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Andy Hardy's Blonde Trouble

Ano: 1944

Realizador: George B. Seitz

Actores principais: Lewis Stone, Mickey Rooney, Fay Holden

Duração: 107 min

Crítica: E então, após treze filmes em sete anos, Andy Hardy, o adolescente mais universal da história do cinema – genialmente interpretado pelo supremo Mickey Rooney – finalmente rumou à Faculdade em ‘Andy Hardy's Blonde Trouble’ (em português ‘A Loira de Andy Hardy’). 

Toda a gente que viu os treze filmes anteriores (todos eles já foram criticados em EU SOU CINEMA) percebe a importância crucial deste momento, aguardado e temido em partes iguais. Ao longo de tantas aventuras desde ‘A Family Affair’ (1937), Andy, o membro mais novo da família Hardy da pequena cidade de Carvel, foi-se tornando cada vez mais central. Aos poucos, a saga foi-se libertando da sua repetitiva fórmula inicial, onde cada membro da família representava um estereótipo particular, para se transformar numa das mais puras e honestas representações de sempre (senão a mais pura e a mais honesta) do crescimento de um adolescente.

Tal como interpretado por Mickey Rooney, que apenas tinha 18 anos quando a saga começou (e que rapidamente, graças a esta continua sequência de filmes, se tornou o actor mais popular e mais rentável de Hollywood), Andy seduziu uma geração inteira no período conturbado das vésperas da Segunda Guerra Mundial. Percorrendo as fases de crescimento através dos seus olhos, o espectador riu-se com a sua jovial inocência adolescente em divertidos filmes como ‘Love Finds Andy Hardy’ (1938) ou ‘Judge Hardy and Son’ (1939) (para além de ser a epítome do boy next door, Rooney foi acima de tudo um grande actor cómico); sentimos a nostalgia do primeiro amor em ‘Andy Hardy Gets Spring Fever’ (1939); ou rejubilamos quando terminou o liceu em ‘Andy Hardy's Private Secretary’ (1941). De uma forma inesperada, a comédia moralista transformou-se numa universal lição de vida. A saga atingiu um surpreendente equilíbrio emocional, preparando Andy, e os seus milhares de jovens fãs, para a vida adulta –  incluindo para a Guerra, que se aproximava a passos largos. 

"Após treze filmes em sete anos, Andy Hardy finalmente rumou à Faculdade (...) Só que infelizmente, a saga não se reinventou. (...) É incrível, tendo em conta a qualidade da maior parte dos treze filmes anteriores, mas a grande verdade é que 'Andy Hardy's Blonde Trouble' é um filme desinteressante e sem chama. (...) A aura mágica que tinha tornado a saga tão especial esfuma-se perante os nossos olhos e nada toma o seu lugar."

Quando tudo já parecia ter sido dito depois de ‘Andy Hardy's Private Secretary’, a saga ganhou uma nova vida com aquela que eu apelidei em críticas anteriores de ‘trilogia de Verão’; os três filmes que retratam o período temporal entre Andy terminar o liceu e finalmente apanhar o comboio para a universidade no final de ‘Andy Hardy's Double Life’ (1942). Este Verão que se recusava a passar foi obviamente consequência do medo que os produtores tinham de que a partida de Andy de Carvel pudesse ditar o final desta bem-sucedida saga: quando o adolescente eterno deixasse de o ser, a saga ainda poderia continuar a existir? Mas o surpreendente é que os filmes não se limitam a ganhar tempo. Estão eximiamente construídos para aproveitar ao máximo este enquadramento, traçando, quase em tempo real, a entrada de Andy na idade adulta.

Em ‘Life Begins for Andy Hardy’ (1941) Andy ruma a Nova Iorque para a sua primeira experiência laboral, e assistimos aos primeiros rasgos da sua maturidade como adulto no filme mais consciente e pesado da saga. Em ‘The Courtship of Andy Hardy’, de volta aos ambientes de Carvel, existe uma sentida nostalgia e uma ênfase propositada nos valores familiares que haviam marcado o início da saga. Por fim, ‘Andy Hardy's Double Life’ concebe-se como a despedida. Passado nos poucos dias antes do tão aguardado comboio, é um filme que não tem pressas em avançar, onde tudo é tranquilo e consciente como um sorriso que baila num rosto, mas que ao mesmo tempo possui uma grande inevitabilidade. Depois de várias subtis homenagens aos momentos mais marcantes da saga, na última sequência tudo se encaixa no seu devido lugar. Tudo é imbuído de uma ternura subtil que afecta honestamente todos aqueles que aprenderam a amar esta série de filmes e esta família. Definitivamente marca o final de uma era. É o adeus que, infelizmente, não era para ser.

Quando 1943 se tornou no primeiro ano desde 1937 sem o lançamento de um filme da saga Andy Hardy, parecia mesmo que esta tinha terminado de vez. Contudo, tal como agora, parece haver uma grande relutância dos produtores de Hollywood em deixarem uma grande saga terminar, incluindo aquelas que já deram tudo o que tinham para dar e que até já se despediram dos seus fãs, como era o caso desta. Os cifrões parecem sempre falar mais alto que a lógica criativa, uma lógica que neste caso parecia estar completamente contra um novo filme. Para iniciar um novo ciclo de histórias na universidade a saga tinha de se reinventar, tendo em conta o crescimento de Andy e a mudança, não só dos enquadramentos cénicos, mas das personagens-base (não podíamos esperar que todas seguissem Andy para a universidade, pois não?). Só que infelizmente, a saga não se reinventou. Pelo contrário, pareceu ficar hesitante e perdida, sem saber realmente que rumo dar a Andy.

"É um filme incrivelmente morno, lento e monocórdico, onde muitas das personagens parecem ser desadequadas e onde o próprio Andy (e Rooney) não têm convicção. Melhor dizendo, Andy tem extrema dificuldades em existir como personagem fora do seu meio habitual e nunca encontra (ou nunca lhe dão) as condições ideais para fazer brilhar a sua energia cómico-dramática neste novo enquadramento. É um gigantesco desperdício."

É incrível, tendo em conta a qualidade da maior parte dos treze filmes anteriores, mas a grande verdade é que 'Andy Hardy's Blonde Trouble' é um filme desinteressante e sem chama. Sem dúvida alguma, é o filme mais desinteressante e mais sem chama desde aquelas sequelas iniciais (o segundo, o terceiro ou o quinto filme) que eram mais coisa menos coisa meros remakes do primeiro ‘A Family Affair’. A aura mágica que tinha tornado a saga tão especial esfuma-se perante os nossos olhos e nada toma o seu lugar. E mais incrível ainda é não podermos culpar o contexto. A saga Hardy já tinha demonstrado anteriormente que conseguia perfeitamente equilibrar as duas vertentes do cinema do período de Guerra: o sóbrio moralismo e o entretenimento puramente escapista. O filme anterior, por exemplo, havia concebido uma pungente alegoria do “jovem que parte” (Andy ruma à universidade, mas bem que podia ir para a Guerra), ao mesmo tempo dava rédea livre a Rooney para demonstrar todo o seu poder cómico. Ao contrário do que seria de esperar o mesmo não acontece em 'Andy Hardy's Blonde Trouble'.

O problema parece ser sobretudo argumental. Apesar de fazer parte da série especial dos Prémios da Academia e de ter sido exibido nas tournées de entretenimento para os soldados, é difícil de acreditar que os soldados tenham sido entretidos por um obra destas, e que a moral que o filme contém (se é que se lhe pode chamar isso) lhes tenha tocado de alguma maneira. 'Andy Hardy's Blonde Trouble' é um filme incrivelmente morno, lento e monocórdico, onde muitas das personagens parecem ser desadequadas e onde o próprio Andy (e Rooney) não têm convicção. Melhor dizendo, Andy tem extrema dificuldades em existir como personagem fora do seu meio habitual e nunca encontra (ou nunca lhe dão) as condições ideais para fazer brilhar a sua energia cómico-dramática neste novo enquadramento. É um gigantesco desperdício.

'Andy Hardy's Blonde Trouble' é o último filme da saga realizado por George B. Seitz, que havia realizado todos os filmes até então excepto ‘Andy Hardy Gets Spring Fever’. Infelizmente, este seu 13º filme ao comando dos destinos da família Hardy acabou por ser azarado e uma injusta e inglória despedida. O filme começa repetindo, com ligeiras alterações, a cena final do anterior. Andy acaba de se despedir da família na estação e pouco depois do comboio arrancar conhece Kay. Só que esta já não é interpretada pela bela Susan Peters (que apenas aparecera cerca de 30 segundos no final do filme anterior) mas por Bonita Granville, mais uma jovem actriz das fileiras da MGM que tinha tido algum sucesso como Nancy Drew numa série de filmes no final da década anterior.

"Apesar de Bonita Granville ter apenas 21 anos de idade (para os 24 anos de Rooney), a sua voz, aparência e atitudes muito mais maduras fazem-na sempre parecer muitos anos mais velha do que ele. O filme faz querer que é por Kay ser uma rapariga mais adulta e por a sua relação com Andy poder ser muito mais séria. Mas sinceramente, o que passa é um contraste evidente entre ambos que soa forçado, estranho e desconfortável desde o princípio."

Esta mudança representa, inadvertidamente, a mudança que a saga experienciou neste filme. Há imediatamente algo que não resulta com neste pedaço de casting e que irá condicionar todo o filme. Andy constantemente se rodeou das mais belas e mais jovens actrizes da MGM, com quem manteve sempre uma grande química (Judy Garland, Lana Turner, Ester Williams, Ann Rutherford, Donna Reed). Mas de repente, aqui está ele pelo beicinho por uma rapariga pouco vibrante, que é totalmente o oposto das anteriores e com quem não tem química absolutamente nenhuma. Apesar de Bonita ter apenas 21 anos de idade (para os 24 anos de Rooney), a sua voz, aparência e atitudes muito mais maduras fazem-na sempre parecer muitos anos mais velha do que ele. O filme faz querer que é por Kay ser uma rapariga mais adulta e por a sua relação com Andy poder ser muito mais séria do que as paixonetas passadas deste. Mas sinceramente, o que passa para o espectador é um contraste evidente entre ambos que soa forçado, estranho e desconfortável desde o princípio.

Ainda mais desconfortável é a presença de um misterioso senhor que parece intrometer-se sempre entre eles no comboio, e que mais tarde revelará ser o director da faculdade. Primeiro porque o actor Herbert Marshall nunca está, compreensivelmente, à vontade com o papel. Segundo porque o filme insinua que os seus motivos se prendem com o facto de ter – ele sim – uma química com a muito mais nova Kay que, diga-se de passagem, não a refuta. Aliás, vai ser algo que vai manter ambos incomodados durante grande parte do filme, e que teoricamente teria ramificações muito maiores do que aquelas que o filme acaba por considerar (e mais tarde rapidamente desconsiderar). E terceiro porque o verdadeiro motivo do estranho interesse em Andy ser tão previsível e desinspirado que quando é revelado no final, não constitui a surpresa que o filme esperaria.

Para tornar as coisas ainda mais contrastantes, Andy tem efectivamente uma grande chama com outras duas raparigas que partilham a mesma carruagem: as gémas Walker, interpretadas pelas gémeas Lee e Lyn Wilde, cantoras de relativo sucesso que tiveram uma curta carreira no cinema na década de 1940. Sublimes e luminosas ambas, constituem o elo de ligação ao Andy Hardy passado, ou seja, têm a energia das melhores Hardy-girls (aquela que falta a Bonita) e oferecem ao filme (e a Andy) oportunidades para sacudirem o marasmo em que se colocaram com esta história fraca. Não é de estranhar, portanto, que a sua história supostamente “secundária” – e a sua presença secundária relativamente a Kay – acabe por tomar grande parte do tempo do filme e que sejam elas a dar o título à obra (o problema com as loiras). Mais isso ainda mais enfatiza a incerteza e falta de confiança que toda a obra possui.

"A longuíssima e extremamente morosa sequência do comboio demora quase 45 min como se o filme continuasse com receio da chegada de Andy ao seu destino. (...) Quando finalmente chega à universidade (...) o filme poderia ter feito pelo ano de caloiro o que ‘Andy Hardy's Private Secretary’ havia feito pelo último ano do liceu. Contudo não é isso que acontece (...) Toda a energia cómica e bons momentos que Rooney poderia ter oferecido são desperdiçados."

Quando Andy as encontra, as gémeas Walker vivem um dilema. O pai delas quis separá-las (uma era suposto ir para a universidade, a outra para casa de uma tia distante) por isso decidiram ir ambas para a universidade, fingindo ser a mesma pessoa. No comboio enquanto uma sai a outra esconde-se no compartimento e mantêm a charada perante um incrédulo Andy. As interacções com ele logo nas primeiras cenas são excelentes, porque a sua confusão e atrapalhação é genuinamente hilariante. Enquanto Lynn é mais contida e recatada, Lee é basicamente uma versão feminina de Andy; uma atrevida e extrovertida rapariga que não hesita em fazer olhinhos ao nosso herói, e com quem partilha uns momentos electrizantes como outras raparigas haviam feito no passado. Como consequência, Andy terá uma enorme dificuldade em acompanhar as mudanças de humor do que pensa ser a mesma pessoa. 

Este é de longe melhor Andy do filme, e é pena que esta energia cómica não se perpetue pelo resto da obra. Do mesmo modo, os momentos com as gémeas são os mais interessantes da longuíssima e extremamente morosa sequência a bordo do comboio, que demora quase 45 minutos como se o filme continuasse com receio da chegada de Andy ao seu destino. A sequência nem acompanhamento musical tem, o que resulta em inúmeros silêncios desconfortáveis. É com dificuldade que o espectador acorda para a segunda parte do filme. Esta sequência inclui ainda outros momentos que nunca se articulam devidamente, como os apuros em que Andy se mete quando descobre que o pai se esqueceu de lhe dar o dinheiro para o bilhete, ou quando colegas mais velhos, para o enganar, convencem-no que caloiros endinheirados terão problemas. Assim, Andy acaba por “emprestar” o dinheiro que eventualmente recebe do pai a Lee. O problema vai ser tê-lo de volta mais tarde… 

Quando finalmente o comboio chega à universidade, o espectador ainda tem a ténue esperança que é nesse momento que o filme vai realmente começar. Mas de novo volta a desapontar. O filme poderia ter feito pelo ano de caloiro o que ‘Andy Hardy's Private Secretary’ havia feito pelo último ano do liceu. Contudo não é isso que acontece. Aos olhos do espectador, Andy é um universitário apenas em conceito. Só vemos de fugidia numa única aula e não há qualquer interacção de Andy com os restantes caloiros, por isso toda a energia cómica e bons momentos que Rooney poderia ter oferecido são desperdiçados. De facto, nas sequências na universidade, Andy só fala praticamente ou com o director ou com uma das três raparigas, Kay, Lee e Lyn. Todo o filme girará à volta das duas comédias semi-dramáticas de enganos que rodeiam estas personagens.

Por um lado, a relação de Andy e Kay é totalmente monocórdica. Apesar do filme assumir a sua seriedade, falta dinâmica argumental às cenas, que pouco mais são do que breves conversas entre aulas. Nunca se percebe o que cada um vê no outro (o amor verdadeiro é cego talvez…), visto que há pouca compatibilidade nas personagens e nos seus objectivos de vida. A “tensão” entre eles provém dos ciúmes de Andy quando passa a ver o director como um rival, mas isso pouco ou nada dura já que as coisas são rapidamente esclarecidas. Idem para a indecisão de Kay. Não há nada no desabrochar da relação entre estas duas personagens que seja convincente e muito menos algo com que o espectador se possa identificar e extrair morais interessantes.

"Não conseguimos acreditar no arco emocional de Andy por causa da sua indefinição como personagem (...) As suas oscilações são forçadas e súbitas (...) Andy (e Rooney) estão hilariantes (como de costume) ao lado das gémeas; mas Andy (e Rooney) estão frouxos e apagados ao lado de Kay, o que é inacreditável se assumirmos, como o filme insinua, que em Kay encontrou o amor da sua vida. É quase como se Andy fosse duas pessoas diferentes.

Já os males entendidos em redor das gémeas são bastante mais engraçados e um bem-vindo escape cómico à morosidade entre Andy e Kay. A cena em que ele descobre que afinal elas são duas pessoas diferentes, quando as segue até um café fora do campus e as ouve a cantar é vintage Rooney. Depois delas lhe contarem a sua história, Andy decide ajudá-las a ficar juntas. Infelizmente isso resume-se simplesmente a um telefonema ao pai delas fingindo ser o director. Rooney é exímio a demonstrar os seus talentos vocais numa cena genuinamente engraçada na boa tradição da saga, mas mais uma vez é pena que, pelo menos conceptualmente, seja apenas um aparte. Apesar das cenas com as gémeas até chegarem a demorar mais tempo que as partes com Kay, o filme parece sempre recusar-se a explorá-las mais a fundo. Provavelmente para não eclipsarem o resto do filme (note-se que as gémeas não trocam uma única palavra com Kay em todo o filme), mas o próprio título é prova que o fazem.

Por fim, e talvez porque há muito pouca dinâmica nesta aventura de Andy, o filme não diz totalmente adeus a Carvel nem às personagens do passado como deveria. De quando em quando, lá regressa à pequena cidade, para mostrar duas rábulas simples. Uma envolve o antigo carro de Andy e a irmã de Beasey (ver filmes anteriores). A outra a rouquidão do Juiz (que o deixa algo incapacitado) e do novo médico que o cura, um chinês-americano. A inclusão destas sequências é forçada, mas as morais de tolerância social e racial não são, numa era em que o ódio aos orientais escalava na América. Infelizmente, mais uma vez são linhas argumentais desgarradas da história principal que podem fazer o espectador recordar-se dos “bons velhos tempos” da saga, mas não contribuem muito para melhorar a história aqui apresentada.

No último acto, o Juiz irá mesmo rumar ao campus, para ajudar Andy a resolver os seus problemas, que parecem sempre muito mais simples do que o retrato dramático que o filme (e Andy) pintam. Com uma simplória linearidade o filme ruma a uma fácil resolução destes dilemas e a um final expectável. Como de costume, tudo está bem quando acaba bem. Não é inteiramente credível como todas as personagens aceitam o final, porque, lá está, são peões do argumento com pouca personalidade própria. Até Andy e Lee misteriosamente se esquecem um ao outro à medida que, tudo aponta, Andy avança vertiginosamente para uma relação mais séria com Kay. Mas isso não quer dizer que Andy esteja mais maduro. Ao contrário dos filmes anteriores, não conseguimos traçar nem acreditar no seu arco emocional por causa da sua indefinição como personagem. O filme tenta manter elementos clássicos (como o seu excitado gritinho final), mas as suas oscilações são forçadas e súbitas, e já não surgem na sequência natural dos eventos. Claro que é natural que ele ainda esteja divido (ou pelo menos o filme tenta que esteja), entre a folia adolescente que ainda o caracteriza e a iminente idade adulta. Mas a verdade é que estas duas vertentes, representadas neste filme pelas gémeas e por Kay, são diametralmente opostas. Andy (e Rooney) estão hilariantes (como de costume) ao lado das gémeas; mas Andy (e Rooney) estão frouxos e apagados ao lado de Kay, o que é inacreditável se assumirmos, como o filme insinua, que em Kay encontrou o amor da sua vida. É quase como se Andy fosse duas pessoas diferentes, passando constantemente de um estado para o outro, ora luminoso ora apagado, sem que Rooney, Seitz e o filme saibam o que fazer para o contrariar ou pelo menos controlar.

"‘O filme prova que Andy nunca deveria ter deixado de ser um adolescente de liceu (...) Andy tenta demasiado ajustar-se num determinado padrão pré-concebido, à custa da perda da sua própria individualidade. Falta discernimento à obra, mas principalmente falta classe. Nenhum filme pode ser bom se no final ainda torcemos para que o herói fique com uma das loiras secundárias e não com o desinspirado interesse romântico principal."

Com 1h50min, ‘Andy Hardy's Blonde Trouble’ é de longe o maior filme da saga Hardy em termos de duração, o que é outra grande incongruência.  O ritmo do filme é tão pausado que parece que tem duas vezes mais do que isso, principalmente na sequência inicial do comboio. A energia dos filmes anteriores é uma memória distante e a realização é apagada. Tudo isto talvez porque o argumento é extremamente desinteressante. As pequenas aventuras são enfadonhamente lineares, e não compensam essa falha com boas morais e boas doses de entretenimento como os filmes anteriores. É um mini-drama, semi-adulto, sem rumo aparente, sem coesão interna, que se arrasta como uma pálida imagem do que a saga havia sido, e nem sequer consegue capitalizar nessa memória. É quase como se fosse um filme de uma outra qualquer saga.

‘Andy Hardy's Blonde Trouble’ prova, infelizmente, que Andy nunca deveria ter deixado de ser um adolescente de liceu em Carvel e que a saga deveria ter acabado ao 13º filme. A mística, a essência que constitua a raison d'être da saga, perde-se com o comboio que é apanhado para uma nova vida. A esperança que o espectador tinha de ver Andy tornar-se homem desvanecesse com esta história. Andy sente de mais o peso da sua maturidade e tenta demasiado ajustar-se num determinado padrão pré-concebido, à custa da perda da sua própria individualidade. Falta discernimento à obra, mas principalmente falta classe. Nenhum filme pode ser bom se no final ainda torcemos para que o herói fique com uma das loiras secundárias e não com o desinspirado interesse romântico principal. E esta constatação resume a essência do filme. Nem as pequenas risadas que Rooney proporciona têm força suficiente para aquecer o espectador, como acontecera no final de quase todos os filmes anteriores. É uma pena.

Haveriam ainda mais dois filme da saga Hardy, mas depois deste, nenhum espectador fica com muito interesse de vê-los. Muito melhor chegar a fita atrás, e começar a ver a saga a partir de ‘A Family Affair’ de novo. Andy é o mais extraordinário e mais universal adolescente da história do cinema. E sempre irá ser. Por isso só funciona assim. Adolescente. A faculdade já não é a sua praia.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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