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Judge Hardy and Son

Ano: 1939

Realizador: George B. Seitz

Actores principais: Mickey Rooney, Lewis Stone, Fay Holden

Duração: 90 min

Crítica: ‘Judge Hardy and Son’ (em português com o curioso título de ‘Andy Hardy, Detective’) é o oitavo dos dezasseis filmes da mítica saga do jovem Andy Hardy (genialmente interpretado por Mickey Rooney) que aqui em EU SOU CINEMA tenho estado a revisitar filme a filme, por dois grandes motivos. O primeiro é porque ninguém nos dias de hoje o faz, e portanto é preciso que pelo menos uma página de cinema abra as portas destas mágicas obras a uma nova geração de cinéfilos. O segundo é para celebrar com o leitor a minha enorme paixão pelo trabalho de Mickey Rooney; o melhor actor jovem da história do cinema, para sempre o arquétipo da adolescência no grande ecrã.

Foi um curioso conjunto de factores, associados à época em que o filme foi feito, mas também à honesta simplicidade da sua mensagem e à universalidade das suas personagens (os elementos da família Hardy da pequena cidade americana de Carvel) que transformou  ‘A Family Affair’ (1937), um pequeno filme de baixo orçamento da MGM, num estrondoso sucesso. A partir dai a saga engatou num ritmo incrível; uma autêntica série televisiva antes de haver televisão. Ainda em 1937 saiu o segundo filme, ‘You're Only Young Once’, e seguiram-se três em 1938: ‘Judge Hardy's Children’, ‘Love Finds Andy Hardy’ e ‘Out West with the Hardys’, e mais três em 1939: 'The Hardys Ride High', 'Andy Hardy Gets Spring Fever’ e, para terminar o ano, ‘Judge Hardy and Son’.

"‘Judge Hardy and Son’, apesar de se continuar a afastar da fórmula dos filmes iniciais (...), não assume tanto a maturidade de Andy como o anterior. (...) Mesmo tendo este filme um dos momentos mais negros de toda a saga, Seitz dá-o ao melhor estilo do drama familiar de Hollywood, mas não, note-se, com a intimidade com que Dyke gerira o filme anterior."

Os filmes estavam a ter tanto sucesso, que se tornaram a propriedade de maior rendimento do estúdio (por exemplo cada um dos três filmes de 1939 rendeu mais de 1 milhão na bilheteira, um valor enorme na altura). Assim sendo, inicialmente os produtores estavam um pouco relutantes em sacudir os moldes argumentais e estruturais que caracterizaram os primeiros filmes da saga. Mas por causa disso, como fui escrevendo ao longo das críticas, a qualidade decresceu porque os filmes se tornaram (quase) uma mera repetição de si próprios. Contudo, dois elementos faziam a saga ter chama e interesse de filme para filme. Primeiro a sua veia moralista e didáctica, que nunca perdeu sinceridade nem qualidade, apesar de alguma repetição. E segundo, mais importante que isso, a estrela meteórica de Mickey Rooney, que electrizou o ecrã com a sua massiva interpretação do elemento mais novo da família Hardy.

Aos poucos, como o leitor pode recordar nas críticas anteriores, a saga afastou-se dos restantes membros da família e de outros elementos externos (como os típicos casos de corrupção que o Juiz tinha de resolver) para se centrar na odisseia de crescimento, o proverbial coming of age, de Andy. Já o quarto filme, ‘Love Finds Andy Hardy’, uma das melhores comédias românticas adolescentes da história do cinema, havia demonstrado a excelência de Rooney, a sua épica energia criativa, e apontara definitivamente o caminho que a saga deveria tomar. Infelizmente, o quinto filme havia revertido para o modelo inicial, mas a partir do sexto a saga entrou no seu período dourado; o período em que, com um extraordinário virtuosismo e mantendo sempre a sua integridade, nos ofereceu a passagem definitiva de Andy para a idade adulta.

O ano de 1939 foi o ano de glória de Rooney, então com uns meros 19 anos de idade. Foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor por ‘Babes in Arms’, recebeu um Óscar Honorário Juvenil, ultrapassou Shirley Temple para se tornar o actor mais rentável na bilheteira mundial, e moldou a imagem definitiva do seu Andy numa saga que se tornou sua por direito. O sexto filme, como escrevi, é aquele que “finalmente reconhece o que todos os espectadores por esta altura já bem sabiam. Que Andy/Rooney não era apenas o genial escape cómico adolescente da saga. Era também, verdadeiramente o seu cerne emocional, o seu dínamo criativo e o motivo do seu magnetismo, graças à capacidade que tinha de ser universal, de conseguir que reconhecêssemos nele a nossa própria adolescência”. Mas foi no sétimo filme, 'Andy Hardy Gets Spring Fever’, uma “brilhante e virtuosa odisseia cómico-dramática coming-of-age”, que Andy atinge a sua definitiva maturidade, consagrando a saga como “a mais extraordinária bíblia da adolescência que o cinema americano alguma vez produziu”.

"Contudo, a forma como o paradigma da saga foi relocalizado ligeiramente no sétimo filme não foi totalmente descartada, e essa autoconsciência é decisiva (...) Seitz entra com tudo e a primeira parte deste filme pode não ser das mais engraçadas, nem das mais apelativa a um público familiar, mas é, no global, definitivamente uma das melhores que a saga havia conhecido até então."

A justificação para o sétimo filme ser mais maduro, consciente e introspectivo poderá estar no facto de, pela primeira vez, não ser realizado por George B. Seitz (que realizaria 13 dos 16 filmes), mas sim por W.S. Van Dyke. Pessoalmente, acho que este facto pontual, quase fortuito, foi determinante para moldar a odisseia de Andy e o período áureo da saga. Mas na altura os produtores aparentemente não ficaram muito satisfeitos com o resultado final. De acordo com Ann Rutherford (que interpretou a deliciosa Polly, a namorada de Andy ao longo da saga) numa entrevista dada muitas décadas depois, os produtores acharam que o filme de Dyke não seguia verdadeiramente o tom da saga Hardy. Por outras palavras, digo eu, tiveram medo de perder o seu público-alvo familiar e a popularidade deste filão se prosseguissem com o estilo que Dyke havia introduzido. Por isso mesmo Seitz regressou à cadeira de realizador para o oitavo filme.

Assim, a primeira coisa que se nota é que ‘Judge Hardy and Son’, apesar de se continuar a afastar da fórmula dos filmes iniciais, o que é excelente (na realidade outra coisa não podia fazer), não assume tanto a maturidade de Andy como o anterior. Não é tão introspectivo e a própria realização e fotografia são mais leves e luminosas. Mesmo tendo este filme um dos momentos mais negros de toda a saga, Seitz dá-o ao melhor estilo do drama familiar de Hollywood, mas não, note-se, com a intimidade com que Dyke gerira o filme anterior. Contudo, a forma como o paradigma da saga foi relocalizado ligeiramente no sétimo filme não foi totalmente descartada, e essa autoconsciência é decisiva para tornar ‘Judge Hardy and Son’ mais uma grande entrada no cânone desta franchise, cimentando definitivamente o seu melhor período e fechando o ano de 1939 em beleza. Querendo talvez provar que ele é que era o líder da saga, Seitz entra com tudo e a primeira parte deste filme pode não ser das mais engraçadas, pode não ser a mais apelativa a um público familiar, mas é, no global, definitivamente uma das melhores que a saga havia conhecido até então.

Desde o início, o filme flui deliciosamente com um extraordinário ritmo e sabe perfeitamente onde se deve focar, logo confortando o espectador com a promessa que faz no título. Ou seja, centra-se quase exclusivamente em Andy e no seu pai, as únicas personagens no seio desta família que, realmente, ainda tinham interesse por esta altura. De facto, a irmã (Cecila Parker) prepara-se para ir de férias com os amigos, enquanto a Tia Milly (Sara Haden) e a mãe (Fay Holden) estão de saída para o Canadá de visita aos avós. E mesmo a mãe voltando quase imediatamente porque “não se sente bem”, na maior parte do filme é como se pai e filho estivessem sós em Carvel. Isto faz com que haja múltiplas oportunidades para as suas clássicas conversas de “homem-para-homem”, um dos baluartes desta saga e que aqui voltam a não desapontar no seu sentido didáctico. Ao mesmo tempo, o filme arranja uma forma de tecer as aventuras de pai e filho, algo que praticamente nenhum outro filme havia feito até então, o que constitui mais um bem-vindo artifício argumental.

"O filme flui deliciosamente com um extraordinário ritmo e sabe perfeitamente onde se deve focar (...) Na maior parte do filme é como se pai e filho estivessem sós em Carvel. Isto faz com que haja múltiplas oportunidades para as suas clássicas conversas de “homem-para-homem" (...) que voltam a não desapontar no seu sentido didáctico (...) [Também] continua a explorar mais a fundo a relação Andy-Polly, o que é excelente" 

Logo na primeira cena, o Juiz Hardy recebe no seu tribunal o Sr. e a Sra. Valduzzi (Egon Brecher e a mítica Maria Ouspenskaya), dois idosos imigrantes italianos que estão prestes a perder a sua casa porque o Sr. Valduzzi está desempregado e não tem dinheiro para pagar a hipoteca. Como estes eram outros tempos, o Juiz pode ordenar que os filhos ajudem financeiramente os pais, mas o casal insiste que não tem filhos já que a sua única filha… morreu. Contudo o Juiz, na sua infinita sagacidade, suspeita que o casal está a mentir, porque sabem que a filha tem vergonha deles. Mais pequenos pormenores levam o Juiz a suspeitar que a filha está efectivamente em Carvel e que ela própria tem uma filha da idade de Andy (muito conveniente…). É aqui que Andy entrará em cena.

Já antes tínhamos reencontrado Andy nas suas situações costumeiras, mais uma vez dividido entre os seus problemas financeiros e os seus problemas amorosos. Na primeira cena em que surge está exausto, a fazer as suas hilariantes caretas habituais enquanto tenta arranjar a sua velha viatura que ainda conserva com carinho, porque na verdade não tem outra. Finalmente tem de reconhecer que precisa de um profissional para o fazer (nota para a breve aparição do pai de Rooney, Joe Yule, como o mecânico que o atende), mas há sempre a questão do dinheiro; dinheiro esse que não é fácil de arranjar (e manter!) para um adolescente com uma vida social activa. E é precisamente por causa disso que precisa do carro. O baile do dia 4 de Julho, o grande feriado americano, aproxima-se e adolescente que é adolescente tem que ter um meio de transporte para levar o seu par. E quem é o seu par? Polly pois claro.

De facto, tomando na deixa do filme anterior, ‘Judge Hardy and Son’ continua a explorar mais a fundo a relação Andy-Polly, o que é excelente, dando também mais tempo de antena a Polly. Continuo a usar a palavra “deliciosa” para descrever a interpretação de Ann Rutherford e este filme diverte-se (e diverte-nos) brincando com o facto de que em breve ambos atingirão os 18 anos e portanto estarão na idade ideal (na altura recorde-se!) para casar. A ideia parece apelar a Polly mas deixa Andy algo atarantado. Tão atarantado que no seu passeio do costume é Polly que tem de tomar a iniciativa. A forma como responde a uma provocação do pai dizendo: “A house full of children?! ME?!” é absolutamente impagável. Clássico Rooney.


"O mistério no final acaba por ser totalmente previsível (...). Mas não só até é uma boa variação do clássico caso de corrupção dos filmes iniciais, como esta parte contém uma gigantesca energia (...) Rooney, o grande mestre, debita hilariantes one-liners uns atrás dos outros e está totalmente no seu ambiente como o meio charmoso, meio desengonçado galã, dividido entre o seu natural fascínio adolescente por miúdas e a sua veia interesseira."

Mas porque Andy é Andy, a forma como tenta resolver um problema vai fazê-lo enterrar-se no outro. Basicamente, o Juiz recruta Andy, a troco do dinheiro que ele precisa para arranjar o carro, para descobrir quem é a neta do casal italiano por entre todas as adolescentes de Carvel. Ora esta missão não se podia adequar mais a Andy, levando-o num conjunto de visitas “sociais” a casa das potenciais candidatas. Suspeitando que a misteriosa mãe e filha estejam a tentar esconder o nome dos avós, ele visita duas raparigas com a inicial do meio V (só na América seria possível esconder um nome desta maneira). Primeiro a infantil Euphrasia V. Clark, interpretada por June Preisser, que também tem um engraçado papel do mesmo estilo em ‘Babes in Arms’. E segundo a “sulista” algo bronca Clarabelle V. Lee (Margaret Early). Ambas regressarão para pequenos papéis em ‘Andy Hardy’s Private Secretary’ (1941). Por fim, Andy também visita Elvee Horton (Martha O'Driscoll), cujo primeiro nome pode ser um trocadilho nas iniciais “L. V.”.  Cada uma à sua maneira junta-se com classe à longa lista de Hardy-girls, com destaque para O’Driscoll que terá ainda uma palavra a dizer antes do filme terminar.

Verdade que o mistério no final acaba por ser totalmente previsível porque o filme cedo abre o seu jogo. Mas não só até é uma boa variação do clássico caso de corrupção dos filmes iniciais, como esta parte contém uma gigantesca energia, absolutamente hilariante. Aqui o filme recupera a grande veia cómico-romântica que tínhamos visto com maior esplendor em ‘Love Finds Andy Hardy’, bem como o humor mais ritmado de 'Andy Hardy Gets Spring Fever’, que a saga limaria daqui para a frente. Rooney, o grande mestre, debita hilariantes one-liners uns atrás dos outros e está totalmente no seu ambiente como o meio charmoso, meio desengonçado galã, dividido entre o seu natural fascínio adolescente por miúdas e a sua veia interesseira.

Andy não almeja só a recompensa que o pai lhe prometeu; ele também está de olho num prémio literário de 50 dólares que, infelizmente para si, só raparigas podem concorrer. Convencido que tem uma composição ganhadora, enfatizando a sua veia de escritor do filme anterior, Andy tenta convencer uma das raparigas a usar o seu texto como dela para depois dividirem os lucros. Elvie quer submeter o seu próprio trabalho, Clarabelle aceita mas quer mudar tudo… para pior, e Euphrasia primeiro aceita (o que faz com que Andy se endivide pela cidade toda já a pensar no prémio) mas depois recusa aproveitando a oportunidade para o chantagear. Ele terá que ir ao baile com ela em vez de Polly senão ela contará tudo ao pai. Obviamente estas manobras instigarão ainda mais a engraçada comédia de enganos, enquanto Andy tenta gerir todas as raparigas. Diz ao pai no final “It’s all on account of women. Sometimes I think all the troubles in the world come from women”. Pobre Andy!

"De um momento para o outro, o tom do filme escurece imenso e assistimos àqueles que são os momentos mais pesados de toda a saga (...) A vantagem é que (...) é dado de forma pouco melodramática, com a intensidade, a contenção e a discrição do cinema clássico. (...) A desvantagem é que há um enorme contraste desta linha argumental com a jovial história de base de Andy"

Mas o grande problema é que os produtores acharam que esta dinâmica cómico-romântica não era suficiente para suster todo o filme. Balelas. Em ‘Love Finds Andy Hardy’ resultou perfeitamente. Ou então terão reconhecido, graças ao filme anterior, que uma maior maturidade era necessária para suportar o crescimento de Andy e o próprio crescimento da saga. Seitz tenta repetir abordagem intensa que Dyke havia produzido com sucesso no filme anterior, mas enquanto 'Andy Hardy Gets Spring Fever’ era poderosamente subtil na forma como transmitia a sua mensagem mais íntima, aqui a solução encontrada é muito mais ambígua. De repente, cai como uma bomba a notícia de que a mãe (Fay Holden), após o regresso forçado a Carvel, está com uma pneumonia muito grave que a deixa às portas da morte. De um momento para o outro, o tom do filme escurece imenso e assistimos àqueles que são sem dúvida os momentos mais duros e mais pesados de toda a saga.

A vantagem é que este intenso momento dramático é dado de forma pouco melodramática, com a intensidade, a contenção e a discrição que associamos ao cinema clássico. Embora tenhamos que admitir que é um truque argumental algo baixo, há discernimento suficiente para não fazer uma exploração visual mesquinha do sucedido. Pelo contrário, o evento é usado para unir a família (perante uma tragédia destas todas as pequenas divergências são resolvidas) e desta forma uma das principais morais didácticas deste episódio fica já resolvida, em vários discursos auto-conscientes sobre as coisas importantes da vida. “It’s kind of silly worrying about things that aren’t really important, isn’t it?” diz Andy. Cenas intensas incluem a vigília de Andy e do pai pela noite dentro, que contém uma solene prece (a Legião Católica deve ter adorado), e a viagem de carro desesperada à chuva quando Andy vai buscar a irmã para a trazer para casa. Estas cenas provam o range dramático de Rooney, mas também mostram que Cecília Parker foi algo injustiçada ao longo da saga. A sua personagem podia ter dado mais se tivesse tido mais oportunidades. Hoje em dia era simples; faziam um spin-off

A desvantagem é que, obviamente, há um enorme contraste desta linha argumental com a jovial história de base de Andy e do “mistério” que tem de resolver. Por isso mesmo, só durante pouco tempo é que o filme consegue balancear com sucesso as suas duas vertentes, entrecortando cenas das visitas sociais de Andy com o piorar da doença da mãe. Mas quando as horas mais negras são vividas, manter a história secundária de Andy seria incomportável e por isso o filme abandona-a durante largos minutos. Contudo, quando a mãe fica boa (não há surpresas de que isso iria acontecer) o filme volta a dar mais uma intensa volta de 180º e regressa ao seu tom leve para rematar as aventuras de Andy. O lado positivo é que Seitz consegue que a resolução de todas as questões (como Andy gere as quatro raparigas, descobre quem é a neta dos idosos, arranja o dinheiro que precisa e aprende as morais) convirja para o mesmo momento, o dia do baile, onde tudo acontece. Com economia mas mestria, o filme fecha todas as suas histórias e embala o espectador até ao desfecho, incluindo uma deliciosa cena final entre Andy e Polly.

"Não deixando de abordar os mantras clássicos da saga Hardy (...) Judge Hardy and Son’ acaba por ser uma das melhores entradas (...) e um dos filmes que mais se sustém isoladamente (...) Funciona porque (...) sabe perfeitamente que a saga é  Andy Hardy. A chave do sucesso (...) reside no facto de ver tudo da sua perspectiva (...) Já não estamos a falar de uma saga familiar. Por esta altura já estava mais do que claro que esta era uma saga de crescimento."

Não deixando de abordar os mantras clássicos da saga Hardy como “o dinheiro não trás a felicidade”, “o amor à família está acima de tudo” ou “a honestidade compensa”, ‘Judge Hardy and Son’ acaba por ser uma das melhores entradas da saga Hardy, continuando o bom período que a saga atravessava por esta altura. Faz talvez a diferença ser também um dos filmes que mais se sustém isoladamente. Com a excepção da maturação da relação de Andy com Polly (que infelizmente não avançaria muito mais), o filme não explora muito os arcos das personagens nem é tão introspectivo como o anterior. Mas a sua autocontenção até funciona a seu favor, porque assim fica mais focado em desenvolver a sua história, que aqui diversifica a sua moral na tentativa (bem sucedida) de almejar um público mais alargado.

As suas duas partes podem parecer à primeira vista diametralmente opostas; o pico de dramatismo constituído pela doença da mãe parece uma ilha no meio do filme, isolada e rodeada dos momentos cómico-românticos que adoramos de Andy a ser Andy. Mas curiosamente, quando o filme chega ao fim, fico sempre com a sensação de que que o contraste não é assim tão abissal como parece em teoria, e Seitz arranja sempre formas de o fazer funcionar, embora na minha opinião seja uma abordagem menos conseguida do que aquela que Dyke assumiu no filme anterior.

E funciona porque ‘Judge Hardy and Son’, o último dos dezasseis filmes da saga que não tem as palavras “Andy Hardy” no título, sabe perfeitamente que a saga é precisamente Andy Hardy. A chave do sucesso do filme, e o modo como consegue ser ainda inventivo e surpreender, reside no facto de ver tudo da sua perspectiva, incluindo a doença da mãe, e verter todas as lições de moral apreendidas no seu comportamento nas cenas seguintes. Já não estamos a falar de uma saga familiar. Por esta altura, nestes fulcrais filmes do meio, já estava mais do que claro que esta era uma saga de crescimento. O pai diz a Andy no momento mais negro: “Be a man, son”. É isso que Andy tem que assumir ser. Isto é, nos momentos sérios. Nas outras alturas… bem, ainda é novo e pode desfrutar das alegrias da juventude.

"O eterno Rooney continua a ser o adolescente perfeito a nossos olhos (...) porque encarna na perfeição todas as nuances da adolescência (...) Porque o retrato é tão vibrante e convincente, porque este limbo entre ser adolescente e adulto está extremamente bem captado, e porque Rooney (...) é uma autêntica força da natureza, não precisamos de muito mais. Não precisamos mesmo."

Rooney, o eterno Rooney, continua a ser o adolescente perfeito a nossos olhos, não porque é “bonzinho”, mas porque encarna na perfeição todas as nuances da adolescência. Tirando a doença da mãe, este filme não tem realmente grandes momentos de introspecção dramática. No fundo, é uma história sobre como Andy gere a mesada e uma série de miúdas, com um semi-mistério ao barulho e um monte de one-liners (“What is there about me that makes all the woman go nuts”). Mas porque o retrato é tão vibrante e convincente, porque este limbo entre ser adolescente e adulto está extremamente bem captado, e porque Rooney, como repeti já inúmeras vezes em todas as críticas anteriores, é uma autêntica força da natureza, não precisamos de muito mais. Não precisamos mesmo. ‘Judge Hardy and Son’ pode ser apenas “mais um episódio” de uma saga antiga já esquecida neste mundo moderno. Mas é um episódio que prova de novo a incrível universalidade que esta saga possui, ainda hoje. E é um episódio que nos impele a ver mais um e mais um, como acontece com todas as boas séries. Por isso que venha o próximo, ‘Andy Hardy Meets Debutante’ (1940).

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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