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Andy Hardy's Double Life

Ano: 1942

Realizador: George B. Seitz

Actores principais: Lewis Stone, Mickey Rooney, Cecilia Parker

Duração: 92 min

Crítica: Apenas cinco anos após o primeiro filme, ‘A Family Affair’, ‘Andy Hardy's Double Life’ (em português ‘A Vida Privada de Andy Hardy’) foi o décimo terceiro dos dezasseis filmes que a mítica saga de Andy Hardy teria. Após tantos filmes em tão pouco tempo, após se ter tornado a franchise mais popular da história do cinema clássico e do pequeno Mickey Rooney se ter tornado o mais mediático actor à face do globo, esta 13ª entrada foi motivo de sorte ou azar? Bem, talvez um bocadinho de ambos. Este que é o último filme daquela que eu apelidei nas críticas anteriores a ‘trilogia de Verão’ não é um dos melhores da saga mas é, em muitos aspectos, o seu último grande filme. Definitivamente marca o final de uma era. 

Há cerca de um ano que tenho estado a acompanhar o leitor por esta extraordinária sequência de filmes orientados para o público familiar. Numa era em que não havia televisão, estes filmes episódicos deram a conhecer ao mundo a família Hardy da pequena cidade de Carvel, e a sua veia de entretenimento, entre o didáctico e o divertido, seduziu uma geração inteira no período conturbado da Segunda Guerra Mundial. Mas mais do que um produto do seu tempo, é a sua longevidade que hoje fascina. Se lhe dermos uma oportunidade (algo que cada vez menos pessoas dão nos dias de hoje, infelizmente) descobriremos que estes filmes não estão nada datados, e que os seus valores, puros e honestos, são eternos e imaculados. Ou seja, estes deliciosos filmes podem ser descobertos por toda uma nova geração. É esse o objectivo dessas críticas.

"Este que é o último filme daquela que eu apelidei nas críticas anteriores a ‘trilogia de Verão’ não é um dos melhores da saga mas é, em muitos aspectos, o seu último grande filme. Definitivamente marca o final de uma era."

Em cinco anos a saga passou por inúmeras fases, mas sempre evoluiu para melhor. Os filmes iniciais debruçavam-se sobre as simples aventuras e desventuras da família e nos pequenos casos de tribunal que o patriarca, o Juiz Hardy (o imortal Lewis Stone) tinha de resolver. Contudo, sacudindo esta fórmula que se foi tornando algo morosa, o filho mais novo Andy começou a tomar conta dos procedimentos com a classe e a energia que só Mickey Rooney – o supremo – conseguia incutir no celulóide. Por exemplo, ‘Love Finds Andy Hardy’ (1938), o quarto filme, é uma fantástica comédia romântica de adolescentes; 'Andy Hardy Gets Spring Fever’ (1939), o sétimo, encontra uma inesperada maturidade; ‘Judge Hardy and Son’ (1939), o oitavo, cria o equilíbrio perfeito entre a veia cómica e a veia didáctica; e ‘Andy Hardy's Private Secretary’ (1941), o décimo, é um dos melhores filmes sobre o terminar-o-liceu da história do cinema.

Assim, muito naturalmente, a saga amadureceu e atingiu um surpreendente equilíbrio emocional, preparando Andy, e os seus milhares de jovens fãs, para a vida adulta. Isto ainda mais peso teve com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial no final de 1941 e esta dual necessidade de oferecer escapismo mas também uma força esperançada aos jovens que partiam. Desde modo, a saga entrou na sua memorável ‘trilogia de Verão’; os três filmes que retratam o período temporal entre Andy terminar o liceu no final de ‘Andy Hardy's Private Secretary’ e finalmente apanhar o comboio para a faculdade no final deste ‘Andy Hardy's Double Life’.

Claro que por um lado este “arrastar”, digamos assim, adveio do medo que os produtores claramente tinham de se afastar da fórmula vencedora da saga Hardy e do ambiente familiar de Carvel (como na realidade acabaria por acontecer, com desastrosas consequências, no décimo quarto filme). Mas por outro lado, este Verão que se recusa a passar faz todo o sentido porque representa a adolescência eterna de Andy. Mal ele terminasse Andy deixaria de ser adolescente e portanto a raison d'être da saga deixaria de existir. Felizmente, com a classe que só a Hollywood clássica conseguia proporcionar, a solução encontrada não é um mero arrastar repetitivo de sequelas. Esta “condicionante” é sempre usada a favor dos filmes que traçam, quase em tempo real, a evolução de Andy e a sua entrada na idade adulta, o que os torna ainda mais extraordinários.

"Este é um filme que não tem pressas em avançar, onde tudo é tranquilo e consciente como um sorriso que baila num rosto, mas que ao mesmo tempo possui uma grande inevitabilidade. Tudo se constrói com uma única lógica em mente, a partida, a despedida de Andy (...) Numa surpreendente manobra, esta contagem decrescente torna-se uma incrível e pungente metáfora para a partida de milhares de jovens, não para a faculdade mas para a Guerra"

Em ‘Life Begins for Andy Hardy’ (1941), o décimo primeiro filme, Andy arranja um emprego de Verão em Nova Iorque na história mais consciente e pesada de toda a saga. Aqui, Rooney tem uma das suas melhores interpretações, demonstrando que a sua personagem já não era uma criança. Já o décimo segundo filme, ‘The Courtship of Andy Hardy’ não é tão acutilante mas possui uma sentida nostalgia. Regressa aos ambientes pachorrentos de Carvel e volta a focar-se nos valores familiares para oferecer uma forte mensagem aos jovens americanos. E apesar de não ter o dinamismo de entradas anteriores (embora Rooney continue rei e senhor da sua personagem) consegue encontrar ritmo suficiente no seu drama e na sua comédia para se manter interessante.

É neste enquadramento que o décimo terceiro filme também existe. A saga, e muitos dos envolvidos, pareciam ter a consciência de que este bem que podia ser o último filme de todos. A Guerra prosseguia, alterando o paradigma deste tipo de filmes, e o próprio Rooney estava a encontrar o seu lugar noutras produções (particularmente nos musicais com Judy Garland), notando-se que também ele parecia estar disposto a deixar Andy neste ponto, o eterno adolescente. Portanto, este é um filme que não tem pressas em avançar, onde tudo é tranquilo e consciente como um sorriso que baila num rosto, mas que ao mesmo tempo possui uma grande inevitabilidade. Tudo se constrói com uma única lógica em mente, a partida, a despedida de Andy; e a acção decorre toda numa única semana: a última semana do Verão, a última semana de Andy em Carvel, a semana que antecede a sua tão aguardada partida.

Numa surpreendente manobra, esta contagem decrescente que o filme cuidadosamente constrói (George B. Seitz realiza pela 12ª vez), torna-se uma incrível e pungente metáfora para a partida de milhares de jovens da idade de Andy, não para a faculdade mas para a Guerra. Embora nada seja dito directamente, há uma sombra que cobre todo o filme, um sentimento mais consciente que todas as personagens, retomando a maturidade do filme anterior, experienciam. Mais uma vez Seitz concebe um filme que é o mais introspectivo e o mais trabalhado em termos de desenvolvimento das personagens até este ponto, precisamente porque nada é obtido graças a forçados elementos externos. O crescimento ocorre no interior de cada personagem, como consequência da sua recém-encontrada maturidade e de uma maior compreensão do seu lugar no Mundo. Andy, por exemplo, passa a falar de igual para igual com o pai. E raramente falou assim, sem ser num tom de gozo infantil, com a irmã. São sinais subtis mas claros de crescimento.

"Contudo, apesar de manter o tom tradicional da saga, entre o moralista e o cómico, o filme é algo inconstante. A abordagem é compreensivelmente mais adulta mas na realidade o filme não trabalha grandes lições de moral. (...) Assim poucas ramificações tem para além da ideia fixa da partida de Andy (...) Mas isso não impede contudo (a marca do génio) que Rooney proporcione aqui alguns dos melhores momentos de comédia de toda a saga."

Contudo, apesar de manter o tom tradicional da saga, entre o moralista e o cómico, o filme é algo inconstante. A abordagem é compreensivelmente mais adulta (o que prova a universalidade da saga e que cresceu a par e par com Andy) mas na realidade o filme não trabalha grandes lições de moral, ao contrário de muitos dos anteriores. Ao fim de treze filmes, abordar uma temática nova seria, admitamos, difícil por isso o filme simplesmente não o faz. Assim poucas ramificações tem para além da ideia fixa da partida de Andy – o seu objectivo último – também ela uma sombra que condiciona todas as acções. Mas isso não impede contudo (a marca do génio) que Rooney proporcione aqui alguns dos melhores momentos de comédia de toda a saga. No fundo, pode crescer o que quiser, mas não seria Andy/Rooney se não deixasse a sua veia juvenil vir ao de cima de quando em quando, soberbamente representada pelas suas impagáveis expressões faciais.

‘Andy Hardy's Double Life’ volta a focar-se principalmente em Andy, sendo que os outros membros da família têm apenas pequenos dilemas para resolver. O Juiz tem de deliberar sobre mais um caso de tribunal, embora não apareça nesse cenário uma única vez (já estavam todos fartos dele certamente). Desta vez um miúdo pobre partiu o braço chocando o seu carrinho de brincar contra um grande camião e o Juiz tem de decidir se ele merece ser indemnizado ou não. Ele quer ajudar a mãe viúva do rapaz mas não a quer favorecer só porque é pobre, por isso quer perceber-se das verdadeiras circunstâncias do acidente. Isso originará alguns cómicos mal entendidos e incluirá ele próprio testar o carrinho, com hilariantes consequências. Como de costume, será uma preciosa ajuda de Andy no final do filme que resolverá a questão.

Já em casa o Juiz tem de gerir o facto dos filhos já não serem crianças. Ele está convencido que irá acompanhar Andy na sua ida à faculdade (que foi a sua) e passa os dias a antecipar o momento em que irá “exibir” o filho pelo campus e aos velhos amigos que lá são professores. O que ele se recusa a entender é que Andy quer dar esse passo sozinho e não quer chegar à faculdade pela mão do papá. Ao longo do filme vão haver algumas conversas interessantes entre os dois, não só sobre os “bons velhos tempos” como de compreensão pai-filho que dão um adicional, e bem-vindo, toque de nostalgia à história.

Já Marian (Cecilia Parker), retomando a linha argumental do filme anterior, continua enamorada de Jeff Willis (William Lundigan), o rapaz rebelde que o Juiz havia regenerado do hábito de beber. Portanto, Marian quer que o pai perdoe a Jeff os 30 dias de prisão a que o havia sentenciado e que acredite que ele se regenerou mesmo. Nada disto é muito interessante (especialmente em retrospectiva) porque o filme está simplesmente a fechar o arco que começou há muito: Marian, como mulher, apenas espera o casamento para “começar a viver”… Muito mais interessante, na realidade, é a forma como ela e Andy interagem. Nota-se imenso a evolução das personagens e também o afecto entre os actores (parecem mesmo irmãos na vida real) neste que é o penúltimo filme da carreira de Cecilia Parker. Nem ela nem o seu marido, o actor Robert Baldwin, passaram da série B e por isso ambos retiraram-se em 1942 para se tornarem agentes imobiliários. Seriam casados mais de 50 anos, até à morte de Parker em 1993. Esta entraria em apenas mais um filme, o último tardio ‘Andy Hardy Comes Home’ (1958).

"Mais uma vez, a saga é bem sucedida em criar boa comédia romântica, tão boa que não só homenageia como rivaliza com os melhores momentos dos filmes anteriores (...) Este enquadramento cómico permite que Rooney esteja no meio onde sempre esteva mais confortável (leia-se genial). (...) A cena em que Ester Williams baila na piscina, por exemplo, torna-se genial, e genialmente cómica, precisamente porque Andy é um incrédulo interveniente."

Já a Sra. Hardy (Fay Hoden) e a tia Milly (Sara Haden) aparecem muito fugazmente (já nada têm a dar à saga), mas conseguem ser dignas e ter aquele charme discreto que só uma personagem muito bem enraizada pode ter. As suas intervenções prendem-se principalmente com o sentimento triste de “perder” Andy, representando de certa forma o que a América por esta altura sentia em relação a esta personagem maior do cinema “das massas”.

E no meio disto tudo, o que é que anda o próprio Andy a fazer? Das suas claro, e no seu estilo habitual. Primeiro há a sua clássica falta de capital. Ele quer ir no seu carro para a faculdade, mas a viatura está numa garagem em Nova Iorque (ver filmes anteriores). Para o tirar de lá Andy passou um cheque de 20 dólares que agora tem de conseguir cobrir. Para isso quer vender o seu outro velho bólide por precisamente 20 dólares a uns rapazes uns anos mais novos. Isto não será tão fácil como parece e incluirá vários males entendidos e até um bocadinho de chantagem, até tudo se resolver facilmente, como de costume. Nada de novo. São apenas desculpas para ver Andy a ser Andy.

E em segundo lugar, com mais interesse, há o seu habitual problema romântico, que origina a “aventura” que dá o título ao filme. Mais uma vez, a saga é bem sucedida em criar boa comédia romântica, tão boa que não só homenageia como rivaliza com os melhores momentos dos filmes anteriores, o que a um décimo terceiro filme é obra. Na sua recém encontrada maturidade, Andy reconhece que as suas múltiplas paixonetas “de criança” (todas as Hardy-girls que desfilaram pelos filmes anteriores) são infantis e fugidias e que deve preparar-se para começar de novo na faculdade. Mas ao mesmo tempo não quer perder o conforto de ter uma namorada e portanto não quer largar já a gloriosa Polly (Ann Rutherford), que apesar das despedidas nos dois últimos filmes regressa uma última vez.

Por um lado é excelente voltarmos a ver Polly. Nas críticas anteriores nunca escondi o meu gosto por esta personagem e esta actriz, que foi algo injustiçada porque foi sempre posta um pouco de lado para que outras jovens que o estúdio estava a testar/promover pudessem aparecer. Mas por outro esta sua última aparição sabe a pouco. Tal como Marion, Polly regressa apenas porque dá jeito à história (também ela aguarda partir para a sua universidade) e no final os produtores decidem não cometer o mesmo “erro”. Já tinham dado uma despedida perfeita a Polly anteriormente. Portanto aqui não o fazem (a última vez que a vemos está-se a rir com Andy e a sua amiga Sheila), talvez porque não sabiam se ela ainda iria voltar no filme seguinte. Mas como não volta a sua saída é um pouco inglória.  Por tudo o que deu à saga, merecia muito mais. É pena.


"Só é pena que estas sequências durem tão pouco e sejam no fundo apenas um aparte (...) Mas assim é por um propósito. Na realidade o filme está apenas a empatar até chegar à sua gloriosa e emotiva sequência final (...)  construída para terminar em beleza a saga. Tudo se encaixa no seu devido lugar. Tudo é imbuído de uma ternura subtil que afecta honestamente todos aqueles que aprenderam a amar esta série de filmes e esta família."

A táctica que Andy decide utilizar para manter Polly interessada é a fingir-se desinteressado. Resulta? Claro que não. O feitiço vira-se contra o feiticeiro quando Polly recruta Sheila, que está a passar com ela o Verão, para ensinar uma lição a Andy. Sheila é interpretada pela estreante Ester Williams, a ex-campeã de natação juvenil que se tornaria a “sereia da América” ao entrar nos míticos musicais aquáticos como ‘Bathing Beauty’ (1944). Tal como muitas Hardy-girls, Williams foi posta aqui pela MGM para testar o seu potencial. E Williams corresponde, não só demonstrando o seu talento com uma beleza, uma pose, um sorriso e uma capacidade de sedução que perdura na memória do espectador, como oferecendo-nos o primeiríssimo dos seus bailados aquáticos na piscina de casa de Polly. Ambos tornar-se-iam uma imagem de marca.

Melhor ainda é que este enquadramento cómico permite que Rooney esteja no meio onde sempre esteva mais confortável (leia-se genial). Quando Polly e Sheila tentam ambas seduzi-lo, propositadamente, Andy fica sem saber para onde se virar, e é essa sua infantilidade caricata, essa sua incapacidade de gerir as situações dividido entre um stress engatatão e um consciente coração de ouro, que o tornam uma personagem tão universal e tão bem-amada. A cena em que Williams baila na piscina, por exemplo, torna-se genial, e genialmente cómica, precisamente porque Andy é um incrédulo interveniente. Só é pena, realmente, que estas sequências, apesar de darem o título ao filme, durem tão pouco e sejam no fundo apenas um aparte. Não há mais do que esta pequenina brincadeira das duas raparigas às custas de Andy. E é tudo.

Mas assim é por um propósito. Na realidade o filme está apenas a empatar até chegar à sua gloriosa e emotiva sequência final, tornada ainda melhor já que não se esquece do humor (a corrida do Juiz e da Sra. Hardy para chegarem à estação a tempo...), porque afinal, esta nunca foi uma saga lamechas.  Só podemos supor que esta sequência muito bem gerida tenha sido construída para terminar em beleza, e com uma enorme nota de comoção, a longa saga de Andy Hardy. Tudo se encaixa no seu devido lugar. Tudo é imbuído de uma ternura subtil que afecta honestamente todos aqueles que aprenderam a amar esta série de filmes e esta família. Por exemplo, há uma cena que por si não é nada de especial mas que ganha um enorme significado se o espectador abraçou há muito esta família como se fosse a sua. Andy vai atirando as fotos de todas as suas antigas paixões de filmes anteriores (incluindo a Betsy de Judy Garland) ao lixo enquanto dá uma última arrumadela ao quarto antes de sair de vez. Este é o momento em que deixa de ser adolescente. E ele está ciente disso.

"O filme foi sério (...) mas também foi cómico e frisa que Andy, apesar de tudo, manterá a irreverência da sua personalidade e a irreverência da juventude. (...) Essa que não fica para trás como a cidade de Carvel fica para trás à medida que o comboio avança. Essa que permanece. Andy cresceu, vai para a faculdade. Mas o que ele representa nunca será esquecido, nunca será perdido. A sua alma, a alma do jovem universal é eterna."

Mas nunca deixará de ser Andy, este Andy, Andy Hardy, e o filme seria injusto para com ele e para com o espectador se não se recordasse disso, uma última vez, nos segundos finais. Andy cresceu, mas será sempre Andy e a forma como o filme termina, com mais um dos seus gritinhos excitados em pleno comboio quando faz uma surpreendente descoberta, é o sinal de que durante toda a vida nunca perderá a sua mais jovial essência. Talvez as suas aventuras, os seus pequenos dilemas amorosos e financeiros sejam algo simples e inconstantes, mas apontam todos, mais ou menos subtilmente, para este momento.

O filme foi sério, com Andy, surpreendentemente e sem pedir nada em troca, a ajudar a irmã, Jeff, e até o pai a resolver o caso de tribunal que o preocupa (mais um sinal de maturidade). E no final tem inclusive o mais sentido e verdadeiro tête-à-tête com o pai de toda a saga. Mas o filme também foi cómico e frisa, para que não haja dúvidas, que Andy, apesar de tudo, manterá a irreverência da sua personalidade e a irreverência da juventude. Essa que acompanhamos ao longo de treze filmes, que vimos ser construída aos nossos olhos. Essa que não fica para trás como a cidade de Carvel fica para trás à medida que o comboio avança. Essa que permanece. Andy cresceu, vai para a faculdade. Mas o que ele representa nunca será esquecido, nunca será perdido. A sua alma, a alma do jovem universal é eterna. Esta é a maior glória que este filme contém.

A mim pessoalmente, como fã da saga Hardy, aquece-me o coração. Aquece-me muito. Andy é o meu amigo, o meu irmão, o meu filho, eu próprio. Se este fosse mesmo o último filme da saga (a até os produtores provavelmente pensaram que seria, o filme seguinte só surgiu dois anos depois), seria difícil pensar numa melhor despedida. A esperança que existe na inocência da juventude é de facto uma poderosa mensagem para a geração que viu os seus filhos partir para uma Guerra à qual Andy também rumaria, dois filmes depois. Mas é também uma poderosa mensagem para todos os espectadores, de então até hoje, de ambos os lados (os jovens que saem de casa e os pais que os veêm partir). E nesta constatação está a essência da saga Hardy: a definitiva história sobre uma família e sobre o que a mantém unida.

" Se este fosse mesmo o último filme da saga seria difícil pensar numa melhor despedida (...) Temos pena que não haja realmente uma grande convicção na sua história. (...) Temos pena de ver Andy partir. Mas não temos pena do que isso significa, cinematográfica e emocionalmente, nem temos pena da forma subtil com que o filme dá esse significado ao espectador. (...) Na sua subtileza, na verdade dos seus valores encontra o seu poder. E isso chega. Oh se chega."

Ao contrário dos outros filmes da saga é a força subtil desta mensagem, mais do que o conteúdo da história, que sustém esta obra. O filme em si é uma simpática semi-comédia que se desenrola a um ritmo pachorrento mas nunca moroso. Temos pena que não haja realmente uma grande convicção na sua história e nas suas tramas secundárias.  Temos pena que Ester Williams e Ann Rutherford sejam apenas uns breves apontamentos. Temos pena de ver Andy partir. Mas não temos pena do que isso significa, cinematográfica e emocionalmente, nem temos pena da forma subtil com que o filme dá esse significado ao espectador. Porque a saga Hardy nunca foi uma saga espalhafatosa. E portanto a sua despedida nunca poderia ser espalhafatosa. Na sua subtileza, na verdade dos seus valores encontra o seu poder. E isso chega. Oh se chega.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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