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Guardians of the Galaxy Vol. 2

Ano: 2017

Realizador: James Gunn

Actores principais: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista

Duração: 136 min

Crítica: Três anos depois, os Guardiões regressam ao grande ecrã, naquele que é o primeiro dos três filmes que a Marvel Studios lançará em 2017 (seguir-se-ão ‘Spider-Man: Homecoming’ e ‘Thor: Ragnarok’). E, como uma boa sequela de um filme de super-heróis, este Volume 2 é um filme muito mais expansivo, mais explosivo, mais violento, mais carregado de efeitos especiais, criaturas, planetas e reviravoltas do argumento. Se é isso que procura, caro leitor, então força. Tenho a certeza que não desapontará, porque tal como o anterior, o filme não deixa de ser um sólido produto de entretenimento concebido para responder aos desejos de acção, fantasia e espectáculo visual do público mundial que preenche as grandes salas de cinema em sextas e sábados à noite. Mas isto não significa que o filme seja necessariamente melhor do que o primeiro. Não é. Pois há uma coisa que o primeiro filme tinha e este não tem: charme.

O primeiro ‘Guardians of the Galaxy’ não é um filme para a eternidade, mas é um blockbuster muito especial. Na minha crítica de 2014, louvei a forma como facilmente se distinguia dos restantes filmes da Marvel, ao adicionar às valências habituais dos filmes deste estúdio – sequências de acção carregadas de efeitos visuais e uma épica espectacularidade cénica – uma surpreendente irreverência, um humor natural, extremamente inteligente, e um fabuloso tom entre a nostalgia e a homenagem à cultura dos anos 1970 e 1980. O cerne do filme não eram os efeitos especiais, que apenas contextualizavam os planos e a acção. Bastantes cenas, como escrevi “resultariam na mesma com um cenário de cartão à la ‘Forbidden Planet’ (1956)”. O cerne do filme era a química entre as personagens que se traduzia na fantástica capacidade que o filme tinha de cativar e entreter o espectador com o seu humor negro e uma pontinha kistch de auto-consciência. 

"Como uma boa sequela de um filme de super-heróis, este Volume 2 é um filme muito mais expansivo, mais explosivo, mais violento, mais carregado de efeitos especiais, criaturas, planetas e reviravoltas do argumento (...) Mas isto não significa que o filme seja necessariamente melhor do que o primeiro. Não é. Pois há uma coisa que o primeiro filme tinha e este não tem: charme."

Por isso mesmo, a história era simples. Se pensarmos bem, a aventura do primeiro filme resumia-se à defesa de um povo pacífico sujeito ao ataque de um grande vilão maléfico. Mas assim o argumento conseguia ter uma grande coesão, focando-se na missão e não perdendo tempo com sentimentalismos baratos ou ocas manifestações de epicidade, como o resto dos blockbusters. Pelo contrário, o filme é tão simples na sua estrutura que se dá ao luxo de deixar que as cenas fluam naturalmente, sem qualquer tipo de pressão argumental, o que faz com que haja espaço suficiente em cada uma delas para fazer brilhar as personagens e o tom da homenagem. Assim, como em muitos poucos filmes modernos de super-heróis, conseguíamos desfrutar realmente das criaturas, dos planetas, das personagens. E por isso é que o filme tinha carisma, charme, e tocava o espectador. As risadas não eram ocas, a energia era contagiante. Tornamo-nos parte da equipa, tornamo-nos parte da família.

Claro que todos sabíamos que este tom, obtido de forma tão surpreendentemente natural, seria difícil de repetir numa sequela, onde tudo é necessariamente mais forçado. Aliás, este era o tipo de filme que não deveria ter sequelas, porque cada uma constitui mais uma machadada na memória terna do primeiro filme. Mas uma pessoa tem sempre esperança. E foi essa esperança, e o recordar da vibrante excitação que senti em 2014 ao ver o filme e ao ouvir e re-ouvir a banda sonora nos meses seguintes, que me levou a voltar a pagar um bilhete para ver um filme da Marvel – um estúdio que para mim já perdeu completamente o gás – após ter falhado os últimos três filmes; ‘Ant Man’ (2015), ‘Captain America 3’ (2016) e ‘Dr. Strange’ (2016).  

De novo realizado por James Gunn (que não fez nenhum filme pelo meio) ‘Guardians of the Galaxy Vol. 2’ acabou por não saciar esta esperança que eu acalentava, e infelizmente não é excepção à regra de quase todas as sequelas. Por um lado o filme esforça-se demasiado para tentar ter o tom irreverente do primeiro filme, mas o esforço é claramente perceptível e portanto o tom acaba por ser, infelizmente, claramente artificial. Por outro, só porque é uma sequela, o filme, como comecei por dizer, quer ir mais longe em todos os departamentos, esquecendo-se que a riqueza do universo concebido no Vol. 1 não estava na espectacularidade dos efeitos nem da acção; estava nas personagens. Uma e outra falha impedem que o Vol. 2 tenha a mágica aura que o primeiro filme continha, o que é uma enorme pena.

"Por um lado o filme esforça-se demasiado para tentar ter o tom irreverente do primeiro filme, mas o esforço é claramente perceptível e portanto o tom acaba por ser, infelizmente, claramente artificial. Por outro, só porque é uma sequela, o filme quer ir mais longe em todos os departamentos, esquecendo-se que a riqueza do universo concebido no Vol. 1 não estava na espectacularidade dos efeitos nem da acção; estava nas personagens."

O genérico inicial, após uma breve introdução na Terra onde ficamos a conhecer a personagem de Ego (Kurt Russell) que os trailers já haviam apresentado como o pai de Quill, ou melhor Star-Lord (Chris Pratt), é a prova perfeita da minha argumentação. Eu chamei ao genérico do primeiro filme um dos melhores genéricos do cinema americano das últimas duas décadas; uma lufada de ar fresco de uma arte em extinção, que dava o tom da película com a sua sonoridade seventies e nos embalava para a aventura. Agora o genérico do Vol. 2, que ocorre enquanto os Guardiões lutam para defender uma central de energia de uma gigantesca criatura espacial, tenta repetir a fórmula, sem sucesso.

A câmara segue em primeiro plano o pequeno bebé Groot enquanto ele vai percorrendo o campo de batalha, alheio a ela, dançando ao sabor de “Mr. Blue Sky" dos Electric Light Orchestra. É verdade que o pequeno Groot é uma fofíssima e brilhante invenção animada, que proporciona aos espectadores os melhores momentos de ternura e humor do filme (embora usem e abusem dele quando não sabem como extrair humor de outras personagens e situações). Mas sendo uma criatura CGI já não nos dá aquela pica que a dança entre o awkward e o estiloso de Chris Pratt no primeiro filme proporcionava, para além de a câmara dar tantas reviravoltas e haver tanta coisa a acontecer no background, que sinceramente se perde o fio à meada da sequência porque o olho não consegue saber para onde há-de olhar. Os singelos planos do primeiro genérico são substituídos aqui por uma massiva exibição de efeitos especiais, e esta constatação repete-se por quase todas as cenas do filme. 

Aparentemente, a história de base é igualmente simples. Pouco depois, Ego (Russell em modo charmoso e descontraído), um ser celestial com enorme poder, surge e anuncia a Quill quem é. Justificando vagamente porque deixou mãe e filho sós na Terra, acaba por convencer este a viajar com ele até ao seu planeta natal. Drax (um Dave Bautista a tentar encontrar-se, com sucesso, num papel com muito mais diálogo do que está habituado) e Gamora (Zoe Saldana sempre com garra) acompanham-no. Aí, Ego revela a Quill as suas origens e o seu lugar no Universo. Mas desde o início sentimos que falta contar qualquer coisa (o filme não faz propriamente segredos em relação a isso). E, sem surpresa, e de uma forma completamente previsível, vai haver um suposto grande twist e a revelação de um suposto vilão inesperado no passado e no presente de Star-Lord que poderá pôr em risco o universo com o conhecemos.

"Os eventos no planeta de Ego acabam por não ser suficientes para suster a trama. E por isso mesmo, o filme dedica grande parte do seu tempo a outros assuntos (...) que tornam a história menos coesa. (...) Mas paradoxalmente, acabam por ser mais interessantes (...) que a própria história principal, o que torna o filme ainda mais desequilibrado. (...) O primeiro filme era conscientemente simples, este é demasiado intrincado para o seu próprio bem."

O próprio filme parece ser o primeiro a reconhecer que esta linha argumental, que irá justificar a batalha final, é muito menos forte que a do filme original, onde os Guardiões tinham uma missão clara a desempenhar, e todo o humor e toda a química orbitavam à volta dela, ajudando-a a construir-se. Aqui, os eventos no planeta de Ego acabam por não ser, por si sós, suficientes para suster a trama. E por isso mesmo, o filme dedica grande parte do seu tempo a outros assuntos, introduzindo ou explorando diferentes personagens em mini-arcos emocionais secundários, que tornam a história menos coesa pois são encaixados nela algo forçadamente. Mas paradoxalmente, acabam por ser mais interessantes em todos os departamentos (excitação, acção, humor) que a própria história principal, o que torna o filme ainda mais desequilibrado.

Drax vai-se relacionar com a escrava de Ego, Mantis (Pom Klementieff) ensinando-a a gerir as suas emoções e aquelas que, graças aos seus poderes, sente nos outros. Quilll e Gamora vão estar num vai-não-vai durante o filme todo (que Quill compara à série ‘Cheers’, mas que sinceramente parece algo mais parecido com ‘Moonlighting’). Esta vai estar ainda sob a perseguição constante da sua meia-irmã Nebula (Karen Gillan) que jurou vingança no filme anterior mas que anseia por algo mais. Rocket (Bradley Cooper pareceu esquecer-se do tom de voz que usou no primeiro filme…) está com problemas em lidar com o seu habitual desdém por toda a gente e em integrar-se na equipa. Yondu (o grande Michael Rooker numa das melhores interpretações do filme) quer recuperar o seu lugar nos mercenários e a honra perdida depois dos eventos do primeiro filme, e terá grande destaque na trama. O seu ajudante Kraglin (o excelente Sean Gunn, irmão do realizador, que para mim sempre será o Kirk de ‘Gilmore Girls’) também dará o ar da sua graça, enquanto Taserface (Chris Sullivan) quer usurpar o lugar a Yondu. E os Soberanos, os caricatos e dourados seres empertigados liderados por Ayesha (Elizabeth Debicki, talvez a personagem mais interessante), e que no início são enganados por Rocket, vão dedicar-se a perseguir os Guardiões durante toda a história. Entre outras coisas.

Como se percebe, é muita, muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, e tudo se misturará entre si e acabará por ter ligações ténues aos eventos que estão a ocorrer no planeta de Ego. Há imenso material, imensas situações para o humor e para a acção, imensas desculpar para o filme parar para ser um bocadinho mais introspectivo e ter as suas próprias lições de moral, neste caso largamente relacionadas com o significado de família. Mas tal como na sequência do genérico inicial, o filme tem dificuldade em ser bem-sucedido com este malabarismo cénico e argumental. O primeiro filme era conscientemente simples, este é demasiado intrincado para o seu próprio bem. A interpretação de Chris Pratt, o cerne do primeiro filme, reflecte bem este contraste. Devido às vicissitudes do argumento, tem de ser “sério” mais vezes do que tem de ser “cool”, e isso claro não ajuda em nada o filme.

"O filme é o exemplo perfeito de que mais não é necessariamente mais. (...) Ri-me, claro, (...) cantei com a banda sonora (...), deliciei-me com os cameos. (...) Mas o filme já não é uma grande odisseia semi-kistch, semi-cool pelo imaginário da ficção científica. (...) No fundo, é simplesmente mais um filme de super-heróis, que vai seguindo as mesmas fórmulas, os mesmos dilemas e ruma fácil e previsivelmente ao mesmo desfecho"

O resto segue o mesmo padrão. Apesar da expansividade visual da maior parte das cenas, já dificilmente alguma resultaria num “cenário de cartão”. Apesar da banda sonora se encher com mais uma lista de grandes clássicos da década de 1970, o nostálgico charme do primeiro filme é uma memória distante. Apesar de ainda haver extraordinários momentos de humor (todos os do bebé Groot; Rocket vs. Taserface; os Soberanos em modo ‘guerra’; o cameo de David Hasselhoff), já não fluem naturalmente das personagens. São introduzidos pois esse é o padrão agora já estandardizado dos filmes desta saga. Apesar do filme ter muita mais exploração das personalidades das suas diversas personagens, nunca consegue fugir do lugar-comum, e portanto nunca consegue ser muito convincente. Escrevi na primeira crítica: “Estamos a ver isto pelo que lhes sai da boca e dos punhos, não pelo que lhes sai do coração”. O primeiro filme tinha um equilíbrio q.b. destes elementos. Neste Vol. 2 sai-lhes muito mais do coração (mas nada de novo para quem já viu milhares de blockbusters com uma equipa que tem de aprender a trabalhar em conjunto e a tornar-se uma família) mas isso não é compensado pelo humor (que perdeu a sua frescura) nem pela acção.

De facto, apesar de haver ainda enorme brilhantismo nalgumas cenas de acção, há um chocante tom violento, totalmente desnecessário, que atravessa todo o filme e que o primeiro estava longe de ter. A cena em que Rocket e Yondu mergulham numa spree vingativa, por exemplo, é inacreditavelmente macabra, com dezenas de mortes explicitas em pouco menos de um minuto. Para além do mais, a montagem desta e doutras cenas análogas faz crer que estas matanças são cool, com slow-motions e a banda sonora no auge. É mais um elemento que tenta apelar às massas e aproximar os Guardiões dos Vingadores (aliás estarão juntos em ‘Avengers: Infinity War’, 2018), mas que afasta esta sequela da irreverente e charmosa aura familiar que tornara o primeiro filme muito mais memorável. Não é uma questão de a sequela se tornar mais madura. Torna-se apenas mais violenta sem que nada o justifique senão, quiçá, vender mais bilhetes.

Tudo somado, ‘Guardians of the Galaxy Vol. 2’ é o exemplo perfeito de que mais não é necessariamente mais. Admito que o filme não é propriamente mau. Ri-me, claro, derreti-me todo com o bebé Groot, cantei com a banda sonora (impossível de não acompanhar a rendição de ‘Father and Son’ de Cat Stevens), deliciei-me com os cameos (ainda Stallone, Michelle Yeoh, Ving Rhames e de novo Howard the Duck…), e ainda consegui ficar ligeiramente fascinado com a enorme capacidade de criação de universos digitais que existe nesta era moderna. Mas o filme já não é uma grande aventura espacial, como o primeiro era. Já não é uma odisseia semi-kistch, semi-cool pelo imaginário da ficção científica. Já não é um fértil e empolgante espectáculo visual, rico em humor negro e surrealismo cómico. Já não é puro entretenimento, sem pretensões. No fundo, é simplesmente mais um filme de super-heróis, que vai seguindo as mesmas fórmulas, os mesmos dilemas e ruma fácil e previsivelmente ao mesmo desfecho com uma exagerada lentidão (o primeiro filme tinha nem 2h, este ronda as 2h20). 

"Ainda continuamos a gostar mais das personagens do que da própria aventura, o que é raro. Mas no primeiro filme esse poder das personagens era suficiente. Neste não. O primeiro filme não queria desesperadamente ser épico, intenso ou explosivo. Queria simplesmente fazer o espectador passar um bom bocado (...) Neste já não passamos um tão bom bocado assim (...) A classe artística do Vol. 1 deu lugar ao piloto automático da máquina da Marvel"

Reitero que ‘Guardians of the Galaxy Vol. 2’ não é propriamente um mau filme por si, isto é, no referencial do filme de super-heróis moderno. Detém toda a acção, todo o barulho, todos os efeitos especiais, o humor suficiente, e uma história sem as incongruências típicas dos blockbusters para satisfazer os fãs deste tipo de extravagâncias. E ainda continuamos a gostar mais das personagens do que da própria aventura, o que é raro. Mas no primeiro filme esse poder das personagens era suficiente. Neste não. O primeiro filme não queria desesperadamente ser épico, intenso ou explosivo. Queria simplesmente fazer o espectador passar um bom bocado. Este tem muita mais ambição e é por isso que falha. Já não passamos um tão bom bocado assim. Quanto mais se tenta dar dimensão a um filme que não a pode ter, mas fácil é para o espectador detectar as suas falhas…

Os Guardiões são mais um punhado de super-heróis que vão ganhar toneladas de dinheiro na próxima década, com sequelas e cross-overs. Mas já não me apanham a ver mais um filme deles no cinema. A classe artística do Vol. 1 deu lugar ao piloto automático da máquina da Marvel. A irreverência e a frescura do primeiro filme já não vibram na sequela, e só podemos assumir que irão continuar a esbater-se nos já anunciados próximos filmes. É pena. Havia ali qualquer coisa, que agora vamos esquecer. Quem se lembra, por exemplo, da grande qualidade do primeiro filme de ‘Iron Man’ (2008), abafada como está por inúmeros filmes posteriores? Temo que o mesmo vá acontecer ao universo dos Guardiões. Fica a memória de estarmos ‘hooked on a feeling’ outrora.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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