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Beauty and the Beast

Ano: 2017

Realizador: Bill Condon

Actores principais: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans

Duração: 129 min

Crítica: A estreia mais aguardada de 2017 dos estúdios Disney não é nenhum dos seus filmes de animação, nem nenhum dos dois filmes que a sua subsidiária Pixar lançará (‘Cars 3’ no Verão e ‘Coco’ no Natal), nem sequer nenhum dos dois blockbusters de imagem real que se aproximam (‘Pirates of the Caribean 5’ e ‘Star Wars VIII’). Não, a estreia mais aguardada da Disney para 2017 chegou precisamente este fim-de-semana às salas de todo o mundo, e é a adaptação de imagem real de ‘Beauty and the Beast’ (1991) (A Bela e o Monstro).

Saber que a Disney lança mais um filme adaptado do seu espólio de animação já não causa excitação a ninguém, principalmente nos tempos que correm. A Disney sempre fez remakes dos seus filmes antigos, mas nos anos 1990, por exemplo, tiveram a classe de os fazer como aventuras familiares ou simpáticas comédias românticas, no tom tão típico dessa década. Estou-me a lembrar de obras divertidas como o remake de ‘The Parent Trap’ (1998) ou ‘101 Dalmatians’ (1996), a primeira grande adaptação de imagem real de um filme de animação que o estúdio fez. Não por acaso, o argumento deste filme é da autoria do glorioso John Hughes, e portanto o objectivo principal não era fazer milhões na bilheteira; era homenagear o clássico de animação através de um filme que pudesse ser visto por toda a família por gerações e gerações. Era, e continua a ser, um bom e nobre objectivo.

"Ninguém se atreveu, até hoje, a fazer um remake de obras-primas bem-amadas como ‘Citizen Kane’ (1941) ou ‘Gone with the Wind’ (1939). Há filmes em que simplesmente não se pode mexer, porque são sagrados na memória dos cinéfilos. (...) ‘Beauty and the Beast’ (1991) é um desses filmes e portanto a Disney devia tê-la deixado em paz em vez de ousar manchar, com uma gota que fosse, o pano imaculado desta obra-prima."

O problema é que hoje o objectivo já não é bem esse. As adaptações de imagem real da Disney ganharam um inesperado momento em 2010 com o mega-sucesso de bilheteira de ‘Alice in Wonderland’ de Tim Burton, um filme muito mais preocupado em ser um blockbuster com massivos efeitos especiais na senda de ‘Lord of the Rings’, ‘The Chronicles of Narnia’, ‘The Golden Compass’ e inúmeros outros filmes modernos supostamente “para jovens” (dizem eles), do que em recaptar a aura e a magia da velha Disney. Para mim reside aqui a abissal diferença: a magia familiar foi substituída pelo espectáculo que os efeitos especiais podem proporcionar e a vontade de criar produtos de marketing centrados nas personalidades dos actores famosos contratados para encarnar as míticas personagens. São esses os motivos que me levaram a absolutamente detestar ‘Maleficent’ (2014), um filme horroroso que deturpa a história original só para satisfazer o ego de Angelina Jolie e a sede por efeitos especiais. Mas são também esses motivos (ou melhor a falta deles) que me levaram a apreciar ‘Cinderella’ (2015) porque é uma adaptação fiel, respeitosa e conscienciosa, e portanto mágica.

Mas isto leva-nos à pergunta seguinte. Se as melhores destas adaptações que a Disney anda a produzir a velocidade estonteante (recentemente anunciaram mais dezassete!) são as que são mais fiéis à alma do filme original, então qual é o objectivo de as fazer? Qual é o objectivo de irmos ver a mesma coisa que já conhecemos? Só porque é “nova” e “moderna” e as pessoas gostam de ver coisas “novas” e “modernas” mesmo que sejam piores? E esta pergunta é ainda mais relevante quando falamos de um filme como ‘Beauty and the Beast’ (1991). Ninguém se atreveu, até hoje, a fazer um remake de obras-primas bem-amadas como ‘Citizen Kane’ (1941), ‘Gone with the Wind’ (1939), 'It's a Wonderful Life' (1946) ou ‘Casablanca’ (1942). Há filmes em que simplesmente não se pode mexer, porque são sagrados na memória dos cinéfilos. Quando Gus Van Sant fez o remake de ‘Psycho’ (1998) foi dilacerado, e bem, por toda a comunidade cinematográfica. Pois bem, ‘Beauty and the Beast’ (1991) é um desses filmes e portanto a Disney devia tê-la deixado em paz em vez de ousar manchar, com uma gota que fosse, o pano imaculado desta obra-prima. Por definição, o remake será sempre um filme pior, e este não foge à regra (afinal, não há nada acima da perfeição, pois não?), e portanto surge como um esforço redundante, inglório, oco. Se nunca, em um milhão de anos, conseguirá tirar o lugar nos nossos corações ao filme de animação, então só há uma explicação para a sua produção: foi feito não com o coração, não com o espírito do velho Walt, mas para ganhar dinheiro. E isso não pode ser desculpa suficiente para fazer um filme, muito menos um filme da Disney.

Há algo de muito, muito especial em ‘Beauty and the Beast’ (1991). Não é só um grande filme de animação, é para mim o melhor filme de animação alguma vez feito. Os desenhos são soberbos, a animação imaculada, a história inspiradora. Mas não são esses os motivos que fazem este filme transcender-se. O ponto-chave de ‘Beauty and the Beast’, e que o distingue de todos os outros filmes de animação da Disney, mesmo os ditos “musicais”, é que realmente se processa como um musical teatral. Não sei se o leitor alguma vez reparou nisso, mas praticamente não há uma linha de diálogo não cantada nos primeiros 50 minutos de filme. Toda a história é conduzida musicalmente, todas as personagens são aprofundadas através da música, e todos os picos emocionais ocorrem sempre durante as canções, não fora. Há uma economia argumental extraordinária no filme (devia ser objecto de cursos da especialidade) e é isso, a par da magistral partitura de Alan Menken e Howard Ashman, que torna o filme fascinante. É a magia do seu ritmo musical que primeiro nos transporta para o interior da fantasia, e só depois é que somos seduzidos pela beleza da história e o virtuosismo das suas personagens.

"O filme vive as suas 2h de duração numa ostensiva luta interna; dividido entre tentar ser um produto original para autojustificar a sua existência, e entre ser fiel (porque tem que o ser) ao filme de animação que todos conhecemos. Infelizmente, é uma indecisão para a qual nunca consegue arranjar solução (...) e que é uma constante a vários níveis: visual, argumental e, mais grave de todos, musical"

Para mim, é isto que torna ‘Beauty and the Beast’ na obra-prima que é, e foi isso que fez com que a sua adaptação para a Broadway em 1994 (a primeira da história da Disney), que tem seis músicas novas em relação ao filme (compostas por Menken e Tim Rice após o triste falecimento de Ashman em 1991), fosse um massivo sucesso. É a partitura musical e a mestria argumental associada que distinguem este produto Disney de qualquer outra adaptação deste conto clássico como 'La belle et la bête’ (1946) de Cocteau, ‘Beastly’ (2011) ou o recente ‘La belle et la bête’ (2014) com Vincent Cassel e Léa Seydoux. E portanto, se a Disney queria continuar esse legado teria, em teoria, que ser fiel a essa estrutura. O problema é que este novo ‘Beauty and the Beast’ não é. Ou pelo menos não é inteiramente. De facto, o filme vive as suas duas horas de duração numa ostensiva luta interna; dividido entre tentar ser um produto original para autojustificar a sua existência, e entre ser fiel (porque tem que o ser) ao filme de animação que todos conhecemos. Infelizmente, é uma indecisão para a qual nunca consegue arranjar solução. 

O filme chega pela mão de Bill Condon, outrora realizador de biópicos dramáticos como ‘Gods and Monsters’ (que lhe valeu um Óscar de Melhor Argumento em 1998) e ‘Kinsey’ (2004), mas que depois virou para o blockbuster comercial, com por exemplo os últimos dois filmes da saga ‘Twilight’ (2011, 2012). Pelo meio também realizou o musical ‘Dreamgirls’ (2006), um filme que não apreciei, mas o facto de Condon não ser um estranho ao género parecia ser um bom sinal. Para mim a única maneira desta adaptação se justificar era se fosse uma versão cinematográfica do musical da Broadway. Caramba, na última década fizeram-se dezenas de filmes baseados em shows musicais, como ‘Chicago’ (2002), ‘Mamma Mia’ (2009) e o próprio ‘Dreamgirls’. Se seguisse essa linha, a Disney podia-nos ter dado duas horas de soberbas sequências musicais de ‘partir a loiça toda’, criando assim um musical memorável que podia, muito facilmente, ficar nos anais do cinema a par de um ‘The Sound of Music’ (1965) ou um ‘My Fair Lady’ (1964). Mas, infelizmente, não é isso que acontece. A primeira coisa que imediatamente se nota, após termos aquecido o coração com o logótipo da Disney em versão ‘castelo do Monstro’, é que este ‘Beauty and the Beast’ é precisamente um filme de fortes contrastes, onde essa tal indecisão a que me referia é uma constante a vários níveis: visual, argumental e, mais grave de todos, musical. Vamos por partes.

Visualmente, o filme inicia-se de uma forma soberba, parecendo buscar inspiração à Broadway para mostrar-nos cenários opulentos, coloridos e estilizados, que nos transportam imediatamente para o reino do conto de fadas. Isto acontece logo no prólogo no palácio do príncipe que se tornará a Besta (Dan Stevens, cujo melhor atributo é mesmo a sua soberba voz como o Monstro, apesar de ter uma óbvia ajudinha do computador), e também minutos depois na pequena vila onde Belle (Emma Watson) habita e surge a cantar o tema com o seu nome. Destaca-se a forma como Condon se dá (quase sempre) ao trabalho de captar o detalhe “em câmara” bem como a coreografia teatralizada, que se repete na maior parte das cenas da vila (como por exemplo na estalagem onde se canta ‘Gaston’). Só quando Belle surge à la Julie Anderews a cantar “I want adventure in the great wide somewhere” é que fiquei extremamente desapontado. Era preciso green-screen? Mesmo? Um estúdio que fez um filme com um custo final de 160 milhões de dólares não podia arranjar uns trocos para ir com Watson um dia para o topo de uma montanha?

"Visualmente, o filme inicia-se de uma forma soberba (...) monstrando-nos cenários opulentos, coloridos e estilizados, que nos transportam imediatamente para o reino do conto de fadas (...) Infelizmente há uma enorme quebra visual quando passamos para o enquadramento do castelo encantado, totalmente dominado pelos efeitos especiais (...) Nestas cenas até os belíssimos design de produção e guarda-roupa são totalmente ofuscados pelo exibicionismo computadorizado."

Infelizmente, isto era o nefasto augúrio do que estava para vir. Para mal dos pecados do filme, há uma enorme quebra visual quando passamos para o enquadramento do castelo encantado, totalmente dominado pelos efeitos especiais. Percebe-se que se queira criar um contraste fantasioso em relação às cenas da vila, mas tudo o que é demais é exagero. E neste caso é. Sinceramente, achei personagens como Lumière (voz de Ewan McGregor) ou Cogsworth (voz cansada de Ian McKellen) excessivamente intrincadas. E o mesmo se passa com algumas cenas. ‘Be Our Guest’, por exemplo, é uma sequência musical toda feita em CGI onde parece que não houve ninguém que gritasse, como a letra da música tão bem refere, “enough I’m done”. A própria Watson está em alturas da cena claramente a olhar para o lado errado, descoordenada com os estonteantes efeitos que se desenrolam à sua volta (má coreografia de green-screen?!). Nós não queremos viver uma fantasia computadorizada. Queremos viver uma fantasia sonhada. A existir, os efeitos devem servir a fantasia, não afoga-la. O filme, infelizmente, não tem esse discernimento, e portanto nestas cenas até os seus belíssimos design de produção e guarda-roupa são totalmente ofuscados pelo exibicionismo computadorizado.

Argumentalmente, a história segue de perto a estrutura do filme de animação, que o leitor certamente bem conhecerá por isso não ocuparei linhas a descrevê-la. Existem pequenas diferenças argumentais aqui e ali, naturalmente, mas que, pelo menos à primeira vista, são totalmente inócuas porque levam exactamente ao mesmo resultado final. E o mesmo se passa com as alterações feitas nas personagens. Para mim, a homossexualidade latente de LeFou (Josh Gad, o Olaf de ‘Frozen’, e uma das melhores coisas que este filme tem), que estupidamente tem sido fonte de polémica; ou o facto de, à imagem de Watson, Bella se transformar numa feminista cheia de recursos, constituem interpretações naturais da psicologia destas personagens e fazem todo o sentido.

Contudo estas mudanças têm duas grandes consequências, uma menos e uma mais importante. A primeira é o facto do filme, tal como as adaptações de 'imagem real' que o antecederam, estar tão concentrado em moldar as suas personagens principais a um arquétipo de heroísmo moderno que nem nota as incongruências que se geram. Em ‘Maleficent’ (2014), por exemplo, ninguém pareceu reparar na pura estupidez que era uma miúda tão boazinha ter o nome de… Maléfica! Aqui acontecem coisas semelhantes. O facto de tornarem Bella a inventora excêntrica (aparentemente foi ela que inventou a máquina de lavar!) em vez do seu pai Maurice (Kevin Kline em piloto automático), torna muito menos poderosa a cena posterior em que Gaston (Luke Evans, excelente) o tenta internar no manicómio. O facto de o Monstro já não ser analfabeto torna muito menos credível a sua crescente aproximação a Bella através dos livros (aliás o seu “amor” é das coisas menos credíveis do filme). Etc, etc, etc.

"Todas as contínuas interrupções da história, todos os acrescentos (...) e todas as mudanças de tom fazem com que a magnífica estrutura que quer o filme de animação quer o musical da Broadway ostentam, e que constitui a fonte principal da sua perfeição, não seja mantida (...) O ‘Beauty and the Beast’ de 1991 é um dos filmes mais coesos e mais ritmados da história do cinema. Perder isso é perder tudo."

Mas se isto são pormenores, existe uma segunda consequência muito mais grave. Todas as contínuas interrupções da história, todos os acrescentos (incluindo toda uma história secundária relativa à mãe de Belle) e todas as mudanças de tom fazem com que a magnífica estrutura que quer o filme de animação quer o musical da Broadway ostentam, e que constitui a fonte principal da sua perfeição, não seja mantida. E isso é um gigantesco pecado. Aliás, é o maior pecado de todos. O ‘Beauty and the Beast’ de 1991 é um dos filmes mais coesos e mais ritmados da história do cinema. Perder isso é perder tudo.

Logo na primeira sequência, a mítica voz off que nos enquadra a história (aqui por Emma Thompson) é continuamente interrompida para nos mostrar o Príncipe que se tornará o Monstro nos seus “tempos de excesso”. Esta manobra, claramente para ‘encher’, arruína a magnífica composição rítmica que se originava no equilíbrio entre a voz off e a música de Menken (um dos melhores enquadramentos pré-genérico de sempre). E isto é algo que o filme faz uma e outra vez por entre as sequências musicais, até que a cadência perfeita do filme de animação se torna uma utopia distante e as músicas surgem como showstoppers isolados. A história é a mesma, as canções também. Mas a mítica coesão imaculada que o filme de animação tinha perde-se. E com isso perde-se também a chama deste remake. Pense na sua música preferida, caro leitor. Gostaria que outro cantor fizesse uma nova versão em que continuamente a interrompesse para cantar coisas diferentes pelo meio?

Mas há dois pontos que dão ainda mais estocadas na perfeição musical que o filme original continha. O primeiro é a pior qualidade vocal da maior parte dos actores. Emma Watson pode ser muito popular, mas se até as suas qualidades como actriz são debatíveis (aqui mais uma vez prova que não é grande coisa nesse departamento; delicada mas sem qualquer força intrínseca), as suas qualidades como cantora ainda piores são, especialmente quando comparadas com dois portentos como Paige O'Hara (a voz no filme de 1991) e a mítica Susan Egan (que iniciou o papel na Broadway). Nota-se perfeitamente na primeira sequência, a extraordinária canção ‘Belle’, que as partes de Watson têm um eco metalizado (equalizador?!), que deixa de existir quando qualquer secundário (leia-se cantor profissional) entra para dizer “Bonjour” ou “I need six eggs”. Portanto a minha pergunta inicial retorna: se eu já ouvi esta música cantada por Paige O'Hara ou Susan Egan, que prazer vou tirar de ouvir isto cantado por Emma Watson? A resposta óbvia é nenhum.

"Como é possível cantar ‘Beauty and the Beat’ sem a frase final “Off to the cupboard with you now, Chip. It's past your bedtime.”?! (...) Como é possível filmar a cena do baile sem reproduzir o magnífico tracking shot do candelabro até ao par dançante?! As canções, o guarda-roupa e os cenários podem ser os mesmos, mas já não é a mesma coisa (...) já não é o ‘Beauty and the Beast’ DA DISNEY"

Podemos dizer exactamente a mesma coisa de Ewan McGregor como Lumière a interpretar ‘Be Our Guest’ (onde já se viu contratar um escocês para fazer de francês?!) e de Emma Thompson, como Mrs. Pots, a interpretar o tema principal com o seu mais cerrado sotaque cockney. Não sei se não seria melhor trazer de volta Angela Landsbury, que do alto dos seus 91 anos de certeza que ainda deitaria a casa abaixo com a sua rendição de ‘Beauty and the Beast’, até hoje a melhor de todas (qual Celine Dion, qual John Legend). Surpreendentemente, apreciei muito a dinâmica entre o Gaston de Luke Evans e o LeFou do sublime Josh Gad; as suas músicas são as que têm mais vida, e as suas interpretações as mais poderosas porque são as mais cientes da teatralidade da obra. Tomara que Watson seguisse esse molde.

O segundo ponto é a própria selecção das músicas. Muito embora percorra os standards do filme original (‘Belle’, ‘Be Our Guest’, etc), o filme não tem uma subcorrente musical do início ao fim porque trava-a demasiadas vezes com as suas ramificações. Por outro lado, tomou a surpreendente decisão de não utilizar nenhuma das músicas compostas para o musical da Broadway. Isto seria totalmente aceitável não fosse o pequeno pormenor de terem decido criar músicas novas precisamente para os mesmos momentos da história. Que a Disney queira separar os seus produtos e dar um cunho de originalidade à nova produção, ao mesmo tempo que tem mais uma desculpa para vender uns CDs, entende-se perfeitamente. Por exemplo, ‘No Matter What’, do musical, descrevia perfeitamente a relação de Belle com o seu pai, mas não serviria aqui porque não tem a dimensão que a nova música ‘How Does A Moment Last Forever’ passa a ter no contexto das novas ramificações desta história. Mas quando se sacrificam geniais músicas já existentes criando outras com exactamente o mesmo propósito é que já não se entende.

Não me interprete mal, caro leitor, Menken é um génio e continua a prova-lo com temas como ‘Evermore’, a nova música para o Monstro. Mas o musical da Broadway já tinha ‘If I Can’t Love Her’ (por sinal a melhor música “nova” desse espectáculo). As músicas são diferentes mas no fundo são a mesma: ambas procuram ser uma janela para o tormento do Monstro quando assume a sua paixão por Bella. Portanto, criativamente, porque teve Menken de escrever uma música nova quando a outra serviria perfeitamente? Se daqui a vinte anos a Disney fizer mais um remake, Menken terá de escrever uma terceira música para o Monstro? Já a nova ‘Days in the Sun’ não substitui a magnificência de ‘Home’, a música que Bella interpreta no musical quando fica presa no castelo e que revela quer os seus medos quer a sua força interior (teria tido muito mais força cantar isto em vez de mostrar Watson a tentar fugir usando os lençóis da cama…). E muito menos colmata a notória ausência de ‘Human Again’, a canção que nos revela o íntimo dos empregados do castelo (eliminada à última hora da versão de cinema mas restituída nas edições em DVD e Blu-ray do filme de animação). Não é bem ir de cavalo para burro. Mas é ir da perfeição para um pouco mais abaixo. E isso faz toda a diferença.

"Claro que um jovem que veja este filme sem ter visto o filme original certamente ficará fascinado com inúmeros elementos; a música, as personagens e a inevitável magia que advém de toda a produção. Mas para quem já viu e ama o filme de animação, esta nova versão é uma peça absolutamente inútil, porque não tem nenhuma mais-valia intrínseca, com excepção de algumas das novas composições de Menken e Tim Rice. Watson não é uma grande Belle (...), a nova linha argumental é excessivamente lamechas (...) e o ritmo do filme é inconstante e perde-se em detalhes inúteis"

E por fim (vou mandar vir só com mais uma coisa) até certo ponto é compreensível que se tenha escolhido alterar ligeiramente algumas músicas bem conhecidas. Por exemplo, na nova interpretação de ‘Gaston’ utiliza-se material escrito em 1991 mas que não foi utilizado na versão final do filme de animação. É uma forma de honrar esse trabalho ao mesmo tempo que se dá aos fãs motivos para sorrir. Agora é preciso saber medir bem as coisas, porque a última coisa que os produtores deveriam querer era estragar a magia e a memória do filme de 1991. Como é possível cantar ‘The Mob Song’ sem a frase de Gaston “Take whatever booty you can find. But remember, the Beast is mine!”?! Como é possível cantar ‘Beauty and the Beat’ sem a frase final “Off to the cupboard with you now, Chip. It's past your bedtime.”?! Como é possível cantar ‘Something There’ sem Belle fazer um “alarming” à Barbra Streisand (esta é só para os entendidos)?! Como é possível filmar a cena do baile sem reproduzir o magnífico tracking shot do candelabro até ao par dançante?! As canções, o guarda-roupa e os cenários podem ser os mesmos, mas já não é a mesma coisa, porque eram estes pequenos pormenores que davam vida e magia à história e às personagens. Este filme é um ‘Beauty and the Beast’ ao mesmo nível, por exemplo, do filme francês de 2014, e tem todo o direito de existir como uma adaptação do conto de fadas. Mas já não é o ‘Beauty and the Beast’ DA DISNEY.

Bem, talvez esteja a ser demasiado picuinhas e esta crítica já vai muito longa. Fizeram um remake do meu filme preferido de animação por isso é normal que eu leve a coisa bastante a peito. Mas sendo sincero não posso elogiar esta obra porque ela tem poucas coisas que merecem elogio. O que tem de bom não é dela, é do filme de 1991. Claro que um jovem que veja este filme sem ter visto o filme original certamente ficará fascinado com inúmeros elementos; a música, as personagens e a inevitável magia que advém de toda a produção. Mas para quem já viu e ama o filme de animação, esta nova versão é uma peça absolutamente inútil, porque não tem nenhuma mais-valia intrínseca, com excepção de algumas das novas composições de Menken e Tim Rice. Watson não é uma grande Belle, nem de perto nem de longe (falta-lhe energia e exuberância, e está demasiado consciente de todos os movimentos), a nova linha argumental é excessivamente lamechas (aquela cena em Paris…), o ritmo do filme é inconstante e perde-se em detalhes inúteis (como por exemplo forçar a aparição de actores afro-americanos – na França do século XVIII!!) enquanto descarta pormenores da história original sem se aperceber que eram extremamente importantes num nível subliminar.

Mas no fundo tenho que admitir que o filme não é mau. Não é ofensivo como ‘Maleficent’ (2014) no sentido em que respeita a memória do filme original, mas ao contrário de 'Cinderella' (2015) fá-lo sempre na superfície, nunca na emoção. Conscientemente houve a decisão de criar um produto diferente, mas mais (mais diálogos, mais explicações, mais cenas íntimas) não significa melhor. Paradoxalmente, o filme de animação tinha muito mais humanidade que este que é de carne e osso. Porque às vezes não é preciso falar. É preciso sentir. É preciso que a câmara capte a emoção, o que não acontece aqui por mais sumptuoso que seja o visual (e é). E é por isso que esta adaptação falha. O resultado final é um filme que nem aquece nem arrefece. Um filme que simplesmente acontece, seguindo mecanicamente os seus previsíveis passos apoiado na cumplicidade intrínseca do espectador (que mais que provavelmente ama o filme de animação) sem nunca encontrar um propósito e uma chama própria. Um filme que se consegue desfrutar minimamente (as duas horas passam bem; podemos cantar as canções e rir um pouco), mas que sempre será uma pálida imagem do filme em que se baseia, e que se esquece facilmente, muito facilmente, mal os créditos rolam.

"Paradoxalmente, o filme de animação tinha muito mais humanidade que este que é de carne e osso. Porque às vezes não é preciso falar. É preciso sentir. (...) E é por isso que esta adaptação falha. O resultado final é um filme que nem aquece nem arrefece. Um filme que simplesmente acontece, seguindo mecanicamente os seus previsíveis passos apoiado na cumplicidade intrínseca do espectador (...) sem nunca encontrar um propósito e uma chama própria (...) e que se esquece facilmente, muito facilmente, mal os créditos rolam."

Amaremos para sempre o filme de animação de 1991. Mas depois das dezassete adaptações de “imagem real” que a Disney se prepara para fazer, teremos dificuldade em lembrar-nos que esta versão de 2017 alguma vez existiu. Chegou, venceu na bilheteira e cairá no esquecimento. É esse o propósito do cinema moderno. Não era esse o propósito do senhor Walt. Criativamente, é uma adaptação inútil. Mais valia relançarem o filme de animação nos cinemas. Porquê contentarmo-nos com menos quando já temos a perfeição ao nosso alcance?

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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