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Odd Man Out

Ano: 1947

Realizador: Carol Reed

Actores Principais: James Mason, Robert Newton, Cyril Cusack

Duração: 116 min

Crítica: Apesar do suposto pináculo da carreira do realizador Carol Reed foi ter visto o seu filme menor ‘Oliver’ ganhar o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador em 1968, é aceite incontestavelmente que a sua melhor obra é ‘The Third Man’ (1949), onde um sub-mundo de sombras, intrigas e personagens tão decrépitas como a cidade de Viena do pós-guerra é apresentado ao melhor estilo noir, num tempo de acção limitado a poucos dias sombrios e a noites escuras e densas. Mas o que poucos sabem, ou se lembram, é que dois anos antes da perfeição de ‘The Third Man’, Reed já tinha feito como que um ensaio a este género de ambiente cinematográfico.

‘Odd Man Out’ não é tão cativante nem tão brilhante como ‘The Third Man’, mas mesmo assim é um estudo muito interessante, não tanto de uma personalidade, mas de uma cidade decrépita à noite, e dos ambientes e das personagens que nela se podem encontrar. Passado numa cidade não identificada na Irlanda do Norte (provavelmente Belfast), corroída pela pobreza e pela guerra entre o IRA e as forças governamentais, ‘Odd Man Out’ abre com um texto a afirmar que o filme não tem uma mensagem política e que apenas se propõe a focar nas pessoas, que podiam estar em qualquer lugar, em qualquer circunstância. O actor James Mason (no papel que anos mais tarde afirmaria ter sido o preferido da sua carreira) é Johnny, o líder de um braço do IRA (o que explica o sotaque irlandês forçado), que após anos na prisão (de onde se evadiu) e seis meses escondido numa casa, é-lhe dada a ordem para sair à rua e assaltar um banco para arranjar fundos para a organização. Quase instintivamente nota-se a relutância de Johnny, a prisão mudou-o, mas também não quer dar parte fraca, nem aos seus superiores, nem aos seus subordinados, nem à causa. E claro há o amor, como não podia faltar, de Kathleen (uma boa performance da pouco conhecida Kathleen Ryan), uma mulher que acredita que podem levar uma nova vida.

O assalto corre bem, mas um momento de hesitação (talvez remorso) de Johnny faz com que seja alvejado e que, logo a seguir, por instinto, mate um funcionário do banco. Os seus parceiros fogem e Johnny fica sozinho. De repente, quatro grupos colidem nas ruas da cidade que se aproxima de uma noite longa e escura. O primeiro é a polícia que procura Johnny. O segundo são os membros do gangue de Johnny que se dividem entre deixá-lo à sua sorte e procurá-lo para o salvar. Entre estes está Kathleen, com a promessa fraca de um barco que os pode levar, aos dois, para a salvação e outra vida. Esta ideia de um barco inalcançável que pode levar dois seres perdidos na noite para um novo começo faz ecoar a história da obra-prima de John Ford, ‘The Informer’ (1935) também passado na Irlanda do Norte e também envolvendo a traição de um membro do IRA. O terceiro grupo é só constituído por um elemento, Johnny, que vagueia sozinho pela noite, tentando esquivar-se dos seres que nela habitam, ferido, corroído pelos remorsos, e ciente que a morte, quer pela ferida, quer pela polícia, espera-o a qualquer esquina.

Mas é o quarto grupo que, na segunda metade do filme, assume o maior significado. Estes são os seres da noite, os bêbados, as prostitutas, as crianças órfãs, os pobres, os amantes secretos. De repente, Johnny quase que deixa de ter importância como personagem. Ferido e fraco, muitas vezes desmaiado, Johnny transforma-se num objecto, e o filme consegue estar mais de dez minutos sem sequer o mostrar, o que parece incrível. Em vez disso foca-se em todos aqueles que se cruzam com ele, aqueles que o querem ajudar, aqueles que o querem entregar à polícia para receber a recompensa, aqueles que têm medo, aqueles que o querem para outros propósitos (como o pintor que quer fazer o seu retrato), e assim por diante. Enquanto Kathleen, um padre e a polícia o procuram, Johnny é passado de ser em ser da noite, e são as particularidades destes seres, e não as de Johnny, que são exploradas, à medida que a esperança se perde, a noite se adensa, e um inevitável final trágico, após um pequeno raio de luz, se aproxima.

Eu já tinha visto ‘Odd Man Out’ uma vez há mais de dez anos. Agora tive a oportunidade de o rever no recém-lançado formato de Blu-ray da colecção Network. O restauro está magnifico o que permite salientar ainda mais a brilhante cinematografia e o design de produção de um filme a preto e branco que se passa mais de dois terços de noite. Contudo, mais uma vez, é um filme que não me satisfaz completamente. Sim, o estudo das personagens da noite está muito bem feito. Todas elas têm um sonho há muito perdido que o objecto, Johnny, e o que ele poderá valer, parece reacender por uns momentos. E todos, incluindo os ‘bons’, os que o ajudam, são impotentes perante um destino que já parece traçado e um pathos trágico que acompanha uma personagem que nunca se poderá salvar. Mas a questão é precisamente essa, o filme, tal como todos os outros, acaba por abandonar Johnny, cuja presença se torna secundária. Tudo revolve à volta dele, mas ele não está presente. Isso resulta com o Harry Lime em ‘The Third Man’ mas não com Johnny em ‘Odd Man Out’, pois este não é, como aquele, uma presença etérea, um ‘puppet master’ invisível, mas sim uma presença real, cujas emoções são simplesmente relegadas para segundo plano pois mal consegue falar nem andar, e são substituídas por aquelas, mais fáceis de obter, de todos os que o procuram ou o ajudam. Isto retira significado e até interesse ao filme, que se perde com estas personagens secundárias e esquece o ‘odd man’ que nunca voltará a entrar dentro de uma casa.

Tirando isto, ‘Odd Man Out’ revela uma vez mais a capacidade soberba de Reed de criar tensão em ambientes nocturnos decrépitos de cidades cheias de sombras e recantos, e da sua predilecção pelos seres instintivos e animalescos que neles habitam, todos procurando pateticamente sobreviver e se possível amar, tal como o final surpreendente procura transmitir.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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