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Sands of Iwo Jima

Ano: 1949

Realizador: Allan Dwan

Actores principais: John Wayne, John Agar, Adele Mara

Duração: 109 min

Crítica: O público de hoje está familiarizado com a batalha de Iwo Jima, na Segunda Guerra Mundial, devido aos dois filmes que Clint Eastwood realizou em 2006, ‘Flags of Our Fathers’ e o magnífico ‘Letters from Iwo Jima’. Se o primeiro se foca nos efeitos pós guerra na psicologia do soldado comum, e se perde, especialmente na sua parte final, em sentimentalismos desnecessários, o segundo é uma obra-prima do cinema bélico, porque depende muito mais do indivíduo do que da acção. Mas mesmo nestes filmes, tal como em todos os restantes hoje em dia, independentemente da maneira como escolhem retratar os cenários de guerra, a espectacularidade e o realismo dos horrores da batalha são uma parte integrante da sua constituição. Contudo, no final da década de 1940, quando os primeiros filmes sobre a Segunda Grande Guerra começaram a ser feitos, a acção era muito mais contida e ligeira por dois motivos; primeiro não havia capacidade cinematográfica, segundo a guerra ainda estava bem presente no dia-a-dia americano.

Mas com isto o leitor não pense que os filmes desta altura perdem qualidade. Ao contrário dos filmes da Grande Guerra que apareceram nos anos 1960, espectaculares produções internacionais blockbusterizadas, os filmes da Grande Guerra do final da década de 1940, início da de 1950, foram feitos como um tributo aos soldados, às batalhas, e claro, à eterna glória dos americanos. Não é por acaso que a maior parte destes filmes se foca muito mais nos soldados do que nas batalhas. As fichas técnicas estão cheias de nomes (famosos ou não) de realizadores, actores, argumentistas, técnicos de fotografia, etc, que realmente lutaram nas batalhas que nem meia década depois estavam a filmar. Por isso estes filmes têm um carisma especial, uma sensação de homenagem latente, um acenar aos soldados caídos e a aura de um eterno obrigado e de uma esperança de que melhores dias virão. Esta sensação, claro, impede que a guerra seja um espectáculo cinematográfico, pelo que estes filmes poderão desapontar um espectador moderno habituado a um ‘Saving Private Ryan’ ou a um ‘Hurt Locker’.

‘Sands of Iwo Jima’ de Allan Dwan (um pioneiro do cinema, que trabalhou nos anos 1910 e 1920 com nomes como DW Griffith e Douglas Fairbanks) é um dos expoentes desta categoria de filmes de guerra de homenagem e sensibilização. Feito uns meros quatro anos após a batalha real, este filme foca-se num pelotão de soldados liderados pelo grande Duke, John Wayne, um dos poucos homens no elenco que não esteve como soldado na guerra. Mesmo assim, em 1h45min de filme apenas 20 minutos representam batalhas. A meio do filme, as forças americanas invadem a ilha de Tarawa, uma espécie de ensaio para os últimos 10 minutos do filme, que retratam a invasão de Iwo Jima. Estas cenas na realidade pouco mostram em termos de confronto, e apenas cerca de três ou quatro soldados japoneses aparecem em todo o filme, geralmente a morrer. A câmara opta, em vez disso, por captar em close up pequenos grupos de soldados americanos em trincheiras ou correndo pelos areais ou encostas de montanha, que podem cair atingidos por balas invisíveis e dos quais não jorra uma única gota de sangue. Mas estas cenas são sustidas pela camaradagem entre os homens, pela apresentação das estratégias e das várias decisões que têm de fazer em batalha que podem custar tudo ou nada, pela revelação dos seus sonhos e esperanças quando estão perto da morte, pela tensão que transpira da sua posição (e que o leitor não me interprete mal, essa tensão transpira mesmo) e, a nota de brilhantismo do filme, pela introdução de imagens reais dos verdadeiros ataques. Wayne é visto, por exemplo, a lançar uma granada num óbvio cenário, mas o contracampo dessa imagem, a granada a explodir, é uma imagem filmada por repórteres reais no verdadeiro campo de batalha. Estas imagens reais que entrecortam as cenas de batalha podem ser menos espectaculares que caros efeitos especiais, mas incutem um acutilante sentido de realismo que não deixa de afectar as sensações do espectador.

O restante filme, tal como os outros da época, foca-se no treino e nas licenças, nas intrigas banais e na camaradagem, nas cartas que recebem de casa, nas discussões sobre o que vão enfrentar, e até no casamento de um dos soldados, sempre num estilo que oscila entre o sério e o semi-cómico, especialmente quando os soldados estão ‘em descanso’ ou a gozar de uma folga na cidade mais próxima. Contudo, não há uma única discussão sobre o significado da guerra ou se esta vale a pena. Não há uma única discussão sobre a alma ou a humanidade do inimigo. O japonês é o inimigo. A guerra é a missão e a obrigação de todos. Servir é uma honra. E o filme é uma homenagem aos homens individuais que serviram. Homens que crescem com a guerra e que têm (mesmo que parcos) arcos sentimentais devido a ela. A personagem de Wayne, por exemplo, é apresentada como um durão desde o início, mas ao longo do filme as suas emoções são desfiadas e apercebemo-nos de que a sua natureza é multifacetada e até emotiva, algo que se revela quando ele salva a vida a um soldado que o odeia, ou quando dá todo o seu dinheiro a uma mulher com um bebé na sua última noite na cidade. O Duke poderá não ser o mais versátil dos actores, mas tem aqui um papel talhado à sua imagem cinematográfica que encarna na perfeição.

Terminando com o içar da bandeira americana no topo do monte de Iwo Jima, e dando pequenos papéis aos soldados que a içaram (aqueles que são retratados em ‘Flags of Our Fathers’), o filme ‘Sands of Iwo Jima’ poderá não ser o mais excitante dos filmes de guerra, nem o que tem o melhor estudo das personagens (‘Battlegound’, do mesmo ano, sobre a batalha do Bulge, feito nos mesmos contornos, tem personagens muito mais bem construídas e cativantes), mas consegue ser uma condigna homenagem a uma das maiores batalhas do Pacífico. As duas cenas de invasão às duas ilhas retratadas poderão saber a pouco realmente, mas se pensarmos que o filme foi feito por homens que viveram a guerra e que provavelmente não queriam reavivar os seus horrores (por isso é que as mortes, embora ocorram, são sempre ‘soft’) o resultado final afigura-se como surpreendente.

Nomeado para quatro Óscares (Actor principal, Montagem, Som e Argumento) não ganhou nenhum, mas foi um sucesso de bilheteira. Embora não seja um filme para a eternidade (embora indispensável para os fãs do Duke), no momento do seu lançamento ‘Sands of Iwo Jima’ foi provavelmente a melhor homenagem que podia ser feita aos amigos e companheiros das pessoas que trabalharam no filme, e que pereceram nessa ilha do Pacífico.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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