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Suntan

Ano: 2016

Realizador: Argyris Papadimitropoulos

Actores principais: Makis Papadimitriou, Elli Tringou, Dimi Hart

Duração: 104 min

Crítica: ‘Suntan’ é o segundo filme que vi, depois de ‘Baden Baden’ (cuja crítica publiquei há um par de dias), no âmbito do projecto Scope 100. Cem cinéfilos não profissionais portugueses foram seleccionados para ver, criticar e discutir um conjunto de sete filmes recentes europeus, para no final se escolher aquele que será lançado comercialmente em Portugal em 2017.

‘Baden Baden’, uma co-produção franco-belga de uma jovem realizadora, foi para mim uma decepção. O filme, como escrevi, tem “todos os maus tiques que associo ao cinema elitista e pedante europeu: uma realização intrusiva, um argumento artificialmente elusivo e, no fundo, um tom egocêntrico mascarado de arte”. Portanto estava um pouco mais reticente quando comecei a ver ‘Suntan’, um filme grego de mais um relativamente jovem realizador de que (mea culpa) nunca tinha ouvido falar: Argyris Papadimitropoulos. Este é o seu terceiro filme, depois de ‘Bank Bang’ (2008), um mega sucesso de bilheteira na Grécia e vencedor do prémio de Melhor Realizador Estreante da Academia de Cinema Grega; e de ‘Wasted Youth’ (2011), que abriu o Festival de Roterdão desse ano. Com ‘Suntan’, Papadimitropoulos regressou ao círculo de festivais, tendo já vencido o prémio de Melhor Filme no Festival de Edimburgo, o prémio de Melhor Realizador Jovem em Bruxelas e de ter sido nomeado para o Prémio Lux do Parlamento Europeu.

"O filme tem o ritmo ponderado do cinema europeu, onde nem tudo precisa de ser explicado e onde o poder do visual, das sensações e da realização são armas muito mais poderosa do que o argumento escrito."

Prémios para mim significam pouco, porque todos nós já vimos obras-primas e filmes maus que ganharam exactamente o mesmo prémio. Mas a verdade é que, pelo menos no caso de ‘Suntan’ não há fumo sem fogo, e isso é óptimo. É engraçado notar que o filme partilha de muitas semelhanças conceptuais com ‘Baden Baden’ feito na outra ponta da Europa. Ambos começam com um plano fechado do rosto da personagem principal a deslocar-se num veículo de transporte. Ambos são sobre a viagem emocional de uma personagem um pouco à margem do sistema durante o período de um Verão. E ambos têm o ritmo ponderado do cinema europeu, onde nem tudo precisa de ser explicado e onde o poder do visual, das sensações e da realização são armas muito mais poderosa do que o argumento escrito. Mas enquanto ‘Baden Baden’ acabava por se construir de forma demasiado artificial, tentando forçar uma simbologia trágico-artística à volta da sua personagem principal que na realidade o espectador nunca sentia, ‘Suntan’ é muito mais natural, muito mais humano, muito mais pungente, e ao sê-lo muito mais rapidamente cria empatia com o espectador.

‘Suntan’ conta a história de Kostis (Makis Papadimitriou), um médico que, quando o filme se inicia, está a chegar à pequena ilha grega de Antiparos, onde assumirá a responsabilidade da clínica local. Papadimitriou tem uma soberba interpretação, com as suas características corporais (a cara patusca e a constituição a tender para o roliço) a ajudarem a construir uma personagem que desde o início apela à simpatia do espectador; um médico competente mas que contudo é tímido e introvertido. Os primeiros dez minutos funcionam como um prólogo, onde Kostis se ajusta à rotina cíclica da vida pacata da ilha, onde toda a gente conhece a toda a gente. A clínica fecha religiosamente às 15h, mas depois dessa hora Kostis não tem muito para fazer nem se dá muito a conhecer aos novos vizinhos, que deambulam pelos cafés e lhe gabam a tão aguardada glória do mês de Agosto. Pois como muitas outras pequenas ilhas gregas, esta vive quase exclusivamente do exagerado turismo que a invade durante o Verão, quando a vida pacata dos 800 habitantes é virada do avesso pela avalanche de jovens que procuram sol, praia, liberdade, sexo (a nudez aparecerá sempre de forma natural e nunca ofensiva), drogas e festas, muita festas, que a ilha não se importa de lhes oferecer, sem pudor.

Após um intertítulo com o nome do filme, saltamos directamente para o Verão seguinte e directamente para o cerne da história. Voltamos ao consultório de Kostis de onde havíamos saído, mas há uma clara mudança de tom, estilo e ritmo. O enquadramento cénico transita dos ambientes sombrios e chuvosos de Inverno, representados pelos interiores opressivos (o bar, a clínica, a casa de Kostis), para os ambientes quentes e iluminados, através da filmagem de exteriores que capta na perfeição a paradisíaca atmosfera do Verão grego. E o espaço da clínica onde sobriamente Kostis havia observado os habitantes da ilha está transformado num verdadeiro pandemónio, com um conjunto de jovens, algo tocados pelo álcool e pelas drogas, a divertirem-se a gozar com Kostis enquanto ele observa a belíssima Anna (Elli Tringou, uma revelação luminosa neste que é o seu primeiro filme) que sofreu um pequeno acidente de mota.

"O enquadramento cénico transita dos ambientes sombrios e chuvosos de Inverno, representados pelos interiores opressivos (o bar, a clínica, a casa de Kostis), para os ambientes quentes e iluminados, através da filmagem de exteriores que capta na perfeição a paradisíaca atmosfera do Verão grego"

Kostis tenta gerir a situação com o seu modo desajeitado e Ana bafeja-o com o seu extraordinário charme, levemente ternurento, levemente erótico, ora travando os seus amigos de gozarem com o médico, ora ela própria juntando-se ao gozo com subtileza. São jovens para quem este mês na ilha é uma interminável rave e tudo é desculpa para mais um pequeno momento de diversão. Mas antes de partir Anna beija e abraça o médico, agradecendo-lhe ter sido tão expedito a curá-la e convidando-o a ir ter com eles mais tarde à praia. Tal como para vários homens ao longo da história da mitologia e da ficção, este é o seu momento de viragem para a perdição.

Kostis, sem grande hesitação diga-se, decide ir à praia nessa mesma tarde após fechar a clínica. Os jovens, principalmente Anna, acabam por o acolher no seu grupo, adoptando-o como uma espécie de mascote cota. Não se importam que ele lhes pague a entrada nos clubes nem que lhes pague bebidas, e em troca deixam-no andar com eles, e introduzem-no ao mundo despreocupado e extasiante do free-love e das raves. Kostis acaba por viciar-se na dupla vida; trabalha na clínica religiosamente até às 15h, hora em que parte para a praia para ficar com os seus ‘amigos’ até à madrugada seguinte. Mas principalmente começará a ficar cada vez mais viciado na companhia de Anna, que o vai mantendo enrolado à volta do dedo. Tanto que até nem se importa que tenham um breve, e não muito bem-sucedido, encontro sexual.

Mas se para Anna isto faz tudo parte da experiência do Verão de ‘todos os excessos’, para Kostis vai tornar-se numa obsessão muito mais séria. O seu trabalho fica seriamente afectado pelas longas noites e a sua obsessão por Anna começa a ficar fora do controle, principalmente a partir do momento em que percebe que Anna já se enfadou da sua companhia e já partiu para outras experiências. E essa obsessão que lentamente se torna cada vez mais doentia terá consequências trágicas para ambos…

"Kostis não é a primeira personagem a encontrar refúgio numa pequena comunidade para começar de novo, nem é a primeira personagem de meia-idade a tentar retornar fugazmente aos excessos despreocupados da juventude através da relação perene com uma jovem cheia de luz e energia. Mas o filme joga bem com esse lugar-comum, apresentando uma ideia de familiaridade (...) mas depois dedicando-se a desconstruí-la lentamente"

Uma das minhas maiores críticas a ‘Baden Baden’ prendia-se com a falta de força na construção da personagem, com a qual o espectador nunca se conseguia relacionar. ‘Suntan’, por seu lado, é exímio nesse departamento. Kostis não é a primeira personagem no cinema a encontrar refúgio numa pequena comunidade para começar de novo, nem é a primeira personagem de meia-idade a tentar retornar fugazmente aos excessos despreocupados da juventude através da relação perene com uma jovem cheia de luz e energia (o cinema europeu recente está cheio de filmes de temática semelhante). Mas o filme joga bem com esse lugar-comum, apresentando uma ideia de familiaridade a que o espectador se pode agarrar, num aparente conforto, mas depois dedicando-se a desconstruí-la lentamente, à medida que a história se desenrola. Do mesmo modo, o filme nunca alude directamente ao seu passado, apenas insinua que algo o impeliu a "fugir" para a ilha, ora não lhe dando muita importância, ora não deixando o espectador esquecer que essa incerteza existe. É essa inquietude permanente na subcorrente do argumento que continuamente provoca o espectador e o deixa agarrado à história na expectativa do desenlace. 

Mesmo sendo o passado de Kostis vago, e mesmo que haja uma talvez exagerada facilidade na sua passagem de um estado entorpecido para um de acção obsessiva, o arco emocional que é apresentado acaba por ser natural, credível e auto-suficiente. A montagem cíclica vai introduzindo aos poucos momentos de desconforto que conduzem ao clímax, e o estilo visual dá a volta completa, revertendo de novo para ambientes opressivos, escuros e decadentes representados pela movida (a luz de Anna perde-se). Mas é através da expressão corporal de Papadimitriou que o filme consegue ser mais eficaz. A sua inconstante atitude entre o desespero cansado e a paranóia, entre ser vítima e ser stalker, é deveras desconcertante e adiciona camadas emocionais à obra.

Do mesmo modo, a Anna de Elli Tringou não é apenas um espírito livre oco e inconsequente que funciona só como um objecto de desejo da obsessão de Kostis. Também ela terá consciência das consequências dos seus actos, também ela tem camadas que oscilam entre o despreocupado e a verdadeira tensão, a pena e o desprezo por Kostis. Se assim não fosse a sua relação não teria tanta força nem o desenlace seria tão acutilante.

"O filme assume a atitude leve do Verão grego e a perspectiva patética de Kostis. A montagem vai-se fazendo de forma ritmada mas nunca num tom pesado, e nunca se adoptam estratégias artificiais de cinematografia (como o uso de música tensa) nos momentos cruciais (...) Se isto não provoca um desconforto directo no espectador, como faria qualquer thriller americano, talvez torne ainda mais pungente a história que é contada."

Realmente, só encontro duas coisas que devo, talvez não criticar, mas debater relativamente a ‘Suntan’. A primeira é que o tom da história não é verdadeiramente o de um drama negro e intenso, como a descrição pode fazer crer. O filme assume a atitude leve do Verão grego e, parece-me, a perspectiva patética de Kostis. A montagem vai-se fazendo de forma ritmada mas nunca num tom pesado, e nunca se adoptam estratégias artificiais de cinematografia (como por exemplo o uso de música tensa) nos momentos cruciais da trama, especialmente quando a paranóia de Kostis fica fora de controlo. Se isto não provoca um desconforto directo no espectador, como faria qualquer thriller americano, talvez torne ainda mais pungente a história que é contada. Quando estava a ver o filme não fiquei muito satisfeito, talvez porque estamos habituados a esses estímulos artificiais no cinema. Mas agora, um dia inteiro depois, pergunto-me se esta decisão de realização não torna a obra muito mais duradoira.

E precisamente o mesmo se passa com a forma como o realizador decide terminar o filme. Depois de uma construção de quase três quartos de hora, em que o espectador espera com uma ansiedade crescente o momento de explosão dramática para o qual os eventos conduzem, o que acaba por ocorrer é, pelo menos à primeira vista, anti-climático e decepcionante. Mas pouco depois surgiu-me a dúvida se seria mesmo assim. A personagem de Kostis não está a representar nenhum ideal artístico ou sociológico e portanto nenhuma cena tenta exacerbar artificialmente a sua veia trágica. É sempre tratado, do primeiro ao último segundo (uma das mais valias do filme), como uma personagem falivelmente humana. Pode ter sido levado ao extremo pela fraqueza da sua personalidade mas no fundo não deixou de ser o homem com quem criamos empatia nas primeiras cenas e cujo arco emocional acompanhamos com vivido interesse. Por isso faz todo o sentido que a sua catarse não se escreva por linhas direitas e que o final seja aberto, uma conclusão lógica para um filme que sempre se desenrolou da perspectiva desta personagem e pela qual, apesar de tudo, nunca deixou de nutrir simpatia.

Tudo somado, não iria tão longe ao ponto de chamar a ‘Suntan’ uma obra-prima, mas é um grande filme. Sem dúvida, é o melhor filme datado de 2016 que vi até hoje. Acaba por ser um drama social sobre a crise da meia-idade misturado com um, digamos, anti-thriller, que encontra uma personagem que vale muito mais que o cliché da sua condição e se desenrola ao sabor do ritmo e da paisagem paradisíaca das ilhas gregas. A montagem pode ser algo inconstante mas a realização é segura e consegue manter a coerência enquanto cambia entre estados de alma conforme a sua personagem principal; do exageradamente colorido retrato idílico, entre o saudosista e invejoso, da juventude sem preocupações; ao pico do degredo depressivo numa ilha em que a movida do Verão anonimizou as vidas e descaracterizou as emoções. O desenrolar da relação entre Anna e Kostis é extremamente cativante e as ramificações das consequências dos eventos são suficientemente interessantes para que o filme não se esgote na primeira visualização. Não seria um DVD que desgostaria de comprar e estou certo e seguro que irei descortinar mais camadas quando vir o filme pela segunda vez.

"Sem dúvida, é o melhor filme datado de 2016 que vi até hoje. Acaba por ser um drama social sobre a crise da meia-idade misturado com um, digamos, anti-thriller (...) um filme poderoso porque consegue fazer uma coisa muito difícil: construir com pouco uma grande personagem"

‘Suntan’ é um filme que pode não ser apelidado de ‘artístico’, nem representar alguma relevante temática social. Mas é um filme poderoso porque consegue fazer uma coisa muito difícil: construir com pouco uma grande personagem. Uma personagem humana, credível, cujo comportamento é errático e inconstante, como o de todos, mas que no fundo só deseja responder aos instintos mais básicos; o do afecto, o do combate à solidão. Por isso, mesmo que o final seja vago, esta dupla viagem de descoberta (de nós de Kostis, e de Kostis de si próprio) valeu a pena. Ao tratar o espectador com respeito, não impondo apenas uma visão, o filme desdobra o seu significado e ganha maior dimensão. E se tudo o resto falhar (não falha) o filme terá sempre motivos de interesse mais “comerciais” na mise-en-scène (as paisagens, o retrato dos jovens, o ritmo da acção) para apelar a um público mais alargado, inclusive, até, para os lados de Hollywood. Não é pois descabido terminar com um aviso: “Atenção Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Grécia este ano tem um candidato de peso.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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