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Marni Nixon - A Voz de Hollywood


Honrar Marni Nixon em EU SOU CINEMA era algo que eu já queria fazer desde o final de 2016. Por essa altura, todos vimos na televisão e todos lemos na internet inúmeras homenagens às grandes vozes que nos deixaram nesse ano trágico para a música: David Bowie, Prince, Leonard Cohen, George Michael. E até os sites e as revistas de cinema homenagearam estes e outros nomes, pelas suas ligações (mais ou menos presentes) à sétima arte. Mas foram raras, para não dizer praticamente inexistentes, as listas que prestaram homenagem a uma senhora que deu um enorme contributo ao mundo do espectáculo musical: Marni Nixon. O nome provavelmente não diz nada ao leitor, mas estou certo e seguro que já ouviu a sua voz. E muito.

Ser um artista com a chamada 'tripla ameaça', ou seja, saber cantar, dançar e actuar, sempre foi mais uma prerrogativa do teatro do que do cinema. Recordarmos com saudosismo os grandes artistas triplos que foram também grandes estrelas de Hollywood (Fred Astaire, Gene Kelly) mas temos de admitir que se contam pelos dedos. Contudo, a atitude que hoje existe perante esta, digamos, falha, é bastante diferente daquela que reinou na Hollywood clássica. Hoje vivemos numa era em que o público adora ver uma estrela sair da sua zona de conforto e não se importa nada que ela não esteja à altura de um elevado padrão de qualidade. Muito pelo contrário, delicia-se precisamente porque não está. Pierce Brosnan foi aplaudido e não vaiado por cantar mal e porcamente em 'Mamma Mia!' (2008). Idem para Russell Crowe em 'Les Misérables' (2012). O público prefere ver uma estrela a fazer um infrutífero esforço desmesurado e ler numa revista que passou horas e horas em treino intensivo, do que ser seduzido pela qualidade vocal de um artista desconhecido. Se isto foi sempre, infelizmente, assim, pelo menos no cinema clássico fazia-se a coisa com um pouco mais de classe, muito embora de uma forma eticamente mais dúbia. Se a estrela não tinha qualidade vocal suficiente, e não se queria substituir a estrela, a solução era simples: dobrava-se a sua voz de canto em segredo (algo parodiado na perfeição em 'Singin' in the Rain', 1952). E a rainha dessas dobragens foi Marni Nixon.

Desde cedo que Marni teve talento para o canto. Em criança foi solista de um grupo coral e na adolescência mudou-se para a ópera. Em 1947, com apenas 17 anos de idade, rumou a Hollywood e pouco depois já cantava com a orquestra filarmónica de Los Angeles sob a batuta do famoso maestro Leopold Stokowski. Daí até ao cinema foi um passo e começou a dar a sua voz à banda sonora de inúmeros clássicos, primeiro em coros (é sua a voz dos anjos que Ingrid Bergman ouve em 'Joan of Arc', 1948, ou sua a voz das flores no clássico da Disney 'Alice in Wonderland', 1950), e depois dobrando as vozes de canto de outras actrizes. Mas o que começou quase inocentemente, primeiro substituindo a voz da jovem Margaret O'Brien nos filmes 'Big City' (1948) e 'The Secret Garden' (1949) e depois fazendo outros trabalhos como dobrar as canções de Ida Lupino em 'Jennifer' (1953) ou substituir a voz de Marylin Monroe na canção 'Diamonds Are a Girl's Best Friend' nas notas mais altas a que esta não conseguia chegar, tornou-se um misto de bênção e maldição para Marni.

"Se a estrela não tinha qualidade vocal suficiente, e não se queria substituir a estrela, a solução era simples: dobrava-se a sua voz de canto em segredo (...). A rainha dessas dobragens foi Marni Nixon (...) Os seus sublimes contributos para a sétima arte, que na altura dos respectivos lançamentos não foram valorizados e que ainda hoje são maioritariamente desconhecidos do grande público (...), podem agora ser recordados e aplaudidos com ardor "

A sua carreira na Broadway começou em 1954 mas o seu espectáculo de estreia não teve muito sucesso. Pouco depois, a cantora inicialmente contratada para dobrar a voz de canto da actriz Deborah Kerr em 'The King and I' (1956) faleceu tragicamente num desastre de automóvel e Marni, na altura certa no lugar certo e à procura de uma oportunidade, tomou o seu lugar. O estúdio gostou tanto, e a resposta do público foi tão entusiasta, que repetiu a dose no ano a seguir, dobrando de novo Kerr em 'An Affair to Remember'. A partir deste momento, a sua voz faria história, embora fosse uma virtual desconhecida do grande público, graças aos contratos de confidencialidade que teve de assinar. Quando pouco depois dobrou a voz de canto de Natalie Wood em 'West Side Story', nem a própria Wood sabia que iria ser dobrada.

Mas isto foi o princípio do fim. Enquanto prosseguia com mais uma dobragem memorável, a das canções de 'My Fair Lady' (1964) substituindo a voz de Audrey Hepburn, Marni ansiava pelo reconhecimento. Quer Wood quer Hepburn foram louvadas pelas suas interpretações enquanto ela continuava sem receber, quer em termos de popularidade, quer em termos financeiros, o devido fruto do seu trabalho. Portanto, após a sua primeira aparição de sempre à frente das câmaras num pequeno papel em 'The Sound of Music' (1965) e o filme de animação 'Jack and the Beanstalk' (1967) em que cedeu a voz à personagem de Princesa Serena, Marni abandonou Hollywood.

Com o nome artístico de 'A Voz de Hollywood', Marni passaria as décadas seguintes a ensinar canto e a dar espectáculos na televisão (o seu programa infantil 'Boomerang' é famoso e deu-lhe a ganhar quatro Emmys), em salas de concertos (fez uma tourné popular com Liberace), e em musicais, incluindo 'Cabaret', 'The King and I', 'The Sound of Music' ou 'Nine'. Tirando aceitar um convite da Disney para dar a voz à avó de 'Mulan' no filme de 1998, Marni nunca voltou ao cinema e trabalhou até ao final da vida no teatro. Em 2008 ainda a podíamos ver nos palcos londrinos no papel da mãe de Henry Higgins em 'My Fair Lady'. Em 2012 recebeu o prémio George Peabody por "Outstanding Contributions to American Music". Mas após ter sobrevivido duas vezes a um cancro, à terceira sucumbiu. Foi a 24 de Julho de 2016. Tinha 86 anos de idade.

Fica aqui, nos vídeos seguintes, um pouco da sua história musical. Os seus sublimes contributos para a sétima arte, que na altura dos respectivos lançamentos não foram valorizados e que ainda hoje são maioritariamente desconhecidos do grande público (afinal quem hoje vir 'My Fair Lady' ou 'West Side Story' não verá o seu nome nos créditos), podem agora ser recordados e aplaudidos com ardor numa sentida homenagem a uma mulher que tão injustiçada foi no início da sua carreira. 2016 assistiu à perda de muitos génios da música. Marni Nixon foi um deles e isso deve ser dito e re-dito a alto e bom som. Faz sentido. Notas altas e com bom som eram a sua especialidade.



Cinderella (1950)

O que cantou: A voz de canto de Cinderella a interpretar a canção "A Dream Is a Wish Your Heart Makes".


Alice in Wonderland (1951)

O que cantou: A voz de algumas flores cantantes na sequência "Golden Afternoon'"


Gentleman Prefer Blonds (1953)

O que cantou: As notas altas a que Marilyn Monroe não conseguia chegar na canção ''Diamonds Are a Girl's Best Friend".


The King and I (1956)

O que cantou: Todas as canções interpretadas pela personagem de Deborah Kerr, incluindo esta, "Shall we Dance".


An Affair to Remember (1957)

O que cantou: De novo, todas as canções interpretadas pela personagem de Deborah Kerr, incluindo esta, "Tomorrow Land".


West Side Story (1961)

O que cantou: Todas as canções interpretadas pela personagem de Natalie Wood, incluindo esta, "I Fell Pretty". Dobrou também a voz de Rita Moreno somente na canção "Tonight".


My Fair Lady (1964)

O que cantou: Todas as canções interpretadas pela personagem de Audrey Hepburn, incluindo esta, 'Wouldn't It Be Loverly?'.


The Sound of Music (1965)

O que cantou: A canção "Maria", no papel de Irmã Sophia (um dos únicos papéis em que aparece fisicamente à frente da câmara). Podemos vê-la neste vídeo logo no início, aos 00'05''. É dela a frase "She waltzes on her way to mass and whistles on the stair.".


Mulan (1998)

O que cantou: No papel de Avó Fa, a canção "Honor to Us All".




RIP Marni
(1930-2016)

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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