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Revisitando Mel Brooks



Melvin Kaminsky, AKA Mel Brooks. O cómico judeu. O homem que nos ensinou a ‘walk this way’. Na tradição de outros grandes cómicos como Chaplin ou Jerry Lewis, Mel Brooks evoluiu de 'actor' para 'realizador' para 'artista'. Passou de realizador ('director') para autor ('filmmaker') de uma forma tão natural que passou despercebida a muitos especialistas da área. 

O que se segue é uma visão pessoal dos 11 filmes de Mel Brooks. Se não sabe quem é, então está na altura de descobrir. Se sabe, está na altura de revisitar os seus filmes, e quiçá ficar com o bichinho de os rever. Este é Brooks, tal como eu o vejo, entendo e amo.





‘The Producers’ (1968)

O original é sempre o melhor. Passados 30 anos, ‘Producers: o musical’ tornar-se-ia o espectáculo mais bem-sucedido de sempre da Broadway e geraria um remake cinematográfico em 2005, mas nada se compara à estreia como realizador do génio da comédia televisiva. Brooks inventa um novo tipo de comédia, com um animalesco Zero Mostel impagável como um encenador outrora conhecido que agora se resigna a enganar velhotas ricas, e um xoninhas Gene Wilder (nasceu para o papel!) raramente mais hilariante e esganiçado. Juntos (com uma química incrível – ver por exemplo a cena na fonte) formam um plano para o desfalque perfeito: criar um espectáculo tão mau que feche na primeira noite, ficando assim com o dinheiro dos investidores. Esse espectáculo, claro, é ‘Springtime for Hitler (Winter for Poland and France!)’, e o resto é ouro cómico! Dos raros exemplos na história de uma comédia a ganhar Óscar de melhor argumento (o único Óscar da carreira de Brooks), ‘The Producers’ é incrivelmente original, irreverente, hilariante até dizer chega, e, surpreendentemente para uma comédia, extraordinariamente coerente e consistente. Isto apesar do seu infindável leque de personagens ‘fora’, incluindo o encenador homossexual, o argumentista Nazi e o actor que faz de Hitler, interpretado brilhantemente, e com muito ‘flower power’, por Dick Shawn. É comédia com conteúdo e provavelmente o melhor filme de Brooks. Não se pode descrevê-lo. É preciso vê-lo. Brooks chegara à cena cinematográfica.


‘The Twelve Chairs’ (1970)

O segundo filme de Brooks é um dos seus tesouros mais bem guardados. Raramente referido na sua filmografia, raramente mostrado, é difícil de perceber como esta comédia passou despercebida na altura e continua a sê-lo agora. 5 anos antes de Woody Allen fazer a sua ‘comédia russa’ (Love and Death, 1975), já Brooks parodiava o género de Dostoyevsky e Tolstoy. O jovem oportunista Frank Langella (na altura ainda sem a voz rouca!), o aristocrata arruinado Ron Moody e o padre ortodoxo ‘de-partir-o-coco-a-rir’ de Dom DeLuise formam o triângulo de interesseiros que procura um tesouro escondido no forro de uma de 12 cadeiras pertencente a um fidalgo, que com a revolução foram apropriadas pelo estado e distribuídas pelos quatro cantos da Rússia. A sua hilariante odisseia é pontilhada por momentos cómicos que giram à volta das intrigas uns contra os outros, falsas pistas e muitas perseguições. Este filme não tem uma piada por segundo, nem sequer uma piada por minuto, e talvez seja esse o motivo do seu esquecimento. Mas, tal como ‘The Producers’, prova que Brooks não era só um cómico: também tinha olho para o lado humano, e sabia construir as relações entre as suas personagens. Mas a vida é uma comédia, e Brooks sabia extraí-la, embora com a irreverencia de Tex Avery. ‘Hope for the best, expect the worst’ diz a música do genérico, composta pelo próprio Brooks. Não, não se aplica ao filme. Mas sim à vida. A solução? Sorrir.


‘Blazing Saddles’ (1974)

1974 foi o ano chave de Brooks. Não só realizou os seus dois filmes mais famosos e mais conceituados, como se afastou da linha dos seus dois primeiros filmes para, quase sozinho, (re)criar o género ‘paródia’. E é o western que primeiro recebe um ataque frontal de Brooks. ‘Blazzing Saddles’ é mais incoerente, mais espalhafatoso, mais ruidoso e menos consistente como filme. Mas o que peca nestes aspectos, compensa em comicidade. Desde o Ku Klux Klan à própria Hollywood, desde Randolph Scott (herói de westerns de série B) ao cliché dos barões dos caminhos-de-ferro, desde a cantora à la Marlene Dietricht de Madelene Kahn (estridentemente hilariante, nomeada para Óscar) ao primeiro grande papel de Brooks, como político tótó (após apenas breves aparições nos 2 filmes anteriores), desde referencias a ‘Show Boat’, ‘Tesouro de Serra Madre’ e até aos Looney Toons, ‘Blazzing Saddles’ descasca o Oeste em 90 minutos, vira-o ao contrário e regurgita-o. Quando o político corrupto Hedley (e não Hedey!) Lamarr, brilhantemente protagonizado por Harvey Korman, deseja que a linha de ferro passe pela pacata cidade de Rock Ridge, promove um negro (Cleavon Little), a sheriff com o intuito de descreditar a cidade, baixar o valor imobiliário e afastar a população. Mas Little é muito mais inteligente do que parece, e em parceria com o pistoleiro Gene Wilder vai reverter a situação com um estrondo. De novo há consciência social na comédia de Brooks. Este é dos poucos westerns da história do cinema com um negro como personagem principal. Para além do mais, o final climático que quebra barreiras do tempo e do espaço (saltar do Oeste do século XIX para Hollywood presente) dá um toque de magia especial e prova o amor que Brooks tem pelo cinema e a sua história. Pode parodiar filmes, mas não os parodia como o faz os Scary Movies ou os Epic Movies ou os irmãos Zucker. Parodia-os porque os ama. E esse amor está bem patente na tela. Paródia com sentimento e amor à sétima arte, com um brilhante argumento e poderosas interpretações de comédia.


‘Young Frankenstein’ (1974)

Na cerimónia dos Oscares de 1974, havia 5 nomeações para filmes de Brooks. ‘Blazzing Saddles’ estava nomeado para melhor música, actriz secundária e montagem, e ‘Young Frankenstein’ para som e argumento. Embora sem vitórias, o estatuto de Brooks na comédia séria com substância era inegável. Frankenstein foi um projecto de Wilder, que convenceu Brooks a fazer o filme aquando das filmagens de ‘Blazzing Saddles’ e juntos escreveram o argumento. ‘Young Frankenstein’ é o filme mais artístico de Brooks, e cuja comédia é mais difícil de seguir, visto estar muito focada nos obscuros filmes de monstros da Universal dos anos 30. Filmado num fabuloso preto e branco, o filme é sumptuoso, na construção, nos planos, nos cenários, tem muita atenção ao detalhe (foram usados os mesmos adereços de ‘Frankenstein’ e ‘Bride of Frankenstein’ dos anos 30, que Brooks encontrou esquecidos no armazém do estúdio), e tem um rol de personagens secundárias hilariantes (e com sotaques alemães que não ficam atrás). Gene Wilder é o filho de Frankenstein, que após morte do pai, regressa ao castelo para reclamar a propriedade. Aí, repete as pisadas do pai na criação do monstro, e a sequência de eventos é muito semelhante, quer ao filme original, quer a ‘Bride of Frankenstein’. As piadas sexuais estão no auge e são muito do cerne do filme, Marty Feldman é um Igor estrábico e com uma bossa que muda continuamente de lado, Gene Hackman faz um 'cameo' como o cego, Madelene Kahn volta a mostrar o seu incrível talento como a noiva, e a constante piada do ‘walk this way’ (desde então repetida sempre nos filmes de Brooks) inspirou a famosa música. ‘Young Frankenstein’ é o filme mais trabalhado de Brooks e prova que comédias podem ser bem realizadas, mas ser hilariantes mesmo assim.


‘Silent Movie’ (1976)

Se ‘Young Frankenstein’ é o filme mais artístico de Brooks, ‘Silent Movie’ é o mais audacioso, embora também um dos menos conseguidos. Se fazer um filme inteiramente mudo em 1976 já é de espantar, então fazer um filme inteiramente mudo em Hollywood sobre um realizador de Hollywood que quer fazer um filme inteiramente mudo é ainda mais surpreendente. A ausência de diálogos permite que a comédia se foque única e exclusivamente no visual, e Brooks tenta recriar os modelos perdidos dos mestres da comédia muda, da delicadeza de Chaplin, à loucura inocente de Lloyd, às set pieces técnicas de Keaton. Para isso recorre a dois actores de expressividade imensa, Dom DeLuise e Marty Feldman. Eles são os assistentes do próprio Brooks, que pela primeira vez assume o papel principal num dos seus filmes. Para vender a sua ideia de um filme mudo ao estúdio, procura contratar um conjunto de estrelas (talvez a técnica usada pelo próprio Brooks na vida real?). Assim sendo, o filme segue as aventuras de três totós desastrados enquanto tentam convencer famosos como Anne Bancroft (a mulher de Brooks na vida real), James Caan, Burt Reynolds, Liza Minelli, Paul Newman, entre outros, a entrar no seu filme. Nestas andanças o famoso mimo Marcel Marceau diz a única palavra do filme todo (irónico, não?). Após vários contratempos, o filme é feito e estreado (numa cena hilariante após a bobina ser roubada pelos mauzões). ‘Silent Movie’ procura dizer muito sobre o próprio cinema, as suas origens, as suas estrelas, e as suas formas de produção. Talvez seja por tentar dizer muito sem dizer nada (literalmente), talvez seja um trabalho demasiado ácido, de piadas internas dirigidas aos clichés da indústria, e por isso perca um pouco da inocência louca, mas incrivelmente consciente de Brooks. Seja pelo que for, ‘Silent Movie’ é uma parada de estrelas levemente engraçada, e não uma grande comédia. Mas mesmo assim é uma pérola, visto ser a primeira e única comédia muda do cinema a ser feita desde o advento do som, e a única mega produção muda até que ‘The Artist’ apareceu em 2011. Trás consigo a nostalgia de uma magnífica era, irremediavelmente perdida.


‘High Anxiety’ (1977)

Em 1976 Hitchcock fez o seu último filme. Em 1977, Mel Brooks presta-lhe a sua homenagem. Numa década em que Brian de Palma e Truffaut, entre outros, aclamavam o génio de Hitchcock com homenagens profundas e trabalhadas, Brooks tenta realçar a superficialidade do terror e do suspense cinematográfico, e a forma como, sendo levemente esticado, rapidamente passa do magistral ao ridículo. Ostentando cenas (muito) semelhantes a ‘Psycho’, ‘Birds’, ‘Vertigo’, ‘North by Nothwest’ e outras grandes obras de Hitch, Brooks é, pelo menos à primeira vista, realmente ridículo naquilo que apresenta. Assim, os pássaros enchem Brooks de caca, este aparece de fraldas no flashback que revela o seu medo de alturas secreto (cair do berço?!), etc. Na linha de ‘Notorious’, Brooks, um famoso psiquiatra com o tal medo de alturas (high anxiety), chega para tomar posse de um Hospital Psiquiátrico, e logo descobrir que uma intriga se passa lá dentro (às mãos dos vilões Harvey Korman e Cloris Leachman – que mais parece a Rosa Kleb do James Bond). Quando está próximo do segredo, é incriminado de homicídio, e depois luta contra o tempo (auxiliado pela loira, de novo, de Madeline Kahn) para redimir o seu nome e salvar o Hospital. Por um lado, este filme acaba por ser a primeira comédia de Brooks que é tão ostensivamente ridícula que não pode ser tomada a sério. Contudo, por outro, Brooks faz um magnífico trabalho de homenagem. Eis um cómico que percebe, realmente percebe, o trabalho de Hitchcock, e que consegue encaixar na sua narrativa pequenos pormenores até dos filmes mais recônditos, dos anos 20, de Hitchcock, que muitos críticos nem sequer devem saber que existem. Uma pessoa pergunta-se o que é que Hitchcock terá achado do filme. Reza a lenda que Brooks lhe mostrou o filme numa sessão privada. Quando terminou, Hitchcock saiu sem dizer uma palavra, mas no dia seguinte enviou a Brooks uma garrafa de champanhe…


‘History of the World: Part I’ (1981)

O sétimo filme de Brooks chega um ano depois de ‘Airplane’ ter dado um soco baixo na comédia ‘spoof’, tirando-lhe toda a inteligência e substituindo-a por parvoíce. Contudo, Brooks manteve-se fiel ao seu tipo de comédia, embora tornando-se cada vez mais directo na paródia, e evoluindo para os padrões da década consumista dos anos 1980. ‘History of the World: Part I’ é o filme mais épico de Brooks, ‘atacando’ os filmes bíblicos, os filmes ‘swords and sandles’, e os ‘period pieces’. Mas é também o mais desconexo. Não segue uma linha narrativa normal, optando em vez disso por seis vinhetas cómicas, em períodos históricos específicos, desde o idade da pedra até à revolução francesa, narrados pela poderosa voz de Orson Wells (o que ele não fazia para ganhar uns trocos!) Alguns capítulos (a Idade da pedra, Moisés) demoram 5 minutos e não são mais que uma série de piadas e one-liners, mais dignas do ‘Saturday Night Live’ do que propriamente de uma longa metragem. Permitem uma série de gargalhadas rápidas mas pouco mais. Os dois capítulos principais (na época romana e na revolução francesa) tem durações maiores e já apresentam personagens com as quais se pode criar alguma empatia. Num Brooks é um cómico que não consegue fazer rir Nero (brilhante, hilariante, Don DeLuise) e que para escapar aos leões foge de Roma com Gregory Hines (um escravo) e a belíssima Mary-Margaret Humes, uma aia da imperatriz. O toque de classe cómica deste segmente é dado, de novo, por Madeline Kahn, como mulher de Nero, mais esganiçada do que nunca. Este é o segmento com as melhores piadas, desde os flancos dos guardas (flunk flancs!), aos eunicos (grande estreia de Hines no cinema, que ainda tem tempo de mostrar os seus passos de dança). O segmento acaba na Judeia, onde Brooks conhece Cristo! Na revolução francesa, Brooks é um papalvo que é a cara chapada do Rei, e que ao bom estilo do ‘Man in the Iron Mask’ (versão de 1977 claro), é substituído, para morrer na guilhotina em vez dele. Mas irá fugir, com nova menina, desta vez Pamela Stephenson. Aqui é de salientar as piadas relativas à pobreza (Cloris Leachman incrível) e o extremo oposto, o da riqueza excessiva. A frase clássica de Brooks ‘It’s good to be the king’ é dita muitas vezes, e, como não podia faltar, Korman é o vilão. E depois, claro, há a Inquisição, um segmento de 7 minutos que é um grande videoclip. E o trailer do (nunca feito) ‘History of the World: Part II’, que inclui o segmento ‘Hitler on Ice’! History of the World é uma comédia. Uma comédia não de situações, mas de piadas. Piadas atrás de piadas, independentemente da história. Este é um exemplo de uma coisa destas bem feita. Talvez o melhor. Com diz Hines no fim, quando os tempos se cruzam, tal como em ‘Blazzing Saddles’: ‘movies is magic’. E Brooks sabe-o. Este não é o melhor filme de Brooks. Mas é o seu maior espectáculo cinematográfico. Representa a paródia àquilo que o cinema pode ser, e muitas vezes é.


‘Spaceballs’ (1987)

Se havia género que merecia ser parodiado no final dos anos 1980, era o da ficção científica. Spaceballs não faz segredos. Quer parodiar ‘Star Wars’, e segue a sua história de perto. Contudo, há também ‘Star Trek’. Há ‘Alien’. Há ‘Planet of the Apes’. Há todos os filmes passados no espaço dos anos 1970 e 1980. E Brooks, de novo, grande conhecedor do cinema, vais buscá-los um a um, torce-os, e apresenta-os com um sorriso. Rick Moranis é Dark Helmet, absolutamente brutal no seu papel percursor de todas as paródias de Darth Vader. É só vê-lo a tentar sorver o café por entre os furos da máscara para perceber que estamos perante algo especial (espacial?!). Bill Pullman é uma espécie de Hans Solo e John Candy é uma espécie de Chewbacca e juntos, no seu Winnebago voador, tentam salvar a princesa Daphne Zuniga. E depois há Yogurt, interpretado pelo próprio Mel Brooks, o guardião da… force? Não. Da Schwartz! E claro, Pizza, the Hut! ‘Spaceballs’ não é um grande filme de Brooks, não é inteligente com os trabalhos dos anos 1970, nem épico como History of the World. Mas, em 1987, após todas as comédias como Beverly Hills Cop ou as dos irmãos Zucker, surge como um grande concorrente em termos de comicidade, e com um toque de nostalgia. As cenas mais cómicas vêm dos trocadilhos e one liners clássicos de Brooks (‘I can see your schwartz is as big as mine’, ‘Mega Maid has gone from suck to blow’), mas há também a cena das ‘instante cassete tapes’, onde Brooks se homenageia a si próprio. Há aqui também ataques ao consumismo (a loja do Yoda, perdão, do Yogurt, e Dark Helmet a brincar com os brinquedos das personagens do filme) e ao, então a despoletar, mercado dos VHS. Para além do mais, Brooks está constantemente a quebrar a quarta barreira, fazendo as personagens perfeitamente conscientes dos extremos que estão a roçar. Cinema e comédia lado a lado, como sempre no trabalho de Brooks. Contudo, este filme parodia tão directamente ‘Star Wars’ que é difícil ser considerado independentemente, e por isso perde força cinematográfica. Mas, embora não seja a melhor das comédias se considerado isoladamente, é, para as novas gerações que já nasceram com ‘Star Wars’ tatuado no cérebro, uma das melhores de ‘ficção científica’, senão a melhor.


‘Life Stinks’ (1991)

Todos os cómicos anseiam fazer o seu ‘filme sério’ e ser reconhecidos como grandes actores/autores, desde Chaplin (‘A Woman of Paris’ de 1923) a Jim Carrey (‘Truman Show’, ‘The Majestic’). Brooks, claro, não podia ser excepção. Na verdade, Brooks já fizera filmes sérios, e bons, mas apenas os produzira. A sua produtora Brooksfilms fez ‘Elephant Man’ de David Lynch, por exemplo (aliás Brooks é creditado como a pessoa que deu a primeira oportunidade num grande estúdio a Lynch). ‘Life Stinks’ é o que se pode aproximar de ‘filme sério’ com a mão directa de Brooks (realização e actuação). Apenas aproximar porque claro, não é na verdade um drama. É uma comédia, mas é uma comédia assente em pontos dramáticos muito claros, e que chega a ser tão pungente que rapidamente se passa do sorriso às lágrimas. Brooks é um milionário que só tem olhos para o próximo negócio imobiliário. O filme abre com uma cena na empresa de Brooks, onde ele anseia (muito veementemente!) construir uma série de arranha-céus num local onde agora existe um bairro pobre e degrado. Ele apenas pensa nos milhões e não nas pessoas que vai desalojar. Eis que entra em cena o seu rival, que anseia pelos mesmos quarteirões. Numa disputa de cavalheiros, este engana Brooks com uma aposta. Se Brooks conseguir viver 1 mês, começando sem dinheiro, naquela zona da cidade, então os terrenos serão seus. Brooks aceita, desconhecendo o que é ser pobre e sem abrigo. Muito à semelhança de ‘Sullivan’s Travels’, o filme de Preston Sturges de 1941, Brooks entra num mundo, semi-cómico e por vezes pouco realista, da pobreza e dos sem-abrigo. Aí faz uma série de amigos, donde se destaca Lesley Ann Warren, que tem uma performance magistral. Claro que Brooks vai começar mal e acabar bem. Claro que no fim se vai arrepender e em vez de construir um arranha-céus vai construir um centro social. Claro que o vilão vai tentar que Brooks, sem dinheiro nem identificação, não volte a tomar conta do seu império, e um exército de sem abrigo se irá revoltar no fim do filme. Mas também, menos claro, há cenas que tocam notas que ninguém esperava de Brooks, mas é o próprio que rapidamente as desfaz, talvez com medo que o filme perca o seu tom leve. Assim ocorrem antíteses. Vemos uma cena extremamente comovente em que um dos sem-abrigo morre de fome e frio numa noite mais dura, mas logo na a seguir, quando Brooks, Warren e mais um sem-abrigo tentam deitar as suas cinzas num esgoto (é o ‘mar’ mais próximo), atiram-nas contra o vento e, obviamente, ficam todos sujos. Brooks nunca deixa o dramático tomar conta. É o filme que fica a perder, na minha opinião. O resultado final nunca é tão cómico, nem nunca é tão dramático, por isso, superficialmente, o filme fica a saber a pouco. Contudo, surpreende-me a forma abrupta como este filme foi descartado e esquecido. Surpreende-me como Lesley Ann Warren não foi nomeada para Óscar de actriz secundária (já foi, mas não neste filme). A cena em que ela e Brooks dançam num armazém de roupa no qual entram para passar a noite é mágica, e recorda os velhos musicais dos anos 1930 com o Fred e a Ginger. ‘Life Stinks’ é o último grande filme de Brooks e, a par de ‘Twelve Chairs’, é um tesouro escondido.


‘Robin Hood: Man in Tights’ (1993)

Os dois últimos filmes de Brooks, os dois dos anos 90, são típicos produtos da década. Piadas fáceis, simples e superficiais, gozo directo a filmes recentes e da moda para que possa ser rapidamente apreendido pelo público, enfoque (demasiado) nas piadas sexuais, e um tom ligeiro (quiçá brejeiro) em toda a produção. Contudo, Brooks efectivamente tem piada, e consegue ainda encaixar algumas das suas características chave, como engraçados à partes, e pequenas homenagens a filmes antigos e aos seus próprios filmes. Mas tudo isso é engolido pela espectacularidade blockbusterizada da produção (tão típica dos 'nineties'), tornando o filme acessível a um público jovem, mesmo que não tenha visto os filmes de Robin Hood que este parodia. Aqui goza-se o mito, e menos o cinema. Na linha de ‘Spaceballs’, Robin Hood e Dracula já não são comédias inteligentes. São simplesmente comédias. ‘Man in Tights’ agarra-se muito ao filme com Kevin Costner feito dois anos antes, com pitadas do magnífico filme de Michael Curtiz com Erol Flynn de 1939. Robin Hood é Cary Elwes que, como o próprio diz, é o primeiro Robin Hood com sotaque inglês. Faz de Robin Hood como fez do aventureiro em ‘Princess Bride’ (1987) e a sua cara não consegue ficar séria. Há também o amigo negro (Dave Chappelle, que com o coro grego – negro! – dá um tom rap e moderno à peça), o criado cego (Mark Blankfield), Will Scarlett (O’Hara! – é da Georgia) (Matthew Porretta) e Little John (Eric Allan Kramer), que Robin conhece numa das cenas mais engraçadas do filme, a luta de troncos para atravessar o rio. Todos estes elementos partem das cenas de ‘Robin Hood: Prince of Thieves’ (1991) e parodiam-nas directamente, pouco se afastando da sequência original. Os vilões aqui são engraçados, dos mais engraçados de todos os filmes de Brooks (excluindo claro Rick Moranis como Dark Helmet!). Roger Rees é o Sheriff de Rottingham e Richard Lewis é King John (que me faz sempre lembrar Pacino!). Mas as duas personagens mais engraçadas são mesmo Amy Yasbeck que faz de Maid Marian (tornando-se a nova Madeleine Kahn para Brooks) e claro, a breve aparição de Don DeLuise como Don Giovanni, uma espécie de Padrinho com algodão nas bochechas (England and Jersey, Jersey and England!). Pouco mais há a dizer. Há muitos trocadilhos, muitos one-liners, e o próprio Brooks aparece no 2º acto como Frei Tuck. Há também duas ou três músicas, incluindo o engraçado ‘Man in Tights’, que basicamente é o ‘Jews in Space’ de History of the World, com uma nova letra. Tudo somado ‘Robin Hood: Man in Tights’ pega numa história que toda a gente conhece e transforma os pormenores dessa história em piadas fáceis de digerir. Numa palavra: divertido.


‘Dracula: Dead and Loving It’ (1996)

Por fim, quase 30 anos depois do seu primeiro filme, surge o último de Brooks. ‘Dracula: Dead and Loving it’ é provavelmente o pior filme de Brooks, e não passa de uma comédia um pouco acima do banal dos anos 1990. Isto comprova-se facilmente dizendo simplesmente que o actor principal é Leslie Nielsen, e este filme pouco se afasta do tom que o actor deu aos seus filmes ao longo de toda a década. Tal como em Robin Hood, Brooks tem duas inspirações principais, uma moderna, o filme de Coppola que acabara de ser feito três anos antes, e uma antiga, o original ‘Dracula’ da Universal de 1931, que por sua vez são muito influenciados por ‘Nosferatu’ (1922). Aqui seria uma tarefa impossível para Brooks ir pegar em elementos da obra-prima do cinema mudo, já que o seu tom gótico e de terror não se adequa a comédia, portanto em vez disso mantém-se sempre em terreno seguro e conhecido. A história da lenda de Dracula (cujo cliches são tão familiares do público em geral) é reproduzida fielmente, com os lugares comuns apenas esticados até ao ponto do ridículo. Após enlouquecer o agente imobiliário Renfield (Peter MacNicol) e comprar a Cairfax Abbey, o Dracula de Leslie Nielsen viaja para Londres, onde entra na vida de Jonathan Harker (Steven Weber), Mina (de novo Amy Yasbeck) e Lucy (Lysette Anthony). Depois de tranformar Lucy em vampira vai atrás de Mina, e é ai que Van Helsing (quem mais, Mel Brooks) é chamado em cena para matar o vampiro. O filme vai tendo piada mas é sempre algo xôxo. A verdade é que o público sabe já quase todas as piadas que há a fazer com vampiros e os conceitos foram sendo tão estereotipados ao longo dos últimos 80 anos que é difícil olhar para eles de um refrescante ponto de vista cómico. Mesmo assim Brooks ainda consegue espremer sequências interessantes, como o apunhalar de Lucy (litros e litros… e litros de sangue), a aula de anatomia que introduz a personagem de Van Helsing, ou a dança de Dracula com Mina, na qual ele não está reflectido no espelho. Mas o filme tem diálogos tão maus como ‘He’s Nosferatu!’ que tem como resposta a pergunta incrédula ‘He’s Italian?!’… A verdade é que um filme com Nielson nunca poderia ser inteligente. Poderá ter piada. Mas nunca será profundo. Para o material apresentado, Nielson é a escolha perfeita para Dracula, mas isso não poderá dizer muito sobre o material apresentado. Talvez Brooks estivesse a perder qualidades. Ou talvez não tivesse escolha. O padrão das comédias desceu tão baixo nos anos 1990, que talvez Brooks apenas estivesse a seguir a corrente. Na verdade, nos anos 1990, o público procurava comédias destas. Mas, por muito que Brooks ainda conseguisse introduzir as suas peculiaridades especiais, a sua magia já não está em ‘Dracula’. Felizmente, há uma série de filmes anteriores que tornam o seu nome imortal nos anais da comédia. E ainda bem que assim é.


No virar do milénio ocorreu algo de muito particular na Broadway. Os musicais voltaram a estar na moda e regressaram com uma qualidade que não tinham desde os anos 1970. Ainda por cima, em 2002 ‘Chicago’ ganhou Óscar de Melhor Filme, o primeiro musical a consegui-lo em 40 anos, o que fez com que houvesse uma nova corrida de Hollywood aos musicais (não originais note-se, meras filmagens de sucessos já garantidos do teatro).

Após 1996, Brooks não se despediu no cinema por assim dizer. Aproveitou esta onda para começar a trabalhar num musical do seu primeiro filme. Quis o destino que este se tornasse o musical mais visto e mais galardoado de sempre. Infelizmente, a sua esposa de 40 anos, a oscarizada Anne Bancroft, faleceu em 2005. Muitas vezes Brooks creditou-a como a inspiração de todos os seus filmes e aquela que o incentivou a colocar números musicais nestes. O sucesso financeiro do musical de ‘The Producers’ e da sua menor re-adaptação a cinema, bem como o falecimento de Bancroft faz supor que, e até com a sua idade avançada, realizar outro filme tenha deixado de fazer parte dos planos de Brooks.

Hoje com 85 anos, Brooks faz trabalhos pontuais e participações especiais para a televisão, e ainda algumas vozes para filmes ou séries de animação. Apenas 10 pessoas já ganharam pelo menos um Óscar (cinema), um Emmy (televisão), um Grammy (música) e um Tony (teatro). Brooks é uma dessas pessoas. O público de hoje já não faz ideia quem Brooks é, e os seus filmes fazem parte da memória televisiva dos anos 1980 e 1990, mas raramente são recordados ou repassados. Mas a verdade é que o legado de Brooks é realmente importante para a história do cinema. Fez comédias menores, é certo, todos os cómicos exageram quando se tentam vender ao público e às suas exigências, mas Brooks tem uma série de incontestáveis obras-primas. Um homem cheio de piada e de ideias inovadoras para a comédia, um homem que fazia filmes para rir é certo, mas com uma camada interior, e essa camada era uma de amor ao próprio cinema.

Eu costumo dizer, comparando os três génios da comédia muda, que Lloyd fazia comédia pela comédia, Keaton fazia comédia pela técnica e Chaplin fazia comédia pela arte. Agora me apercebo que Brooks fazia comédia pelo cinema. Nunca deixarei de rever os seus filmes.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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