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Runaway Train

Ano: 1985

Realizador: Andrey Konchalovskiy

Actores principais: Jon Voight, Eric Roberts, Rebecca De Mornay

Duração: 111 min

Crítica: - "You're an animal!" | - "No, worse, I'm a human".

O filme ‘Runaway Train’ constitui, para mim, um dos maiores mistérios de sétima arte. Mistério porque, apesar de ser uma das melhores obras-primas que cinema americano pós moderno alguma vez produziu, nunca o vi referenciado em qualquer livro da especialidade, nunca o encontrei numa lista de melhores filmes, e nem sequer numa de ‘one hit wonders’, já que o seu realizador é  Andrey Konchalovskiy, um conceituado realizador russo mas de pouca visibilidade fora do seu país, com excepção de algumas obras em Hollywood nos anos 1980, incluindo o blockbuster 'Tango & Cash' (1989) com Stallone. Precisamente, ‘Runaway Train’ é geralmente rotulado como fazendo parte dessa aventura americana de Konchalovskiy, ou seja, como um filme de acção dos anos 1980, e geralmente é esquecido facilmente como tal. Para mim é incompreensível como esta obra pode ser tão mal compreendida. Foi há talvez uma década que descobri ‘Runaway Train’ por mero acaso e desde então, sempre que o revejo, a minha opinião mantém-se imutável. O filme é uma espantosa surpresa, e é brilhante em toda a sua concepção. É uma tour de force que consegue captar na perfeição o que a maior parte dos filmes apenas tenta, sem conseguir: a emoção e o sentimento humano.

A justificação para o brilhantismo do filme poderá ser até bem fácil de encontrar. Um crédito humilde na sequência inicial referencia: "baseado num argumento de Akira Kurosawa". Na realidade, todo este projecto foi concebido pelo grande sensei, um dos maiores mestres/artistas que o cinema já conheceu e criador das suas obras mais espectaculares, belas, humanas e duradoiras. Contudo, problemas com um nevão forte no local das filmagens atrasaram a produção do filme em alguns meses, o que fez com que Kurosawa abandonasse o projecto e se concentrasse noutra gloriosa obra-prima que seria concluída no mesmo ano, ‘Ran’ (1985). Konchalovskiy tomou as rédeas do filme e, embora talvez o tenha americanizado um pouco, especialmente nas cenas de acção (como posteriormente faria com ‘Tango & Cash’), o seu background no cinema russo (trabalhou, por exemplo, com Tarkovskiy em ‘Andrey Rublyov’, 1966) permitiu que tivesse a mestria necessária para manter a história fiel aos seus princípios emocionais. Esta arriscada dualidade entre o blockbuster e o arthouse torna o filme extremamente inovador e cativante, e uma verdadeira obra de arte. Infelizmente, esta troca de Kurosawa por Konchalovskiy fez mal ao filme em termos promocionais, pois estou convencido que se o nome do sensei, ou de outro qualquer, como Scorsese, estivesse associado a exactamente o mesmo produto final, o filme seria aclamado como uma obra prima, algo que realmente é, por mérito próprio.

A acção do filme passa-se no rigoroso inverno gelado e coberto de neve do Alaska. Abre numa prisão de máxima segurança, onde somos introduzidos à personagem de Jon Voight, um recluso completamente maluco e psicótico. Após três anos em prisão solitária é finalmente transferido para a sua cela normal. O seu único pensamento, a partir desse momento, é escapar, e o filme rapidamente nos mostra a sua fuga bem sucedida, algo que consegue com a ajuda de outro recluso meio retardado em termos intelectuais, um jovem pugilista interpretado por Eric Roberts (cuja irmã é a famosa Júlia Roberts, mas que construiu uma carreira longa por mérito próprio, embora em filmes de menor projecção). Através das planícies geladas, chegam a uma estação de comboios perto da prisão. Voight escolhe um comboio de carga e decide embarcar nele. “Porquê este comboio?” pergunta-lhe Roberts. “Porque eu quero” responde Voight. E desta forma instintiva, animalesca, o seu destino fica traçado e selado. Embarcam, para nunca mais sair. Noventa minutos de filme restam ainda.

De repente, um pathos patético, o filme corta para o vagão máquina do comboio, onde vemos o maquinista a morrer de ataque cardíaco, deixando o comboio ao 'deus de ará' e a ganhar velocidade constantemente. Ao aperceberem-se da sua situação, ficam cientes de que o movimento recto e ritmado do comboio controla e condiciona a sua vida e a sua recém-obtida liberdade. Fugiram de uma prisão para outra, uma estática e outra em movimento. Se saltarem sabem que provavelmente morrerão na queda. Se ficarem onde estão sabem que eventualmente morrerão quando o comboio descarrilar. Enquanto se interiorizam desta condição apercebem-se que existe uma terceira pessoa no comboio, a assistente do maquinista, uma rapariga delicada e que ama a vida, interpretada por Rebecca de Mornay. Estas três almas irão colidir ou trabalhar em conjunto de acordo com um padrão instável próprio da natureza humana, enquanto tentam chegar ao vagão máquina para tentar travar o comboio, testando as suas resistências humanas e lutando contra as forças da natureza (o frio, a velocidade, os abismos) e do homem (o comboio e os seus perseguidores).

A tensão que o filme proporciona tem várias escalas. Dois universos existem para além do comboio. O primeiro é constituído então pelos ‘perseguidores’, sob a forma do director da prisão (interpretado por John P. Ryan) e das restantes forças policiais que perseguem o comboio em fuga com helicópteros e carros. O segundo é constituído pelos técnicos da central da companhia dos caminhos-de-ferro, que se dividem entre desviar o comboio para linhas secundárias, para que não haja choques frontais com comboios a deslocarem-se no sentido inverso, e a decisão de se devem ou não descarrilar o comboio de propósito. Contudo estas cenas de tensão e acção relacionadas com a incerteza de se o comboio irá descarrilar ou não, ou se a polícia irá ou não apanhá-los, poderão dar intensidade à história, mas oferecem pouca profundidade e conteúdo. Na realidade, para mim, estas cenas tornam-se irrelevantes quando comparadas com aquelas passadas dentro do comboio, entre as três personagens que lá estão presas, que são o único e verdadeiro cerne do filme. Os três estão cientes que o comboio controla as suas vidas e portanto só têm duas opções: capitular e resignarem-se, ou então lutar contra o destino. Se optarem pela segunda opção, têm que desfazer-se da fachada das suas personalidades e revelar a sua verdadeira natureza… O clímax ocorre quando a companhia dos caminhos-de-ferro decide encaminhar o comboio para um trilho abandonado, para que descarrile, e o director da prisão finalmente consegue alcançar, de helicóptero, o comboio. À medida que o comboio se dirige para um desastre eminente, o director da prisão e Voight têm um decisivo confronto final…

Em vez de mostrar o desfecho inevitável da história, ou seja, em vez de capitalizar num desenlace que o público já está à espera, ou então contradizê-lo, chocando, o filme decide acabar antes e deixar uma pequena dúvida, de uma forma, na minha opinião, belíssima, numa cena que recorre maioritariamente ao estímulo visual (a sensação chave do cinema), mas também a uma música fantasticamente adequada e bela, e a uma citação shakespeariana de ‘Ricardo III’. É absolutamente fabuloso. A música dá a coerência e o significado necessários à imagem e não é preciso gastar tempo a explicar ou a fechar a história. Isto é tratar o público com respeito, ao mesmo tempo que se é ‘artístico’. É uma pena o resto do filme ser preenchido por uma música electrónica tão típica da década de 1980, completamente fora de contexto relativamente às imagens gélidas. Só mesmo no fim o poder da música se adequa ao poder das imagens. Mas que fim que é! O resultado é impressionante. O que começa humildemente e sem projecção como um filme de acção dos anos 1980 acaba como um dos maiores estudos da natureza humana alguma vez feitos.

Nos anos 1980, felizmente, filmes outsiders ainda eram nomeados para grandes prémios americanos, com base exclusivamente no seu talento. ‘Runaway Train’ arrecadou três nomeações para os Óscares (melhor actor para Voight, melhor actor secundário para Roberts e melhor Montagem). Como seria de esperar não ganhou nenhum, o que é uma pena, especialmente em termos da actuação de Voight. Está absolutamente soberbo e considero esta a melhor performance da sua carreira. A sua personagem é psicótica mas pungente, e a sua caracterização é hipnótica em todas as cenas, sempre animalesca com um ligeiro brilho de humanidade. Mesmo salientado os outsiders, os Óscares já na altura não conseguiam resistir às personagens estereotipadas e socialmente relevantes, pelo que a interpretação de William Hurt de um recluso homossexual em ‘Kiss of the Spider Woman’ arrecadou o galardão, mais diria eu pela extravagância da performance do que propriamente pela sua profundidade. Já os europeus reconheceram a obra-prima que é ‘Runaway Train’ e o filme foi nomeado para a Palma D’Ouro (perdeu, justamente, para ‘The Mission’). Deve-se salientar também a performance de DeMornay. Apenas dois anos depois de ser a femme fatale do filme de adolescentes que lançou Tom Cruise, ‘Risky Business’, provou ser muito mais que uma cara bonita, e a sua actuação é também fabulosa.

No final, ‘Runaway Train’, bem para lá da acção, bem para lá das set pieces e da tensão que apresenta, é um estudo sobre personagens e emoções, e da revelação instintiva da verdadeira natureza do ser humano em situações extremas. É uma brilhante obra-prima que merece ser vista, uma e outra vez. Konchalovskiy substituiu na perfeição Kurosawa, mas mesmo assim não se pode deixar de especular o quão mais brilhante seria ainda ‘Runaway Train’ se o sensei não tivesse abandonado o projecto. Nesse caso faria certamente parte, não tenho dúvida alguma, de todas as listas.

Ah e já agora, os fãs de Danny Trejo (Machete, Machete, Machete!) ficam a saber que este foi o seu primeiro filme. Como seria de esperar, tem um pequeno papel como um dos reclusos no início do filme…


1 comentários:

  1. Gostei muito deste filme. E, de Konchalovsky também, há o recomendável The Lion in Winter e um dos filmes da minha juventude, Maria's Lovers (com a filha do Klaus, desejada por todos, mas amada apenas por um...).

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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