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Frozen Fever

Ano: 2015

Realizador: Chris Buck, Jennifer Lee

Actores principais (voz): Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff

Duração: 8 min

Crítica: ‘Frozen’, o lançamento dos estúdios Disney no Natal de 2013, foi um estrondoso sucesso. De facto, ‘Frozen’ tornou-se o filme de animação mais rentável de sempre na bilheteira mundial, arrecadando uns estonteantes 1 bilião e 276 milhões de dólares, o que o coloca na nona posição dos filmes que mais dinheiro fizeram de sempre (sem contar com a inflação).

Para mim sempre foi um relativo mistério como é que ‘Frozen’ atingiu tamanha popularidade. Não foi o regresso da Disney aos clássicos de princesas, com o cunho da era moderna e o look digital, pois essa distinção coube a ‘Tangled’ (2010), um filme muito mais coeso, com melhores canções e muito mais dinâmico na sua estrutura cómico-aventureira. Mas ‘Frozen’ foi o que ‘Tangled’ não foi: um fenómeno cultural. Talvez tenha sido a mega popularidade do seu single: o hino de emancipação feminina ‘Let it Go’. Talvez tenha sido a sua história de amor fraternal, que deu um cunho sem dúvida diferente e interessante à intemporalidade do clássico conto de fadas, para além da oportunidade de pela primeira vez na história da Disney haver não uma, mas duas princesas no mesmo filme. Talvez tenha sido o apelo visual de Anna e de Elsa, e a comicidade fofa de personagens secundárias como o boneco de neve Olaf, que se tornaram ouro de merchandising. Ou simplesmente tenha sido um dos melhores pedaços de marketing da história da Disney. Provavelmente, foi um bocadinho de tudo isto, e o resultado foi um incrível sucesso crítico e comercial.

"A grande crítica que se pode fazer a ‘Frozen Fever’ é que, lançado apenas um ano e meio após o filme, parece demasiado atabalhoado e feito à pressa; um produto que está pouco trabalhado e que apenas anseia responder à premente necessidade do mercado por qualquer coisa ‘Frozen’"

Hoje em dia, todos os filmes que são um mega sucesso, principalmente os de animação, têm direito a sequela quase imediata. E portanto não temos dúvidas nenhumas que se ‘Frozen’ tivesse sido feito pela Dreamworks ou pelo Blue-Sky Studios já teríamos tido uma sequela em 2015 ou 2016. Mas estamos a falar da Disney, um estúdio que até há bem pouco tempo resistiu, e bem, à tentação da sequela, embora infelizmente essa resistência esteja a terminar (pode ler tudo sobre a relação da Disney com as sequelas na minha crónica ‘30 de Junho de 2016 – O dia mais negro da história recente da Disney’). Se hoje já se fala do lançamento de um ‘Wreck-it-Ralph 2’ e de um ‘Frozen 2’ a partir de 2018, em 2014 tal não acontecia. Contudo, a pressão mediática era tanta, o sucesso em termos de merchandising era tanto, que para onde quer que a Disney se virasse surgia inevitavelmente a pergunta “para quando uma sequela de ‘Frozen’?”. Portanto, a Disney arranjou uma solução de compromisso. E essa solução chamou-se ‘Frozen Fever’, uma curta-metragem de apenas oito minutos que foi lançada nos cinemas juntamente com o filme ‘Cinderella’ no início de 2015. 

A primeira coisa que me chamou à atenção quando vi a curta no cinema (revi-a esta semana porque vem como extra no DVD de ‘Cinderella’) é que o título poderá também ser lido como um trocadilho à autêntica febre mediática de ‘Frozen’. Se é uma piada privada ou não, não sei, mas a segunda coisa que chamou à atenção é que a curta-metragem cai na esparrela de existir precisamente no universo dessa “febre”, ao contrário do filme original, muito mais livre porque obviamente, não estava preso a nada. De facto, a grande crítica que se pode fazer a ‘Frozen Fever’ é que, lançado apenas um ano e meio após o filme, parece demasiado atabalhoado e feito à pressa; um produto que está pouco trabalhado e que apenas anseia responder à premente necessidade do mercado por qualquer coisa ‘Frozen’. 

Por um lado não podemos dizer que isto acontece em termos de animação, e ainda bem. Obviamente, ‘Frozen Fever’ tem o look do filme original (outra coisa não seria de esperar visto que a ‘programação’ digital das personagens e dos cenários está gravada e pode continuamente ser recriada), ou seja: cores apelativas e desenhos simpáticos e divertidos feitos digitalmente mas com a aura da animação “à mão”. Contudo, devo confessar que lamentei bastante que o ritmo da curta seja tão movimentado (os cortes são contínuos e move-se constantemente entre cenários) que realmente não há tempo para o espectador apreciar um único plano.

"‘Frozen Fever’ tem o look do filme original (...), ou seja: cores apelativas e desenhos simpáticos e divertidos feitos digitalmente mas com a aura da animação “à mão”. Contudo, lamentei bastante que o ritmo da curta seja tão movimentado (os cortes são contínuos e move-se constantemente entre cenários) que realmente não há tempo para o espectador apreciar um único plano."

Mas por outro lado é totalmente perceptível a displicência de ‘Frozen Fever’ em termos de estrutura. Galopando no sucesso musical de ‘Frozen’ houve a ideia de conceber toda a curta-metragem ao sabor de uma única canção, ‘Making Today a Perfect Day’, de novo da autoria do casal Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez (vencedores do Óscar por ‘Let it Go’) e interpretado alternadamente por Kirsten Bell (a voz de Anna) e Idina Menzel (a voz de Elsa). Esta decisão musical é ousada e inspirada, atípica destas curtas-metragens de animação, mas o grande turn-off é que, tal como a curta, a própria canção parece ter sido concebida à pressa. Não é realmente memorável como as músicas de ‘Frozen’, e não parece haver um grande equilíbrio entre a música e a letra, que muitas vezes parece espetada à força em frases musicais em que claramente não cabe, como se fosse uma linha de diálogo escrita à priori que o casal Lopez teve que musicalizar e incluir na sua canção à posteriori.

As curtas-metragens, obviamente, têm de se desenvolver a partir de ideias simples, mas neste caso a ideia é talvez demasiado simples e a piada geral é perdida na tradução. Elsa, a rainha do gelo e do frio (em inglês “cold”) está constipada (em inglês “got a cold”). Podemos imediatamente imaginar que os realizadores/argumentistas Chris Buck e Jennifer Lee acharam piada ao trocadilho, mas não passa muito disso. Elsa está doente precisamente no dia de anos da irmã Anna, a quem, com a ajuda de todos os amigos de ambas (vão aparecendo na curta Kris, Sven, Olaf, etc), quer oferecer o dia perfeito. O problema é que quanto mais actividades quer fazer com Anna por Arendelle enquanto a festa surpresa desta está a ser preparada, mais doente fica e menos consegue acompanhá-la.

Esta premissa dava para suster um simpático episódio de 20 minutos fosse isto um desenho animado televisivo, como por exemplo as séries de ‘A Pequena Sereia’ ou ‘Pumba & Timon’ que o Disney Channel passou durante os anos 1990. O humorzinho visual é do mesmo género, neste caso dado pela trapalhice da preparação da festa por parte dos “homens” e, um pormenor delicioso, pelos mini-bonecos de neve mágicos que vão surgindo cada vez que Elsa espirra. Mas no global a curta-metragem é algo decepcionante. Em apenas oito minutos, acaba por ser uma curta sem grande rumo, no qual as personagens andam continuamente de um lado para o outro em Arendelle cantando em diferentes localizações, mas basicamente estática em termos de história, que não sai do facto de Elsa querer desesperadamente dar um dia perfeito à irmã e esta querer que Elsa se vá deitar por causa da febre.

"Mas por outro lado é totalmente perceptível a displicência de ‘Frozen Fever’ em termos de estrutura. (...) A premissa dava para suster um simpático episódio de 20 minutos fosse isto um desenho animado televisivo (...) Mas no global a curta-metragem é algo decepcionante (...) sem grande rumo (...) e estática em termos de história"

À medida que nos aproximamos do final e a música estabiliza-se em repetições contínuas do refrão, a curta vai ficando mais apelativa, porque o refrão entranha-se no ouvido e a alegria da canção e da preparação da festa começa a contagiar. Aliás, suponho que por isso estes parcos minutos até sejam divertidos para as crianças (especialmente aquelas que adoraram ‘Frozen’ e têm a casa cheia de bonecada do filme), que com repetidas visualizações ou em festas de aniversário podem divertir-se a cantarolar com a trupe nos poucos momentos de atenção que a curta exige. Mas no final, para o espectador mais adulto e mais exigente, sabe a pouco. Muito pouco.

Claro que o leitor pode argumentar que em oito minutos não dava para muito mais. Não concordo. A própria Disney no seu passado recente tem-nos dado obras-primas da animação em formato curto e autocontido como ‘Paperman’ (2012) ou ‘Feast’ (2014). O problema parece ser quando querem fazer curtas de personagens já estabelecidas. Aí, invariavelmente, optam por um formato descartável, porque estão cientes que mais ano menos ano vão voltar a elas para uma nova aventura. A falta de necessidade de ser autocontido e a promessa de novos projectos quebra a chama da inspiração.

Se olharmos para as grandes curtas-metragens da história da Disney; os Mickeys, os Donalds, os Tico & Tecos, vemos que cada curta tentava superar as anteriores para ser a melhor possível. Hoje em dia já não é assim. Cada curta só parece estar a ganhar tempo, querer fazer o seu dinheiro, para chegar à seguinte. ‘Frozen Fever’ é, tal como as curtas de ‘Toy Story’ ou de ‘Cars’, uma pobre desculpa para uma curta-metragem, que para o que é, e sucedendo o filme que sucede, deveria ter tido uma ideia bem melhor e muito mais bem aproveitada. O seu objectivo, e o seu motivo de interesse, é apenas trazer as personagens que o público aprendeu a adorar em ‘Frozen’ de volta em “qualquer coisa”. E é isso que a curta é: “qualquer coisa”; um veículo algo oco somente para vermos Anna e Elsa em cenas que ainda não tínhamos visto antes.

"À medida que nos aproximamos do final e a música estabiliza-se em repetições contínuas do refrão, a curta vai ficando mais apelativa (...) Aliás, suponho que por isso estes parcos minutos até sejam divertidos para as crianças (...) Mas no final sabe a pouco (...) O seu objectivo é apenas trazer as personagens (...) de volta em “qualquer coisa”. E é isso que a curta é: “qualquer coisa”; um veículo algo oco somente para vermos Anna e Elsa em cenas que ainda não tínhamos visto antes"

Perfeitamente ciente disso, a curta não é nada ambiciosa. Limita-se a mostrar as personagens, não mais, e isso para ela, para os produtores, e até para muitos espectadores chega. Se tivéssemos uma coisa destas todas as semanas, como se fossem episódios de uma série de televisão, então chegaria. Mas assim, como o único legado até hoje do universo ‘Frozen’ pós-filme, então deixa muito a desejar, sabe demasiado a pouco. E isso é uma enorme pena. Mas quem sabe, talvez até tenha sido propositado, para espevitar o nosso apetite para um eventual ‘Frozen 2’…


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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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