parte dos cinéfilos sempre pensei que todos os filmes de Lang eram magníficos… isto é, até ter visto, em 2010, o seu ‘épico indiano’ em duas partes, ‘Der Tiger von Eschnapur’ (1959) e ‘Das indische Grabmal’ (1959).

Na segunda metade da década de 1950 a sua carreira começou a vacilar e o seu nome começou a ser esquecido, em prol de novos realizadores trazendo consigo novas formas de fazer cinema, apontados para novos públicos. Quase 30 anos depois Lang regressou à Europa. Em 1960 fez o seu último filme como realizador, mais um episódio da sua saga Mabuse (iria famosamente entrar no filme ‘Le Mepris’ de Godard em 1963, a fazer de ele próprio). Um ano antes liderou uma suposta épica co-produção internacional que, até ver, é para mim o único falhanço redondo da sua carreira. ‘Der Tiger von Eschnapur’ (1959) e ‘Das indische Grabmal’ (1959) são dois filmes de 100 minutos cada (na América seriam lançados numa versão super-cortada, num único filme de 90 min chamado ‘Journey to the Lost City’) que são o perfeito exemplo de como um péssimo argumento e péssimas actuações podem ser filmadas de um modo belíssimo e com excelente qualidade técnica. Ambos os filmes têm um argumento lentíssimo, com poucas emoções, poucas flutuações de ritmo e pouco interesse de um modo geral, mas em que tudo é sumptuoso; a cor é intensa e bela, a fotografia é de excelente qualidade, o desenho de produção e do guarda-roupa são fabulosos e a realização é daquelas que só estão ao alcance dos grandes mestres. Mas tudo isto se dissipa quando os filmes se desenrolam e a história tem pouco ou nada para oferecer. Estes filmes têm um invólucro bonito, mas que não tem nada lá dentro. 

Eu vi o primeiro destes filmes, ‘Der Tiger von Eschnapur’ em Novembro de 2010. O início do filme segue a viagem de uma caravana através de uma floresta, rumo à cidade de Eschnapur. A personagem principal é um arquitecto (interpretado, de uma forma extremamente rígida, sem qualquer flexibilidade emocional, por Paul Hubschmid) que se dirige à cidade a pedido do Maharadjaj (interpretado por Walter Reyer), um progressista que deseja introduzir técnicas europeias modernas na cidade. Esta premissa cai logo por terra quando chegam a Eschnapur e esta cidade é mostrada como uma espécie de Shangri-La; perfeita, belíssima, com paisagens sumptuosas, jardins, fontes e outras coisas maravilhosas, portanto a razão pela qual precisam de um arquitecto europeu para melhorar a cidade ultrapassa-me.

Na caravana também viaja uma bailarina, Debra Paget (mais conhecida pelo seu papel em ‘The Tem Commandments’ de 1956), uma mulher que acaba por ser o centro da história. Ela vai para Eschnapur contra sua vontade, por comando do Maharadjaj, que a viu na grande cidade e imediatamente se apaixonou por ela. Uma vez em Eschnapur, o Maharadjaj, sempre cortês e afável, tenta cobri-la de jóias e riquezas numa tentativa de a seduzir. Inúmeras vezes repete que ela é livre e que não quer forçar o seu amor, mas continua, obviamente, a insistir, e está completamente convencido que com o tempo (e mais jóias) ela mudará de opinião. Claro que quando ela se apaixona pelo arquitecto (e vice-versa), o Maharadjaj fica com ciúmes e imediatamente é transformado no vilão, no mau da fita. De repente o cortês e afável Maharadjaj transforma-se num ditador maléfico, que quer matar os pombinhos de umas formas muito complicadas que incluem tigres, rituais pagãos e outras coias que tais.

Paralelamente, numa tentativa de dar mais interesse ao suposto ‘drama’ (muitas aspas), os concelheiros do Maharadjaj também tentam raptar a rapariga (antes do próprio Maharadjaj a querer matar) porque acham que ela é uma má influência para o seu líder (que acaba por ser, mas não da maneira que eles supõem!). Há também uns mistérios de umas passagens subterrâneas, lutas com tigres, uma estúpida cena para estabelecer os antecedentes da dançarina (provavelmente retirada do livro) e pouco mais. Vi duas coisas de interesse no filme. A primeira a presença da belíssima Luciana Paluzzi (a actriz italiana já discutida noutras críticas). Aqui está num dos primeiros papéis da sua carreira, como aia da bailarina, e como tal diz apenas ‘sim senhora’ ou ‘não senhora’ na maior parte das cenas. A segunda é a dança que Debra Paget faz para o Maharadjaj e a sua corte na primeira noite no palácio. É absolutamente fabulosa não só como uma cena de dança, mas também (incrivelmente!) para definir uma linha argumental, ou seja, para mostrar ao público os grandes atributos que a dançarina tem e que tiveram como consequência o Maharadjaj apaixonar-se por ela só por a ver dançar uma vez. 

Este filme lembrou-me as aventuras exóticas de acção dos anos 1930, tais como ‘The Mummy’, ‘Tarzan’ ou ‘King Kong’. Nestas o argumento era extremamente fraco e lamechas, mas existia somente para encher e criar tensão para a verdadeira surpresa, twist ou choque que o filme acabaria por mostrar no segundo acto. Mas estes pequenos épicos a preto e branco pertencem a outro contexto cinematográfico. No final dos anos 1950, ou hoje em dia, a fórmula que resultou tão bem nos primeiros anos do cinema sonoro é completamente descabida e simplesmente não funciona. O diálogo lamechas e estereotipado soa ainda a mais lamechas e a mais estereotipado, e na realidade, neste filme, não há nada à espera no final do segundo acto. O filme não se desenrola para preparar um momento de tensão, ou uma surpresa, ou uma reviravolta, ou a aparição de um elemento icónico ou chocante. Na realidade, a única surpresa surge no fim, quando o filme acaba em suspenso, deixando os dois amantes sós no deserto, mas com tanta falta de tacto que na realidade não se cria o mínimo de antecipação para saber como irão sair desse imbróglio no segundo filme.

Foi portanto com pouca surpresa que descobri que este filme foi baseado num livro de Thea von Harbou, a autora de ‘Metropolis’ e ‘M’, e que uma adaptação cinematográfica já tinha sido feita quase 30 anos antes. Nessa altura acredito perfeitamente que esta história resultaria. Mas não assim. Não a cores, não com som, não com uma estrutura cinematográfica moderna. Suponho que a maior parte da história do livro em termos de construção de personagens tenha sido deixada de fora e portanto o que sobra são apenas belas imagens sem conteúdo.

Como um filme isolado ‘Der Tiger von Eschnapur’ é péssimo. Como um ‘build-up’ para um segundo filme poderá resultar (dependendo do segundo filme!), mas o último acto está tão mal construído que deixa pouco, ou nenhum interesse, para ver a continuação. Tecnicamente ‘Der Tiger von Eschnapur’ poderá até ser apelidado de fantástico. Mas a história simplesmente não se sustém com o passar do tempo.

Esta minha má impressão de ‘Der Tiger von Eschnapur’ ficou-me tão marcada que esperei mais de 4 meses até ganhar coragem para ver ‘Das indische Grabmal’, ou ‘The Indian Tomb’, a continuação. Em Março de 2011 lá o vi, mas infelizmente provou ser mais do mesmo. Tudo o que disse acima (e mais!) pode ser repetido ipsis verbis para criticar a segunda parte do épico indiano de Fritz Lang.

O primeiro filme, como disse, deixou muito pouco interesse de ver o segundo. Não satisfeitos, os primeiros 5 minutos de ‘Das indische Grabmal’ fazem a recapitulação do primeiro filme. Admito que estes 5 minutos tiveram mais interesse do que ver os 90 minutos completos. A versão curta tem mais ritmo, mais interesse e mais tensão! Infelizmente, quando a recapitulação acaba, restam 90 minutos de ‘Das indische Grabmal’ e não apenas 5, para mal dos pecados do espectador. Quando a história retoma, somos de novo transportados para um universo cinematográfico de belíssimos enquadramentos, cenários, guarda-roupas e desenho de produção, mas que se desenrola no mesmo passo lento e com a mesma história lamechas de diálogos quase intragáveis, que mais parecem saídos de intertítulos de filmes mudos.

Após a sua breve fuga pelo deserto, o casal é de novo apanhado pelo exército do Maharadjaj e a personagem de Hubschmid, o arquitecto, é supostamente morta. Mas quem é que acredita que o actor principal de um filme morre menos de 20 minutos depois do filme começar? Isto não é, claramente, o ‘Psycho’! Mas o filme faz disto um grande espectáculo (que ninguém, repito, poderá acreditar), e a bailarina é de novo trazida para o palácio, desta vez para casar à força com o Maharadjaj. Mas estranhamente, o filme afasta-se destas duas personagens e elas literalmente desaparecem por longos minutos. Em vez disso, a irmã, e o respectivo marido, do arquitecto (que tinham chegado à cidade no final do primeiro filme), literalmente (e verbalmente) expressam a tensão que o filme tenta criar. Constantemente dizem um ao outro ou aos mauzões do palácio frases como ‘Onde estão eles?!’, ‘Estarão vivos?’, ‘Estarão mortos?’ e ‘Temos que os salvar!’ num conjunto de cenas completamente desnecessárias e repetitivas. Em cima disto, os conspiradores do primeiro filme desta vez decidem que o Maharadjaj tem que ser deposto e portanto começam a intrigar nesse sentido. Mas o desenvolvimento destes pontos que descrevi neste paragrafo é completamente inexistente. O filme anda à volta destes temas e depois no fim todas as histórias se ligam e concluem quando ocorre um ‘climático’ assalto ao palácio.

Mais uma vez o filme é muito pobre, e pouco de interesse acontece em 90 minutos. De novo a história gira desesperadamente à volta de um romanticismo e um drama que só se enquadravam em épicos filmes mudos. De novo a linha do argumento perde-se e é oca (as duas personagens principais tem muito poucas falas e a história ocorre à volta delas, em vez de se focar nelas). De novo o filme não tem um clímax. De novo a única coisa de interesse neste filme é uma segunda dança que Debra Paget protagoniza, exibindo o seu belíssimo corpo à medida que encanta uma cobra muito, mas mesmo muito, falsa. E por falar em coisas falsas, a cena com os leprosos é verdadeiramente inacreditável (tão inacreditável que nem merece ser descrita), e eu pergunto, relativamente a outra cena, como é que é possível esfaquear alguém se se vê claramente (claramente repito) que a faca NÃO ENTRA NEM SEQUER TOCA NA PELE!

Talvez a versão americana ‘Journey to the Lost City’, que reduz estes dois filmes a um apenas de 90 minutos seja suportável. Bem, se não o é, pelo menos é mais curta! Estes dois filmes, como estão, são fiascos completos. É perfeitamente credível que tenham sido feitos por Lang, pois é só olhar para o brilhantismo dos aspectos técnicos. Mas mesmo Lang devia ter tido sensibilidade argumental. A história é simplesmente demasiado má para ser verdade, e o argumento só permite um único tipo de cena: a) pessoa entra em divisão, b) pessoa imóvel tem uma conversa com outra que já lá está e c) pessoa sai da divisão. E se, por cima disto, a conversa é enfadonha até mais não, as cenas de suposta ‘acção’ não têm uma pinga de tensão, como é que se consegue ver este filme?! Pode ser um filme belíssimo visualmente mas não há absolutamente nada de interesse na imagem para além da pintura visual. Mesmo que isto seja culpa de Lang, tenho pena dele. Tem 40 anos de obras-primas no currículo mas depois termina a carreira com esta dupla aberração. É, para mim, um paradoxo absolutamente inexplicável.

Por favor, caro leitor, não veja nenhum destes filmes, para poder manter a memória imaculada da mestria da carreira de Lang. E se vir, fique-se pelo primeiro. Há falta de melhor, pelo menos pode desfrutar da beleza de Luciana Paluzzi, algo que não é possível no segundo filme, já que a sua personagem morre no final do primeiro. Bem, se a tivessem renascido dos mortos no segundo filme, em vez de terem feito a coisa inexplicavelmente má que fizeram, o filme teria pelo menos ganho algum interesse!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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