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Kung Fu Panda 3

Ano: 2016

Realizador: Alessandro Carloni, Jennifer Yuh

Actores principais (voz): Jack Black, Bryan Cranston, Dustin Hoffman

Duração: 95 min

Crítica: ‘The Weight is Over’ declaravam os pósteres de ‘Kung Fu Panda 3’ em finais de 2015. Achei este trocadilho, entre a palavra ‘wait’ (espera) e ‘weight’ (peso) bastante engraçado e, curiosamente, enquadra-se também perfeitamente nesta crítica. Como o leitor mais fiel saberá, a chegada de um novo membro da minha família criou mudanças compreensíveis na minha vida, sendo que idas ao cinema passaram a estar fora do plano social semanal. Por isso mesmo, só agora me finalmente posso dar ao luxo de comentar um filme datado de 2016. Mas a espera terminou e é ‘Kung Fu Panda 3’, o 32º filme da Dreamworks Animation, lançado em Portugal em Março, que terá a honra de ser o primeiro filme deste ano a ser sujeito ao meu olhar crítico. Mas felizmente é uma honra de parte a parte. ‘Kung Fu Panda 3’ cumpre mais que perfeitamente o seu objectivo de entretenimento e consegue ser melhor que ‘Kung Fu Panda 2’ (já criticado por aqui). Quando isso acontece, é sempre bom.

A Dreamworks é, dos estúdios de topo de animação, o mais prolífero, com uma média de dois filmes por ano. Contudo, o seu output é tanto que muitos dos seus filmes são algo descartáveis, passando um pouco despercebidos da crítica e do público (nem eu consigo acompanhar este output, acabando este por ser, de todos os estúdios de animação, aquele que menos filmes recentes vi). Estou a falar de filmes como ‘Turbo’ (2013), ‘Mr. Peabody & Sherman’ (2014) ou ‘Home’ (2015). Já as sequelas das suas obras mais populares são muito mais badaladas e a Dreamworks aposta claramente muito mais nelas. ‘Shrek’ (2001), o seu primeiro filme por animação por computador e o grande marco do estúdio, já teve três sequelas; ‘Madagascar’ (2005) já teve duas; o excelente ‘How to Train Your Dragon’ (2010) já teve uma e ‘Kung Fu Panda’ (2008), outro marco do estúdio e estrondoso sucesso de bilheteira, chega agora à terceira.

Para mim, o primeiro ‘King Fu Panda’ é uma obra surpreendentemente boa, que apanhou de surpresa muitos críticos de animação, incluindo aqui o vosso crítico de serviço. Chamei-lhe “uma explosão de energia e humor, que os animadores conseguiram ilustrar na perfeição”. O visual, com uma estilização exótica oriental, é dos melhores que o estúdio já produziu e, apesar da história ser uma série de lugares comuns sobre ‘o escolhido inadaptado que encontra o seu destino e o seu valor salvando o dia no processo’, está sustida hilariantemente através de cenas divertidas onde brilha a faísca de improvisação do one man show que é o grande, grande, grande Jack Black (acho que não é tão reconhecido na indústria como deveria).

Contudo, já não tive a mesma opinião sobre o segundo filme. É inegável que a chama ainda vibra na sequela e que Jack Black continua hilariante. É inegável que o visual continua muito bom. E é inegável que há, como escrevi “piadas, cor e animação de sobra”. Mas toda a estrutura do filme já não é fresca (e portanto torna-se inevitavelmente menos interessante) e a história é o seu grande calcanhar de Aquiles; previsível, preguiçosa, uma capitalização da popularidade deste universo e de alguns elementos intrínsecos (notavelmente Angelina Jolie), uma repetição de temáticas sem grande inovação, e empurrando potenciais surpresas, principalmente ao nível da história das origens de Po, para o terceiro filme.

Temi muito pela saga após ter visto o segundo filme, e talvez algo presunçosamente antevi o seu fim, isto é, em termos criativos (pois enquanto houver dinheiro a ganhar elas vão continuar a surgir...). Tal como as sequelas de ‘Shrek’, poderia transformar-se apenas em ‘aventuras de sábado de manhã’, ou seja, histórias episódicas que não alteram a concepção das personagens, não condicionam futuras sequelas e são totalmente esquecíveis, três segundos depois de se sair da sala de cinema. Ou tal como as sequelas de ‘Madagascar’, poderia transformar-se apenas num corrido de piadas à custa do estereótipo das personagens que o público já conhece de cor. Esta cumplicidade não é necessariamente má quando vemos estes filmes relaxadamente pelo entretenimento, como é óbvio, mas lentamente, com o passar das sequelas, inevitavelmente perde o charme (o que sente agora o público, por exemplo, por ‘Ice Age 5’?!).

Obviamente, ‘Kung Fu Panda 3’ vai cair na tentação de ter quer um quer outro deste tipo de elementos; é uma sequela de uma sequela, portanto há coisas das quais não pode fugir e está restringida relativamente àquilo que pode inovar. Mas o que é mais surpreendente é que não precisa desses elementos para se suster e facilmente encontra outra força motriz e outras fontes de relativa originalidade. Aliás, esta manobra está tão bem executada que este filme bem que poderá ser a melhor terceira parte de um filme de animação moderno, talvez com excepção de ‘Toy Story 3’ (2010). O filme não se reinventa, é certo (aliás nem o público quereria, já que paga o seu bilhete para regressar ao universo do primeiro filme), mas consegue encontrar uma nova forma de olhar para o mesmo material que é suficientemente interessante e tem tanta, literalmente, animação, que enche facilmente as medidas do espectador, miúdo ou graúdo, que só deseja passar um bom bocado durante 90 minutos. Melhor ainda, ‘Kung Fu Panda 3’ aprende com (quase) todos os erros do passado e é exímio a colmatá-los, ou pelo menos a empurrá-los subtilmente para debaixo do tapete para que só o crítico mais atento os note.

Em ‘Kung Fu Panda 3’, Jennifer Yuh regressa de novo à cadeira de realizadora, desta vez tendo ao seu lado um jovem realizador estreante, Alessando Carloni, um animador dos quadros da Dreamworks a quem é dada a primeira oportunidade para mostrar o que vale. Talvez seja a sua energia de estreia, ou a necessidade de se mostrar, que dá frescura a uma sequela que tão desesperadamente precisava disso para valer por si própria. E, nem de propósito, a primeira coisa que imediatamente se nota neste filme é a energia que tem, enraizada num estonteante visual e na forma como este ajuda a dar ritmo à história. A animação de ‘Kung Fu Panda 3’ é fantástica, continuando com a tradição da saga de excelente definição, cores vivas, fluidez do movimento animado, incríveis detalhes cénicos e diversidade visual. Podemos criticar o uso de algumas técnicas mais ‘televisivas’ ou ‘jogo-de-computador’ como o abuso dos split frames e a tendência para mostrar fantasias e sonhos de forma estilizada como se fosse animação a 2D, mas a verdade também é que isto contribui para adicionar fascínio ao filme, principalmente para o público infantil.

Deste modo, o filme está feito como uma enorme trip visual, uma nova explosão de cor e animação onde tudo surge a incrível velocidade, de forma a que o espectador não tenha sequer tempo de pensar em distrair-se. Praticamente não há momentos de pausa ou reflexão. Essa bagagem emocional é suportada pelos filmes anteriores e, tal como se viu no segundo filme, poderia até funcionar contra se fosse mal feita. Portanto o filme simplesmente a descarta, e esta escolha só falha na forma como o filme gere a surpresa que havia anteriormente prometido sobre as origens de Po. Aliás, isso é a grande decepção desta película, porque o resolve na segunda cena, sem grande alarido, através da união de pai (voz de Bryan Cranston) e filho Panda. “Filho vim para encontrar-te”. E pronto, está encontrado… É um pouco desinspirado…

A base do filme é então outra: o movimento, e um rol infindável de piadas simples e descartáveis que mantêm o espectador, embora nunca a rir às gargalhadas, continuamente a sorrir. Por isso mesmo, Jack Black está mais apagado porque não tem tempo para longas improvisações, apenas para one-liners. Mas é uma escolha argumental que até parece funcionar bem, substituindo picos de comédia por um tom que é monocórdico, sim, e menos ‘de partir o coco a rir’, mas que se mantém estavelmente engraçado de forma até subtil (ou pelo menos mais subtil que os outros dois filmes da saga). E a maior vantagem destas opções é que a própria história (sempre o elemento que mais custa a produzir numa nova sequela) se torna menos importante, porque é apenas o pano de fundo para esta cor, este movimento e estas piadas simples. E portanto não nos importamos muito que o filme simplifique a história ao máximo para que não haja grandes confusões nem lacunas (como no segundo) nem distracções da aventura visual. O filme assume-se como uma aventura simples e directa. Mas, ao contrário de outras sequelas, prova-nos logo a seguir que isso chega perfeitamente.

Portanto, logo na primeira cena o filme revela a sua história, tirando-a assim do caminho. A criticar, é o filme ser algo sôfrego a fazê-lo, tanto que demoramos uns minutos a perceber onde estamos, quando o vilão Kai (voz de J.K. Simmons) surge num estranho meio estilizado a atacar o mestre Oogway (a tartaruga com voz de Randall Duk Kim – ver primeiro filme). Mas se o filme não se explica antes explica-se depois (tudo, desde que o seu ritmo não seja afectado!) e mais cedo ou mais tarde apercebemo-nos que estamos num mundo espiritual, que ambos habitam após as suas respectivas “mortes”. Algures no passado, Kai sente que foi traído (alguns flashbacks estilizados explicarão) e agora anseia vingança. Após 500 anos no mundo espiritual, finalmente dominou as artes negras do Kung Fu para derrotar Oogway e roubar-lhe a sua força interior, o seu chi, e assim ter poder suficiente para regressar ao mundo dos vivos e exercer a sua vingança contra todos os discípulos de Oogway. Estes são, claro, todos os nossos velhos conhecidos, incluindo Po, o mestre Shifu (voz de Dustin Hoffman), e os cinco furiosos; Tigress (Angelina Jolie), Monkey (Jackie Chan), Mantis (Seth Rogen), Viper (Lucy Liu) e Crane (David Cross). 

Tal como no segundo filme, só a Tigresa será minimamente relevante para a história (o factor Jolie?!) já que é a única que, numa fase inicial do filme, não sucumbe aos poderes de Kai. Todos os restantes, por isso mesmo, são pobremente desenvolvidos e ficam convenientemente fora de combate até quase ao final do filme, pouco mais dizendo que duas frases cada um. Reduzir personagens é também um truque recorrente em sequelas, mas realmente, é Po que queremos ver, não é?! E o que anda ele a fazer? Após a desapontante cena de reunião com o seu pai, Po ruma à cidade escondida dos Pandas no topo da montanha para descobrir as suas origens, aprender a ser um Panda e assim encontrar o seu chi, visto que só isso, nos diz o filme, poderá derrotar Kai, que mais cedo ou mais tarde chegará a essa cidade para o combate final…

Há vantagens e desvantagens neste enquadramento. As maiores desvantagens são, primeiro, algumas incongruências do argumento (por exemplo, se a vila dos pandas está escondida nas montanhas e ninguém sabe da sua existência, como é que a Tigresa chega lá sozinha?!). E segundo, a insistência de que Po e só Po consegue salvar o dia porque é “o escolhido”. De novo, tal como nos dois filmes anteriores, Po muito pouco faz para atingir um estado de união com a natureza e a essência do kung fu que o permita adquirir os poderes que mais ninguém consegue. No primeiro filme Po dominava o truque do dedo, no segundo as gotas de água, e neste domina o seu chi, algo que nem o mestre Shifu conseguiu fazer. Po atinge o chi através de um esforço colectivo, da união e do sacrifício dos seus amigos, mas não é bem claro porque é que é ele que recebe essa recompensa e não, por exemplo, a Tigresa, que treina de igual modo (ou até mais) e que tem exactamente os mesmos amigos, que certamente fariam por ela o mesmo que fazem por Po. Ou melhor, é claro. Po é o “escolhido”, e aliás é ele que dá o nome ao filme, por isso tem mesmo que ser ele. Por mais filmes do Panda que se façam, sinceramente nunca irei conseguir ingerir esta pescadinha de rabo na boca, mas hey, é um sinal dos tempos. Agora todos os filmes com adolescentes heróis são assim, inclusive o novo 'Star Wars'.,,

Por outro lado, a vantagem principal é que a cidade dos Pandas é mais uma vez um cenário excelentemente animado e cheio de piada, com personagens frescas, interessantes e caricatas. Para além do mais Po faz-se acompanhar pelo seu pai adoptivo ganso (voz de James Hong) que proporciona dos melhores escapes cómicos do filme. Nesta simples auto-descoberta de Po do seu eu e da sua força interior, lado a lado com os seus dois pais, reside a moral do filme, muito embora seja uma moral algo simplória e sem ramificações. Fiquei sempre à espera, por exemplo, que o pai verdadeiro de Po tivesse um segredo, porque parecia sempre que faltava algo à sua personagem, como se estivesse a esconder qualquer coisa. Mas não tinha. Era mesmo assim, superficial. What you see is what you get. É o lema deste filme, que o segue à risca.

Mesmo assim, tenho de dizer que gostei bastante de ‘Kung Fu Panda 3’. Isto é, visto da perspectiva de uma sequela que apenas pretende ser um produto de entretenimento. Não vai ganhar o festival de Cannes certamente, nem quereríamos. Claro que o filme tem falhas. Não aprofunda um milímetro as personagens, a sua história é fraca e não tem ramificações nenhumas, e é uma aventura que se esquece relativamente depressa. Mas o filme é incrível a tornar todas estas desvantagens em mais valias, simplesmente pela forma como se desenrola. A cor, a música, a montagem, as piadas, as sequências, umas atrás das outras, plenas em movimento e animação, fazem-nos esquecer a falta de uma história forte e vão-nos cativando e embalando em aventura até ao final. E o filme é completamente auto-suficiente. Pode ser só a ‘aventura desta semana’, mas não sente, nem tem, necessidade nenhuma de deixar a porta aberta para uma sequela (embora claro, isso seja implícito) e, durante uma hora e meia, estimulou a nossa imaginação e fez-nos cócegas na barriga. Num filme destes, não é preciso muito mais para satisfazer, e ‘Kung Fu Panda 3’ satisfaz.

‘Kung Fu Panda 3’ não chega aos calcanhares do primeiro filme, mas nenhuma sequela chegará. Contudo, perante a inevitabilidade de sequelas e mais sequelas do Panda (aposto que daqui três ou quatro anos teremos outra), ao menos que sejam todas assim. Os produtores perceberam, e bem, que não deviam ser ambiciosos com a história, nem criar aventuras para as personagens secundárias, nem qualquer outro artifício clássico que torna as sequelas mais pobres. Para isso já existe o enorme leque de curtas-metragens e até a série de TV da  Nickelodeon, que surgiu depois do inusitado sucesso do primeiro filme. Mas no grande ecrã, para a saga sobreviver, tem de se focar naquilo que é importante. E o que é importante é continuar a mostrar o Panda o máximo possível, e envolvê-lo de cor, dinamismo, energia e boa disposição, independentemente do resto (há resto?!). E é isso o que acontece aqui. E é por isso que o filme resulta. What you see is what you get. Mas como estamos a ver e a ter aquilo que queríamos, ficamos todos felizes, de parte a parte. Nas palavras de Poe/Jack Black: Awesome.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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