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EU SOU CINEMA em 10 fotografias


Este é o post número 400 de EU SOU CINEMA, no momento em que celebra quatro anos de existência. Yupi! Na realidade não é nada mau (uma média de dois posts por semana) para um site que é apenas um hobbie de um humilde engenheiro que tem um emprego completamente diferente durante o dia, e que aborda isto com a segurança do amador (em termos de profissionalismo apenas, note-se, porque em termos de conhecimento de cinema sinto que bato muitos profissionais que para aí andam...).

EU SOU CINEMA, ou melhor, a escrita de críticas de cinema que começou noutras plataformas em 2009 e que em 2013 centralizei definitivamente aqui, começou por três motivos. O primeiro é o óbvio, e o mesmo que leva o leitor aqui: o amor pela sétima arte. O segundo é devido ao meu também óbvio gosto por escrever, e por ouvir a minha própria voz escrita (afinal talvez não seja assim tão humilde...), que por vezes leva a que os posts tenham um tamanho talvez excessivo (mas quão horrível é ler críticas de profissionais de um parágrafo que por vezes parece que foram escritas sem terem visto o filme?!). E terceiro porque em 2009 finalmente tive, não o meu primeiro emprego, mas o meu primeiro emprego com uma remuneração decente, o que me permitiu ir viver sozinho e começar a organizar, com malta jovem e porreira, noites cinemáticas.

Os meus escritos surgiram como uma forma de acompanhar essas nights de fim de semana, contextualizando os filmes historicamente (e daí eu ainda hoje dedicar a primeira porção das críticas precisamente a isso) e estimulando o debate. Muito boa gente não tem bem a noção de épocas, correntes e autores no que concerne a arte do cinema (não é uma falha obviamente, cada um tem os seus interesses) e por isso aqui estava o indivíduo engenheiro para contar uma história. E é isso que eu sinto que as minhas críticas ainda hoje são: histórias sobre histórias, histórias sobre cinema - Histoire(s) du cinéma como lhes chamou Godard na sua mítica mini-série.

Aqui em EU SOU CINEMA não há fillers. São 400 posts com conteúdo, nomeadamente 317 críticas individuais a outros tantos filmes, e 83 crónicas ou listas comentadas. Aqui em EU SOU CINEMA não há click bait nem há publicidade. Nunca fiz um cêntimo com isto. Não me tornei famoso, nem viral nem conto com milhares de seguidores. Talvez não tenha talento para tal, mas nunca foi esse o objectivo. Sites que promovem as novas estreias e têm passatempos já há muitos. Mas sites que discutem filmes recentes e clássicos com uma percepção nem mediática nem, no espectro oposto, intelectual, mas com uma percepção sentida e íntima da história do cinema há poucos. Sites em português que abordam filmes de 1900 a 2017 não deve haver nenhum senão este. E esse é que é o objectivo.

Ás vezes escrevo demais, às vezes deixo demasiados dias entre posts (afinal já tive quatro empregos e fui pai entretanto) e às vezes estou completamente desgarrado das estreias recentes. Mas aqui há paixão, e é excelente partilhá-la com quem me segue noutros países e continentes, bem como aqui no bom velho Portugal. No último ano as visualizações quintuplicaram. Pode ser um bom augúrio. Mas independentemente disso vou continuar no mesmo estilo de sempre. E que venham mais 400 posts. Porque todos somos cinema. Porque, como digo no cabeçalho, o cinema é uma viagem pessoal de doze décadas e não apenas a promoção dos filmes que estão a estrear.

Para comemorar este marco decidi fazer uma viagem pelas dez fotografias que constituem o logótipo de EU SOU CINEMA, revelando o motivo pelo qual as escolhi há precisamente quatro anos. Um bem haja a todos, e que o (bom) CINEMA esteja convosco.

Woody Allen e Charlotte Rampling em 'Stardust Memories' (1980)


'Stardust Memories' é o meu filme preferido de Woody Allen. Aliás, é um dos meus filmes preferidos de toda a história do cinema. Um dos mais esquecidos da sua carreira (muito injustamente) e na altura descartado pelos críticos como uma versão a la Allen de 'Fellini 8 1/2' (1963), a verdade é que nunca esteve tão próximo do seu eu como nestes parcos 80 minutos. Como um realizador de comédias a lutar para fazer um filme sério, enquanto lida com a fama, os fãs, as suas neuras e a sua vida amorosa, Allen revela o íntimo da sua arte numa obra multifacetada, onde as belíssimas composições a preto e branco se misturam com o amor ao cinema, à vida mas também, sempre, à comédia. Escolhi esta fotografia (infelizmente não encontrei agora exactamente a mesma que utilizei no logótipo) para simbolizar que a poesia do cinema pode ser todas estas coisas ao mesmo tempo, e resultar.


Maureen O'Hara em 'The Quiet Man' (1952)


'The Quiet Man' não é apenas uma obra prima no cânone de John Ford (de longe o meu filme preferido dele), nem uma extraordinária comédia. É também um filme profundamente sentido, uma viagem nostálgica à Irlanda rural que faz as vezes de micro-cosmos da condição humana, uma obra que aquece o coração e deixa um enorme sorriso nos lábios no final. John Wayne pode ser o actor principal, mas é a ruiva fogosa Maureen O'Hara, com quem tem uma relação tempestuosa, que dá vida e chama e paixão à peça. Escolhi esta fotografia porque o cinema também é vida e chama e paixão, e pode sê-lo com um sorriso, como este com que Maureen, uma mulher de armas do cinema clássico, nos aquece.


Buster Keaton em 'Sherlock Jr.' (1924)


'Sherlock Jr.' só tem uns parcos 44 minutos. Se nunca passou por eles caro leitor, acredite que são 44 minutos que irão mudar a sua percepção da comédia. Se já passou, sabe perfeitamente o que quero dizer. O filme é brilhante, magnífico, espectacular, onde toda a beleza balética, extraordinariamente coreografada, do trabalho cómico de Keaton se revela. Como um empregado de limpeza de uma sala de cinema que aspira ser detective, Keaton sonha que salta para dentro do ecrã, direitinho para um filme de mistério, num truque de incrível beleza cinematográfica suportado por uns estonteantes efeitos especiais (para 1924!). Escolhi esta fotografia não só para demonstrar o meu amor pelo génio técnico e cómico de Keaton, como para louvar a magia do cinema, onde a tela é o local maravilhoso onde os nossos sonhos e as nossas fantasias podem ser vividas.


Catherine Deneuve e Françoise Dorléac em 'Les demoiselles de Rochefort' (1967)


Com excepção do trabalho do senhor Charles Chaplin'Les demoiselles de Rochefort' (1967) é o meu filme preferido de toda a história do cinema. Portanto, como é óbvio, não podia faltar uma imagem das irmãs Garnier, interpretadas pelas irmãs, na vida real, Dorléac (Catherine Deneuve e Françoise Dorléac). Como escrevi na minha crítica, que o leitor pode ler seguindo o link em cima, 'Les Demoiselles' é sem qualquer sombra de dúvida, o maior e o mais bem conseguido filme ‘feel good’ de todos os tempos. É um filme perfeito porque é uma explosão de cor (muita cor!), música, dança e boa disposição, brilhantemente condensada em 120 minutos. É amor em bruto, não trabalhado; amor à vida, à dança e ao cinema. Para mim é o Cinema, mas mais que isso. É a razão pela qual amo o cinema, a razão pela qual os filmes me inspiram e me dão vida. Um olhar para o rosto destas belíssimas irmãs e recordo isso, imediatamente. E por isso escolhi esta fotografia.


Charles Chaplin em 'Limelight' (1952)


Para mim Charles Chaplin é o maior artista que alguma vez existiu nos meandros da sétima arte, portanto o seu rosto tinha necessariamente de aparecer no logótipo. E não tive dúvidas qual das suas encarnações deveria escolher. Não o seu Vagabundo, mas o seu eu mais velho, mais cansado de 'Limelight', a sua obra mais perfeita de todas as suas obras perfeitas. Cuidadosamente concebido como a sua despedida do cinema (embora tenha feito ainda mais dois filmes), numa América que, após décadas de adoração, agora lhe voltava as costas, sem surpresa 'Limelight' é um canto de cisne nostálgico e sentido, um trabalho de amor belo, trágico, comovente, poético. Para quem não conhece bem a obra de Chaplin poderá parecer demasiado melodramático ou exageradamente sentimental, mas para quem o ama profundamente é o reflexo de tudo aquilo que ele, e o seu cinema, haviam sido nas quatro décadas anteriores. A história trágica de um comediante envelhecido e esquecido é a história da essência da sua arte. Essa arte indelével que criou como ninguém e que é o princípio e o fim de todo o Cinema. Ser Cinema é ser também Chaplin, adorar Chaplin, amar Chaplin. Sempre.


Brigitte Bardot em 'Le mépris' (1963)


Uma referência à Nouvelle Vague não podia faltar. Podia ter optado por Truffaut, mas Godard foi muito mais gutural na sua abordagem ao cinema nos seus anos de produção frenética no início da década de 1960. Godard conseguiu ser o próprio Cinema, tornou-se uno com ele, e por qualquer arte mágica conseguiu puxar-nos, espectadores, para dentro dessa união. E nunca o fez tão bem como na sua obra prima de 1963 'Le Mepris'. Numa história passada nos bastidores da rodagem de um filme, Godard explora, através da relação entre o casal composto por Michel Piccoli e a gloriosa Brigitte Bardot, o âmago desta interligação entre a vida - os sentimentos, o amor, a felicidade, o desprezo - e o próprio cinema, até que as diferenças entre uma e o outro se tornam indistinguíveis. Escolhi esta fotografia por esse preciso motivo; o cinema é, ou pode ser, a própria vida, e então o filme torna-se uma experiência de vida. E se essa experiência tem a explosão sexual de Bardot, que nunca esteve tão sexy, tão fascinante, tão tragicamente bela como aqui, então tanto melhor.


Robert Donat em 'Goodbye, Mr. Chips' (1939)


'Goodbye, Mr. Chips' raramente figura nas listas dos grandes filmes, por isso é difícil de explicar, para quem não o viu, as emoções que transmite e a sua enorme capacidade para inspirar. Retratando a história de um professor de um colégio interno ao longo de mais de cinquenta anos, desde o seu primeiro dia de aulas até à velhice, 'Goodbye, Mr. Chips' tem uma coisa que muitos poucos filmes têm; pureza. E ao centro, Robert Donat tem uma das melhores interpretações da história do cinema. Como Mr. Chips condensa todos os grandes professores que alguma vez tivemos, e é o professor que quem escolhe essa profissão, ou quem vai lá parar eventualmente (como eu), quer ser. Os anos vão passando e ele vai envelhecendo, mas os alunos permanecem eternamente jovens, caras novas que trazem novas histórias e novos desafios. A beleza do filme está nestes círculos que se entrecruzam, uma vida com várias vidas, e na forma como Chips permanece, sobrevive, luta, evolui, para ensinar num novo dia, para ser o melhor professor que pode ser, sempre em prol dos alunos. Escolhi esta fotografia porque o Chips de Donat é uma das personagens mais sinceras, mais puras, mais humanas, mais comoventes (é obrigatório chorar no final) da história do cinema. Um hino ao cinema como arte que inspira.


Brooke Adams em 'Days of Heaven' (1978)


Durante anos, durante muitos anos, 'Days of Heaven' foi o meu filme preferido, e até há bem pouco tempo (até aos filmes menores que produziu recentemente), Terrence Malick foi o meu realizador preferido. Desde miúdo que fiquei fascinado pela serena beleza desta obra; a incrível fotografia da autoria de Néstor Almendros; os movimentos de câmara baléticos, a narração poética em voz off, os temas de comunhão do Homem com a Natureza e de conflito do Homem consigo próprio; os sentimentos criados pela conjugação das imagens que extravasam a tela e percorrem o corpo do espectador até se aninharem na sua alma. Para Malick, o cinema é filosofia, é poesia, mas acima de tudo é humanidade. As pessoas são apenas uma parte da Natureza, e a Natureza permanece, forte e dominadora, apesar da luta interna do Homem. A cena que obriga os homens a lutarem contra uma praga de gafanhotos durante a noite é a intensa representação dessa doutrina. E Brooke Adams observa-os, com uma expressão de inevitabilidade trágica, numa composição de indiscutível beleza. A perfeição, a pureza e a poesia do cinema condensadas numa única fotografia, naquele que é o filme visualmente mais belo da história do cinema.


Takashi Shimura em 'Ikiru' (1952)


'Ikiru' é um filme muito especial de um realizador muito especial, Akira Kurosawa. É um daqueles filmes que nunca se esquece, pois não decoramos a sua história, decoramos as suas emoções. É o filme mais puro que já vi e um dos melhores, senão o melhor retrato alguma vez filmado sobre o significado da vida. Há uma verdade universal que o atravessa, encapsulada no retrato comovente dos últimos seis meses de vida de um simples e anónimo funcionário público que, antes de morrer, toma a si a demanda da construção de um parque infantil numa zona degradada. O plano final, em flashback, já depois de termos assistido ao seu funeral, em que se baloiça e começa a cantar, com a neve caindo docemente, é belíssimo e permite-nos perceber, com uma extrema simplicidade, que se redimiu, que a sua vida foi salva, que encontrou a paz e a serenidade. Roger Ebert escreveu “I think this is one of the few movies that might actually be able to inspire someone to lead his or her life a little differently”. Concordo completamente. 'Ikiru' cobre-nos de luz para o sentirmos como se fosse a nossa própria história. Escolhi esta fotografia não só para demonstrar a paixão pelo sensei e por este filme, mas para simbolizar a capacidade do cinema de se tornar parte da nossa história, comovendo-nos, inspirando-nos, liderando-nos para uma vida melhor.


Robert De Niro em 'Once Upon a Time in America' (1984)


E por fim a última fotografia leva-nos ao rosto de Robert DeNiro, outrora um dos actores mais intensos e poderosos que o cinema já conheceu (agora um idoso que se degrada cada vez mais a fazer comédia atrás de comédia claramente abaixo do seu nível...). O filme é 'Once Upon a Time in America', um dos meus filmes preferidos e o canto de cisne de um dos grandes, Sergio Leone. Ao contrário do que muitos afirmam, com uma visão limitada da sua obra baseada, creio, em inúmeras visualizações de 'The Good, the Bad and the Ugly', Leone não é “spaghetti western”, nem close-ups, nem violência gratuita. Leone é um realizador que usava o épico para contar o íntimo (como David Lean, como Kurosawa) com um virtuosismo visual inimitável, centrando os seus filmes nas relações entre seres à margem das convenções, que constituíam improvisadas famílias, mesmo que disfuncionais. Este filme pode atravessar três épocas distintas ao longo de meio século, mas renuncia o padrão do filme de gansgters para se centrar, sempre, na relação entre o Noodles de DeNiro e o Max de James Woods. É esse o fio condutor da história, a essência do cinema de Leone e o motivo desta fotografia: o cinema como lírico retrato das relações humanas, o cinema como a nossa família, independentemente dos contextos, dos géneros, dos temas. A emoção por trás da fachada, a chama por trás do formalismo, a vida por trás da celulóide.

2 comentários:

  1. Parabéns Eu Sou Cinema pelos 400 posts e pelos 4 anos de críticas! Realmente não se encontra conteúdo com tamanha qualidade como o seu nos sites brasileiros.

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    1. Obrigado pelas suas palavras. É sempre bom saber isso. Cumprimentos!

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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