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Histoire(s) du cinema: ‘Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life’ (2003); ou como fui ao cinema em Las Vegas

No Verão de 2003 visitei os Estados Unidos da América pela segunda, e até hoje última vez na minha vida. Tinha 18 anos de idade e tinha acabado de completar o meu primeiro ano de faculdade.

Não o fiz por iniciativa própria, bem entendido. Na realidade não tive nada a ver com a escolha deste destino de férias. Basicamente, fui porque os meus pais me levaram lá. Nesse sentido, tenho a completa consciência de que fui um privilegiado por na infância e na adolescência ter tido a sorte de viajar pelo globo. Mas já que tive essas oportunidades, sempre tentei tirar o melhor partido delas.

Quando soube que ia passar o Verão nos ‘States’ fiquei obviamente excitado (quem não ficaria?!). A primeira vez que lá tinha estado era muito pequeno e as memórias eram escassas. Desta vez estava disposto a aproveitar muito mais. Tive contudo uma primeira decepção quando descobri que uma das nossas paragens não ia ser Los Angeles. Fiquei chateado como só um adolescente podia ficar chateado. Ainda para mais um adolescente que por esta altura já era extremamente cinéfilo. Em vão tentei convencer os meus pais a mudar o itinerário. Um ou dois dias a mais em Los Angeles para quem ia fazer aquele caminho todo até ao outro lado do planeta para visitar também São Francisco e Las Vegas não fariam grande diferença, pois não? Mas aparentemente faziam. A minha mãe argumentou que Los Angeles era uma cidade desinteressante que não tinha nada para ver. Tudo depende do ponto de vista, não é?


Pois bem, LA estava fora dos planos (muito embora tenha lá passado duas horas no aeroporto numa escala) mas isso não me iria demover de tirar o melhor partido da terra onde o cinema como indústria nasceu. O divertimento começou logo em Nova Iorque. Andando pela Broadway e outras partes da Big Apple, inúmeras salas multiplex ‘na rua’ convidam-nos a entrar (em vez de estarem encarceradas dentro de centros comerciais como aqui) e somos bombardeados com cartazes gigantescos que ocupam fachadas inteiras de arranha-céus. Nesse Verão de todos os blockbusters, as desmesuradas cabeças de Will Smith e Martin Lawrence anunciavam ‘Bad Boys II’; Jack Sparrow estreava-se no cinema com ‘Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl'; Schwarzenegger voltou passado uma década ao papel de Exterminador em ‘Terminator 3: Rise of the Machines’, e uma Angelina Jolie de cinco ou mais metros de altura anunciava ‘Lara Croft: Tomb Raider – The Cradle of Life’ (em português 'Lara Croft: Tomb Raider - O Berço da Vida').

Estes e outros posteres começaram a chamar por mim em Nova Iorque e continuaram a provocar-me Estados Unidos fora. Em São Francisco, por exemplo, encontrei uma loja fantástica no famoso Cais 39 de posteres e outros artigos cinematográficos. Não podia levar nenhum comigo, obviamente, mas o que vi plantou uma ideia no meu cérebro para “um dia mais tarde”. Hoje tenho a casa cheia de posteres de cinema, clássicos e contemporâneos. Usando os gloriosos dólares que os meus tios luso-americanos cortesmente me ofereceram de prenda, também comprei alguns CDs de bandas sonoras (DVDs não podia por causa das zonas) que ainda hoje, sempre que os oiço, proporcionam pensamentos ternos: “este comprei-o, pessoalmente, em Nova Iorque”. Mas faltava qualquer coisa. Faltava a experiência de ir ao cinema. Dizem que quem espera sempre alcança. Talvez seja verdade pois acabei por conseguir fazê-lo. Foi o meu pequeno excesso na 'Cidade do Pecado'.

Las Vegas pode ser o local pecaminoso de ‘Hangover’ para jovens de 18 anos, mas não para este jovem ‘certinho’ de 18 anos, que ainda por cima estava com os pais e os irmãos. E admitamos que, depois de se visitar o Grand Canyon e a Hoover Dam nos arredores, se ter percorrido a Strip de uma ponta à outra e se ter passado a tarde a entrar e a sair de Hotéis/Casinos só para admirar a sua grandiosa opulência espampanante, Las Vegas não tem muito mais para oferecer ao turista. Isto é, se não se quer esbanjar dinheiro num casino, se não se quer apanhar uma bebedeira ou não se tem capacidade financeira para assistir a um dos mega espectáculos de entretenimento que esta cidade tem para oferecer.


Portanto, antes de partir para a próxima cidade no dia seguinte, tinha algumas horas para matar no último fim de tarde em Las Vegas, onde por estes dias estavam quase 40 graus de temperatura. Podia ter ficado a relaxar no quarto, desfrutando do ar condicionado. Podia ter ido refrescar-me à piscina do Hotel. Podia ter ficado a olhar para outras pessoas a jogar no casino. Podia, mas não o fiz, ao contrário do resto da minha família. Em vez disso, com a emancipação rebelde dos meus 18 anos de idade, decidi ir ao cinema. 

Mas pensar é mais fácil do que fazer quando não somos donos do nosso tempo. Agora tentem convencer os vossos pais da plena anormalidade que é estar em férias no estrangeiro e querer ir ao cinema. Sim, ao cinema, ver, imagine-se, um filme; um filme que bem que podiam ver em Portugal uma semana depois, quando regressassem, e até a um preço mais barato. Que ideia peregrina e totalmente estúpida! Só mesmo um adolescente rebelde de 18 anos pensaria em tal parvoíce… Bem, admitamos que não foi tarefa nada fácil convencer os meus pais. Explicar um prazer aos outros nunca é.

Mas eu estava determinado e nada me iria demover. Sobravam-me vinte dólares das tais prendas dos meus tios de Nova Jersey, e como todos sabemos dinheiro no bolso na Cidade do Pecado é para queimar. Insisti, insisti, insisti. Afinal, o cinema mais próximo era apenas a uns quarteirões de distância do hotel. Afinal, já era maior de idade. E no final, os meus pais devem ter percebido que não havia volta a dar. Tinham mesmo de me deixar. Ninguém quis ir comigo e portanto fui sozinho.


O gigantesco multiplex, que analisando agora o local no Google Maps suponho que tenha sido o United Artist Showcase Theater, erguia-se imponente voltado para a Strip. Entrei e não tive grandes dúvidas que filme iria ver. Escolhi a sequela de ‘Tomb Raider’ por vários motivos: era fã do jogo, dois anos antes tinha tido o time of my life a ver o primeiro filme com os meus colegas de liceu, a Angelina era extremamente sexy para um jovem de 18 anos (um motivo perfeitamente válido), e por fim porque me pareceu que um blockbuster de aventuras passado na Grécia, China e África, visto numa sala bem arrefecida, prometia ser o escape ideal  para uma tarde quentíssima de Agosto na Sin City. Nestas condições, não ia certamente ver um drama de fazer chorar as pedras da calçada nem um filme artístico.

Nunca esquecerei estas duas horas por mais anos que viva e por mais filmes que veja. Foi a experiência americana completa. Não, ver o mesmo filme uma semana depois em Portugal não seria, definitivamente, a mesma coisa. A sala era massiva. A qualidade visual e sonora era excelente. Dezenas de trailers passaram antes do filme, em vez de publicidade a bancos como aqui. A assistência foi extremamente extrovertida durante todo o filme, reagindo com emoção a tudo o que se estava a passar no ecrã. Mas nunca, note-se, desrespeitando os outros. Não havia ninguém a ter conversas de “café” ou a falar ao telemóvel durante os diálogos. O que se ouviu foram inúmeras exclamações de surpresa, gritinhos excitados durante as cenas de acção, incentivos berrados para o ecrã (vai, Angelina, vai) e uivinhos nas partes mais românticas com Gerard Butler. Os americanos são mesmo um povo à parte.

E, para complementar o quadro, na minha mão tinha o meu jantar, um delicioso hot dog e um refrigerante que havia comprado no bar à entrada. O filme podia ser um blockbuster totalmente americanizado, sem uma pinga de profundidade. Mas no seu género até tinha qualidade (afinal o seu realizador é o guru da acção Jan de Bont), e transbordava de entretenimento e acção, tal como o meu hot dog transbordava de ketchup. Deliciosos, um e outro, pelo menos para mim naquele dia. Quando a sessão terminou, sai feliz da vida. Atravessei a rua e fui até ao diner onde a minha família estava a jantar. Eles nem sabem o que perderam. 


Inevitavelmente, para preservar esta excelente memória da minha vida, ‘Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life’ tornou-se uma parte da minha biblioteca pessoal. Comprei o DVD em Portugal quando saiu no ano seguinte e em 2005, numa visita a Madrid, comprei a excitante banda sonora original da autoria de Alan Silvestri. Em Portugal, tudo o que havia à venda (como de costume) era a banda sonora “inspirada” – a das canções que se associam ao filme. Nunca percebi porque é que a banda sonora instrumental original destes blockbusters nunca chega às lojas do nosso país.

Posso não ter visitado Los Angeles, mas esta experiência em Las Vegas foi um dos picos da minha vida como cinéfilo viajante. Um turista visita um país estrangeiro para experienciar a cultura e a vivência desse país. Naquelas duas horas, eu experienciei, em primeira mão, a cultura americana, ao mesmo tempo que fiz uma coisa que gosto. Isso é que é ser turista. E foi isso o que os meus pais não conseguiram entender, nem antes nem depois. Para mim esta experiência valeu tanto, ou mais, como por exemplo ir visitar o French Quarter em Nova Orleães. E agora posso berrar: fi-lo. Vivi-o. Vi um filme numa sala de cinema vulgar (não num festival, não numa sessão para jornalistas) nos Estados Unidos. Quantos cinéfilos portugueses, mesmo os críticos profissionais, podem dizer o mesmo?

Esta é a minha histoire du cinema sobre ‘Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life’. Qual é a sua, caro leitor?

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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