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The Patchwork Girl of Oz

Ano: 1914

Realizador: J. Farrell MacDonald

Actores principais: Violet MacMillan, Frank Moore, Raymond Russell

Duração: 81 min

Crítica: NOTA: Esta é a terceira e última de uma trilogia de críticas sobre os filmes que L. Frank Baum, o autor dos livros do ‘Feiticeiro de Oz’, produziu em Hollywood no ano de 1914, através da sua recém formada companhia Oz Film Manufacturing Company. Pode ler a introdução a este ciclo, bem como encontrar os links para as restantes duas críticas na crónica 'L. Frank Baum e a trilogia ‘Wizard of Oz’ de 1914 – introdução a um mini-ciclo de críticas'.

Após ver ‘The Magic Cloak of Oz’ e ‘His Majesty, the Scarecrow of Oz’, ver ‘The Patchwork Girl of Oz’ é encontrar um filme que se processa em moldes ligeiramente diferentes, mas não menos interessantes. L. Frank Baum, o próprio autor dos livros de Oz, havia concebido em ‘His Majesty, the Scarecrow of Oz’ uma fabulosa obra de fantasia infantil. A junção de uma história engraçada com alguns inventivos efeitos visuais (para a época), com principalmente a faísca gerada pelas várias criaturas mágicas e antropomórficas, que dançavam pelo ecrã com uma extasiante alegria (mesmo descortinando os homens dentro dos fatos), tornavam este filme, como escrevi, “uma bem construída fantasia cinematográfica, uma incrível viagem pelo mundo da nossa imaginação e pelo fantástico mundo de Oz”, um filme “especial, que é mágico, que assinala o verdadeiro nascimento do cinema apontado para o mercado infantil e que lançaria as sementes para todos os grandes filmes e séries que nos ajudaram a crescer.

Uma coisa que se nota logo em ‘The Patchwork Girl of Oz’ é que, ao centrar-se principalmente em humanos e não nos seres fantásticos da Terra de Oz (que levavam os filmes anteriores, mesmo que pior concebidos, àquele intangível patamar da essência da infância), perde um pouco desta cumplicidade mágica com o espectador jovem, e um pouco do je ne sais quoi que o permitia não ficar datado. Mesmo assim, não há dúvidas que ‘The Patchwork Girl of Oz’ é o mais coeso filme dos três, em termos cinematográficos e em termos de argumento. Pode não conseguir atingir aquele mesmo clique que nos permitiu enternecer o coração e ter um afecto tão grande por ‘His Majesty, the Scarecrow’, mas apresenta a aventura mais bem construída da trilogia, os melhores efeitos especiais e o visual mais rico, ao passear-se por um grande número de localizações em Oz e mostrar-nos, mesmo que de forma secundária, uma panóplia de seres. 

Em ‘The Patchwork Girl of Oz’ a cadeira de realizador é de novo tomada por J. Farrell MacDonald (realizou ‘The Magic Cloak of Oz’), um prolífero realizador de curtas-metragens durante a década de 1910 e que depois se tornaria actor secundário, principalmente em westerns. Ao contrário dos outros dois filmes, ‘The Patchwork Girl of Oz’ entra logo de cabeça na sua história e não custa nem a arrancar nem a prender a atenção do espectador. Os intertítulos são usados apenas esporadicamente, para introduzir as personagens ou para as transições de cena, e o seu ritmo continuamente animado é uma das suas grandes mais-valias. Só é pena que a versão constante no DVD do 70º aniversário do ‘Feiticeito de Oz’ de 1939 (onde a vi) não possua qualquer acompanhamento musical, tal como os outros dois filmes. Apesar de ser o mais dinâmico dos três é aquele em que a falta deste material sonoro é mais sentida, precisamente porque gostaríamos que algo estivesse a marcar o ritmo.

A primeira cena introduz-nos a casa pobre do Tio Nunkie (Frank Moore, o espantalho em ‘His Majesty, the Scarecrow’) e do pequeno Ojo, um Munchkin (interpretado pela rapariga Violet MacMillan – e nota-se bem que é uma rapariga – voltando a trocar de género como fez em ‘The Magic Cloak’ depois de ser Dorothy em ‘His Majesty, the Scarecrow’). A sua árvore de pão pouco pão dá e, temendo morrer à fome, decidem rumar à Cidade Esmeralda. Pelo caminho, com a ajuda do burro (de novo a pior criatura; incrível como entra nos filmes todos), chegam a uma casa no meio da floresta onde um feiticeiro simpático, o Dr. Pipt (Raymond Russell) está há seis anos a conceber uma poção de vida. A sua mulher usa artes mágicas para construir uma Boneca de Trapos (o primeiro de muitos efeitos visuais em ‘stop motion’ muito bem conseguidos), que depois ganha vida graças à poção. Contudo um acidente faz com que três personagens, incluindo o Tio Nunkie e o namorado de Jesseva (Bobbie Gould), filha do Dr. Pipt, fiquem petrificados.

O que se segue é uma viagem pela Terra de Oz em que dois grupos distintos, um liderado por Ojo e Jesseva (que leva o seu namorado em formato estátua miniatura consigo, o que causará diversos problemas); e outro constituído apenas pelo Dr. Pipt, procuram encontrar os ingredientes mágicos para a poção-antídoto que permitirá restituir os petrificados à vida. Esta viagem permite visitar inúmeros locais que a maior parte das adaptações (excluindo a mais recente ‘Oz the Great and Powerful’) nunca mostra, o que é deveras interessante. O Dr. Pipt encontra uma casa mágica (mais incrível ‘stop motion’), uma terra em que todos andam aos saltos e também um povo que mora em grutas, em busca de um poço negro onde poderá encontrar um ingrediente que precisa.

Já Ojo, Jesseva e os restantes jovens que os acompanham procuram primeiro uma criatura mágica, o Woozy, cujos pêlos da cauda são necessários. De dizer que o Woozy está fantástico (por isso é incrível saber que é Fred Woodward, o proverbial Burro, que está também dentro deste fato) e é a melhor aproximação que este filme tem daquele estado mágico que os restantes filmes conseguiam atingir quando as criaturas enchiam a tela. Depois de passarem uma terra de ilusão, Ojo decide colher um trevo, mesmo sabendo que isso é um crime em Oz. Isso leva-os à Cidade Esmeralda onde serão julgados pela Rainha Ozma (Jessie May Walsh) e um júri de caras bem conhecidas, incluindo o Espantalho e o Homem de Lata (afinal, tinham de aproveitar os fatos dos outros filmes, não?!). Será a Boneca de Trapos, que aparece sempre quando é preciso, quer ao lado do Dr. Pipt, quer ao lado dos miúdos, que ajudará a salvar o dia…

Apesar deste sempre dinâmico ritmo, um dos problemas de ‘The Patchwork Girl of Oz’ é que não encontra uma tensão simpática entre estas duas aventuras. Claro que os grandes avanços no campo da edição paralela foram obtidos apenas quando Griffith lançou ‘The Birth of a Nation’ no ano seguinte e portanto em ‘The Patchwork Girl of Oz’ tudo ocorre de forma excessivamente separada (primeiro vemos uma aventura, depois a outra) apenas se juntando na cena final, no palácio. Pelo contrário, visto que as personagens principais são humanos, as criaturas formam sempre um gentil aparte, e nunca aparecem separadamente, impedindo assim que o espectador se transporte, como nos outros filmes, para um mundo à parte onde só elas existem e onde o forte contraste entre humanos/‘actores-dentro-de-fatos-de-animais’, deixa de ser sentido. Aqui sente-se, infelizmente, com poucas mas interessantes excepções. O sempre brincalhão Woozy é uma delas, e nota-se que às vezes está lá atrás, no fundo do plano, a dar o ar da sua graça, demonstrando a grande capacidade de improvisação de Woodward, pouco aproveitado como o Burro. Do mesmo modo, a Boneca de Trapos fascina-nos com a sua dança de movimentos, interpretados pelo incrível contorcionista Pierre Couderc.

Mas a grande riqueza de ‘The Patchwork Girl of Oz’ está não só no excelente design de produção de todas as terras mágicas por onde as personagens passam (critérios de 1914 obviamente), mas principalmente nos truques de fotografia, que são os melhores da trilogia. Estes incluem vários ‘cuts’ muito bem-feitos, os ‘stop motions’ (principalmente na Casa Mágica), e inteligentes usos de perspectiva (que permitem por exemplo o Dr. Pipt “descer” para as grutas). Sinceramente, não havia melhor fantasia a ser feita em Hollywood por esta altura e, tal como afirmei na crítica a ‘His Majesty, the Scarecrow’, sou da opinião que estes efeitos que Baum produziu são melhores do que os aclamados de Meliés, em França.

No final, tenho alguma pena que ‘The Patchwork Girl of Oz’ tenha uma grande falha ao não consiguir reproduzir completamente aquela aura mágica da essência da nossa infância que ‘His Majesty, the Scarecrow’ tanto tinha. Mas isso não implica que o filme não seja bom para crianças. Continua a ser porque existe no mesmo universo fantasioso que nos é familiar, e que pode unir pais e filhos à volta da televisão. Pode não atingir aquele instante no tempo em que nos libertamos de tudo e ficamos apenas envoltos naquelas personagens, ao ponto de esquecermos que são homens dentro de fatos de Carnaval e que o filme é mudo, a preto e branco, e a fita está bastante riscada e granulada. Mas é o filme dos três que certamente apelará a um público mais alargado, porque é mais uma aventura do que propriamente um conto moral para crianças. É sem dúvida um deleite visual passarmos por aquelas terras, conhecermos aqueles seres e desfrutarmos dos efeitos. Tanto que, de novo, se nos deixarmos ir e, digo eu, com o acompanhamento musical adequado, esta obra se tornará colorida e sonora e excitante na nossa imaginação, e na imaginação de todas as crianças.

Para mim é este o segredo do sucesso, não só deste filme mas da trilogia. Não talvez na altura do seu lançamento em 1914, quando os filmes foram um relativo fiasco provavelmente porque o público não estava habituado a que fosse a sétima arte a satisfazer esta nossa necessidade de revivermos as emoções do “ser criança” e de estimularmos a nossa imaginação através do entretenimento; mas pelo menos agora, um século depois. Estes três filmes são pérolas da história do cinema, que podem ser redescobertas com emoção e uma excitação extasiante, como só o cinéfilo mais dedicado sabe sentir. E as crianças, sem preconceitos, com a sua imaginação como grande arma, certamente encontrarão aqui um objecto de adoração, um deleite para as suas jovens vidas. Não fossem, como escrevi na crítica a ‘The Magic Cloak’, estas fantasias produzidas pelo grande mestre das fantasias infantis, o homem que transpôs para o ecrã estas adaptações da sua terra mágica de Oz com o mesmo carinho com que escreveu os livros. E por assim ser, escrevo, “não é preciso um único efeito especial. É só preciso ter uma mente aberta e o coração de uma criança”. E se em cima disso temos uma aventura interessante e efeitos visuais (para a altura) de luxo, como aqueles que ‘The Patchwork Girl of Oz’ proporciona, então não é preciso mais para sorrir.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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