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On demande une brute

Ano: 1934

Realizador: Charles Barrois

Actores principais: Jacques Tati, Hélène Pépée, Rhum

Duração: 23 min

Crítica: É rara, muito rara, a ocasião de um grande comediante cinematográfico começar pelo topo. Os comediantes clássicos, particularmente, tiveram que limar as suas arestas em inúmeras curtas do cinema mudo ou do início do sonoro da autoria de outros, até que o seu brilhantismo permitiu que ganhassem autonomia e tomassem totalmente conta das suas produções. Chaplin esteve vários meses em 1914 a trabalhar para Mack Sennett e Mabel Norman. Buster Keaton começou como o secundário pau-de-toda-a-obra nas curtas de Fatty Arbuckle. E bem longe de Hollywood, na França dos anos 1930, o génio que se viria a tornar Jacques Tati também fez um conjunto de curtas-metragens para outros realizadores, até que depois da Segunda Guerra Mundial se tornaria o produtor/argumentista/realizador/actor de seis magnificas obras-primas, pelas quais hoje o recordamos, incluindo ‘Les vacances de Monsieur Hulot’ (1953), ‘Mon Uncle’ (1958) ou ‘Playtime’ (1967).

O homem que se tornaria o imortal Monsieur Hulot no cinema nasceu em 1907 com o nome de Jacques Taticheff, de pai de ascendência russo-francesa e mãe de ascendência holandesa-italiana. Recusando-se a seguir o negócio do pai de molduras e restauro, o jovem Jacques educou-se em artes e engenharia na academia militar, mas depois dedicou-se ao desporto, jogando boxe, ténis e, mais seriamente, rugby. Seriam valências atléticas e de mobilidade corporal que o iriam servir na perfeição quando voltou os seus talentos para a pantomina. Aliás, foi nas galas do seu clube de rugby que primeiro demonstrou os seus talentos como comediante, um humor muito enraizado no seu amor pelo desporto. Foi nessa capacidade, com as suas Impressions Sportives, que ganhou popularidade no circuito vaudvilliano francês e começou a construir a sua reputação como exímio comediante. E foi também nessa capacidade que lhe foi dada a oportunidade de se estrear na sétima arte.

A primeira vez que Tati surgiu como actor foi na curta-metragem ‘Oscar, champion de tennis’ em 1932. Infelizmente, é um filme considerado perdido, mas não há dúvidas que seria uma paródia ao ténis. Assim sendo, a primeira vez, cronologicamente, que podemos assistir ao seu trabalho como actor e argumentista é em ‘On demande une brute’ (1934), realizado pelo pouco conhecido Charles Barrois, e onde Tati se vira para outra paixão desportiva; o boxe (que também seria o centro da curta ‘Soigne ton gauche’, 1936).

Com apenas 23 minutos ‘On demande une brute’ (em português ‘Procura-se Brutamontes’) surge como uma obra simpática e engraçada (embora seja importante notar, nunca assim tão engraçada, ou pelo menos não tanto como as suas obras subsequentes), que herda claramente do estilo de comédia americana então em voga. Aliás, notam-se claras influências, por exemplo, das curtas de Laurel & Hardy (veja-se a mulher de Hulot, mandona e dominadora) e claro, as de Chaplin, principalmente no combate de boxe. ‘City Lights’ (1931), que contém a melhor cena cómica de boxe da história do cinema, tinha acabado de ser lançado, mas o próprio Chaplin já havia namorado o assunto nas suas curtas ‘The Knockout’ (1914) e ‘The Champion’ (1915). Tati parece inspirar-se nestes elementos, que certamente conheceria, mas dá-lhes o seu twist peculiar.

A curta tem uma história simples. Na primeira cena assistimos à conversa de dois empresários de cariz duvidoso. O seu lutador, Tatar (Kola Kwariani) é um mastodonte que, após tantos knockouts, nenhum lutador quer enfrentar. Sem saber onde arranjar uma carne-p’ra-canhão para o seu próximo combate, decidem pôr um anúncio de jornal a pedir um jovem atlético, mas sem dizer para quê. Eis que entra em cena Roustabat (Tati), que está a tentar ser actor sem grande sorte (o seu talento não é propriamente o melhor) e que acaba de saber que não irá fazer parte da tournée da companhia. À procura de um emprego para apaziguar a esposa (interpretada por Hélène Pépée) responde ao anúncio e fica com o lugar, pois é o único que não desiste do concurso já que não faz ideia quem é Tatar nem para o que vem. Quando descobre, Roustabat quer desistir mas nem a mulher nem os empresários o deixam, ambos com mais olho no dinheiro que podem ganhar do que na sua saúde. Isto faz com que a curta culmine num épico combate de boxe onde Roustabat terá que mostrar o que vale, com a preciosa ajuda de um amigo…

O aspecto mais fascinante de ‘On demande une brute’ é, sem dúvida alguma, o próprio Tati. Para o cinéfilo versado na sua obra posterior é bastante engraçado vê-lo tão novo e tão esguio, mas mais engraçado ainda é encontrar em Roustabat já algumas características do seu famoso Hulot, desde a forma como se move, à sua expressividade (particularmente face à adversidade) e ao facto de ser um homem de poucas palavras. Aliás, como seria de esperar, é nas cenas menos dependentes de diálogos e mais assentes na gag visual que a curta encontra os seus maiores motivos de interesse e de riso. A excelente cena do jantar, por exemplo, onde Roustabat tenta evitar, discretamente, que a mulher coma por engano o seu peixe de estimação, é absolutamente hilariante. Percebe-se que no início dos anos 1930 era obrigatório criar cinema com som, porque era isso que os espectadores queriam. Mas tal como nas curtas de Laurel & Hardy, e nos próprios filmes de Chaplin, ‘City Lights’ e ‘Modern Times’ (1936), os bons comediantes sempre souberam contornar esta questão. A história pode ser estabelecida com diálogos, mas a comédia surge visualmente, apenas acompanhada pela música. ‘On demande une brute’ segue esse padrão e segue-o bem.

Contudo, paradoxalmente, notamos com alguma tristeza que os melhores momentos da curta antecedem o seu último acto, o combate, e não vice-versa. Divertimo-nos com a cena na companhia de teatro, com a cena ao jantar, com a ânsia de Roustabat antes do combate. Mas depois atingimos o clímax, quando Roustabat entra no ringue, e em vez de superarmos todas essas cenas para acabar em beleza (é precisamente isso que Chaplin faz em ‘City Lights’), paradoxalmente aqui ocorre o inverso. Infelizmente, o clímax afinal é um anticlímax, já que é algo frouxo e pior que a construção que o antecedeu, precisamente porque o próprio combate em si é  muito pouco dinâmico, e com o passar dos minutos torna-se morno e sem grande piada… Para mim, pelo menos, foi uma mini decepção. Sinceramente, esperava mais.

Por isso mesmo, em retrospectiva e considerando esta a estreia de Tati no cinema, não podemos dizer que seja memorável ou uma grande curta de comédia. Contudo, a presença do próprio Tati é um motivo de interesse, não só porque sabemos aquilo que se iria tornar (e portanto é divertido ver as suas origens e como começou a refinar a sua arte), como pela piada intrínseca que tem, mesmo que a curta em si não seja o melhor veículo para esse talento cómico. A curta acaba por se ver bem mas não fica para a posteridade, tem piadas que nos fazem sorrir e dispor bem mais do que nos fazem rir às gargalhadas (isso raramente acontece), e tem personagens que eu só posso apelidar de ‘afrancesadas’ (ou seja, aquelas que associamos ao típico humor clássico francês) que adicionam um pouco de cor local à obra. E isso, supõe-se, já é suficiente para uns relaxados 20 minutos de entretenimento. E a maior vantagem de ‘On demande une brute’ é que, com repetidas visualizações, descobrimos que é.

Eu tentei encontrar ‘On demande une brute’ no Youtube para postar o link no final desta crítica, mas não consegui. Não querendo estar a fazer publicidade, a melhor maneira é mesmo encontrá-lo na mais recente caixa de DVDs que foi lançada em Portugal com o espólio (quase) completo de Tati, que inclui as versões restauradas dos seis filmes que realizou, bem como a maior parte das suas curtas-metragens. Como extra, cada capa de cada filme é da autoria de um diferente ilustrador português. Impecável, e uma excelente adição para qualquer estante, quer para estreantes em Tati, quer para velhos conhecidos que não tinham os seus filmes na sua colecção ou, como era o meu caso, tinham velhas versões. ‘On demande une brute’ é só um tímido começo. A partir daqui a coisa melhora, e bastante.


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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